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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Os falsos representantes da ciência

 

LUCIANO AYAN

 

Já não era sem tempo. Como pôde ter demorado tanto tempo para eu escrever este texto? Especialmente pelo fato de ter me defrontado de primeira em minhas investigações nas redes sociais (logo em 2004), e isso ter sido um dos principais motivadores para o surgimento do meu paradigma de ceticismo político, não ter trazido esta rotina aqui pode até ser chamado de pecado. Espero ser absolvido agora.

Mas o que é ser um “representante da ciência”? Muitas vezes você já viu pessoas serem reconhecidas em público como “divulgadoras da ciência”, e que, por estarem “divulgando a ciência”, estão criando um mundo melhor e “mais científico”, seja lá o que isso queira dizer. (E que fique claro, estou tratando aqui de picaretas que “afirmam a representação da ciência” de forma política, sendo que nada tenho contra cientistas sérios e honestos)

Na verdade, não existe significado algum em afirmar que pela própria divulgação científica, o mundo vai ficar “mais científico”. Na verdade, vai continuar da mesma maneira antes, com suas superstições e delírios, sempre que necessário para os supersticiosos e delirantes. A maioria destes “divulgadores da ciência”, por exemplo, alimenta a superstição de que o homem é um animal “perfectível” (segundo Rousseau), e por isso fazem todo o seu empreendimento. A superstição humanista, inclusive, pode ser qualificada como pior que as superstições medievais, já que as superstições medievais geralmente careciam de evidências, enquanto que a superstição humanista possui evidências em contrário.

Ademais, essa própria “divulgação científica” não vai aumentar a produção científica, e nem aumentar a demanda por tecnologias resultantes do processo científico. Em resumo, a “divulgação científica” não gera resultados tangíveis. Mesmo assim, muitos ideólogos se apegaram a este truque, particularmente por que ele sempre funcionou.

Basicamente, a ideia é dizer que se “representa a ciência”. Isso é feito quando se embute no próprio discurso afirmações como “a ciência nos diz”, “eu, como representante da ciência, afirmo…”, “como cientista, isso me torna diferenciado” e coisas do tipo, que possuem uma função psicológica muito simples.

Para entender qual é a função psicológica gerada por este truque, tente imaginar a primeira percepção que alguém mais simplório terá ao ouvir que o outro é “representante da ciência”. A palavra “ciência” irá gerar âncoras como a lembrança de cirurgias, novos medicamentos e o iPhone. Qualquer âncora relacionada ao uso repetitivo do termo “ciência” vai resgatar uma sensação positiva, associada a imagens recobradas também positivas. Isso explica o único motivo pelo qual alguém gasta tanto tempo tentando convencer o próximo de ser um “representante da ciência”. Ao fazer isso, o executor desta rotina tentará fazer aflorar essas sensações no ouvinte, e, assim, ganhar as mentes da platéia automaticamente. Após a mente da platéia estar conquistada, ele aproveitará para propagar qualquer tipo de ideia (não importa o quão absurda seja) que ele queira. Normalmente, após o uso do truque, aparece a implementação de uma tradicional agenda política, fazendo com que o truque de simular ser um “representante da ciência” não passe de um veículo para se alcançar o sistema límbico profundo da platéia.

Para mostrar o quanto a idéia de “representante da ciência” não tem sentido algum além do truque psicológico, basta entender que a ciência é simples demais. Não faz sentido algum endeusá-la. Claro que tem tudo a ver com uma área de conhecimento, mas não precisa de “representantes” ou “defensores”. Por exemplo, existem defensores da Administração? Ou da Ciência da Computação? Ou da Engenharia? Claro que existem congressos, simpósios e eventos nos quais os profissionais de cada uma dessas áreas interagem para trocar conhecimento. Mas isso não significa uma “divulgação” da profissão para aqueles que não a praticam. Isso de fato nem é preciso, pois o mercado sempre demandará os serviços destes profissionais. Ou seja, as profissões existem pois há demandas pelos serviços desses profissionais, e não por que uma área é “divulgada” ao público comum.

Mesmo que toda a população resolvesse ignorar os discursos dos “representantes da ciência”, mas continuasse indo ao seu médico (que poderia lhe recomendar algum remédio) ou indo ao shopping center para adquirir qualquer nova tecnologia, ou seja, usufruindo dos resultados obtidos a partir da pesquisa científica, a ciência continuaria exatamente a mesma que era antes da “divulgação científica”  – que não é o mesmo que a divulgação de um novo medicamento, de uma nova cirurgia, de uma nova técnica ou de uma nova tecnologia; já que a “divulgação científica” de gente como Carl Sagan é a divulgação da ciência como um todo. É por isso que não preciso me maravilhar com o programa Cosmos para obter benefícios resultantes da pesquisa astronômica. Os benefícios existem independentemente de nossa “adoração” por um perfil profissional, ou reconhecimento de que algumas pessoas são “representantes da ciência”.

