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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ORTEGA E O CRISTIANISMO

NIVALDO CORDEIRO
11/10/2008

Em 1933, Ortega y Gasset apresentou um curso em doze lições, depois publicado em 1942 sob o título EM TORNO A GALILEO, trazendo o sugestivo subtítulo: “Esquema de las crisis”. Se houve crise no mundo, ela estava a ocorrer naquele ano da graça de 1933. E crise maior viria, pois naquele fatídico ano consumou-se a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. A tragédia varreria a Europa e Ortega não tinha como saber o quanto ele se tornou profeta daqueles tempos. A palavra crise descrevia adequadamente o que se passava diante dos seus olhos, a crise da rebelião das massas.

E Ortega tomou o tema a partir de um aniversario bem significativo. Em 1633 Galileu, diante do Santo Ofício, em Roma, teve, nas palavras mordazes do filósofo, que “abjurar da física”. Aquele julgamento terá sido o último grande e desesperado esforço da Igreja Católica para contornar o incontornável, a ascensão destrutiva da modernidade, vale dizer, do Mal. A retratação de Galileu não fez a roda do tempo voltar atrás, mas serviu como divisor de águas. Desde então fé e razão puseram entre si um abismo, que ainda não foi transposto. Não obstante os esforços de santos homens como João Paulo II e Bento XVI, autores de maravilhosas e esclarecedoras encíclicas sobre o tema. (Sim, a Igreja Católica, como sempre, e tirando esses episódios lamentáveis como o de Galileu, sempre ensinou que fé e razão andam juntas e seus clérigos mais das vezes foram grandes cientistas, como Copérnico e Kepler). Os cientistas seculares de hoje é que se fecharam na sua redoma hermética, impenetrável às coisas sagradas. Senhoritos satisfeitos.

Ortega ponderou, numa nota de rodapé: “Ello me hubiera permitido celebrar con algún decoro ese tricentenario de la deplorable escena que sería un error interpretar simplemente como una lucha entre la fe y la razón, y menos aún entre la Iglesia y el Siglo”.


Em artigo anterior eu mostrei que a obra do Ortega é agnóstica, embora seus grandes insights tenham raiz cristã. Por exemplo, quando ele enfaticamente defende o “direito à continuidade” está, nada mais nada menos, que defendendo o direito à Tradição cristã. Seu erro maior foi, contraditoriamente, desprezar a raiz judaico-cristã do Ocidente, por isso não logrou ir além do diagnóstico da rebelião das massas e da ausência dos egrégios orientando as gentes. Não é possível fazer o chamamento dos homens à responsabilidade e à Tradição sem restaurar as virtudes cristãs e seus princípios. Os egrégios sempre foram os homens de fé e seu sumiço coincidiu com a epidemia do ateísmo.

Ortega era também um filho do Iluminismo e do kantismo. Arguto observador da história e da filosofia, ele precisava explicar para si mesmo as catástrofes que previa e que testemunhava, desde que se tornou escritor, no início da década de 10. Viu o despedaçamento da Espanha e da Europa, do mundo, em desespero atroz, sem nada poder fazer. Viu a emergência das massas estúpidas, que passaram a mandar no mundo, exatamente como neste instante agora mandam no mundo. A humanidade estava sem rumo, como está sem rumo neste momento. As manchetes dos jornais do dia não permitem nenhuma margem a dúvida de que estamos em uma esquina muito perigosa da história, tal e qual há um século.

A crise econômica, que surpreendeu a todos e atordoou toda a gente Urbe et Orbi, é a face mais branda e inicial de suas manifestações, apenas o prolegômeno do que virá, como Ortega bem o viu em 1933. A bem da verdade, a crise econômica nem saiu do ovo de serpente onde foi aninhada. Só mirou seu gélido olhar para a luz do dia. Quando emergir inteira poderemos ter uma catástrofe de proporções desconhecidas na história da humanidade, uma crise como nunca houve, uma crise que até agora só havia existido na mente doentia de Nietzsche.

