Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.

domingo, 12 de outubro de 2008

Lições da Guerra Fria

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 10 de dezembro 2007


O livro de M. Stanton Evans sobre a “era McCarthy”, Blacklisted by History , que mencionei aqui dias atrás, suscitou um comentário enfezado do escritor Ronald Radosh no último número da National Review , a tradicional revista dos conservadores americanos. Ele próprio autor de pesquisas importantes sobre aquele período, Radosh reclama, com razão, que Evans deixou de citá-las embora aparentemente se baseasse nelas em alguns pontos da sua narrativa. Resmunga também que Evans enalteceu demais a figura de McCarthy, em detrimento de outros combatentes anticomunistas da época, aos quais o controvertido senador, com suas tiradas espalhafatosas e suas ações não raro precipitadas, mais atrapalhou do que ajudou. Dito isso, que aliás é certo, Radosh acaba concordando meio a contragosto com a tese geral do livro, de que McCarthy denunciou um perigo real – a influência secreta de agentes soviéticos em decisões estratégicas do governo americano – e de que a administração Truman, no empenho histérico de limpar a própria imagem e sujar a de McCarthy, montou uma gigantesca engenharia de desinformação popular que no fim das contas beneficiou os inimigos dos EUA e consagrou como verdade de evangelho, transmitida até hoje nas escolas, na TV e nos filmes, uma versão radicalmente falseada da história do país.

Intelectualmente, essa versão já estava desmoralizada desde a abertura dos arquivos do Partido Comunista soviético e da decifração dos códigos Venona (comunicações secretas entre o Kremlin e a embaixada soviética em Washington), e pode-se considerar sepultada com a publicação do livro de Evans. O surgimento mesmo de debates sobre este ou aquele ponto em particular – especialmente sobre o papel de Joe McCarthy nas investigações – é por si o sintoma de que entre os estudiosos sérios um novo consenso geral já vem tomando o lugar dos velhos mitos esquerdistas que mostravam os acontecimentos da época como um assalto geral “fascista” à reputação de pessoas honradas e inocentes. Mas ainda falta muito para que esse novo consenso se espalhe pelas instituições de ensino e penetre na cultura popular.

Enquanto isso, é preciso notar que as incertezas e hesitações remanescentes na elite intelectual americana quanto a fatos decorridos há meio século contrasta de maneira tragicômica com a clareza antecipada com que os soviéticos planejaram e desencadearam esses fatos.

Na América, como se vê pelo caso Radosh-Evans, ainda se discute muito a pessoa de Joe McCarthy, como se ela, e não a existência de tantos políticos e intelectuais americanos dispostos a colaborar com uma ditadura inimiga e genocida, fosse o centro da questão. Esse desvio de foco foi ele mesmo planejado pela tropa-de-choque de Harry Truman, mas ele imita tão bem as campanhas comunistas de desinformação caluniosa, que se torna difícil acreditar que nele não colaborassem em nada os próprios agentes soviéticos então sob investigação. A experiência soviética nesse gênero de coisas vinha de longa data, ao passo que os EUA só criaram seu primeiro serviço de inteligência, o OSS, Office of Strategic Services (núcleo da futura CIA) em 1942, cinco meses depois do ataque japonês a Pearl Harbor – e esse serviço, como se descobriu depois, já nasceu infestado de agentes soviéticos.

Um argumento que sempre reaparece quando se fala de McCarthy é que ele não distinguia direito entre espiões soviéticos, militantes comunistas, simpatizantes, “companheiros de viagem” e meros idiotas úteis. Para ele, todos esses gatos pardos eram, por igual, agentes de Moscou. Radosh volta a insistir nesse ponto, bem como na tese, intimamente associada, de que o senador do Wisconsin exagerou barbaramente ao dizer que os comunistas “dirigiam” a política americana no Extremo Oriente.

A intensidade passional que ainda permeia essa discussão nos EUA chega a ser patética, quando se considera que a confusão entre os vários tipos de colaboracionistas tinha sido planejada de antemão por Stálin em pessoa e constituiu, no fim das contas, um elemento essencial para o sucesso das “medidas ativas” soviéticas na política americana. O ditador soviético não acreditava em revolução comunista na América, por isso determinou, como já contei aqui, que o Partido Comunista americano se concentrasse na arregimentação de companheiros de viagem e idiotas úteis na elite política, intelectual e financeira, para que pudessem ser usados como fornecedores de apoio financeiro, como legitimadores morais “insuspeitos” em circunstâncias específicas e, last not least , como instrumentos auxiliares, conscientes ou inconscientes, na espionagem e nas “medidas ativas” (desinformação, influência secreta nas decisões políticas, etc.).

Se há alguma coisa de que os comunistas jamais fizeram questão, é de sujar suas próprias mãos quando podem, com mais vantagem, agir por mãos alheias. A estratégia soviética sempre visou a resultados de ampla envergadura e de longo prazo, variando infinitamente a escolha dos meios e não hesitando em usar até mesmo, com grande habilidade, os canais mais inusitados e contraditórios. Contribuía para isso o fato de que os serviços secretos soviéticos desfrutavam de plena liberdade de ação, não tendo satisfações a prestar a nenhum parlamento, opinião pública ou órgão de mídia. Somados ao modo dialético de pensar e ao completo amoralismo que a elite comunista sempre se permite nas relações com o “inimigo de classe”, esses fatores davam à ação soviética uma flexibilidade e uma informalidade que, para o observador não-comunista, eram desnorteantes.

Um sinal característico desse fenômeno era a confusão premeditada entre os vários tipos e níveis de colaboradores. Do mesmo modo que nas campanhas de propaganda aberta a palavra de um companheiro de viagem, de um simpatizante ou de um idiota útil podia ser muito mais efetiva que a de um militante de carteirinha, na espionagem ou no campo das “medidas ativas” essas criaturas aparentemente inocentes também prestavam às vezes serviços muito mais decisivos que os dos agentes pagos da KGB ou do GRU (serviço secreto militar soviético). Isso esteve nos cálculos de Stálin desde o começo. Ora, os americanos, quando examinam aquela fase da sua história, fazem-no com a esperança, ou ilusão, de poder discernir a exata quota de responsabilidade política e jurídica de cada personagem. Isso é importante sobretudo porque, grosso modo , as facções em disputa naquela época ainda são as mesmas que competem pelo poder político nos EUA de hoje: republicanos e democratas, ou “conservadores” e “progressistas”. Se um condenação retroativa da administração Truman pode refletir-se negativamente sobre Clinton ou Obama, a continuidade do ódio a McCarthy é sempre um peso nas costas dos republicanos. Também é normal que, num país onde a ordem jurídica e os direitos individuais são os supremos valores, o escrutínio meticuloso da culpa e da inocência, no sentido formal e jurídico do termo, seja uma prioridade quase obsessiva.