É muito claro que todo esse movimento é artificial e desnecessário – a não ser em termos políticos, obviamente. Ressalto ainda que é plenamente normal a existência de revistas populares que falam de ciência, assim como existem revistas de Administração, de Ciência da Computação e de Direito. O que é muito diferente de passar o tempo todo passando uma imagem de “divulgador de ciência” para tentar vender uma área profissional para um público que não entende absolutamente nada do assunto. (Aliás, cá entre nós, a maioria dos “divulgadores de ciência” também não entende)

Basta investigarmos um pouco que encontraremos indícios de picaretagem em todo o discurso de gente como Richard Dawkins, John Hartung e Lawrence Krauss. Carl Sagan foi com certeza um dos que abriram o caminho para o show de encenação que veio a seguir.

Como curiosidade: quando comecei a investigar pessoas que usavam o rótulo “cético” de maneira indevida (mesmo que apresentarem credulidades absurdas), estava na verdade investigando pessoas que se diziam “representantes da ciência”. Nunca podemos deixar de lembrar que o humanismo, ao considerar a espécie humana como uma espécie “à parte das outras, portanto sendo perfectível”, está ignorando os ensinamentos básicos do darwinismo, que nos coloca em uma escala similar aos outros animais dos quesitos básicos que qualificam uma espécie. Isso deixa claro que os tais “representantes da ciência” não estão e nunca estiveram interessados de fato em ciência, mas sim na obtenção do benefício psicológico que o ato de aparecer em público afirmando-se como o seu representante pode prover. Estudo científico de fato? Evidentemente não estão muito interessados nisso.

Afirmar que se está “representando a ciência”, dentro do paradigma do ceticismo político, não passa de uma alegação, e como tal deve ser submetida ao escrutínio cético.

Para estudarmos de onde surgiu o truque, basta ver o que a História tem a nos dizer, e lembrar da propaganda central do Iluminismo. Quero deixar algo claro, para que não restem dúvidas, assim como não dar margem a nenhum problema de interpretação de texto por parte de meus adversários. A propaganda cientificista do Iluminismo sempre foi uma grande picaretagem, uma safadeza intelectual sem limites e não passava de um truque de manipulação linguística. Por sua vez, o uso deste truque ajudou a pavimentar a queda dos monarcas, que estavam aliados aos Papas. Picaretagem por picaretagem, os monarcas também não eram flores a serem cheiradas. Em resumo, era um jogo de mentirosos contra mentirosos, e no final das contas pelo menos os mentirosos que tinham poder totalitário foram derrubados. Portanto, quando eu digo que o discurso de propaganda cientificista foi útil em uma época, eu não estou dizendo que o discurso cientifica é bom per se, ou que seja correto em termos de honestidade intelectual.

Na origem desta artimanha cientificista, havia o interesse político de transmitir uma imagem pública do oponente como alguém “das trevas e da superstição”, enquanto que o próprio lado era pintado como se fosse “da luz e da sabedoria”. Esse recurso foi utilizado pelos Iluministas e se tornou um dos recursos centrais do discurso de muitos esquerdistas (especialmente de perfil humanista) até o momento. Quando Carl Sagan dizia “representar a ciência”, estava na verdade executando um truque que havia funcionado de forma esplêndida no passado. Simplesmente, a derrubada da monarquia tem tudo a ver com o êxito de marketing de uma ideia que não tinha qualquer valor de verdade, mas um potente efeito psicológico.

Sempre que vir um neo ateu ou humanista pregando, mesmo quando está falando que faz isso “em nome da ciência”, você não está vendo uma argumentação científica, e nem um envolvimento sério de alguém com ciência, mas apenas a execução de um truque, de forma repetitiva, para a obtenção de um efeito psicológico.

Foi assim que quase caí da cadeira ao ver um dos momentos mais ridículos da propaganda neo ateísta no YouTube, quando um garoto de uns 16 anos, mas com voz de uns 12, dizia algo do tipo: “Ser cientista é se apegar as evidências, e ser um ateu é se ater as evidências; Logo, ser ateu é ser cientista”. (O vídeo foi publicado aqui e, que pena, foi removido, pois era garantia de boas risadas)

Pelo falo dessas pessoas mais denegrirem a ciência do que ajudá-la, mesmo enquanto afirmem que estão fazendo sua divulgação, temos um motivo especial para desmascará-los e ridicularizá-los.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".