Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Fim do Capitalismo?

ESTADÃO - OPINIÃO
Denis Lerrer Rosenfield, segunda-Feira, 13 de Outubro de 2008

A crise nos EUA tem suscitado as mais contraditórias manifestações, não apenas no que diz respeito às medidas adotadas, mas também às suas conseqüências propriamente ideológicas, políticas. Formadores de opinião que eram contra as medidas "capitalistas" de Lula passam a defendê-las, criticando o mesmo capitalismo. Em particular, no Brasil, os efeitos ideológicos têm sido importantes, pois os setores de esquerda mais atrasados parecem ter ganho maior vigor nestas últimas semanas. E a crise tende a se prolongar por vários meses.

O presidente Lula não primou pela responsabilidade em suas primeiras manifestações, ao colocar o Brasil como uma ilha de tranqüilidade num oceano de tormentas. As críticas ao presidente Bush e ao capitalismo têm sido acompanhadas do elogio às políticas adotadas no País, como se estas tivessem sido uma opção ao capitalismo. A contradição é flagrante. O País está atravessando a crise mundial graças ao fato de ter adotado uma política capitalista responsável. Deu autonomia operacional ao Banco Central, manteve o câmbio flutuante, conservou o superávit fiscal (mesmo que o tenha feito via aumento dos impostos), teve uma gestão rigorosa da taxa de juros e conservou as metas de inflação. Ou seja, o êxito atual se deve, precisamente, ao abandono de importantes bandeiras socialistas do PT. O êxito se deve à adoção de uma política "neoliberal". Paradoxalmente, isso está servindo ao propósito de uma reanimação de propostas esquerdizantes, quando estas, se praticadas, teriam levado o Brasil a uma crise de dimensões incomensuráveis.

Temos algo do seguinte tipo: capitalistas aqui e acolá, como se uns devessem abandonar sua denominação própria, passando a se chamar socialistas ou outro nome equivalente. A razão que tem sido avançada é a de que se torna necessária uma maior regulação do Estado, como se isso significasse retorno ao socialismo. Pulula nos meios de comunicação a expressão "fim do capitalismo". Ora, regulações e instituições sempre fizeram parte de uma economia de mercado. Na sua ausência, crises foram criadas ou potencializadas. Mesmo historicamente, o mercado só começou a se desenvolver quando instituições - a saber, normas, regras e contratos por todos respeitados - passaram a vigorar. O problema, contudo, é que no Brasil a leitura do papel do Estado e de suas instituições pode ser outra, a de que convém aparelhar ainda mais partidariamente a máquina estatal e aumentar o número de funcionários públicos.

Essa leitura da crise pode ter como desfecho uma ainda maior hipertrofia do Estado brasileiro, com aumento da burocracia, de regulações e, mais preocupante, maior aparelhamento partidário e ideológico das agências reguladoras. O mote pode ser: a crise americana nos ensina que devemos aumentar as regulações. E isso se traduziria pelo seguinte: mais companheiros nas agências reguladoras e nos órgãos do Estado. Pior ainda, aplicação de medidas ditas "socializantes" para contra-restar os efeitos perniciosos do capitalismo. Pragmaticamente, o governo reconhece a obrigação de reduzir os gastos correntes, aumentar as linhas de crédito para as empresas exportadoras e o agronegócio, manter o Banco Central independente, mas, por outro lado, pende igualmente para aumentar os seus gastos, ingerir nas agências reguladoras e relativizar a propriedade privada.

Talvez o conceito mais adequado para caracterizar a atual situação seja o de "destruição criadora", elaborado por Joseph Schumpeter, em seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia. O capitalismo, ciclicamente, produz crises, que geram grandes perdas para alguns setores e ganhos para outros. Alguns estão efetivamente perdendo e outros estão ganhando, por exemplo, comprando ações de empresas desvalorizadas pela queda de suas cotações. O papel dos bancos de investimento será certamente reavaliado no seu modo atual de funcionamento, sobretudo nos EUA. Criam-se novas oportunidades e novas formas de desenvolvimento futuro, por maior que seja o impacto presente. Nada disso, no entanto, significa o fim do capitalismo nem a emergência do socialismo. O capitalismo e o Estado em que este se dá aprendem com suas crises e avançam em novos patamares. Claro que há um espaço, e grande, para que erros sejam cometidos. Isso não significa, porém, que a economia de mercado estaria com seus dias contados.

O que mais se lê nos jornais, no entanto, é que o capitalismo estaria exibindo o seu fracasso. É curioso. A cada crise, Marx dizia a mesma coisa no século 19 e morreu no seu sofá pensando que, infelizmente, não teria tempo para presenciar a crise final. O que Marx pensou corretamente é que as crises fazem parte do desenvolvimento do capitalismo, sendo, por assim dizer, estruturais ao seu processo. Equivocou-se, porém, ao considerar que haveria uma crise terminal, na qual soariam as trombetas do juízo final, com a salvação socialista da humanidade. Nada disso, no entanto, aconteceu e o capitalismo soube se renovar, contrariando todos esses prognósticos.

Não se devem confundir novas regulações necessárias de um mercado financeiro que passou a operar sem regras com a necessidade de anulação do próprio mercado. Ou, ainda, o problema pode ser colocado em termos de necessidade de maior transparência e fiscalização de operações financeiras, para que estas passem a atuar segundo princípios que deveriam reger uma economia de mercado e foram parcialmente abandonados.

Não é demais ressaltar novamente que o fato de o Brasil estar atravessando relativamente bem a tormenta internacional se deve precisamente a ter feito uma gestão capitalista responsável, não seguindo nenhuma aventura. Poder-se-ia mesmo dizer que, nos últimos anos, a gestão dos mercados financeiros no Brasil foi mais responsável do que a americana, por ter seguido melhor os princípios de uma economia capitalista.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia
na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br

Gay esquerdista é suicida, burro, estúpido e ignorante (no mínimo de História)

De novo, por inspiração do blog MOVCC 

O vídeo abaixo mostra o que o calhorda-mor pensa de homossexuais. A Martha "Suplício" insinua que o Kassab poderia ser gay (vejam logo abaixo).

Pensem bem e estudem, gays!!! Vocês têm a liberdade neste país porque ele AINDA guarda um pouco de liberdade mínima. Quando a gangue do LULA assumir o PODER TOTAL, o que vai acontecer com vocês é o mesmo que acontece em qualquer lugar do mundo onde os que mandam nutrem ódio pelos outros diferentes deles. Acordem, leiam o que acontece com gays no COMUNISMO, desejo de 11 entre 10 esquerdopatas deste país. As provas aparecem dia após dia, se vocês acham mesmo que são discriminados, mesmo fazendo as maiores passeatas deste país, mesmo ocupando cargos poderosos, mesmo tendo toda a mídia glorificando vocês, estão prestes a aprender o que é terror!!! 

Releiam este também, aprendam de uma vez por todas: 
Lula falando de si mesmo: "eu tenho uma doença perversa"





da Folha

A campanha de Marta Suplicy (PT) não perdeu tempo na volta à TV, hoje. Precisando reverter até o dia 26 de outubro uma desvantagem de 17 pontos para Gilberto Kassab (DEM), partiu para o ataque nas inserções, questionando até aspectos da vida pessoal do adversário.

Em uma das peças novas, o narrador faz perguntas sobre a trajetória do prefeito: "Você sabe mesmo quem é o Kassab? Sabe de onde ele veio? Qual a história do seu partido? De quem foi secretário e braço direito? De quem esteve sempre ao lado desde que começou na política? Se já teve problemas com a Justiça? Se melhorou de vida depois da política?".

Ficou para o final: "Você sabe se ele é casado? Tem filhos?".


Reprodução de comercial da Marta contra Kassab

A peça de Marta termina chamando o eleitor a "conhecer bem" o candidato antes de decidir o voto.

"Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?", diz o narrador da campanha petista.

Os dois candidatos se enfrentam hoje à noite no primeiro debate do segunto turno, promovido pela Band.

E A POLÍTICA? E A POLÍTICA?

Percival Puggina - Editorial da semana de 12/10 a 18/10
Zero Hora, 12/10/2008


Sobre a alegria dos vitoriosos, a tristeza dos derrotados e a esperança dos que permanecem no segundo-turno, paira o fato de que esta foi a campanha mais apática que já presenciei em Porto Alegre depois da Lei Falcão. Raríssimos automóveis portavam adesivos. As bandeiras partidárias saíram das mãos dos militantes e foram inteiramente confiadas à falta de convicção dos diaristas e aos seus bocejos. Não raro, transitando pelas ruas desta capital outrora tão ativa nos processos eleitorais, senti vontade de formular aos ventos a pergunta que dá título a este artigo. E a Política? E a Política?

Buscando respostas ao que aconteceu sob nossos olhos, fiz sérias constatações. De um lado, a atividade dos candidatos se manteve sujeita a um sufocante conjunto de impedimentos, controles e penalidades que quando não emergiram de leis federais, foram consideradas como vácuo legislativo e acabaram ainda mais restritivos na caneta dos tribunais. Como aceitar que nossos legisladores, políticos eles mesmos sem qualquer exceção, legislem de modo a coibir tanto a atividade político-eleitoral? E como compreender que os tribunais agreguem contribuição própria para transformar os pleitos numa disputa tediosa, insípida e inodora, que em nada contribui para o indispensável esclarecimento dos eleitores, e que faz da campanha um jogo sujeito a regras que acabam com ele?