Mas justamente aí é que tudo se torna ainda mais confuso, dada a duplicidade de quadros de referência que entram na avaliação dos fatos. Do ponto de vista formal, ou “americano”, Owen Lattimore, a bête noire a cuja destruição Joe McCarthy dedicou em vão o melhor dos seus esforços, não pode ser considerado de maneira alguma um agente soviético, apenas um “companheiro de viagem” que colaborou, como consultor acadêmico respeitado, para manter o governo americano desinformado o bastante ao ponto de boicotar seu aliado Chiang Kai-Chek e entregar a China ao comunista Mao Dzedong, lançando as sementes da futura (e mais que previsível) guerra da Coréia. Mas, inversa e complementarmente, do ponto de vista soviético, para o qual o indivíduo e seus direitos não contam em absolutamente nada e tudo o que interessa é a utilidade de cada um na máquina revolucionária, Lattimore foi um agente quase tão valioso quanto Kim Philby ou Richard Sorge.

Do mesmo modo, Radosh insiste em exonerar, e Evans (ecoando McCarthy) em condenar o general Marshall, o homem que, baseado em falsas informações vindas, em última análise, da desinformação soviética, foi o principal responsável pelo desastre da política americana na China. Ambos têm razão, conforme se decida contar a história desde o ponto de vista da teoria democrática, com toda a sua escrupulosidade moral na avaliação das culpas individuais, ou desde o ponto de vista de uma estratégia de poder da qual um dos elementos básicos é justamente a dissolução da culpa e da inocência numa pasta dialética onde a vitória é tudo. Vistos do primeiro ângulo, Lattimore e Marshal foram muito menos culpados do que pensava Joe McCarthy. Na segunda perspectiva, foram peças essenciais da máquina estratégica soviética. Essa mesma distinção pode ajudar a esclarecer a questão de saber se os agentes soviéticos “dirigiam” ou “não dirigiam” a política do Departamento de Estado. Na visão americana, só poderiam dirigir o que quer que fosse se tivessem a autoridade político-administrativa para tanto, e é claro que não tinham. Do ponto de vista soviético, inspirado na dialética de Hegel e Marx onde a realidade de uma coisa não corresponde à sua definição nominal, mas àquilo em que ela acaba se tornando no curso efetivo dos tempos ( Wesen ist was gewesen ist , “a essência é aquilo em que o ente se torna”), é claro que a influência sutil da desinformação vinda de homens como Lattimore, John Stewart Service, Philip Jessup, Alger Hiss e similares não só dirigiu o curso das coisas na política exterior americana, mas o dirigiu magistralmente, produzindo com exatidão os resultados históricos que tencionava produzir. Já o general Marshal, se foi um idiota útil, não foi um idiota vulgar e sim um portador daquela espécie dolosa de idiotice tão claramente definida por Eric Voegelin como “estupidez criminosa”: a autoridade que ignora aquilo que tem a obrigação de saber.

Se McCarthy muitas vezes errou por tomar como agentes soviéticos meros instrumentos passivos da estratégia comunista, o outro lado errou muito mais, seja por ingenuidade ou malícia, ao tornar invisível a unidade dessa estratégia sob uma multidão de distinções jurídico-morais que não tinham a menor relevância prática para a vitória na Guerra Fria, mas contribuíam bastante para a derrota.

O que se revela na divergência entre Radosh e Evans é, no fim das contas, o abismo entre dois estilos de interpretar a história que parecem ser incompatíveis entre si, mas cuja articulação dialética, e só ela, permite compreender o que se passou. Não deixa de haver aí uma preciosa lição para as cabecinhas iluminadas dos formadores de opinião brasileiros, que se recusam a enxergar a unidade de ação histórica do Foro de São Paulo pelo simples fato de que não há como enquadrá-lo nas categorias jurídico-administrativas do poder oficial.

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Bolívia manda prender jornalista brasileiro

AGÊNCIA AMAZÔNIA DE NOTÍCIAS

sábado, 11 de outubro de 2008

Jornalista Alexandre Lima, dono do jornal eletrônico O Alto Acre, teve prisão expedida por autoridades bolivianas.

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Jornalista Alexandre Lima, diretor de O Alto Acre: caçado pelo Exército boliviano /DIVULGAÇÃO
CHICO ARAÚJO
chicoaraujo@agenciaamazonia.com.br

 

BRASÍLIA — A instabilidade política que impera no Departamento (estado) de Pando, na Bolívia, região fronteiriça com o Acre, começa a ter reflexos do lado brasileiro.  Depois de prender o governador de Pando, Leopoldo Fernández, sob a acusação de genocídio, o Exército da Bolívia — que administra a cidade desde o dia 17 de setembro — agora também iniciou uma caçada a jornalistas brasileiros. Pando está sob estado de sítio desde o dia 12 de setembro.

Desta vez, o alvo do Exército boliviano é o jornalista Alexandre Lima, dono do jornal eletrônico  O Alto Acre. Lima mora na cidade de Brasiléia (AC), localizada na fronteira com a cidade de Pando, e separada da Bolívia pelo Rio Acre.   Desde o início desta semana, o jornalista começou a ser caçado por agentes da polícia militar do Exército do vizinho país.

“Após a decretação do estado de sitio, comecei a me precaver”, conta Lima, que já comunicou o fato ao Exército brasileiro, à Polícia Federal e à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Lima ficou sabendo que estava sendo procurado na manhã deste sábado, 11, ao telefonar para um colega jornalista em Cobija.  Lima procurava saber se, de fato, o presidente Bolívia, Evo Morales, faria uma visita à Província de Porto Rico (distante 80 km de Brasiléia) para inaugurar uma escola.

Ordem de prisão expedida

Durante o telefonema, Alexandre Lima manifestou ao colega boliviano o interesse de cobrir a visita de Morales e cruzar a fronteira, indo até a cidade de Pando. O colega, então, o aconselhou a não cruzar a fronteira.  Devido à ameaça, Lima diz estar temeroso pela sua segurança pessoal e da sua família. O jornalista é pai de dois filhos e tem negócios na fronteira com a Bolívia. As autoridades bolivianas silenciaram após o caso vir a público.

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Landelino Rafael Bandeira Arze (C), contra-almirante da Bolívia, é o interventor de Pando /DIVULGAÇÃO

O jornalista boliviano contou a Alexandre Lima ter informações precisas de que as autoridades bolivianas haviam emitido um mandado de prisão contra ele. Ainda avisou que, se fosse preso, Lima seria levado para La Paz, onde seria julgado conforme as leis bolivianas, a exemplo do que ocorreu com o governador deposto Leopoldo Fernández.