Por isso ler Ortega é ter um mapa do caminho, um roteiro dos acontecimentos que assomam (e assombram) no horizonte. Dediquei os últimos anos da minha vida a estudar a obra do filósofo, bem como a de Strauss e a de Voegelin, outros profetas do século XX. Fui invadido pelo sentimento de déjà vu, que me angustiou e tirou o sono muitas vezes. Bem se diga que a repetição é apenas aparente: desde os anos trinta a humanidade ficou mais hermética, mais poderosa, mais insensata, mais atéia. Mais arrogante. Temos agora todos os meios para dizimar a civilização, meios que Ortega nem desconfiava à época. Quem tem o gatilho do apocalipse é gente moralmente inferior, que aprendeu da vida o desvalor, que não tem o sentido da existência, que ignora a transcendência.

Importa aqui tentar mostrar como Ortega via o cristianismo, pois daí deriva seu erro capital. O ponto é relativamente simples: o filósofo espanhol via no cristianismo uma mera manifestação cultural, histórica, igual às demais que apareceram. Ortega não conseguiu entender que Cristo era a confirmação dos profetas e que São Paulo e Moisés não eram radicais alucinados enquanto homens porque o quiseram. Gente igual àqueles radicais em política que pululam nos tempos de crise. Não cabe o paralelo. Homens como Moisés e São Paulo radicalizaram porque tiveram a experiência mais radical de todas, de *ver* Deus. Radicalíssima experiência, da qual não se pode sair sem ter de cumprir a missão dada. No fundo insubornável de seu ser esses homens descobriram a verdade e foram pregá-la ao mundo.

Ao equiparar essa experiência com outras, Ortega se enganou. Cabe perguntar: qual é o Deus de Ortega? Em alguns momentos fica claro que é o mesmo Deus de Aristóteles, aquele que cria as circunstâncias. (Veja-se a seguinte passagem: “En todas sus dimensiones, pues, es nuestra existencia un enfronte perenne de dos elementos heterogéneos -el hombre y su antagonista, ese «otro» que no es el hombre y lo rodea, lo envuelve y aprisiona, llámesele circunstancia o mundo o Dios o como se quiera”.) Deus identificado erroneamente como natureza, e não como realidade transcendental, o próprio Bem que se deu a conhecer e se preocupa com a sua criatura.

Ao fazer isso, vemos como Ortega é um apogeu do Iluminismo, pois o homem, em sua obra, se equipara a Deus, age por si e cria a sua própria realidade a despeito do Criador. O agnosticismo aqui se metamorfoseia em gnose: o homem salvando-se a si mesmo. Vai além Ortega, ao dizer que o homem precisa salvar as circunstâncias para salvar-se. Salvar o Criador! É a mais alta manifestação de arrogância espiritual que um filósofo poderia imaginar. E, quando fala do social, dessa segunda natureza que não vem de Deus e nem do homem enquanto tal, Ortega identifica uma terceira dimensão que não tem criador. Se autor há do fato social é o próprio homem. A criatura aqui fica maior que o Criador. Deus nada é no universo de Ortega, exceto a circunstância biofísica. Um perfeito absurdo.

Por isso ele não pôde compreender nem Moisés e nem São Paulo, aqueles radicais que outra coisa não poderiam ser, pois que contemplaram a realidade mais radical, a raiz de todas as coisas.

Então o filósofo persegue uma miragem falsamente explicadora das crises, a sua teoria das gerações. Perde-se em infinitas contas para dar um nexo aos câmbios históricos. E não consegue ver a única constante explicativa, a de que periodicamente a humanidade rebela-se contra Deus, desde o Antigo Testamento. Moisés sobe à montanha e seu povo passa a fazer bezerros de ouro, a adorar Baal, o deus desse mundo, o Estado. Ele, Moisés, que teve a missão específica de libertar seu povo do Egito, outra maneira metafórica de dizer: libertar seu povo do Estado. Canaã é a utopia da sociedade perfeita, sem Estado. A cada geração é preciso um Moisés para libertar novamente o povo de Baal.

A encantadora prosa de Ortega, revelando seu poderoso intelecto, por vezes ofusca a compreensão de suas deficiências filosóficas. E esta aqui, sobre as manifestações de Deus na história, é a mais notável. Por isso Ortega pôde ver a crise em sua inteireza, pôde fazer o diagnóstico correto, mas não pôde dar a receita para a sua superação. Debalde maldisse a ausência dos egrégios. Para fazê-lo teria que ter-se feito cristão. Só beijou a cruz ao morrer. Era tarde demais.

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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".