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sexta-feira, 16 de março de 2012

Jovens se organizam e tentam criar legendas da ‘nova direita’

 

LUCIANO AYAN

 

Fonte: Globo

SÃO PAULO – Há uma nova direita tentando se organizar eleitoralmente no país. O movimento é integrado majoritariamente por jovens, entre 20 e 30 anos, que não se identificam com os ideais da esquerda e tampouco se sentem representados pelos partidos já existentes. São três as legendas em formação: o Partido Federalista, os Libertários (Líber) e o Partido Novo. Em comum, eles defendem a redução de impostos e as privatizações. Acreditam que o Estado brasileiro é “grande, oneroso, ineficiente e paternalista” e que o quadro político foi tomado pela esquerda.

A nova direita divide fóruns, redes sociais e blogs, onde os simpatizantes trocam ideias, discutem seus pontos de vista e arregimentam novos seguidores:

— Nossa lista de discussão reúne conservadores religiosos, simpatizantes do monarquismo parlamentarista, nacionalistas e principalmente liberais — diz Marcelo Mota, moderador do grupo Cons (Conservadores) na internet.

Entusiasta da nova direita, Mota é integrante da Juventude do Democratas em Minas Gerais, mas diz que compreende a tentativa de criar outras legendas:

— O DEM tem receio de assumir um posicionamento liberal e fica refém do discurso das lideranças, que não querem ir contra o discurso da esquerda e da centro-esquerda. Um dos poucos a ir contra essa tendência é o Demóstenes (Demóstenes Torres, senador pelo DEM-GO). Por isso, é normal que se procure constituir novos partidos.

Entre as legendas da “nova direita”, a legenda que está há mais tempo na estrada é o Federalista.

— Estamos desde 1999 nessa busca pela oficialização — diz o presidente da legenda, o empresário Thomas Korontai, de Curitiba.

Além de liberais na economia, os federalistas têm como principal bandeira a descentralização administrativa.

— Brasília é irreal. Não faz sentido os estados e municípios produzirem a riqueza para que Brasília faça a divisão e aí voltem migalhas. Defendemos federações com poder de decisão — explica Korontai.

O partido, segundo ele, chegou a ter quase 100 mil assinaturas — são 500 mil necessárias para a legalização de uma legenda junto ao Superior Tribunal Eleitoral (TSE) —, mas a maioria delas foi perdida, por falta de estrutura.

— É um processo limitador esse que é imposto pelo TSE. Nós não somos políticos profissionais e não estamos ligados a estruturas burocráticas já existentes — justifica o empresário.

Mais adiantado na coleta de assinaturas está o Novo, partido com cara e alma de executivo. A legenda, que nasceu juridicamente em fevereiro, já tem cerca de 30 mil assinaturas registradas em cartório e outras 180 mil prontas para serem entregues.

— Contratamos empresas para abordar as pessoas na rua e explicar sobre a legenda — diz o presidente do partido, João Dionísio Amoedo, executivo do mercado financeiro, que mora no Rio de Janeiro, mas trabalha em São Paulo.

A maioria dos fundadores do Novo é de administrados e engenheiros. O termo “gestão eficiente” é uma máxima dentro da legenda.

— Queremos um modelo em que os cidadãos aceitem seus direitos e deveres. O estado precisa ser ágil e deixar as pessoas trabalharem. Não tem de ficar falando sobre como elas devem se comportar. Lei de costumes, como essa da palmada, é uma coisa sem sentido — explica Amoedo.

Ele diz que o Novo não segue os preceitos de qualquer partido existente, mas afirma que há “compatibilidade de ideias” com as legendas da centro-direita europeia.

Não há, porém, entre as três legendas, quem ganhe do Líber no quesito críticas ao tamanho do Estado. O presidente da legenda, o advogado Bernardo Santoro Machado, do Rio, resume assim as divisões internas do partido:

— Temos os minarquistas, que acreditam que o Estado deve ser mínimo e cuidar da segurança, do ordenamento jurídico e talvez alguma coisa de saúde, e os anarcoliberais, que consideram toda ação estatal um absurdo.

E a educação pública? Machado é enfático ao responder:

— Educação estatal é ruim e doutrinária. É muito mais fácil as pequenas comunidades ou grupos de famílias se organizarem do que um burocrata de Brasília ditar ordens do que deve ser ensinado.

Os libertários brasileiros seguem a cartilha do Partido Libertário americano, criado na década de 70, e que já teve o pré-candidato republicano à presidência dos EUA Ron Paul nas suas fileiras.