Assustado com a notícia, Alexandre Lima quis saber os motivos da decretação de sua prisão pelo governo boliviano.  O motivo seria, confirme o colega, um contrato de publicidade que Lima tentou firmar com o governo de Pando, o que não se concretizou devido empecilhos da legislação boliviana.

Fernández foi deposto e, no dia 17 de setembro, preso a mando de Evo Morales. A partir da prisão do governador, Alexandre Lima também passou a ser alvo dos militares bolivianos pelo fato de ter boa relação com ele. “Fui informado, por exemplo, que os soldados têm em mãos minha foto para facilitar minha prisão”, contou Lima, via MSN, à Agência Amazônia.

Jornalistas bolivianos na mira

Alexandre Lima conta que, além dele, outros jornalistas — todos eles vivem em Cobija, capital de Pando — passaram também a ser procurados nos últimos dias pelo Exército boliviano. A caçada teve início, segundo ele, depois que o ministro da Presidência da Bolívia, Juan Ramón Quintana, mostrou em rede nacional uma lista de veículos de comunicação que, supostamente, estariam apoiando as ações de Leopoldo Fernández contra o cumprimento do estado de sítio em Pando. A lista inclui o jornal O Alto Acre.

No contato com a Agência Amazônia, o jornalista Alexandre Lima contou que passou a ser considerada “persona non grata” pelas autoridades da Bolívia a partir do instante que começou a divulgar os conflitos na cidade de Cobija, que começaram a pipocar há cerca de dois anos.  Os confrontos entre oposicionistas e grupo pró-Evo Morales acontecem desde 2006, ou seja, bem antes de Leopoldo Fernández ser eleito governador de Pando.

A irritação de Ramón e das autoridades pró-Evo Morales para com o jornalista Alexandre Lima chegou ao ápice quando ele, juntamente com o jornalista boliviano Carlos Valverde, da Rede PAT, denunciou os planos do ministro de tomada do chamado Oriente — a parte do território da Bolívia onde se concentram os governadores oposicionistas.  As denúncias abalaram seriamente a credibilidade do ministro.

Respondendo a um amigo OU o único trabalho esquerdista: mentiras, propaganda de si mesma e, por consequência, destruição total

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio (editorial), 8 de outubro de 2008

Um amigo, cujo nome tenho boas razões para não declarar aqui, envia-me uma carta interessantíssima da qual desejo destacar e comentar duas observações. A primeira refere-se à farsa montada pela Folha de S. Paulo para amortecer o impacto das confissões do espião Morris Sobell, que desmantelaram uma das mentiras mais queridas da esquerda internacional, a alegada inocência do casal Rosenberg (aqui). A segunda, aos rumos gerais do movimento revolucionário no mundo.

Primeira observação: “Se a intelligentzia da esquerda permitiu a Moris Sobell divulgar sua verdade é porque já sabe o poder que conquistou e está limpando seu passado. Como sempre, culpando os mortos. Do ponto de vista do processo de tomada de poder, tambem é uma mudança de paradigma. Mais um ponto de massa crítica foi ultrapassado e a reação ‘alquimica’ se consolida. Sobell ainda deve ter um bocado de poder. Imagine o mundo, agora majoritariamente de esquerda, saber que ele foi o Gagarin da Bomba. É um reconhecimento em vida.”

Comentário: A técnica é sempre a mesma: primeiro a negação categórica, depois o embelezamento retroativo, por fim a confissão, já com valor invertido. Até o Foro de São Paulo, quando saiu das sombras após dezesseis anos de ocultação, veio todo embonecado, com maquiagem e collant, parecia até o Gilberto Gil no baile do Scala Gay. O que foi ocultado como crime passa por uma transfiguração de modo a poder ser alardeado como mérito.

As gerações mais novas nada souberam, e as velhas já se esqueceram, da pletora de eloqüência mendaz que a mídia chique despejou em todo o globo para dar credibilidade postiça à declaração de Fidel Castro, “Quero deixar bem claro que não somos comunistas” – declaração que, alguns anos depois, passado o temor da rejeição internacional, seria substituída pelo seu oposto simétrico: “Quero deixar bem claro que somos marxistas-leninistas.” O vídeo abaixo pode sanar a ignorância de uns e restaurar a memória de outros. Mas mesmo depois disso ambos os grupos continuarão acreditando na mentira cínica de que os terroristas brasileiros dos anos 70 lutavam para restaurar a democracia no Brasil, mentira que fatalmente, no tempo oportuno, será substituída pela confissão ainda mais cínica de que seu objetivo era instaurar aqui uma ditadura comunista nos moldes da cubana, que os financiava precisamente para isso e para nada mais.



Segunda observação: “Por um outro aspecto, olhando os fatos pelo contexto histórico, esse é o caminho da humanidade, não há outro. Durante muito tempo me revoltava contra o que via, hoje vejo a inevitabilidade deste destino. Não adianta me revoltar, me irritar e irritar os outros. É mais util apenas informar, mostrando o que realmente esta se passando. Sim, esse movimento revolucionario terminará. Terminará quando for a tradição sendo atacada por uma nova traição. Mas o mundo ja estará irreconhecivel.”

Comentário: Você tem razão ao dizer que o movimento revolucionário, quando terminar (o que é historicamente inevitável), terá deixado o mundo irreconhecível. É como o vício da cocaína, que o sujeito pode abandonar, mas sem obter nunca os seus neurônios de volta.

Não devemos, é claro, ter a ilusão de reverter o curso dos acontecimentos, mas também não podemos ceder a um fatalismo que só pode nos acanalhar e destruir o sentido da nossa existência. O que temos é de fazer de nossas vidas um testemunho de que o movimento revolucionário não é onipotente, de que é possível sobreviver mesmo sob o seu jugo sem lhe ceder um milímetro da nossa liberdade de consciência, de que é possível cuspir nos ídolos, desprezá-los e humilhá-los sem que eles tenham sequer a cara de pau de fazer algo de substantivo contra nós. O exemplo que deixarmos será, após o fim do pesadelo, a semente da reconstrução do sentido da vida. Deixar esse exemplo é só o que interessa. No Juízo Final, não seremos cobrados pelo que o mundo escolheu fazer, mas apenas pelo que fizemos de nossas próprias vidas.

Rô, homenagem a você

"Espero que no fim de minha vida eu possa dizer: vivi de tal modo que Deus pudesse acreditar em mim e trabalhei com todas as minhas forças para adquirir uma cultura que louvasse a Deus e respeitasse o homem. "

Marolas ou tempos difíceis?