Proibiu-se praticamente tudo. E o pouco permitido sujeitou-se a regras das quais a razoabilidade foi exonerada. Contou-me um advogado que atua junto à justiça eleitoral que algo tão trivial como a pintura de muros foi limitado ao tamanho máximo de quatro metros quadrados. Quatro, doutor? Quatro! Nem uma polegada mais, mesmo que o muro seja do próprio candidato. Convenhamos. Em meio a tais normas, nada mais natural do que uma avalanche de processos judiciais, transformando a disputa, para muitos, numa corrida de obstáculos contra prazos processuais, e fazendo com que incontáveis candidaturas e mandatos estejam, por indeterminado tempo, provisoriamente grampeados a um alvará ainda mais provisório. Estamos, crescentemente, judicializando a política. E isso é péssimo.

Com a imprensa obrigada a se manter igualmente estéril, sob severas inibições e imposições, num ambiente formal que promove litígios, direitos de resposta e mandados judiciais, as campanhas saíram das mãos dos candidatos e dos partidos e foram entregues aos marqueteiros e aos advogados. Tudo muito profissional. Os primeiros determinam o que fazer e os segundos verificam se a lei permite. E a Política? E a Política? Esqueça, leitor. Doravante, você vai escolher candidato como escolhe óleo vegetal, sentado no sofá da sala, totalmente manipulado pelos conceitos que lhe impõem. Pessoas de vida pública constroem sua imagem ao longo dos anos. Os marqueteiros, no entanto, as refazem totalmente diferentes do original em poucas semanas. Criadores de criaturas virtuais, descartáveis após o consumo eleitoral.

De tempos para cá, por esforço próprio de muitos de seus atores, diga-se de passagem, a política vem se convertendo em atividade minúscula e suspeitíssima. Mas saiba, leitor: quando ela for insignificante, mesmo, acabará a democracia. Em vez de aprimorarmos os sistemas engessamos aquilo que pode elevar a política a um patamar superior, ou seja, a sua prática na sociedade. E os partidos? Bem, esses já atingiram o terceiro estado da matéria. Coerentes com o processo em curso, começam sólidos, se liquefazem na mistura dos conchavos e acabam gasosos, imperceptíveis, indiscerníveis, indescritíveis.

O PT em São Paulo - Tchau Martha "Suplício"...


REINALDO AZEVEDO
Segunda-feira, Outubro 13, 2008

Cavaleiro do Templo: por problemas nos links do blog do Reinaldo, não poderei inserí-los em cada um dos artigos abaixo.


O DEVER DA RESISTÊNCIA

Inserção do PT na TV indaga se o prefeito Gilberto Kassab é casado e tem filhos. A cidade inteira sabe que a resposta é “não” e “não”. Então por que a pergunta? É óbvio que se tenta fazer um questionamento sub-reptício, covarde como sói na turma, sobre a sua sexualidade, que não interessa a ninguém, a não ser a ele próprio. Seria ridículo sustentar isso ou aquilo, asseverar esta ou aquela condição. Corresponderia a fazer o jogo da canalha que tenta transformar preconceitos em escolha política.

E se ele fosse gay? Isso o impediria de ser o grande prefeito que é? O PT chafurda na lama, na propaganda mais odienta, na escolha mais desprezível, na discriminação mais asquerosa. Ao mesmo tempo em que assim procede, tenta criminalizar o DEM, como se o partido não tivesse direito de existir. É o fim da linha. No partido de Celso Daniel, de Santo André, e de Toninho do PT, de Campinas, tudo é permitido, tudo vale, tudo pode. Eis a campanha que está sob o gerenciamento de Gilberto Carvalho, braço direito de Lula — o mesmo Carvalho que era braço direito de... Celso Daniel.

Alguém poderia indagar: “Mas a própria Marta não foi vítima de preconceito por ter-se separado de Eduardo Suplicy e casado com o argentino Felipe Belisário Wermus?” Eu acho que sim. Já escrevi isso aqui. E também observei à época que seus acertos e seus erros nada tinham a ver com a sua opção. Mas há algumas diferenças aí. Quem levou o drama de alcova do trio para a praça pública foi um dos vértices do triângulo: o marido agravado. Ninguém foi escarafunchar a vida de Marta ou perguntar se ela primeiro se divorciou para, então, ficar com seu novo amor. Mais: Belisário Wermus, que prefere ser chamado de Luís Favre, fez questão se tornar uma espécie de assessor especial de marta e de participar do debate público brasileiro. Kassab não ofereceu a sua vida privada ao escrutínio de ninguém.

Muitos dirão que este texto não deixa de ser conseqüência da estratégia vil do petismo. Errado. A questão está dada. Recebi ontem oito telefonemas de amigos — dois deles de esquerda, eleitores (serão ainda?) de Marta — que estão absolutamente enojados. Os leitores começaram a comentar no blog antes mesmo que eu escrevesse qualquer coisa a respeito. A campanha de Marta comete uma dupla canalhice ética.

A primeira, evidentemente, é especular, sem que lhe tenha sido dada licença, sobre a condição sexual de alguém, o que é inaceitável; a segunda é sugerir que, se fosse verdadeira a ilação, seria uma mácula. Não! Kassab, acreditem, não está sendo pessoalmente atingido. Mas todos os gays do país estão. Marta quer lhes cassar a cidadania com uma campanha covarde e homofóbica, que nem mesmo ousa dizer seu nome. Justo ela, que iniciou a sua carreira política fazendo proselitismo entre os homossexuais. Mais uma farsa se revela — ou uma “bravata”, para usar expressão do presidente Lula: os gays serviram para dar visibilidade a Marta Suplicy. Agora, se preciso, ela os manda para a fogueira para conquistar os votos evangélicos. Foram usados e agora são jogados fora. No PT, vale tudo para se eleger. Sempre valeu.

No dia 10 de julho de 2006, o jornal O Globo registrava uma fala emblemática. Indagaram a Marco Aurélio Top Top Garcia, então presidente interino do PT, se não era constrangedor para Lula dividir o palanque com mensaleiros. Sabem o que ele respondeu? “Constrangedor é não ter voto”. É o vale-tudo.

Vão silenciar?
Imaginem se um partido considerado “de direita” pela imprensa fizesse com um petista o que a campanha do PT fez ontem com o dito “conservador” Kassab? Vocês já imaginaram a reação da imprensa e das falanges do politicamente correto? Maria Rita Kehl escreveria, claro, um artigo indignadíssimo, mostrando quão suja pode ser a direita... Mas, desta feita, o silêncio deve gritar a pusilanimidade dessa gente. Porque eles não só tem o monopólio da representação de supostas minorias, como também reivindicam o direito de discriminá-las se isso for útil à sua causa. Aliás, em matéria de preconceito, Marta está se tornando um caso de estudo. Ontem, no debate da Band, só faltou pedir que declarem a ilegalidade do DEM (comento num post abaixo).

Por quê?
Vocês viram que a capa de O País dos Petralhas abre este texto. É que essa gente está devidamente caracterizada no livro. Eis os petralhas. Meus leitores sabem da minha indisposição com o que chamo de “minorias profissionais” — sejam gays, pretos, gordos, míopes, magros, mancos, heteros, belos, sei lá o quê. Só indivíduos me interessam. Na sua particularidade.

E, já escrevi aqui, pouco me importa o que fazem na cama desde que as práticas sejam consensuais e excluam crianças e bichos. Não é problema meu. Meus amigos são testemunhas de que jamais comento minha vida privada, por mais próximos que sejam. Nunca! Para lhes salvar a vida, se preciso, dou um rim. Mas não me peçam segredos de alcova. E também não abro espaço para que me contem suas aventuras. Fazer o quê? Sou assim. Quando Lula exaltou a sua virilidade com a Galega logo na primeira noite, quase vomitei. Sou do tipo que transforma, sempre que possível, palavras em imagens... Calculem, então, o que penso da possibilidade de o estado ou um partido tentarem legislar sobre individualidades. Essa é uma prática muito comum do nosso tempo, a que aderiram as esquerdas, agora que não podem mais fazer revolução: politizam o desejo, os anseios, as frustrações de grupos... Tenho horror a esses bandos de discriminados profissionais, escravos das próprias frustrações. E, claro, diz a canalha: “Reacionário!” Eu???

Não! Reacionária é Marta Suplicy. Ela, sim, sob o pretexto de respeitar minorias — de quem queria o voto —, avança, sem qualquer respeito ou pudor, sobre a vida privada de um ndivíduo que nada lhe deve, tampouco explicações.

E concluo 
Há questões que são estritamente privadas. E outras têm interesse público. Eu não quero saber se Marta namorou Belisário Wermus só depois de se separar de Suplicy. Aliás, eis outro triângulo amoroso que me embrulha o estômago. Suplicy tratou muito do assunto. Marta falou a respeito num livreco que circula por aí. Eles é que são desabridos. Agora, saber qual é a fonte de renda de Belisário pode ser do interesse da coletividade. O homem é uma figura bastante presente na vida pública brasileira, não? Ele vive mesmo do quê? Quando trabalhava para Duda Mendonça, qual era mesmo a sua especialidade?

Entendo por que O País dos Petralhas está em todas as listas dos livros mais vendidos do país. Lê-lo está se transformando numa espécie de sinal de resistência. Uma resistência não-partidária. Uma resistência cidadã. Uma resistência em nome da civilidade.
Por Reinaldo Azevedo | 

Uma questão de lógica

Na sua coluna desta segunda, Fernando de Barros e Silva, daFolha, escreve duas coisas que se tornam interessantes se postas para dialogar:

A primeira: “A vitória do DEM, tendo o PMDB de Quércia como vice e aliados como o PTB, sela a reorganização da direita na cidade após o declínio final do malufismo. "Sob nova direção", e salpicada pela granola alternativa do PPS de Soninha, essa direita recomposta tem em Serra o seu fiador e no PSDB o anzol que fisga parte da opinião progressista.”

A segunda: “A propaganda petista que questiona a vida privada de Kassab é uma apelação abjeta e obscurantista. Entre a eleição e a compostura, seria melhor optar pela segunda.”