Machado afirma que o diferencial do grupo é levar o liberalismo para além da economia.

— Adotamos o princípio de não iniciar uma agressão contra alguém ou ir contra o direito à propriedade. Fora isso, não há por que regular a vida das pessoas. Isso vale para opção sexual, drogas, jogos, prostituição e armas de fogo. Quem quiser ter ou fazer que faça. O poder público não tem que se intrometer — diz o advogado, que lembra a única divisão interna do grupo: o aborto. — Aí não há consenso, porque há divergências sobre quando a vida começa, Há quem defenda que é um direito da mulher e quem diga que é agressão ao feto.

O Líber tem a média mais baixa de idade entre as três legendas — são raros os integrantes com mais de 40 anos. Mesmo assim, o partido tem quase nenhuma penetração no movimento estudantil:

— É dominada pela esquerda e pela extrema esquerda. É impossível vencer a barreira deles — diz Machado.

Embora esteja do lado ideológico oposto à esquerda, Machado argumenta que não há identificação do grupo com a ditadura militar ou com políticos alinhados ao perfil mais conservador, como o deputado Jair Bolsonaro:

— Ser contra a esquerda pode ser várias coisas. No Brasil, durante muito tempo, direita era carimbo de ditadura militar. Estamos completamente distante disso porque somos contra essa ideia de Estado forte. O próprio alistamento obrigatório é um sequestro do Estado.

‘Direita passou a ser palavrão’

A tentativa de criar partidos assumidamente de direita mostra que há um caminho alternativo à esquerda na formação dos jovens brasileiros que se interessam por política. É o que pensam o filósofo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Denis Rosenfield e o historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos Marco Antônio Villa.

— No Brasil, houve a associação da direita à ditadura militar. Então, até como reação a isso, o discurso da esquerda prevaleceu entre os jovens desde então — diz Rosenfield.

Villa tem opinião parecida:

— Depois da redemocratização, direita passou a ser um palavrão.

Para eles, os sucessivos governos do PT e do PSDB podem ter contribuído para a busca de alternativas ao pensamento mais centrado no intervencionismo estatal.

— Existe o anseio por um partido de direita moderno no Brasil. Uma legenda que defenda a livre iniciativa, a liberdade de escolha, o direito à propriedade. Mesmo o Democratas ficou no meio do caminho nesses pontos — avalia Denis Rosenfield.

O desafio das três legendas, diz o filósofo, é provar à sociedade que suas propostas melhoram, na prática, a vida do eleitor:

— Precisam mostrar para o brasileiro, acostumado a governos estatizantes e intervencionistas, que seus projetos podem aumentar o valor do salário e diminuir o preço das mercadorias. É preciso entrar no jogo real da política.

Para Villa, as novas legendas podem enriquecer o debate democrático se conseguirem mostrar diferenças em relação aos grupos conservadores que já detiveram o poder.

— A direita brasileira, diferente da europeia e da americana, adora um Estado grande. Veja o exemplo do presidente Ernesto Geisel, que criou centenas de estatais — ressalta.

O sociólogo Alberto Carlos Almeida, autor do livro “A cabeça do brasileiro”, tem visão diferente:

— A democracia permite que as pessoas se organizem em partidos para defender seus pontos de vista, e isso é legítimo e importante. Mas esse discurso tem poucas chances de ir para frente.

Para Almeida, a exaltação do livre mercado faz pouco sentido para a opinião pública brasileira.

— Somos um país enormemente desigual. É difícil defender uma posição conservadora com essa desigualdade. É um discurso radical de jovens de direita com pouca chance de crescer. São o PSTU da direita — ironiza.

Meus comentários

Só uma ressalva ao discurso do sociólogo Alberto Carlos Almeida.

Ele afirma há um problema no discurso da direita. Segundo ele, “somos um país enormemente desigual”, e portanto é “difícil defender uma posição conservadora com essa desigualdade”.

Na verdade, realmente é difícil defender uma posição conservadora, mas não por causa da “desigualdade” do Brasil, mas sim por inexperiência em debates políticos por parte da direita, o que pode ser resolvido justamente por essa geração de jovens de direita, que aos poucos poderão difundir a filosofia conservadora e/ou libertária desde a universidade.

É o seguinte: já que existem “desigualdades” no Brasil, muitas pessoas precisam de dinheiro no bolso, e para isso precisam tirar o dinheiro das mãos dos burocratas.

Basta começar com linhas base desse tipo no discurso que as chances de crescimento dessa idéia são grandes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Seu comentário sobre a reportagem faz sentido, amigo!

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
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A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".