12 de outubro de 2008

Produzido pelo TERNUMA Regional Brasília
Por Paulo Carvalho Espíndola, Cel Reformado

O dia de hoje, 10 Out 08, iniciou-se sombrio por tudo o que me cerca e, acredito, pelas crescentes preocupações dos propalados 80% dos brasileiros que os "institutos de pesquisa" aferem como satisfeitos com o governo do "noço" guia.

Logo cedo, ao ver e ler os noticiários, deparei-me com a histeria que assola o mundo por causa da quebradeira do mercado financeiro. Leigo no assunto, embora tranqüilizado pelo amanteigado ministro das finanças e pela sábia e profética palavra de Lula, segundo a qual tudo não passa de "marolas", passei a ler as páginas esportivas: mais marolas fazem as "zelites" dos jornalistas acerca de Vasco e Fluminense, agourando os dois e condenando-os a disputar a segunda divisão no ano que vem. Menos mal, pois que me restou esperança de ver o meu Flamengo campeão, a despeito das estatísticas e profecias dessa gente entendida em futebol, como o são os economistas oficiais.

O dia, certamente, não foi dos melhores.

Por volta das dez horas da manhã, fui ao cemitério para velar um grande homem, que deixou entre nós uma infinidade de amigos e admiradores. Foi-se o nosso Machadinho, o nosso general Edson Machado, expoente do Exército Brasileiro e do TERNUMA, que se juntou à nossa causa pelo seu idealismo e amor ao Brasil, mesmo sem nunca ter sido convocado, nos "anos de chumbo", para combater a insânia comunista. Foi-se um homem sem mácula, honrado, militar dos melhores, cavalariano de Osório e exemplo de esposo, pai e companheiro, no melhor sentido deste último adjetivo. A sua fisionomia de morto, muito antes de levar-nos às lágrimas, pareceu-nos um incentivo a motivar-nos a prosseguir combatendo o que aí está. Capela repleta, curiosamente, não havia tristeza, pois que velávamos um combatente do bom combate. A postura valente da viúva, a incansável Dª Ilka, mesmo que silente, só nos confortava a sublimar as tristezas e o desencanto dessa grande perda.

Certamente o dia não foi bom. Ainda estávamos a digerir as más notícias da véspera, alardeadas por toda a imprensa, sobre uma decisão "política e moral" do Tribunal de Justiça de São Paulo, condenando um combatente da Democracia, o Cel Reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, à pecha de torturador, baseando-se em provas meramente testemunhais de supostos torturados, que se embaíram por causas imorais e fratricidas. Julgamento político? Desde quando a Justiça é política? Desde quando a moral é o apanágio de criminosos políticos? Desde quando criminosos políticos não são criminosos? Matar, roubar, mutilar inocentes, seqüestrar não são crimes se cometidos por motivações políticas? A aceitação disso é condenar toda a sociedade brasileira ao proxenetismo da criminalidade.

Dias melhores virão, sem dúvida, embora o turbilhão da economia venha varrer o mundo globalizado. Somente ela, todavia, será capaz de abrir os olhos dos 80% da sociedade brasileira para essa enganação toda.

O sorriso do Machadinho agora passa a iluminar os caminhos do Grupo Terrorismo Nunca Mais.

Parece de propósito, mas a indignação não me trouxe maiores mossas à minha gastrite, ao ver no Jornal Nacional as figuras de José Dirceu e Franklin Martins na inauguração de um infame memorial a criminosos promovido pela UNE. Lá estavam fotografias e testemunhos dessa gente que intentou contra o Brasil e continua intentando, ricos de muitos dinheiros e de poder, mas esmoleiros de dignidade. O sorriso do Machadinho sobrepôs-se a essas cenas dantescas.

Finda-se o dia. Renascem esperanças.

Certa vez, disse-me um grande chefe que uma grande nação renasce de grandes catástrofes. Se não existem as naturais, só há as provocadas.

Tudo indica que é o nosso caso.

A Economia será o grande coveiro dessa escumalha que está no poder no Brasil.

Os sucessores quais serão? Não sei, mas o sorriso do Machadinho há de nos orientar na busca.



Visite o nosso site: www.ternuma.com.br

Capitão Charles Rodney Chandler: 40 anos da sua morte por terroristas brasileiros

Do Observatório de Inteligência

Carta ao meu caro capitão Chandler

Esteja onde estiver no infindável caminho das estrelas, não posso deixar de transmitir-lhe esta mensagem e lembrar que, hoje, Dia das Crianças, há 40 anos, naquela manhã da primavera de 12 de outubro de 1968, às 8hs e 15min, seus filhos Luane e Todd de 3 anos, Jeffrey com 4 e Darryl com 9 perdiam o pai, que saía de casa na rua Petrópolis para mais uma aula na Escola de Sociologia e Política.

Você foi uma das inocentes vítimas dos terroristas brasileiros, 8 tiros à queima roupa e uma rajada de metralhadora, morto em covarde emboscada, estúpida insanidade de terroristas assassinos, hoje, anistiados. Uns professores, outros pensionistas da ditadura, todos admirados e louvados pelo atual governo federal, contrariando a restante cultura judaico-cristã do meu país.

Lembro-me do nosso último aperto de mão, na manhã de inverno do Dia do Soldado, em solenidade do quartel do Exército no Ibirapuera, dias antes da sua partida para a eternidade. Ainda posso vê-lo com o impecável uniforme bege e as insígnias da US-Army, no garbo dos seus trinta anos de juventude, ao lado da sua linda esposa Joan.

Recordo-me da nossa época e da nossa amizade, quando você partiu da América para o Vietnan, nas primeiras convocações de combatentes de l966, e eu tive que deixar sua terra após meu curso de Defesa Nacional, pois receava ter que optar pela permanência definitiva em seu país e correr o risco de ir para o sudeste asiático. Você foi muito corajoso na sua missão, mas o Brasil naquelas circunstâncias necessitava da minha ajuda na educação para a democracia das novas gerações.

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Você regressou como herói de guerra para usufruir a bolsa de estudos em minha pátria e sua morte foi justificada pelos insanos autores como um “justiçamento” pela sua ação no Vietnan.

O brutal acontecimento chocou o mundo, por ser o Brasil um país pacifico e não imperialista. Mas o presidente João Figueiredo já lhe contou que pretendeu a pacificação da nação ao promulgar a sua Lei de Anistia, queria passar uma borracha nessa história sangrenta e nojenta que a esquerda provocou. Esquerda que esconde da nação a verdade dos seus objetivos.