Então tá 
1) Seria interessante que ele listasse, para matar a nossa curiosidade, quais foram as ações de “direita” do prefeito Kassab. Fica aqui a sugestão de um leitor.
2) Se “a direita” é Kassab, e a esquerda é Marta, que faz uma “propaganda [com] uma apelação abjeta e obscurantista”, Barros e Silva que faça como aquela moça do Chico Buarque: “encaminhe pro céus uma prece”. Tudo indica que Kassab derrotará a abjeção e o obscurantismo. Dou a Fernando as boas-vindas à direita, digamos, superior e iluminista. Ou será que ainda é cedo?
Por Reinaldo Azevedo | 

O debate da BAND e quem fez o quê

Sim, assisti ao debate de ontem da Band. Mesmo com regras rígidas, um tanto chatinhas, fica mais agradável de ver quando o embate se dá apenas entre dois candidatos. Temos — o jornalismo — de procurar uma maneira que impeça a mentira e o ludíbrio: “Fiz isso e aquilo...” Se não fez, a obrigação do jornalismo é informar o telespectador. Mas como? Não sei — o que não quer dizer que não haja uma resposta.

Quem ganhou? Bem, como sempre, isso fica por conta das pesquisas de opinião. Eu acho que Gilberto Kassab (DEM) teve uma atuação superior à de Marta Suplicy (PT). Parece que sopraram ao ouvido da candidata que a única chance de reverter o quadro é abusando da agressividade. E ela foi fundo. Vai funcionar? Os petistas, aliás, estavam em pé de guerra. O prefeito pediu, e obteve, direito de resposta: a ex-prefeita chamara o adversário de mentiroso ao menos três vezes. É algo injurioso — não uma divergência. A petista também reivindicou o seu tempo, que lhe foi negado. Ela desandou a gritar. Seus partidários também. No intervalo, petistas chegaram a acusar o mediador Boris Casoy de “vendido”. Carlos Zarattini, coordenador da campanha de Marta, afirmou aos berros que havia “falcatrua” no debate. É mais uma face do petismo quando em desvantagem.

Preconceito, pelo visto, tornou-se a tônica da campanha petista. Marta dedicou-se a satanizar o DEM, partido do Kassab, que, segundo ela, está desaparecendo no Brasil inteiro. A legenda está prestes a conquistar a prefeitura da maior cidade do país. Mesmo fora do poder federal há seis anos, conquistou 495 prefeituras, apenas 53 a menos do que o superpoderoso PT. Se ganhar em São Paulo, governará uma população e um orçamento superior à soma das seis capitais onde os petistas venceram. Não só: as vitórias mais expressivas do PT se deram em cidades pequenas do Norte e Nordeste — justamente nos grotões. E o grande eleitor do petismo foi um neocoronel chamado Bolsa Família — perverso como todos os coronéis.

Marta investe no preconceito. Afinal, qual é o problema do DEM?
- O partido foi pego extorquindo bicheiro?
- O partido promoveu o mensalão?
- O partido foi pego com dólares na cueca?
- O partido foi flagrado com uma mala de dinheiro tentando comprar um dossiê falso para fraudar uma eleição?
- O partido usou a Casa Civil para montar um dossiê contra adversários políticos?
- O partido promoveu a quebra ilegal do sigilo de um pobre caseiro?
- O partido mantinha em Brasília uma casa de prazeres & negócios, onde São Jorge costuma ser exibido de ponta-cabeça?
- O partido tem algum figurão cujo filho recebeu R$ 10 milhões de uma empresa concessionária de serviço público, de que o BNDES é sócio?
- O partido recebeu dólares de Cuba?
- O partido recebeu recursos das Farc?
- O partido deu a Petrobras de presente para um índio de araque?
- O partido endossa os regimes de força da Bolívia, da Venezuela e do Equador?
- O partido mudou uma lei só para beneficiar uma empresa gigante da telefonia?

- O partido tentou instaurar a censura no país?

- O partido puxa o saco de tudo quanto é ditadura no mundo?

- O partido deu emprego para a mulher de um narcoterrorista?

- O partido apóia uma organização narcoterrorita enquanto trata a pontapés o país que os terroristas ameaçam?

Convenham! Se o DEM tivesse feito tudo isso, deveria ter sido extinto, e seus dirigentes mereceriam estar atrás das grades.
Por Reinaldo Azevedo | 

Advogado pede detenção de Fidel por morte de argentino

13/10

 EFE  
Um advogado argentino que representa a família de um militar assassinado por um grupo esquerdista em 1974 pediu a detenção dos líderes cubanos Raúl e Fidel Castro, por considerar que os governos de Argentina e Cuba tiveram responsabilidade na atividade guerrilheira dos anos 1960 e 1970.

O jornal argentino La Nación publicou neste domingo o pedido do advogado Javier Vigo, que representa María Cristina Picón, viúva do capitão do exército Humberto Viola. 


Viola e sua filha de cinco anos morreram em 1º de dezembro de 1974 como conseqüência de um atentado ligado ao dissolvido Exército Revolucionário do Povo (ERP). 

O advogado solicitou a um juiz federal da província de Tucumán, no norte do país, que o assassinato do militar e sua filha seja declarado um crime de lesa-humanidade. 

Também pediu que seja acusado o ex-presidente da Argentina Héctor Cámpora (1973) e o ex-governador de Buenos Aires Oscar Bidegain por "terrorismo de Estado ao facilitar ações terroristas". 

A acusação foi estendida ao governo cubano que, segundo ele, treinou "guerrilheiros da Argentina e promoveu a ação da guerrilha na América Latina". 

Por isso, pediu uma ordem de detenção internacional contra o atual presidente cubano e seu antecessor no cargo. 

DINHEIRO

Estado de S.Paulo, 13/10/2008


Herança, tino comercial e ganância deram a Félix Grandet a fortuna que poupa com desvelo. Todos os anos, no aniversário da filha, ele lhe dá uma moeda de ouro. Mais tarde, Eugénie as usa para salvar o primo por quem se apaixonara. Abandonada pelo primo, casa-se com outro pretendente. Enviúva. Fica mais rica do que nunca. E durante o resto de sua vida, repete a existência mesquinha e miserável que aprendera do pai.

Eugénie Grandet, um romance de Balzac, tem como cenário a França napoleônica e investidores espertos. Descreve oportunismo e falta de escrúpulos. Mostra a cupidez como um defeito moral que cega gerações. Idéias e sentimentos têm conseqüências: o pai fixado em dinheiro rouba da filha a personalidade que lhe daria a oportunidade de experimentar a vida. Longe de mim fazer pouco caso de dinheiro. Bernard Shaw me ensinou que a falta dele é a raiz do mal. E Somerset Maugham que ele é o sexto sentido sem o qual não fazemos bom uso dos outros cinco.

Mas Félix e Eugénie Grandet erraram ao esquecer que o lugar do dinheiro é na cabeça e nunca no coração. Em outubro de 2008, vale a pena colocá-lo de volta no seu devido lugar, deixar de lado a ansiedade com as perdas financeiras e ganhar perspectiva sobre o momento que vivemos.

Isso é mais fácil de dizer do que de fazer, porque a tomada de decisões, ao contrário do que afirmam os partidários da racionalidade econômica, é um processo emocional. A prova é que os investidores compram com entusiasmo na alta das bolsas e vendem em pânico durante a baixa.

O mundo é uma festa durante o boom e o dinheiro fácil separa decisões de conseqüências. O líder nacional acredita que pode gastar sem limites. Os bancos julgam que podem inventar derivativos e oferecer opções cambiais às empresas, que não medem o custo de uma virada. Torna-se difícil vender uma estratégia conservadora para acionistas e investidores, pois tomar emprestado a baixas taxas de juros, enquanto residências e outros ativos estão subindo de valor, permite grandes lucros. A instituição financeira, que se recusa a entrar no cordão da alegria, tem dificuldade de convencer seus acionistas de que os lucros mais altos das outras companhias são insustentáveis. Além disso, na incerteza nunca se sabe se uma bolha é mesmo uma bolha e cada um espera pular fora do perigo antes dos outros. Quando o mercado vira, o pânico se espalha. O operador entra em depressão. O crédito seca. A máquina econômica pára.

Crise nunca tem uma única causa. Muitos fatores se combinaram para originar a bolha que antecedeu o desastre de 2008. Capital global abundante e barato encorajou a tomada excessiva de empréstimos. As baixas taxas de juros e o marketing agressivo de hipotecas se combinaram para criar uma bolha imobiliária. Novos instrumentos financeiros criaram a fé na redução dos riscos dos empréstimos e no crescimento da alavancagem ótima dos bancos. Faltou
supervisão adequada (do governo e do corpo de conselheiros dos bancos) sobre as decisões dos gerentes.
 
A bolha estourou. Os bancos de investimento americanos tornaram-se insolventes. O contágio espalhou-se para a Europa, Ásia e Bahia. As decisões das autoridades ainda não foram suficientes para acalmar os mercados. A taxa Libor subiu às alturas, refletindo a relutância dos bancos de emprestarem uns aos outros. No mundo inteiro, ficou impossível conseguir um empréstimo. Enquanto os investidores em desespero procurarem um cofre onde guardar seu
dinheiro, as taxas de retorno dos títulos do Tesouro americano e do governo japonês continuarão negativas.

A crise coincide com um momento político delicado. As eleições nos EUA estão
próximas, mas ainda faltam três meses para que o novo presidente tome posse. Períodos de transição política não ajudam a construir confiança em medidas adotadas por um governo que se despede do poder. Três meses é uma eternidade no mercado financeiro conturbado.


