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quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

AS BENEVOLENTES

NIVALDO CORDEIRO





19/01/2012

                            "O genocídio moderno é um processo infligido à massas, pelas massas e para as massas".
Jonathan Littelll

O livro "As Benevolentes", de Jonathan Littell, chegou ao Brasil em 2006 pelo seloAlfaguara, da Editora Objetiva. Recebeu inúmeras resenhas nos meios de comunicação, todas laudatórias. Não há nada a reparar nesse grande romance de quase 900 páginas. Os superlativos abundam nas resenhas, com justa razão. A melhor que li foi a do escritor Jessé de Almeida Primo, publicada na revista Dicta&Contradicta, que lhe convido a consultar, caro leitor.

O que me absorveu no romance é que o autor foi movido pela paixão que me move com o tema do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. Tenho mergulhado nas raízes o niilismo do século XX, que teve no nazismo um apogeu. Não é possível compreender a catástrofe moral sem buscar suas raízes primeiras e até onde a minha vista pode alcançar elas estão na Reforma e no Renascimento, momentos do advento do "homem revolucionário" no mundo. Este homem deu as costas para Deus e protagonizou a rebelião fáustica: na literatura sobre esse fascinante personagem é que podemos colher a pista sobre a origem e sobre o seu fugaz triunfo nos regimes totalitários.

O homem fáustico teve em Goethe o seu poeta maior. Este alemão antecipou a sua psicologia, sua fome de glória e de terror. Em Goethe está delineada a epopéia nazista. Hitler está contido no Euforion, esse ser inflado incapaz de amar e pronto para maltratar e estuprar quem estivesse pela frente. Goethe descreu sua gênese pelo casamento do Fausto com Helena, essa forma plástica  e poética de excluir qualquer influência de Roma e do cristianismo da Europa onde, por um milênio e meio, a fé cristã triunfou. É uma refinada forma de dizer que o Deus de Moisés e Cristo estava morto. É de Goethe que teremos o cântico mais soturno a Mefistófeles, ele que exaltará a negação como motor da história, idéia depois apropriada por Karl Marx para edificar a mais sangrenta ideologia de todos os tempos.

Jonathan Littell tem portanto razões de sobra para ter recriado sua terrificante história com forma de tragédia grega. Não há dúvida que muito honrou Thomas Mann, esse maior discípulo de Goethe e o mais anti-goethiano dos romancistas, ao menos no seu Doutor Fausto. Este livro é uma das evidentes inspirações de Littell, pois nele está o diagnóstico do drama da modernidade: o doutor que vende a alma ao diabo em troca dos prazeres mundanos e do poder. O personagem de Littell é doutor em Direito, recrutado para ser um oficial da SS, ou seja, um carrasco matador dos supostos inimigos do regimes. Por primeiro os judeus, não sem antes ter começado pelos loucos, velhos e inválidos alemães. O objetivo último era matar todos que eram da seita judaica, ou seja, o cristianismo. Na verdade, o racismo serviu de veículo para a sanha assassina contra toda a humanidade. O ódio demoníaco contra a humanidade estampado com todas as letras.

O personagem principal, o doutor Maximiliano Aue, é uma síntese da deformação moral dos tempos. Incestuoso, homossexual, amoral, falta-lhe o menor resquício de sentimento de culpa, embora tenha consigo esmerada formação humanista. Até a última ação do livro ele mata, por oportunismo e por necessidade. E por instinto. Até seu único amigo é sacrificado covardemente, por motivo torpe.

Terminado o livro eu fui rever o filme A Queda - As Últimas Horas de Hitler, aclamado filme do diretor alemão  Oliver Hirschbiegel, a recriação mais realista e espantosa de como tudo se passou ao final. O que mais me espanta é que a elite intelectual e militar se curvou ao demagogo, sacrificando seu discernimento e sua vontade, cumprindo sem constrangimento as ordens insensatas da hedionda figura de Hitler. Max Aue faz uma longa explanação de como a vontade do Chefe torna-se a única fonte do Direito. Aqui o lapso mental a justificar a quebra da moralidade.

A irmã incestuosa de Max Aue é psicóloga, formada diretamente por Karl Jung. Outro símbolo aqui presente. Jung é aquele que tentou ver a psicologia individual como passível de redenção pela Sombra, pelo mal. O psicólogo suíço é também filho dileto de Goethe. É outra maneira de afirmar o mal como o motor da história. A minha conclusão é contrária a Goethe e a todos os seus filhos: do mal só pode vir o mal, dele não há redenção. Esta só pode vir de Deus. A "obra" macabra do nazismo é a prova mais contundente dessa realidade. A mente revolucionária afirma essa sandice porque deu as costas para Deus. Se este morreu, ou não existe, assume o seu lugar o triunfante Mefistófeles, o "demônio do Norte". Jung, como Goethe, como Nietzsche: são todos adoradores do Negador. E estavam errados, pela graça de Deus.

O livro foi escrito originalmente em francês e Littell provoca grande efeito nos leitores ao manter em alemão os títulos das patentes militares. Dá um tom "alemão" ao livro em qualquer língua. Foi um recurso fantástico descoberto pelo autor.

Algumas passagem do livro são nauseantes, sobretudo aquelas em que cruamente são descritas as pulsões homossexuais do personagem, assim como os assassinatos surpreendentes, como o da sua mãe e padastro.  A narrativa dos massacres de judeus até chegar aos campos de concentração é também terrível e é preciso estômago forte para agüentá-la. Lembrando que não é mera ficção, mas um relato fiel dos acontecimentos.

Em suma, Jonathan Littell consegue na obra descrever a loucura de um indivíduo isolado delirando em consonância com a delírio coletivo de todo um povo. Um feito além do literário, uma síntese da psicologia e da antropologia, usando dos símbolos para executar uma narrativa artística. Embora auto-evidentes, apenas o leitor atento poderá perceber a grande sofisticação do seu uso na narrativa. Por isso o livro é uma obra-prima, talvez a primeira publicada como romance no século XXI.

Não é possível acabar a leitura indiferente. O livro renovou meu interesse pelo tema. Agora é preciso revisitar Goethe e Thomas Mann à luz de Littell. Compreender "As Benevolentes" é literalmente compreender a modernidade e seu mergulhos nas trevas demoníacas. As massas, desamparadas de Deus, encarnam o Beemoth bíblico. São lobos sedentos de sangue humano.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".