Creio que seus amigos e companheiros vítimas do holocausto devem estar envergonhados do Tarso Genro, ministro da justiça, o neto do judeu-alemão Hermann Hers, que emigrou para o Brasil e o viu nascer em l947. Os Hers foram enganados e se tornaram vítimas do Partido Trabalhista Nacional Socialista, o PT nazista, uns indo para os campos de concentração e outros emigrando para Inglaterra e América do Sul.

O Tarso Hers Genro não quer saber de suas origens, apenas aprecia a cultura judaica. Mas, aqui, a comunidade israelita não vai muito com a cara dele, dizem que ele tem sangue judeu e alma comuno-nazista, que aprecia e patrocina a malta de assassinos e terroristas anistiados que pretendiam a ditadura comunista. Bem, a esquerda usa o poder pelo facilitador atual, o Mr. Da Silva, mas sabe que terrorismo no Brasil, jamais.

toddchandler

Filho e neto do Capitão Charles Chandler

Capitão Chandler, só lamento que nesta data, quando estaria com 70 anos, você esteja sendo lembrado pela sua família e pelo “Brasil acima de tudo” por tudo o que poderia ter feito, dedicado uma longa vida para as boas relações da América com o Brasil. Você e sua família adoravam minha terra verde amarela. Você se deliciava com interesse nos estudos na Escola de Sociologia e Política, a mesma de FHC. Entre nós, aqui nos trópicos, poderia ter sido estimulante escrever livros como um notável brasilianista, admirador do Gilberto Freire, do Delgado de Carvalho, do Darcy Ribeiro, do Meira Mattos, do José de Castro, do Celso Furtado e do Cascudo, seus companheiros de bate-papo no cotidiano do oriente eterno.

Quer saber de uma coisa Chandler? Creio que você está muito bem junto às estrelas. Aqui na Terra, as coisas estão confusas, há uma grande desordem. Esteja certo de que está na companhia de grandes benfeitores e mentores espirituais da humanidade.

Para encerrar, sabemos que sua esposa Joan é líder de uma encantadora família que aprendeu a admirar o capitão Chandler da US-Army, do mesmo Exército que minha pátria se ofereceu e integrou com a FEB na II Guerra para livrar a Europa da escravidão do terror nazi-fascista. Sua foto permanece nos porta-retratos dos lares de todos seus descendentes.

Desculpe pelo que meus insanos patrícios fizeram com você neste dia, passados 40 anos, com a emoção da sua imagem e do último aperto de mão,

Deus acredita em você?

Entrevista à Rádio Europa Livre (repórter Cristina Poienaru)
Bucareste, 21 de outubro de 1998


— Você acredita em Deus?

— Respondo como Henry Miller: o problema não é se eu acredito em Deus, mas se Deus acredita em mim.

A realidade de Deus é para mim uma evidência invencível, na medida em que Deus se identifica com a infinitude metafísica que é o fundamento de toda realidade possível. As pessoas hoje em dia têm alguma dificuldade de compreender isso porque se deixaram enganar por falsas lógicas (como a de Georg Cantor, por exemplo) e acabaram por perder todo sentido da infinitude metafísica.

A resposta de Miller significa que nossa vida é uma história escrita tanto por Deus quanto por nós mesmos, e que no enredo você corre o risco de escolher o papel de farsante, de mentiroso, de vigarista. É importante ter idéias verdadeiras, mas isso não é tudo. É preciso também viver no verdadeiro, isto é, não fingir que você sabe o que não sabe, nem que não sabe aquilo que sabe perfeitamente bem. Se você não é fiel a essas duas exigências, sua vida é uma mentira e o conteúdo pretensamente verdadeiro de seus pensamentos não é senão uma parte da farsa total - aquela parcela de verdade de que a mentira precisa para se tornar mais verossímil. Aí Deus não pode acreditar em você, porque, no fundo, você não existe.

— Você acha que é bom existir uma crença religiosa sem igreja?

Certamente. O alto clero mentiu muito para os fiéis no século XX e eles têm o direito de guardar uma certa distância da Igreja, certamente sem renegá-la, mas num espírito de espera prudente até que Deus se digne de lhes dar novas luzes. Para não dar senão um exemplo, um pouco antes do Concílio a Igreja de Roma assinou com as autoridades soviéticas o tristemente célebre Pacto de Metz, que a obrigava a abster-se de toda denúncia contra os regimes comunistas durante as sessões do Concílio. O pacto, que era secreto, foi ocultado da imprensa ocidental e não foi divulgado senão algum tempo depois, pelos jornais soviéticos. Se você leva em conta que até essa época os regimes comunistas já tinham matado quase uma centena de milhões de pessoas, das quais pelo menos uns trinta milhões de cristãos que não tinham cometido outro crime senão o de ser cristãos, você compreende a gravidade quase infinita desse acordo. Hoje em dia condena-se o Papa Pio XII por ter feito certo silêncio em torno da perseguição aos judeus na Alemanha, mas quem queira desculpá-lo pode ao menos alegar, para raciocinar por absurdo, que não eram ovelhas do seu rebanho, que ele não tinha a obrigação de dar o alarme se o lobo atacava apenas as ovelhas do seu vizinho. Mas o que se pode pensar do pastor que entrega ao lobo as ovelhas do seu próprio rebanho? Ante essa cumplicidade abominável, as críticas bem polidas e de ordem puramente teórica que a Igreja continuou a fazer ao marxismo não passam de hipocrisia. E como você haveria de querer que, depois de coisas desse gênero, milhões de fiéis não perdessem a confiança na Igreja e não escolhessem ser, ao menos a título provisório, cristãos sem Igreja? Foi o Vaticano que traiu a confiança deles, é a ele que cabe arrepender-se e lhes pedir perdão, em vez de fazer essas ridículas genuflexões rituais ante o mundo ateu, que se tornaram a moda oficial do dia.

— O ecumenismo é possível?

No tempo em que os pensadores cristãos, muçulmanos e judeus se compreendiam uns aos outros, não se falava de ecumenismo porque ele era uma realidade vivente que não precisava de nome. Sto. Tomás e Sto. Alberto disputavam, decerto, com os judeus e muçulmanos, mas eles os compreendiam e respeitavam. Após o século XIV todos os laços espirituais e intelectuais com o Islam e o judaísmo se romperam e hoje em dia você não encontra senão raros especialistas que sejam capazes, por exemplo, de lhe dizer os nomes de três ou quatro pensadores muçulmanos modernos. O diálogo dos espíritos foi substituído pelos acordos de chancelarias, e hoje em dia o ecumenismo não é senão o disfarce de uma política globalizante que não tem nada de espiritual. No entanto o verdadeiro ecumenismo, que é dos espíritos, permanece sempre possível, e basta recordar o diálogo de Franz Rosenzweig e Eugen Rosenstock, ou as obras de Louis Massignon, para ter exemplos concretos dessa possibilidade. Numa escala bem menor, fiz de minha própria vida um exemplo desse gênero de ecumenismo, escrevendo por exemplo meu ensaio O Profeta da Paz, que é uma exegese simbólica da vida do Profeta Maomé à luz das tradições católica e judia. Creio que do ponto de vista da pura interioridade há sempre aproximações surpreendentes entre as diversas religiões, mas que isso não tem nada a ver com os espetáculos rituais ecumênicos transmitidos pela mídia. Falou-se muito do "Estado espetáculo", mas há também uma "religião espetáculo" que arrisca submergir toda espiritualidade sob uma chuva de falsas luzes.