Até duas semanas atrás, era possível argumentar que outras crises bancárias foram ainda mais severas, embora menos transparentes. No final de 1981, se os bancos americanos tivessem os valores em seus balanços declarados com base em valores de mercado (e não com base em valores históricos), teriam sido considerados insolventes todos eles. Hoje, a contabilidade com base no valor de mercado permite o reconhecimento mais rápido das perdas. Até uma semana atrás, as perdas bancárias ainda não justificavam as referências à Grande Depressão. Hoje, a fraqueza das economias avançadas ameaça multiplicar as perdas que se espalham para o resto do mundo.

A pergunta de muitos trilhões de dólares é se os governos podem torná-las menos
dolorosas. O FED parece acreditar que sim. No Brasil, o ministro da Fazenda e o banqueiro central afirmam que a situação está sob controle e repetem a cantilena que celebra a proteção do colchão de reservas e do câmbio flutuante. Mas tudo não passa de teatro. No mundo do contágio global, onde a crise começa no centro do império, ninguém sabe muito bem o que pode ocorrer.

A verdade que valia ontem e continua válida hoje é que quando rico não banqueteia, pobre morre de fome.

Entre meados de 2003 e meados de 2008, o Brasil gozou do impacto benéfico do aumento do preço das exportações e da abundância de crédito. Foi fácil para o BC administrar o período de bonança, em que a redução do risco-país permitia a apreciação cambial e a queda simultânea da taxa de juros. Agora o ciclo se inverteu. Com a queda dos preços das commodities, déficit em conta corrente e restrição de crédito externo contribuindo para o aumento do risco-país, a desvalorização cambial empurra a inflação para cima num mundo dominado por incerteza e pânico. Não se deixe abater. Leia Emily Dickinson: “Sem saber quando virá o amanhecer, eu abro todas as portas”.

A crise nas garras do Leão

MÍDIA SEM MÁSCARA
Autor:  | 13 outubro 2008
Editorias - Governo do PTLivre iniciativa
Em Brasília, tudo vai continuar sendo uma festa. Para a população trabalhadora e o contribuinte ficará a conta, como de costume.

Em Brasília tudo vai continuar sendo uma festa. Para a população trabalhadora e o contribuinte ficará a conta, como de costume.

Tudo indica que vai acabar a boa vida de Dr. Lula da Silva. Não falo, naturalmente, dos jantares palacianos servidos à base de finas entradas de vieiras grelhadas com tomate confit e de ótimas fatias de carne de javali importada, acompanhadas de excelsas taças de Romanée Conti, ao preço de R$ 20 mil a garrafa. Não, de modo algum: como se diz nas rodas vulgares, “quem é rei nunca perde a majestade”. Os rega-bofes oficiais continuarão como de hábito.
 
O que parece chegar ao fim é a bazófia eufórica do “nunca dantes na história deste país…”, a charla marota de um governo que se valia - para anunciar prosperidade ilusória - da expansão do crédito fácil e do jogo financeiro da banca internacional. Claro, a partir da “regulação estratégica” formatada com juros tabelados pela burocracia do Banco Central – daqui e d’além mar.
 
No seu clássico tratado de economia, “Ação Humana” (Instituto Liberal, Rio, 1990), Ludwig von Mises ensina que “a expansão do crédito é o principal instrumento do governo na sua luta contra a economia de mercado”. Apesar da trágica experiência do crack de 1929 (fomentada em primeiro plano pela irresponsabilidade do Federal Reserve), desde o governo Jimmy Carter o banco central dos Estados Unidos vinha fazendo da política de expansão do crédito a chave-mestra para se chegar, pela via expressa do consumismo, ao Paraíso. Resultado: deu-se, como esperado, a eclosão da catastrófica tempestade de merda.
 
Sim, é fato: também por aqui, muito além da “marolinha” vaticinada pelo “guia genial da raça”, o que se anuncia é o chumbo grosso. Quem sabe a estraçalhar, ao mesmo tempo, a expansão do consumo, o preço dos alimentos, o programa de aceleração de crescimento, o sonho do carro sem entrada e com 72 meses de financiamento, a criação de novos empregos e a manutenção dos antigos, o frenesi dos financiamentos imobiliários e o próprio comércio internacional (vantajoso) de commodities.
 
Onde vai desaguar tudo isso?
 
Pelo piar da coruja oficial, nas garras do Leão.
 
Leão, claro, é firula de linguagem - melhor seria dizer abutre, a ave sarcófaga que devora todo tipo de carne, humana ou não. Por que digo isso? Bem, pelo que se informa, a partir de reunião palaciana, os burocratas de Brasília, diante do “ambiente de incerteza provocada pela crise americana”, voltaram as baterias para a aprovação no Senado da famigerada Contribuição Social para a Saúde (CSS) - o que se convencionou rotular nas rodas oficiais, algo debochadamente, como o “imposto do cheque”.
 
De fato, é dose para leão, sobretudo quando estudo recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) dá conta de que o contribuinte brasileiro da classe média vai gastar este ano 75% do que ganha para pagar imposto e adquirir serviços que deveriam ser fornecidos pelo próprio governo, tais como, por exemplo, segurança, saúde e educação.
 
Como se sabe, o contribuinte brasileiro em geral tem de trabalhar, anualmente, até o dia 27 de maio para alimentar a gula fiscal da União (em parceria com estados e municípios). Mas este ano, devido ao aumento galopante dos impostos, o cidadão da classe média, com renda mensal entre 8 e 10 mil reais, precisou trabalhar até o dia 5 de junho para saldar suas dívidas com o fisco. E depois, visto que desgraça pouca é bobagem, ainda terá de suar a camisa até o final de setembro para suprir os débitos da ineficiência dos serviços que deveriam ser prestados nas três esferas do poder.
 
Segundo o presidente do IBPT, Gilberto Luiz do Amaral, restará ao cidadão da classe média, vítima das garras do leão, apenas os três meses restantes do ano - de 1° de outubro a 31 de dezembro – para trabalhar para si mesmo e suprir os gastos com moradia, alimentação, vestuário e, às vezes, porque ninguém é de ferro, algum lazer. Para chegar a tal conclusão, os analistas do IBPT tiveram como base dados fornecidos pela própria Receita e Tesouro Nacional, além de inúmeras instituições privadas, entre elas a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e a Federação Nacional das Escolas Particulares.
 
Mesmo diante da tempestade global, que se prenuncia duradoura, o governo não dá trégua ao contribuinte da classe média. Quer garfá-lo a todo custo. Por conseqüência, a partir de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), as empresas constituídas por profissionais liberais terão de pagar ao leão a parcela de 2,00% destinada ao Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), caso optem pela declaração do “lucro presumido”. O que se afigura como duro golpe no bolso de advogados, médicos, dentistas, arquitetos, contadores, entre tantos outros profissionais liberais que tinham a cobrança da “contribuição” como inconstitucional.
 
Com carga tributária tida e havida como “das maiores do mundo”, o governo, em plena crise, está se apropriando de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, que hoje gira em torno R$ 2 trilhões. Boa parte desse ervanário é torrada com a ampliação da máquina estatal que conta com mais de um milhão de servidores, além da doação de recursos a países “irmãos” da África e América Latina, custeio de viagens e mordomias, programas de aceleração de crescimento marcados pelo desvio de verbas e desperdício, e por aí vai. Sem falar no retorno firme da inflação, uma forma a mais de imposto que, já em agosto, no caso dos produtos alimentícios, atingiu o índice nada lisonjeiro de 12%.
 
O certo seria o governo cortar os gastos públicos vertiginosos que em parte vinham sendo alimentados pelos investidores estrangeiros agora em fuga. Mas, quem disse que Lula toma tenência? Além de anunciar aumentos de salários e novas contratações de servidores públicos, dando seqüência ao aparelhamento do Estado, o vosso presidente, na hora de apertar o cinto, recomenda a gastança desenfreada – pública e privada.
 
Ou seja: vai se ferrar – ferrando a nação.

Apesar da retórica, a Rússia desmorona

ESTADÃO DE HOJE - INTERNACIONAL
Murray Feshbach*, Segunda-Feira, 13 de Outubro de 2008

O urso está de volta. É isso que muitos observadores da Rússia têm dito desde que as tropas do país invadiram a Geórgia, em agosto, anunciando que o homem forte da nação, o primeiro-ministro Vladimir Putin, estava mostrando suas garras e abrindo caminho de volta ao status de superpotência. O ressurgimento da Rússia tem sido abastecido - literalmente - por lucros milagrosos provenientes da exploração do petróleo e do gás, por um imenso salto nos gastos com a defesa nacional e pela atitude desafiadora exibida durante a surra aplicada à Geórgia, o vizinho da Rússia apoiado pelos EUA na fronteira do Cáucaso.

Muitos agora acreditam que o poderoso urso russo da Guerra Fria esteja acordando de sua hibernação. Mais devagar. As previsões afirmando que a Rússia se tornará novamente poderosa, rica e influente ignoram alguns problemas domésticos simplesmente devastadores que impedem qualquer marcha rumo ao topo. É claro que os soldados russos foram capazes de tomar um pequeno país como a Geórgia. Mas o exército de Putin ainda está em frangalhos, equipado com armamento enferrujado e composto por recrutas indiferentes.

Enquanto isso, uma população em declínio está tirando do Exército uma nova geração de soldados e a economia da Rússia continua quase totalmente dependente do preço do petróleo. E, o pior de tudo, o país enfrenta uma crise na saúde pública que beira a catástrofe.

É verdade que a paisagem urbana das cidades russas está repleta de guindastes. Lofts industriais são agora a última moda em Moscou, turistas russos lotam destinos remotos, como Tailândia e Caribe, e os magnatas russos estão comprando imóveis e obras de arte em Londres quase com a mesma rapidez que o fazem os seus equivalentes do petróleo do Golfo Pérsico.

