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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A igualdade social no boteco

 

ESTADÃO

João Ubaldo Ribeiro

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19 de agosto de 2012 | 3h 11

João Ubaldo Ribeiro - O Estado de S.Paulo

- Tu tá com uma cara que eu vou te contar! Que foi que houve, isso tudo já é tristeza antecipada pela derrota? O jogo ainda é às seis e meia, até lá tu pode fingir que é feliz, pode até sonhar que o Flamengo vai se dar bem. E não precisa chorar, que não vai ser de goleada, o Vasco não está aí para humilhar ninguém, nem mesmo o Flamengo, não precisa.

- Eu não sei de onde você tira essa sua arrogância. O que é o Vasco?

- O Vasco é uma caravela gloriosa, desbravando os sete mares e navegando serenamente para ancorar no posto de campeão brasileiro!

- Ah, bom, campeonato de vela, isso eu não discuto. Eu pensei que você ia se referir ao vice-campeonato de futebol que vocês vão pegar, como é da tradição do teu time. Vocês do Vasco deviam computar o número de vice-campeonatos que já ganharam, de repente dá para criar uma nova categoria para consolar os vascaínos: campeão dos vices, o maior vice-campeão da história do futebol brasileiro. Brasileiro, não; mundial, acho que esse campeonato mundial é do Vasco. A não ser que vocês também sejam vices dos vices.

- Qual é, cara, tu, como representante de um urubu de asa despencada, um timeco que se daria mal na série C, um...

- Tudo bem, não vamos brigar por causa de futebol. A vida não se resume a futebol, tem muita coisa mais importante.

- Domingo, num boteco do Rio de Janeiro, não tem nada mais importante do que chope, futebol e mulher.

- É verdade, mas eu não posso evitar o que venho sentindo. Eu tenho pesadelos. Essa noite mesmo, eu tive, acordei suando. Sério mesmo, cara, eu acho até que vou consultar um psiquiatra, isso não pode ser normal.

- Ah, é por isso que você chegou aqui meio estranho hoje.

- É, eu agora dei para ficar minhocando esse negócio e dei para ter esses pesadelos, já é o terceiro ou quarto. É uma espécie de assombração, que resolvi chamar de cotismo. É o medo do cotismo.

- Do quê? É doença nova? Se for, não me conta, que eu começo logo a sentir os sintomas. Vou ter um AVC e um infarto a qualquer momento e amanheço de dengue todo dia.

- Não, doença não. É um problema sociopolítico.

- Ah, cara, não vamos entrar nessa de discutir o Brasil, o mensalão, a ladroeira, pelo menos no domingo vamos dar um tempo, ninguém aguenta.

- Não é o mensalão, é bem mais grave. O cotismo é o seguinte: é a nova política nacional para a eliminação das desigualdades.

- Pior do que comunismo, não? Eu só sinto falta deles quando é para botar a culpa em alguém. Era sempre culpa deles e pra mim continua sendo.

- Eles vão dizer que, com a adoção de cotas...

- Eles quem?

- Eles, eles, eles! Eles estão em toda parte, mandam na nossa vida e cada vez vão mandar mais! Eles! Agora eu tenho certeza de que, quando passar esse negócio do mensalão, eles vão adotar cota para tudo. Eu tive um professor, naquele tempo em que tinha professor, que dizia: "senhores, a sábia mão do homem ainda vai destruir o universo!" É verdade, é verdade!

- Mas não vai ser agora, podemos pedir uns pasteizinhos.

- Aí é que você se engana, já está começando agora e vai se estender a tudo. Ao futebol mesmo, por exemplo. Futebol rende muitos problemas por falta de proporcionalidade em vários aspectos e falta de oportunidades para todos. Primeiro eles vão regulamentar as escalações: tem que ter cota racial. Cada jogador declara sua raça e aí a escalação mantém o equilíbrio racial através das cotas. Poderemos ver o Wagner Love declarando que se chama Wagner porque é de família alemã de pai e mãe e o Loco Abreu alegando que é zulu. Mas aí isso não resolve a desproporção entre as torcidas, de maneira que eles vão implantar as cotas de torcida. Cada torcedor será cadastrado numa torcida, devendo apresentar seu cartão de torcedor juntamente com o ingresso. Quando uma torcida ultrapassar o número de torcedores previsto pela cota, o torcedor tem de escolher outro time, em benefício de paz social e, em última análise, em seu próprio benefício. É um assunto complexo, mas nós temos parlamentares à altura das necessidades. Uma coisa é certa: não será permitida uma desproporção gritante, como existe hoje, por exemplo, entre a torcida do Flamengo e a do Olaria, a lei garantirá a todos os times o direito de ter torcedores. E digo mais. Não tem crime de falsidade ideológica? Pois vai ter crime de falsidade clubista. O camarada que for pegado torcendo por um time, mas portando a carteira de outro, perde o registro e não pode mais frequentar estádios, precisamos de leis severas.

- Você está delirando outra vez, eu nunca sei quando você está falando sério.

- Eu não estou delirando nada. Nem falei sobre as outras cotas dos times de futebol. Uma das primeiras a entrar na pauta vai ser a cota dos originários de comunidades carentes, logo seguida das dos jovens infratores em recuperação, dos homossexuais, da terceira idade, dos nativos do Estado onde fica a sede do time e por aí vamos, inclusive na Seleção.

- Você não acabou o segundo chope e já está de porre. Não está vendo que esse tipo de coisa nunca vai dar certo?

- Eu estou. Mas eles não, é por isso que eu me apavoro. Vai ter cota de mulher, pode escrever. Pra cada cinco gatas com quem você sair, vai ter que encarar uma dragonete, é a justiça social.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".