— Como você situa o conhecimento na Nova Ordem Mundial?

— O conhecimento aí arrisca tornar-se uma coisa puramente material, como um arquivo de dados registrados por meios eletrônicos e transmitidos de computador a computador sem passar por uma consciência humana. Hoje em dia pode-se produzir teses acadêmicas apenas sintetizando dados previamente hierarquizados por computadores, sem que haja necessidade do menor esforço pessoal de intelecção. É a perfeição da "consciência coletiva" formada de uma multidão de cientistas sonâmbulos. A doutrina de Wittgenstein sobre um pensamento que se pensa a si mesmo sem necessidade de um sujeito humano torna-se assim uma profecia auto-realizável. Creio que Wittgenstein foi um gênio da inconsciência, um herói da covardia intelectual, o criador de uma doutrina que atinge os cumes de uma estupidez quase inimaginável. No mundo wittgensteiniano que nos aguarda, os livros não serão lidos senão por eles mesmos, demitindo os leitores humanos. O conhecimento se tornará uma figura de linguagem para designar os depósitos de dados que não serão conhecidos por ninguém, e a cultura se tornará um museu eletrônico jamais visitado. Certamente, haverá sempre alguns indivíduos que farão esforços para permanecer conscientes, e mesmo a elite dominante terá certa necessidade dos serviços deles. Mas não consigo nem imaginar os abismos de sofrimento que eles terão de suportar.

— Você acredita que o século XXI será cristão?

Não. Bem ao contrário, ele é já em suas raízes o século do Anticristo, o século da opressão travestida em liberdade, o século em que as pessoas que matarem os santos acreditarão estar servindo a Deus. Já vemos formar-se uma espécie de religião administrada, um falso ecumenismo que une os senhores do dia em torno de um credo todo feito de lugares-comuns, uma mistura de banalidades moralistas, de oportunismo político e de um desejo infinito de agradar a mídia. É certo que Deus pode dispor de outro modo, mas tudo indica que estamos entrando numa era em que a impostura será a única forma de religião admitida, e na qual o homem que queira permanecer fiel ao Espírito não poderá buscá-lo senão no interior de sua alma solitária.

— Qual é sua definição de cultura?

A cultura antigamente era a busca de objetivos superiores à simples sobrevivência material. Esta definição aplicava-se igualmente bem à Grécia e às pequenas culturas indígenas do Brasil. Mas hoje em dia o que se chama cultura se torna a criação ilimitada de novos apetites materiais que se multiplicam sem fim e que impedem as pessoas de ter outras ambições. Você vê, todos os debates ditos culturais da atualidade se desenvolvem em torno de assuntos ligados à vida corporal e à busca de bens de ordem material. De um lado, são desejos econômicos: os capitalistas proclamam que o único bem é a riqueza e os socialistas respondem que o único mal é a pobreza. De outro lado, são ambições de ordem sexual exaltadas até ao delírio: após os direitos dos homossexuais, proclama-se o direito à pedofilia, e assim por diante. A multiplicação das necessidades e das insatisfações materiais (até mesmo causadas pela própria abundância) não tem limite, uma vez que se tenha tomado essa direção.

O mais irônico de tudo é que a tradição da cultura "politicamente engajada", que foi outrora um instrumento de libertação, se tornou um meio de escravização: ela tem por missão tornar os homens escravos de suas insatisfações menores, de modo a jamais permitir que olhem para o céu e aspirem a uma vida mais elevada. É preciso que cada um só pense naquilo que o incomoda no meio imediato, seja o desejo sexual insatisfeito, seja a fumaça dos cigarros que o perturba, seja a falta de dinheiro ou o ódio invejoso que ele volta contra pessoas que ele imagina mais felizes. As pessoas que se ocupam desse gênero de coisas permanecem para sempre crianças doentes, não chegam jamais à idade madura que é renúncia, perdão, tolerância, generosidade. A cultura tornou-se instrumento da puerilização universal. Não vejo meio de encontrar uma definição de cultura que se aplique por igual a isso e àquilo que outrora se chamava por esse nome. Não se trata de espécies do mesmo gênero, e portanto toda filosofia da cultura está hoje condenada a não ser senão história das culturas antigas ou legitimação ideológica desse novo fenômeno que não tem em comum com elas senão o nome.

— A literatura sul-americana está em vias de se tornar a mais importante do mundo?

Talvez, mas isso é pouca coisa, numa época em que toda literatura se reduz a um ludismo imaginativo feito para o consumo ou à manipulação das massas pela nova administração da alma do mundo. O sucesso de Paulo Coelho e o Prêmio Nobel dado a esse ridículo Saramago ilustram com perfeição essas duas funções da literatura. Meus interesses passam a léguas de distância dessas futilidades, e estou pouco me lixando para a literatura, seja sul-americana, européia ou marciana.

— Quais são as fraquezas da democracia?

Georges Bernanos já tinha dito: a democracia não é o contrário da ditadura; ela é a causa da ditadura. Basta ver como a noção de direitos humanos é hoje utilizada para impor às pessoas novas formas tirânicas de controle do comportamento, para perceber que Bernanos tinha razão. A democracia, para subsistir, tem de se apoiar sempre em alguma coisa totalmente diversa, num sistema de valores extrapolíticos ou suprapolíticos, como por exemplo o cristianismo. Mas a própria democracia tende a destruir esses valores e em seguida é deixada a si mesma e se transforma em tirania: tudo democratizar é tudo politizar, e quando não restam outros valores senão políticos, então é a ditadura, como a definia Carl Schmitt, a pura luta pelo poder, que não pode levar senão à vitória dos mais fortes. Hoje em dia, mesmo os debates ditos intelectuais se tornaram pura luta política, isto é, lobby, grupos de pressão, manipulação de verbas, intimidação dos inimigos, e assim por diante. É o resultado da democratização, e é indiscutivelmente ditadura. Para salvar a democracia seria preciso saber limitá-la, isto é, restringir os critérios democráticos ao território estritamente político e limitar o território da política, instituindo para além da política uma zona onde os debates não sejam decididos por meios políticos mas pela razão, pela sabedoria e pelo amor. Isto seria precisamente a função da cultura, mas a cultura já está quase completamente politizada e vamos a largos passos para a ditadura universal, sob o aplauso geral das massas. Como dizia uma velha canção americana, O when will they ever learn?