Por trás da superfície reluzente, porém, a sociedade russa se encontra num estágio ainda mais frágil do que na época soviética. As recentes aventuras militares do Kremlin e o seu discurso duro são a fanfarronice do fraco, e não a bravata do forte. Apesar de a Rússia ter se capitalizado de maneira impressionante em cima da sua indústria petrolífera, a volatilidade do mercado mundial de petróleo significa que Putin não pode contar a longo prazo com um fluxo de dinheiro proveniente do alto preço do barril.

PETRÓLEO

Uma queda prevista em cerca de um terço no preço do petróleo certamente restringiria muito a capacidade de Putin de avançar seus programas ambiciosos, tanto no âmbito internacional quanto no nacional. Isso faz do anunciado plano de aumento de quase 26% nos gastos com a defesa nacional em 2009 - para reequipar o Exército com armamento de última geração - uma proposta arriscada.

O que o mundo viu em ação na Geórgia foi um arsenal muito defasado, coisa que levaria anos para substituir, mesmo que a Rússia pudesse arcar com o custo de US$ 200 bilhões envolvido numa tal operação.

Há algo ainda maior impedindo a marcha russa. Nas últimas décadas, principalmente depois do fim da União Soviética, em 1991, observou-se uma drástica deterioração na saúde do povo russo, o que põe a Rússia não na vanguarda dos países desenvolvidos, mas entre as nações mais atrasadas.

Trata-se de uma tragédia de imensas proporções - apesar de não ser surpreendente, ao menos não para mim. Acompanhei durante décadas o estado da população, da saúde e das questões ambientais na União Soviética. Recentemente, relatei o avanço da epidemia de aids e mostrei como essas e outras doenças estão arrasando o povo russo. Visitei a Rússia mais de 50 vezes no decorrer dos anos. Assim, posso dizer com base em minha experiência pessoal que essa calamidade nacional não está acontecendo subitamente. Está acontecendo inexoravelmente.

De acordo com números levantados pela ONU, a expectativa média de vida para um homem russo é de 59 anos, o que coloca o país em 166º lugar entre as nações mais longevas, um pouco acima de Gâmbia.

ATRASO

Para as mulheres o quadro é um pouco mais animador: a expectativa de vida é de 73 anos, quase empatando com a da Moldávia. Mas há ainda cerca de 126 países onde as mulheres poderiam viver mais tempo. E a lacuna entre as expectativas de vida masculina e feminina - 14 anos - é a maior do mundo desenvolvido. Afinal, o que está matando os russos?

A resposta são todas as causas habituais - aids, tuberculose, alcoolismo, câncer, doenças cardiovasculares e respiratórias, suicídios, tabagismo, acidentes de trânsito. Todas elas, porém, ocorrem numa proporção preocupantemente alta e Moscou não dispõe nem dos recursos e nem da determinação para reverter esta maré.

Considere o seguinte. A proporção de russos mortos em decorrência de doenças relacionadas ao coração por grupo de 100 mil habitantes é três vezes maior do que a registrada nos EUA e na Europa.

Além disso, as mortes decorrentes da tuberculose na Rússia equivalem ao triplo do que a Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica como epidemia. O consumo de álcool per capita entre os russos é o dobro do que a OMS considera prejudicial à saúde.

Cerca de 1 milhão de russos foram diagnosticadas como portadoras do HIV. Na Rússia, estima-se que serão registrados 25% mais casos de aids em 2008 do que em 2007. E nenhum aspecto desse quadro deve melhorar tão cedo.

Peter Piot, chefe da Unaids, agência da ONU criada para responder à epidemia, disse durante entrevista coletiva que se sente "muito pessimista em relação ao que está acontecendo na Rússia e na Europa Oriental.

Nos EUA e na Europa Ocidental, 70% dos infectados pelo HIV são homens acima dos 30 anos. Na Rússia, 80% dos infectados têm idade entre 15 e 29 anos. E, apesar de os usuários de drogas injetáveis representarem cerca de 65% dos casos na Rússia, o país rejeitou oficialmente a metadona como forma de tratamento, apesar de isso reduzir o potencial de novas infecções pelo HIV.

Temos também a tuberculose. Lembra-se da tuberculose? Nos EUA, onde a população chega a 303 milhões de indivíduos, 650 pessoas morreram por causa da doença em 2007. Na Rússia, cuja população totaliza 142 milhões, foram impressionantes 24 mil mortes por tuberculose em 2007. Será possível que seja uma coincidência o fato de que apenas 9% dos hospitais russos para tratamento de tuberculose tenham padrão de higiene mínimo para o tratamento de qualquer doença?

Atualmente, 21% dos hospitais na Rússia apresentam falta de água quente ou mesmo fria. Pouco mais de 10% deles não tem um sistema de esgoto e 20% sofrerem com a falta de medicamentos para tuberculose.

Do outro lado do ciclo da vida, as notícias não são muito melhores. A taxa de natalidade russa está em declínio há mais de uma década. Mesmo se houvesse um aumento recente nos nascimentos, ele seria limitado pelo fato de que o número de mulheres entre 20 e 29 anos (as responsáveis por dois terços de todos os bebês) cairá muito nos próximos cinco anos como reflexo da queda de 50% na natalidade ocorrida na década de 1990. Infelizmente, a saúde dos recém-nascidos é também frágil, com 70% deles enfrentando complicações no nascimento.

MORIBUNDO

O urso segue cambaleando, movido por prioridades desastrosamente mal hierarquizadas e pelas expectativas caracterizadas pela falta de realismo e por causa de uma liderança política impulsionada pelo ressentimento. Moscou parece decidida a ignorar a devastadora verdade: o país não está doente, mas moribundo.

*Murray Feshbach escreveu este artigo para o Washington Post

ORTEGA E O CRISTIANISMO

NIVALDO CORDEIRO
11/10/2008

Em 1933, Ortega y Gasset apresentou um curso em doze lições, depois publicado em 1942 sob o título EM TORNO A GALILEO, trazendo o sugestivo subtítulo: “Esquema de las crisis”. Se houve crise no mundo, ela estava a ocorrer naquele ano da graça de 1933. E crise maior viria, pois naquele fatídico ano consumou-se a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. A tragédia varreria a Europa e Ortega não tinha como saber o quanto ele se tornou profeta daqueles tempos. A palavra crise descrevia adequadamente o que se passava diante dos seus olhos, a crise da rebelião das massas.

E Ortega tomou o tema a partir de um aniversario bem significativo. Em 1633 Galileu, diante do Santo Ofício, em Roma, teve, nas palavras mordazes do filósofo, que “abjurar da física”. Aquele julgamento terá sido o último grande e desesperado esforço da Igreja Católica para contornar o incontornável, a ascensão destrutiva da modernidade, vale dizer, do Mal. A retratação de Galileu não fez a roda do tempo voltar atrás, mas serviu como divisor de águas. Desde então fé e razão puseram entre si um abismo, que ainda não foi transposto. Não obstante os esforços de santos homens como João Paulo II e Bento XVI, autores de maravilhosas e esclarecedoras encíclicas sobre o tema. (Sim, a Igreja Católica, como sempre, e tirando esses episódios lamentáveis como o de Galileu, sempre ensinou que fé e razão andam juntas e seus clérigos mais das vezes foram grandes cientistas, como Copérnico e Kepler). Os cientistas seculares de hoje é que se fecharam na sua redoma hermética, impenetrável às coisas sagradas. Senhoritos satisfeitos.

Ortega ponderou, numa nota de rodapé: “Ello me hubiera permitido celebrar con algún decoro ese tricentenario de la deplorable escena que sería un error interpretar simplemente como una lucha entre la fe y la razón, y menos aún entre la Iglesia y el Siglo”.


Em artigo anterior eu mostrei que a obra do Ortega é agnóstica, embora seus grandes insights tenham raiz cristã. Por exemplo, quando ele enfaticamente defende o “direito à continuidade” está, nada mais nada menos, que defendendo o direito à Tradição cristã. Seu erro maior foi, contraditoriamente, desprezar a raiz judaico-cristã do Ocidente, por isso não logrou ir além do diagnóstico da rebelião das massas e da ausência dos egrégios orientando as gentes. Não é possível fazer o chamamento dos homens à responsabilidade e à Tradição sem restaurar as virtudes cristãs e seus princípios. Os egrégios sempre foram os homens de fé e seu sumiço coincidiu com a epidemia do ateísmo.

Ortega era também um filho do Iluminismo e do kantismo. Arguto observador da história e da filosofia, ele precisava explicar para si mesmo as catástrofes que previa e que testemunhava, desde que se tornou escritor, no início da década de 10. Viu o despedaçamento da Espanha e da Europa, do mundo, em desespero atroz, sem nada poder fazer. Viu a emergência das massas estúpidas, que passaram a mandar no mundo, exatamente como neste instante agora mandam no mundo. A humanidade estava sem rumo, como está sem rumo neste momento. As manchetes dos jornais do dia não permitem nenhuma margem a dúvida de que estamos em uma esquina muito perigosa da história, tal e qual há um século.

A crise econômica, que surpreendeu a todos e atordoou toda a gente Urbe et Orbi, é a face mais branda e inicial de suas manifestações, apenas o prolegômeno do que virá, como Ortega bem o viu em 1933. A bem da verdade, a crise econômica nem saiu do ovo de serpente onde foi aninhada. Só mirou seu gélido olhar para a luz do dia. Quando emergir inteira poderemos ter uma catástrofe de proporções desconhecidas na história da humanidade, uma crise como nunca houve, uma crise que até agora só havia existido na mente doentia de Nietzsche.

Por isso ler Ortega é ter um mapa do caminho, um roteiro dos acontecimentos que assomam (e assombram) no horizonte. Dediquei os últimos anos da minha vida a estudar a obra do filósofo, bem como a de Strauss e a de Voegelin, outros profetas do século XX. Fui invadido pelo sentimento de déjà vu, que me angustiou e tirou o sono muitas vezes. Bem se diga que a repetição é apenas aparente: desde os anos trinta a humanidade ficou mais hermética, mais poderosa, mais insensata, mais atéia. Mais arrogante. Temos agora todos os meios para dizimar a civilização, meios que Ortega nem desconfiava à época. Quem tem o gatilho do apocalipse é gente moralmente inferior, que aprendeu da vida o desvalor, que não tem o sentido da existência, que ignora a transcendência.

Importa aqui tentar mostrar como Ortega via o cristianismo, pois daí deriva seu erro capital. O ponto é relativamente simples: o filósofo espanhol via no cristianismo uma mera manifestação cultural, histórica, igual às demais que apareceram. Ortega não conseguiu entender que Cristo era a confirmação dos profetas e que São Paulo e Moisés não eram radicais alucinados enquanto homens porque o quiseram. Gente igual àqueles radicais em política que pululam nos tempos de crise. Não cabe o paralelo. Homens como Moisés e São Paulo radicalizaram porque tiveram a experiência mais radical de todas, de *ver* Deus. Radicalíssima experiência, da qual não se pode sair sem ter de cumprir a missão dada. No fundo insubornável de seu ser esses homens descobriram a verdade e foram pregá-la ao mundo.

Ao equiparar essa experiência com outras, Ortega se enganou. Cabe perguntar: qual é o Deus de Ortega? Em alguns momentos fica claro que é o mesmo Deus de Aristóteles, aquele que cria as circunstâncias. (Veja-se a seguinte passagem: “En todas sus dimensiones, pues, es nuestra existencia un enfronte perenne de dos elementos heterogéneos -el hombre y su antagonista, ese «otro» que no es el hombre y lo rodea, lo envuelve y aprisiona, llámesele circunstancia o mundo o Dios o como se quiera”.) Deus identificado erroneamente como natureza, e não como realidade transcendental, o próprio Bem que se deu a conhecer e se preocupa com a sua criatura.

Ao fazer isso, vemos como Ortega é um apogeu do Iluminismo, pois o homem, em sua obra, se equipara a Deus, age por si e cria a sua própria realidade a despeito do Criador. O agnosticismo aqui se metamorfoseia em gnose: o homem salvando-se a si mesmo. Vai além Ortega, ao dizer que o homem precisa salvar as circunstâncias para salvar-se. Salvar o Criador! É a mais alta manifestação de arrogância espiritual que um filósofo poderia imaginar. E, quando fala do social, dessa segunda natureza que não vem de Deus e nem do homem enquanto tal, Ortega identifica uma terceira dimensão que não tem criador. Se autor há do fato social é o próprio homem. A criatura aqui fica maior que o Criador. Deus nada é no universo de Ortega, exceto a circunstância biofísica. Um perfeito absurdo.

Por isso ele não pôde compreender nem Moisés e nem São Paulo, aqueles radicais que outra coisa não poderiam ser, pois que contemplaram a realidade mais radical, a raiz de todas as coisas.

Então o filósofo persegue uma miragem falsamente explicadora das crises, a sua teoria das gerações. Perde-se em infinitas contas para dar um nexo aos câmbios históricos. E não consegue ver a única constante explicativa, a de que periodicamente a humanidade rebela-se contra Deus, desde o Antigo Testamento. Moisés sobe à montanha e seu povo passa a fazer bezerros de ouro, a adorar Baal, o deus desse mundo, o Estado. Ele, Moisés, que teve a missão específica de libertar seu povo do Egito, outra maneira metafórica de dizer: libertar seu povo do Estado. Canaã é a utopia da sociedade perfeita, sem Estado. A cada geração é preciso um Moisés para libertar novamente o povo de Baal.

A encantadora prosa de Ortega, revelando seu poderoso intelecto, por vezes ofusca a compreensão de suas deficiências filosóficas. E esta aqui, sobre as manifestações de Deus na história, é a mais notável. Por isso Ortega pôde ver a crise em sua inteireza, pôde fazer o diagnóstico correto, mas não pôde dar a receita para a sua superação. Debalde maldisse a ausência dos egrégios. Para fazê-lo teria que ter-se feito cristão. Só beijou a cruz ao morrer. Era tarde demais.

Pirataria

COTURNO NOTURNO

edital da SECOM da Presidência da República, para contratar uma empresa por R$ 11,1 milhões, cujo trabalho será redesenhar os sites da casa, mostra bem a cara do petismo. O texto do "briefing", que explica o "fenômeno"da internet, é copiado de um artigo de uma estudante de graduação, publicado onde mesmo? Na internet. Sem citar a fonte. Sem nenhum "segundo fulano" ou "apud sicrano". 

É ou não é a cara deste governo?

O Brasil está precisando de um Bento Gonçalves da Silva....

PAPÉIS AVULSOS do HEITOR DE PAOLA




CARTA DE BENTO GONÇALVES


Senhor – Em nome do povo da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, depus o Presidente Braga e entreguei o governo ao substituto legal, doutor Marciano Ribeiro. E em nome do Rio Grande eu lhe digo que, nesta Província extrema, afastada dos corrilhos e conveniências da Corte, dos rapapés e salamaleques, não toleramos imposições humilhantes, nem insultos de qualquer espécie. O pampeiro destas paragens tempera sangue rio-grandense de modo diferente de certa gente que por aí há.


Nós, rio-grandenses, preferimos a morte no campo áspero da batalha às humilhações nas salas blandiciosas do Paço do Rio de Janeiro. O Rio Grande é a sentinela do Brasil, que olha vigilante para o Rio da Prata. Merece, pois, mais consideração e respeito. Não pode e nem deve ser oprimido por déspotas da fancaria.. Exigimos que o governo imperial nos dê um Presidente de nossa confiança, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela nossa dignidade, ou nos separaremos do centro e, com a espada na mão, saberemos morrer com honra ou viver com liberdade.


É preciso que V. Exa. saiba, Senhor Regente, que é obra difícil, senão impossível, escravizar o Rio Grande, impondo-lhe governadores despóticos e tiranos. Em nome do Rio Grande, como brasileiro, eu lhe digo, reflita bem antes de responder, porque de sua resposta depende talvez o sossego do Brasil. Dela resultará a satisfação dos justos desejos de um punhado de brasileiros que defendeu contra a voracidade espanhola uma nesga fecunda da Pátria e dela poderá também resultar uma luta sangrenta, a ruína da Província ou a formação de um Estado dentro do Brasil.


Bento Gonçalves da Silva


21 de setembro de 1835



Esta carta foi escrita quando Bento Gonçalves encontrava-se preso no Rio de Janeiro, por ocasião da Batalha de Fanfa, durante a Revolução Farroupilha.

Este documento mostra que os FARRAPOS não lutavam por um separatismo, mas sim pelo reconhecimento de um povo digno e trabalhador, calcados nos sublimes ideais, LIBERDADE, IGUALDADE E HUMANIDADE.

Uma nova agenda militar

BRASIL ACIMA DE TUDO
12 de outubro de 2008

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O desafio de reaparelhar as Forças Armadas para proteger nossas riquezas – como o petróleo do pré-sal – de vizinhos cada vez mais problemáticos

 

Por Roberto Lopes e Maria Helena Passos (*)
 
Segunda semana de fevereiro de 2008. O italiano Pietro Borgo, tipo baixo, pálido, cabelos grisalhos, de aparência não muito simpática, entra no gabinete do comandante da Marinha, almirante Júlio Moura Neto, em Brasília. A Iveco Defense, empresa que o executivo dirige em Bolzano, norte da Itália, acabara de ganhar, em consórcio com parceiros brasileiros, um atraente contrato do Exército para fornecer os protótipos da nova família de veículos blindados leves. Sobre rodas, eles substituirão os já cansados e obsoletos Cascavéis e Urutus, fabricados em São Paulo três décadas atrás.

O Exército requer 1.970 desses veículos, e Borgo tinha a informação de que os fuzileiros navais também precisariam de, ao menos, algumas dezenas deles. Basta saber que os Urutus que os fuzileiros levaram para patrulhar as ruas de Porto Príncipe, na missão de paz patrocinada pela ONU no Haiti, exibiram tamanhas deficiências que a Marinha teve de importar, em 2007, uma dúzia de carros suíços para levar seu trabalho a bom termo.

No catálogo multicolorido exibido por Borgo a Moura Neto, saltitavam os últimos modelos de blindados anfíbios, que, levados de barco até perto da praia, navegam lépidos em meio à arrebentação das ondas. Eles já equipam tropas de fuzileiros de diferentes Marinhas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e, volta e meia, aparecem no Iraque e no Afeganistão.

Moura Neto olha curioso, mas sem interesse objetivo. Num inglês direto, diz:

– Poderemos comprar os mesmos carros que os senhores vão fabricar para o Exército.

Os olhos claros do visitante piscam rápidos, num gesto automático para se refazer da surpresa. Então não é de blindados aptos ao desembarque nas praias que a infantaria da Marinha do Brasil precisa? Como se adivinhasse a confusão instalada na cabeça do italiano, o almirante brasileiro afirma:

– Queremos esses carros para cruzar rios.

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NOVO DESAFIO
Soldados patrulham trecho da Floresta Amazônica próximo da fronteira com a Colômbia. A ação visa inibir movimentos de guerrilha no local

Dessa forma, o comandante da Marinha do Brasil sintetizou há oito meses a realidade estratégica que hoje orienta a defesa do país: os fuzileiros, infantaria de elite dessa força armada em qualquer país, cuja missão é lutar nas praias oceânicas durante o desembarque, terão de se deslocar, de forma protegida, a bordo de viaturas blindadas, no emaranhado de rios da Amazônia. Essa região brasileira, que por séculos viveu ao abrigo de quaisquer intervenções – locais ou estrangeiras –, é o atual centro dos acontecimentos.