— Qual a relação entre a literatura e o totalitarismo (dizem que o totalitarismo produz boa literatura)?

— Não creio que o verdadeiro artista, para criar belas obras, necessite nem da liberdade política nem da opressão, nem de riqueza, nem de miséria. São estimulantes artificiais, exatamente como a cocaína. Tudo depende da livre vontade, a qual é ela mesma um tipo de criação artística preliminar à materialização das obras. As condições exteriores não têm um papel fixo e constante e o artista pode se adaptar às condições mais diversas. Veja: Thomas Mann e Jacob Wassermann não esperaram o nazismo para escrever seus mais belos romances, mas os produziram em plena democracia, ao passo que Dostoiévski criou toda a sua obra sob a opressão tzarista e Soljenitsin sob a ditadura comunista. As teorias que fazem a criação literária depender como um efeito mais ou menos passivo das condições exteriores são obra de gente incapaz, de professores medíocres que, por si mesmos, não criam nada e não compreendem a criação do que quer que seja. Infelizmente são essas pessoas que hoje em dia dão o tom dos estudos literários.

Pacto de Metz - João XXIII entrega a Igreja para o COMUNISMO e esconde (de certa forma até abençoa), desta forma, o maior flagelo da HUMANIDADE

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PERGUNTA
Nome:Vitor
Enviada em:07/06/2002

Prezados responsáveis pelo Site da Ass. Monfort, Antes de mais nada permitam-me saudá-los novamente pelo maravilhoso trabalho desenvolvido através da Internet. Os textos são sempre claros, honestos e constituem, certamente, uma excelente fonte de informação. Estejam certos de que estão ajudando a muitos a encontrarem o reto Caminho. Parabéns !

Na internet achei o seguinte texto : "O alto clero mentiu muito para os fiéis no século XX e eles têm o direito de guardar uma certa distância da Igreja, certamente sem renegá-la, mas num espírito de espera prudente até que Deus se digne de lhes dar novas luzes. Para não dar senão um exemplo, um pouco antes do Concílio a Igreja de Roma assinou com as autoridades soviéticas o tristemente célebre Pacto de Metz, que a obrigava a abster-se de toda denúncia contra os regimes comunistas durante as sessões do Concílio. O pacto, que era secreto, foi ocultado da imprensa ocidental e não foi divulgado senão algum tempo depois, pelos jornais soviéticos. Se você leva em conta que até essa época os regimes comunistas já tinham matado quase uma centena de milhões de pessoas, das quais pelo menos uns trinta milhões de cristãos que não tinham cometido outro crime senão o de ser cristãos, você compreende a gravidade quase infinita desse acordo." Os srs.(as.) poderiam fazer alguns comentários sobre este suposto Pacto de Metz?

O texto foi retirado da página
http://www.olavodecarvalho.org/textos/europalivre.htm e é parte de uma entrevista do sr. Olavo de Carvalho (artigo "Deus acredita em você?") .

Desde já muito grato subscrevo-me, Cordialmente Vitor São Paulo - SP



RESPOSTA

Prezado Victor, salve Maria!

Não é a primeira vez que devo lhe agradecer por suas palavras de apoio a nosso site. Peço-lhe que reze por nós, para que Deus nos sustente no bom combate.

Prezado Victor, o chamado "Acordo de Metz", infelizmente existiu mesmo.

O Papa João XXIII, em sua ânsia ecumênica, quis convidar os dirigentes da Igreja Cismática russa para que participassem do Concílio Vaticano II. Essa Igreja era totalmente dominada, então, pelo Partido comunista. Consta até que vários de seus dirigentes exerciam cargos na KGB e gozavam da confiança do Partido Comunista da URSS. Os líderes comunistas da União Soviética determinaram, então, que os dirigentes da Igreja russa só teriam permissão de ir a Roma, e de participar do Concílio Vaticano II, se a Santa Sé firmasse um compromisso de que, no Vaticano II, não se condenasse o comunismo, nem se fizesse qualquer citação da situação na URSS.

Desgraçadamente, essas condições foram aceitas, e pior, obedecidas. O acordo entre a URSS e a Santa Sé foi assinado em Metz, pelo Cardeal Tisserand - famoso por seu progressismo, e que depois, ao que consta, esteve envolvido no escândalo do Banco Ambrosiano.

Por causa desse acordo cúmplice com o maior inimigo da Igreja, o Concílio Vaticano II foi o único da História que não condenou os erros de seu tempo. Já no discurso de abertura do Concílio, o Papa João XXIII garantiu que o Concílio não faria condenações, dando assim aviso à URSS que cumpriria o que os comunistas exigiam, desde as primeiras negociações.

Também se ficou sabendo que havia ordem para que a Mesa de Presidência do Concílio cortasse o microfone de qualquer Bispo que aludisse à URSS ou que condenasse o comunismo, ou o marxismo.

Já no tempo de Paulo VI foram entregues duas petições ao Papa.

A primeira petição teve o apoio de mais de 700 Bispos -- foi o documento- proposta que recebeu o maior número de assinaturas no Vaticano II -- pedindo que o Papa , junto com todos os Bispos, consagrasse a 
Rússia -- não a URSS, não o MUNDO -- ao Imaculado Coração de Maria, como Nossa Senhora pedira em Fátima.

A segunda petição recebeu mais de quatrocentas assinaturas de apoio de Bispos, e pedia a condenação do comunismo. Ambas as petições foram entregues pessoalmente a Paulo VI por dois bispos brasileiros, a primeira por Dom Antonio de Castro Mayer e a segunda por Dom Geraldo de Proença Sigaud.

Ambas as petições foram silenciosamente... engavetadas. ... Na época, o acordo de Metz ainda era segredo...

O texto do gnóstico Olavo de Carvalho, que você me envia, conta a verdade sobre o acordo de Metz. Mas, como não poderia deixar de ser, vindo de um gnóstico, só poderia dar mau conselho. De fato, o sr. O. de C. recomenda que os fiéis católicos guardem uma 
"certa distância da Igreja":

Diz ele textualmente:

"O alto clero mentiu muito para os fiéis no século XX 
e eles têm o direito de guardar uma certa distância da Igreja, certamente sem renegá-la, mas num espírito de espera prudente até que Deus se digne de lhes dar novas luzes".