Esta edição de ÉPOCA Debate trata dos desafios que essa mudança de prioridades impõe às Forças Armadas brasileiras. Espera-se, para as próximas semanas, o anúncio de um novo Plano Estratégico da Defesa Nacional, cujas linhas gerais são reveladas em primeira mão nesta edição pelo ministro Roberto Mangabeira Unger. Ao longo destas páginas, analisamos ainda a nova conjuntura a que os militares têm de responder, quão defasada está nossa estrutura em relação às necessidades e o tamanho do desafio de vigiar uma Amazônia tão vasta e despovoada. Também mostramos, num quadro histórico, como as Forças Armadas atuaram na vida dos brasileiros – com ações que vão da Proclamação da República à instauração da ditadura, do pioneiro esforço de proteção aos indígenas pelo marechal Cândido Rondon à ocupação do Rio de Janeiro para garantir a segurança das últimas eleições municipais.

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O Brasil é um dos três únicos países do planeta que fazem fronteira com dez ou mais vizinhos terrestres – os outros dois são a Rússia, com 14, e a China, com dez. Por isso, precisa ter tato diplomático para lidar com países com todo tipo de orientação político-ideológica. O arco de 15.700 quilômetros que vai da Tríplice Fronteira, na foz do Rio Iguaçu, em pleno Sudeste, até o Oiapoque, limite setentrional com a Guiana Francesa, reúne, pela primeira vez, governos irrequietos e até instáveis, cujas atitudes não podem ser para sempre tratadas com bonomia e condescendência.

Se a Amazônia subiu ao topo das prioridades para as Três Armas, a proteção a riquezas emergentes no Atlântico tende a mudar radicalmente o perfil modorrento que a Defesa assumiu em décadas recentes. Daí a preocupação do almirante Moura Neto, também, com a vigilância das águas, cuja exploração econômica é reconhecida como de direito do Brasil. São 4,4 milhões de quilômetros quadrados, ou metade do território brasileiro. "Amazônia Azul", eis como seus colegas de farda a chamam.

Nela, figuram as jazidas submarinas que, entre os litorais do Espírito Santo e de São Paulo, prometem transformar o Brasil em exportador de petróleo. E, também, as rotas dos que atacam as tripulações de barcos mercantes, dos contrabandistas de armas e dos traficantes de tóxicos, sob vigilância dramaticamente precária. Por falta de recursos, o controle por radar do tráfego marítimo na área da bacia fluminense de Campos inexiste. Para monitorar a extensa costa do Amapá, onde é desovado o contrabando oriundo das Guianas, a Marinha dispõe apenas de um navio-patrulha de 200 toneladas. Seu canhão atira, no máximo, a 12 quilômetros.

Em 2007, cinco meses antes do diálogo entre o executivo italiano Pietro Borgo e o almirante Moura Neto, o general Enzo Peri, comandante do Exército, disse a congressistas em Brasília que, antes de pensar em instalar mais quartéis na Amazônia, é preciso "dar condições de operacionalidade às instalações que existem na fronteira". Elas somam 71 e convivem com um terror: a inclemência do tempo, quentíssimo e de alto índice de umidade. Não faltam canhões, balas ou rádios de campanha, mas, sim, ar-condicionado ou geladeiras para que soldados nas fronteiras com a Venezuela, Colômbia e Bolívia possam guardar alimentos. E para que o comando da Aeronáutica abrigue suas modernas aeronaves, como os caça-bombardeiros AMX, verdadeiros computadores voadores.

Para uma sociedade que, há três gerações, vive ao abrigo de conflitos armados internacionais, essa conversa soa enigmática. No Brasil, há dois militares profissionais na ativa por mil habitantes. Nos Estados Unidos e na Colômbia, ambos metidos em conflitos quentes, essa proporção é cinco vezes maior. O solo brasileiro não é invadido desde 1865, quando pelo Rio Grande do Sul começou a Guerra do Paraguai, o maior conflito sul-americano da História, em que 10 milhões de brasileiros alocaram 200 mil soldados. Quando o governo fala em reativar a indústria de defesa e comprar equipamentos modernos, disposto a aplicar no setor 1% adicional do Produto Interno Bruto (PIB), é como se houvesse um pacto de solidariedade nacional para proteger a Amazônia ou as recém-descobertas jazidas submarinas de petróleo.

Por quase todo o século XX, o esforço com a defesa se justificou pela rivalidade temerosa com o maior poder econômico da Argentina. Hoje, o desafio está em outro lugar, em querelas localizadas. Algumas nada têm a ver com o Brasil – caso da insatisfação regional nas províncias limítrofes da Bolívia ou da guerrilha histórica que ocupa partes da selva colombiana e cujos protagonistas usam a porosidade da fronteira como retaguarda para abastecimento e descanso. A intuição reza que a inércia diante desse barulho pode ser inaceitável.

A difícil questão é respondida, no novo Plano Estratégico, com argumentos que defendem o interesse nacional. E superam o conflito ideológico dominante no século XX, que vigiava em nome do discutível "perigo comunista". O Brasil chegou a conquistar, em nome dessa pendenga global, boa dose de autonomia em defesa, com programas de origem militar, como a pesquisa nuclear e espacial, a indústria aeronáutica, a de construção naval, e a aplicação militar da eletrônica e da informática que consumiram farto investimento. Mas tudo ruiu em 1982, quando o Brasil quebrou por causa de suas finanças externas. Denso e magro, um livreto escrito nos anos 1950 pelo então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, cérebro mais bem preparado da então nascente Escola Superior de Guerra, era o manual estratégico de defesa de que dispunha o país. Sob o título de Planejamento Estratégico, o Brasil emergia como potência média, de influência regional, protegida de confrontos "pelo guarda-chuva nuclear" dos Estados Unidos. 
Para sair dessa condição subalterna, os militares articularam um projeto de autonomia tecnológica. Seus rebentos são a Embraer ou o sistema de propulsão do submarino nuclear, desenvolvido no Centro Tecnológico da Marinha, em São Paulo. A estabilidade da moeda, conquistada a partir de 1994, e a construção do mercado interno auto-sustentável trouxeram questões de longo prazo. O petróleo do pré-sal renderá dinheiro a partir de 2017. Até lá, o sistema de proteção terá de funcionar. Para coabitar com essa potência brasileira futura, alguns vizinhos falam cada vez mais grosso. Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, já testam a paciência do Brasil para melhorar sua imagem no jogo político interno. No manejo dessa provocação, ninguém é mais hábil que Hugo Chávez, presidente desde 1999 da Venezuela, vizinho com que o Brasil tem sua maior fronteira terrestre.

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PAZ APARENTE
O presidente Lula entre Hugo Chávez, da Venezuela; Evo Morales, da Bolívia; e Rafael Correa, do Equador. A inércia diante de tanto barulho pode ser inaceitável

Antigo oficial pára-quedista, Chávez gere US$ 60 bilhões recolhidos a cada ano com a venda do petróleo. Ele decidiu substituir seu equipamento americano, hoje carente de peças originais de reposição. Congressistas americanos afirmam que a Venezuela gastou, entre 2003 e 2007, ao menos US$ 4,4 bilhões em equipamento militar russo. Estima-se, entre os gabinetes militares do governo Bush, que o objeto do desejo de Caracas ao negociar com russos é um escudo antimísseis. Não existe – como jamais existiu – nenhum traço concreto de animosidade venezuelana. Mas a tarefa de proteger o espaço nacional começa pela manutenção do equilíbrio regional. A um sistema com esse grau de modernidade, tudo o que o Exército do Brasil tem para contrapor são alguns foguetes SS-60, para atingir alvos terrestres a uma distância máxima de 70 quilômetros, entregues aos quartéis, nos anos 90, pela empresa paulista Avibras.

Daí a fórmula dos blindados com vocação para operar nos rios que os fuzileiros pretendem comprar – desde que a fabricação e o conhecimento dos sistemas de combate estejam em mãos brasileiras. Daí também o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter participado na Helibras, em Itajubá, sul de Minas Gerais, em junho, do lançamento do programa de fabricação dos helicópteros Cougar, que só deverão voar com até 30 soldados equipados a distâncias de até 500 quilômetros pela Amazônia Ocidental em 2010.

A ansiedade dos oficiais da Marinha é grande e transparente. A proteção de reservas exploradas a mais de 350 quilômetros das praias do Sudeste como Tupi, a primeira grande jazida confirmada na Bacia de Santos, requer capacidade para voar até os limites da costa da África, para navegar submerso por um trimestre, para dissuadir eventuais atacantes que venham do Leste e para vigiar o Atlântico Sul inteiro, de modo a obter uma ponte na coordenação da defesa. São meios de alta tecnologia, cujos segredos de concepção e fabricação devem ser dominados por uma sociedade que almeja manter sua independência e requerem investimentos gigantescos e continuados. A decisão de enfrentar o problema é o primeiro passo em busca da solução. O desafio é enorme – como se vê pela reportagem seguinte, que descreve as carências e a defasagem do aparato bélico brasileiro.

domingo, 12 de outubro de 2008

Lições da Guerra Fria

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 10 de dezembro 2007


O livro de M. Stanton Evans sobre a “era McCarthy”, Blacklisted by History , que mencionei aqui dias atrás, suscitou um comentário enfezado do escritor Ronald Radosh no último número da National Review , a tradicional revista dos conservadores americanos. Ele próprio autor de pesquisas importantes sobre aquele período, Radosh reclama, com razão, que Evans deixou de citá-las embora aparentemente se baseasse nelas em alguns pontos da sua narrativa. Resmunga também que Evans enalteceu demais a figura de McCarthy, em detrimento de outros combatentes anticomunistas da época, aos quais o controvertido senador, com suas tiradas espalhafatosas e suas ações não raro precipitadas, mais atrapalhou do que ajudou. Dito isso, que aliás é certo, Radosh acaba concordando meio a contragosto com a tese geral do livro, de que McCarthy denunciou um perigo real – a influência secreta de agentes soviéticos em decisões estratégicas do governo americano – e de que a administração Truman, no empenho histérico de limpar a própria imagem e sujar a de McCarthy, montou uma gigantesca engenharia de desinformação popular que no fim das contas beneficiou os inimigos dos EUA e consagrou como verdade de evangelho, transmitida até hoje nas escolas, na TV e nos filmes, uma versão radicalmente falseada da história do país.