E esse é um muito mau conselho (Cavaleiro do Templo: não concordo em nenhum momento com nada que seja feito pela Igreja "contra" o Olavo de Carvalho e acho mesmo que ele tem razão, enquanto na Igreja tivermos um único filho da p... que seja que tenha qualquer tipo de admiração pelas doutrinas marxistas, todas lixo. Em tempo: não entro em Igrejas a menos que obrigado e, não preciso dizer, isto é problema meu.).

Os fiéis, em hipótese alguma, devem guardar 
"uma certa distância da Igreja, certamente sem renegá-la".

Nada permite a um fiel afastar-se da 
Igreja, em qualquer medida (Cavaleiro do Templo: se as decisões do alto clero são deste nível de complicidade com o mal em si, devemos sim afastar-nos da entidade chamada Igreja).

Um fiel pode afastar-se de um mau sacerdote, ou tomar cuidado com um mau Bispo que dá maus conselhos e ordens injustas, sem romper, entretanto, com a obediência que lhe é devida, nos termos impostos pela Igreja.

Com relação ao Papa, nada permite 
"manter distância dele".

Pode-se até discordar da política de um Papa -- como no caso do acordo de Metz. E, com todo respeito guardado, pode-se até combater um acordo mau.

Mas 
essa discordância com relação a uma política pessoal de quem exerce o Papado, nunca , e de modo algum, pode trazer um distanciamento com relação ao Papa, enquanto Papa, nem da Igreja, pois onde está o Papa, aí está a Igreja. Distanciar-se do Papa ou da Igreja -- o que é a mesma coisa-- é colocar-se em risco próximo de cisma, o que é pecado gravíssimo.

Jamais podemos admitir um distanciamento qualquer da Santa Igreja. A Ela devemos ficar ainda mais unidos, ainda quando, infelizmente, um Papa conduza uma política prejudicial aos fiéis e à própria Igreja.

Distanciar-se de uma política, e até -- com todo o respeito -- opor-se a ela é legítimo.

Mas distanciar-se da Igreja e do Papa, jamais.

Cavaleiro do Templo: como disse, discordo das partes do texto que referem-se ao Olavo de Carvalho ao concordar em todos os temos com o mesmo.


In Corde Jesu, semper, 
Orlando Fedeli

Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena

BLOG DO ANGUETH
Domingo, Outubro 05, 2008

A Igreja Católica, como todos sabem, sempre condenou a usura (cobrança de altos juros, agiotagem). Atualmente, a Igreja não proíbe o empréstimo a juros, se estes forem estipulados em valores razoáveis. No entanto, a cobrança de juros razoáveis, apesar de não atentar contra a justiça, pode atentar contra o que a caridade aconselha. E como todos sabem, a caridade é uma virtude teologal, enquanto a justiça é uma virtude cardeal.

Mas, não só a Igreja, mas “os velhos pagãos gregos, os judeus do Antigo Testamento e os grandes mestres cristãos da Idade Média. (...) Todas essas pessoas nos recomendavam unanimemente que não emprestássemos dinheiro a juros; no entanto, emprestar dinheiro a juros – aquilo a que damos o nome de ‘investimento’ – é a própria base de todo o nosso sistema econômico. (...) Três grandes civilizações [grega, romana e medieval] estiveram de acordo – ou pelo menos assim parece, à primeira vista -- em condenar precisamente aquilo em que baseamos toda a nossa vida econômica.” (C.S.Lewis, Mero Cristianismo)

A resposta a essa observação de Lewis é mais ou menos a seguinte: “Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo. Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado.” (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho)

Parece-me que é exatamente pelo que Olavo de Carvalho observa que a Igreja evolui de uma posição de condenação dos juros para a condenação da usura.

Um detalhe interessante da história econômica se relaciona com a evolução do entendimento do homem do que sejam os juros. Tem-se como certo de que foi von Mises, aluno de Böhm-Bawerk, que nos explicou o que era de fato os juros, a que esse preço da economia se relacionava: quem cobra juros vende tempo: “o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência” (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho). Ou seja, supostamente ninguém antes de von Mises tinha “sacado” o verdadeiro significado dos juros, o que dá ao economista austríaco um confortável lugar no panteão dos pioneiros.

Bem eu descobri (não, não devo ter sido pioneiro nisso!) recentemente que, se não estou completamente enganado, a idéia do fator tempo no significado dos juros já era velha de pelo menos 6 séculos quando von Mises a “redescobriu”. Santa Catarina de Sena, em O Diálogo (14.2), descreve Deus lhe dizendo o seguinte: “Outros pecados ficam nos bens materiais, como nos avarentos e gananciosos. Estes fazem como as toupeiras, que se alimentam de terra até à morte. Só que estes pecadores, ao chegar o dia da morte, já não têm mais cura. Gananciosos, eles negociam o tempo, são usurários, cruéis, ladrões. Sua memória se esquece dos meus benefícios. Em caso contrário, deixariam de ser cruéis consigo mesmos e com os outros. De si mesmos teriam pena, praticando as virtudes; dos outros, pelo serviço da caridade. (...) Ele [o pecador] mata a alma, torna-a escrava dos bens materiais, negligente em observar os meus mandamentos. O ganancioso-avarento não ama ninguém, a não ser por interesse próprio.” [Negritos meus - Angueth]

Aí está, em pleno século XIV, a santa, e doutora da Igreja, dizendo que os gananciosos (usurários) “negociam o tempo”, adiantando assim, é o que me parece, o grande achado do economista austríaco.

Mas Deus adianta ainda mais. O que O preocupa não é a eficiência econômica, da qual a cobrança de juros (altos ou baixos) é uma parte importante, “base de nossa vida econômica”, como nos lembra Lewis. Deus quer salvar as almas que ele criou. Ele parece pensar que a ganância (mesmo que promovendo a eficiência econômica) depõe contra a salvação das almas: “o pecador [usurário] mata a alma”. Já dizia São Paulo, muito antes de Santa Catarina, que muitas coisas nos são possíveis, mas apenas algumas recomendáveis. Parece ser este o caso.

Talvez seja interessante ler o que a Enciclopédia Católica nos diz dos juros e da usura.

Capitalismo e Cristianismo

Olavo de Carvalho

A pedidos, e com notável atraso, reproduzo aqui este artigo que, com título editorial modificado, saiu na revista República de dezembro de 1998. - O. de C.


Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio "Comunista" Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a "concentração do capital" eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.

Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a "finalidades sociais" externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto. Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou "o Reino de Deus na Terra". Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da "ascese mundana" (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, "filha dileta da Igreja", marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o "capitalismo selvagem" floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão... dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o "Pacto de Metz", em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, "a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano", o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.

Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo (aqui e depois, na sequência, aqui), mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".