Intelectualmente, essa versão já estava desmoralizada desde a abertura dos arquivos do Partido Comunista soviético e da decifração dos códigos Venona (comunicações secretas entre o Kremlin e a embaixada soviética em Washington), e pode-se considerar sepultada com a publicação do livro de Evans. O surgimento mesmo de debates sobre este ou aquele ponto em particular – especialmente sobre o papel de Joe McCarthy nas investigações – é por si o sintoma de que entre os estudiosos sérios um novo consenso geral já vem tomando o lugar dos velhos mitos esquerdistas que mostravam os acontecimentos da época como um assalto geral “fascista” à reputação de pessoas honradas e inocentes. Mas ainda falta muito para que esse novo consenso se espalhe pelas instituições de ensino e penetre na cultura popular.

Enquanto isso, é preciso notar que as incertezas e hesitações remanescentes na elite intelectual americana quanto a fatos decorridos há meio século contrasta de maneira tragicômica com a clareza antecipada com que os soviéticos planejaram e desencadearam esses fatos.

Na América, como se vê pelo caso Radosh-Evans, ainda se discute muito a pessoa de Joe McCarthy, como se ela, e não a existência de tantos políticos e intelectuais americanos dispostos a colaborar com uma ditadura inimiga e genocida, fosse o centro da questão. Esse desvio de foco foi ele mesmo planejado pela tropa-de-choque de Harry Truman, mas ele imita tão bem as campanhas comunistas de desinformação caluniosa, que se torna difícil acreditar que nele não colaborassem em nada os próprios agentes soviéticos então sob investigação. A experiência soviética nesse gênero de coisas vinha de longa data, ao passo que os EUA só criaram seu primeiro serviço de inteligência, o OSS, Office of Strategic Services (núcleo da futura CIA) em 1942, cinco meses depois do ataque japonês a Pearl Harbor – e esse serviço, como se descobriu depois, já nasceu infestado de agentes soviéticos.

Um argumento que sempre reaparece quando se fala de McCarthy é que ele não distinguia direito entre espiões soviéticos, militantes comunistas, simpatizantes, “companheiros de viagem” e meros idiotas úteis. Para ele, todos esses gatos pardos eram, por igual, agentes de Moscou. Radosh volta a insistir nesse ponto, bem como na tese, intimamente associada, de que o senador do Wisconsin exagerou barbaramente ao dizer que os comunistas “dirigiam” a política americana no Extremo Oriente.

A intensidade passional que ainda permeia essa discussão nos EUA chega a ser patética, quando se considera que a confusão entre os vários tipos de colaboracionistas tinha sido planejada de antemão por Stálin em pessoa e constituiu, no fim das contas, um elemento essencial para o sucesso das “medidas ativas” soviéticas na política americana. O ditador soviético não acreditava em revolução comunista na América, por isso determinou, como já contei aqui, que o Partido Comunista americano se concentrasse na arregimentação de companheiros de viagem e idiotas úteis na elite política, intelectual e financeira, para que pudessem ser usados como fornecedores de apoio financeiro, como legitimadores morais “insuspeitos” em circunstâncias específicas e, last not least , como instrumentos auxiliares, conscientes ou inconscientes, na espionagem e nas “medidas ativas” (desinformação, influência secreta nas decisões políticas, etc.).

Se há alguma coisa de que os comunistas jamais fizeram questão, é de sujar suas próprias mãos quando podem, com mais vantagem, agir por mãos alheias. A estratégia soviética sempre visou a resultados de ampla envergadura e de longo prazo, variando infinitamente a escolha dos meios e não hesitando em usar até mesmo, com grande habilidade, os canais mais inusitados e contraditórios. Contribuía para isso o fato de que os serviços secretos soviéticos desfrutavam de plena liberdade de ação, não tendo satisfações a prestar a nenhum parlamento, opinião pública ou órgão de mídia. Somados ao modo dialético de pensar e ao completo amoralismo que a elite comunista sempre se permite nas relações com o “inimigo de classe”, esses fatores davam à ação soviética uma flexibilidade e uma informalidade que, para o observador não-comunista, eram desnorteantes.

Um sinal característico desse fenômeno era a confusão premeditada entre os vários tipos e níveis de colaboradores. Do mesmo modo que nas campanhas de propaganda aberta a palavra de um companheiro de viagem, de um simpatizante ou de um idiota útil podia ser muito mais efetiva que a de um militante de carteirinha, na espionagem ou no campo das “medidas ativas” essas criaturas aparentemente inocentes também prestavam às vezes serviços muito mais decisivos que os dos agentes pagos da KGB ou do GRU (serviço secreto militar soviético). Isso esteve nos cálculos de Stálin desde o começo. Ora, os americanos, quando examinam aquela fase da sua história, fazem-no com a esperança, ou ilusão, de poder discernir a exata quota de responsabilidade política e jurídica de cada personagem. Isso é importante sobretudo porque, grosso modo , as facções em disputa naquela época ainda são as mesmas que competem pelo poder político nos EUA de hoje: republicanos e democratas, ou “conservadores” e “progressistas”. Se um condenação retroativa da administração Truman pode refletir-se negativamente sobre Clinton ou Obama, a continuidade do ódio a McCarthy é sempre um peso nas costas dos republicanos. Também é normal que, num país onde a ordem jurídica e os direitos individuais são os supremos valores, o escrutínio meticuloso da culpa e da inocência, no sentido formal e jurídico do termo, seja uma prioridade quase obsessiva.

Mas justamente aí é que tudo se torna ainda mais confuso, dada a duplicidade de quadros de referência que entram na avaliação dos fatos. Do ponto de vista formal, ou “americano”, Owen Lattimore, a bête noire a cuja destruição Joe McCarthy dedicou em vão o melhor dos seus esforços, não pode ser considerado de maneira alguma um agente soviético, apenas um “companheiro de viagem” que colaborou, como consultor acadêmico respeitado, para manter o governo americano desinformado o bastante ao ponto de boicotar seu aliado Chiang Kai-Chek e entregar a China ao comunista Mao Dzedong, lançando as sementes da futura (e mais que previsível) guerra da Coréia. Mas, inversa e complementarmente, do ponto de vista soviético, para o qual o indivíduo e seus direitos não contam em absolutamente nada e tudo o que interessa é a utilidade de cada um na máquina revolucionária, Lattimore foi um agente quase tão valioso quanto Kim Philby ou Richard Sorge.

Do mesmo modo, Radosh insiste em exonerar, e Evans (ecoando McCarthy) em condenar o general Marshall, o homem que, baseado em falsas informações vindas, em última análise, da desinformação soviética, foi o principal responsável pelo desastre da política americana na China. Ambos têm razão, conforme se decida contar a história desde o ponto de vista da teoria democrática, com toda a sua escrupulosidade moral na avaliação das culpas individuais, ou desde o ponto de vista de uma estratégia de poder da qual um dos elementos básicos é justamente a dissolução da culpa e da inocência numa pasta dialética onde a vitória é tudo. Vistos do primeiro ângulo, Lattimore e Marshal foram muito menos culpados do que pensava Joe McCarthy. Na segunda perspectiva, foram peças essenciais da máquina estratégica soviética. Essa mesma distinção pode ajudar a esclarecer a questão de saber se os agentes soviéticos “dirigiam” ou “não dirigiam” a política do Departamento de Estado. Na visão americana, só poderiam dirigir o que quer que fosse se tivessem a autoridade político-administrativa para tanto, e é claro que não tinham. Do ponto de vista soviético, inspirado na dialética de Hegel e Marx onde a realidade de uma coisa não corresponde à sua definição nominal, mas àquilo em que ela acaba se tornando no curso efetivo dos tempos ( Wesen ist was gewesen ist , “a essência é aquilo em que o ente se torna”), é claro que a influência sutil da desinformação vinda de homens como Lattimore, John Stewart Service, Philip Jessup, Alger Hiss e similares não só dirigiu o curso das coisas na política exterior americana, mas o dirigiu magistralmente, produzindo com exatidão os resultados históricos que tencionava produzir. Já o general Marshal, se foi um idiota útil, não foi um idiota vulgar e sim um portador daquela espécie dolosa de idiotice tão claramente definida por Eric Voegelin como “estupidez criminosa”: a autoridade que ignora aquilo que tem a obrigação de saber.

Se McCarthy muitas vezes errou por tomar como agentes soviéticos meros instrumentos passivos da estratégia comunista, o outro lado errou muito mais, seja por ingenuidade ou malícia, ao tornar invisível a unidade dessa estratégia sob uma multidão de distinções jurídico-morais que não tinham a menor relevância prática para a vitória na Guerra Fria, mas contribuíam bastante para a derrota.

O que se revela na divergência entre Radosh e Evans é, no fim das contas, o abismo entre dois estilos de interpretar a história que parecem ser incompatíveis entre si, mas cuja articulação dialética, e só ela, permite compreender o que se passou. Não deixa de haver aí uma preciosa lição para as cabecinhas iluminadas dos formadores de opinião brasileiros, que se recusam a enxergar a unidade de ação histórica do Foro de São Paulo pelo simples fato de que não há como enquadrá-lo nas categorias jurídico-administrativas do poder oficial.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".