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segunda-feira, 16 de julho de 2012

Os "barnabés" da psicologia.


PSICOLOGIA SEM IDEOLOGIA

SÁBADO, 14 DE JULHO DE 2012

“Fala-se dos homossexuais. Trata-se dos homossexuais. Não se curam os homossexuais. E o mais impressionante é que não são curados, a despeito de serem absolutamente curáveis” (Jacques Lacan, Seminário ‘As formações do Inconsciente’, livro 5, Capítulo XI, pág. 214, ed. Jorge Zahar, 1999)

Suponhamos que a Psicanálise estivesse regulamentada como profissão no Brasil e seu órgão de classe fosse à imagem e semelhança do Conselho Federal de Psicologia. Suponhamos ainda, caro leitor, que o eminente psicanalista Jacques Lacan, uma vez nascido brasileiro, cá estivesse entre nós, mais vivo do que nunca. Alguém tem dúvida de que as declarações em epígrafe, feitas durante um de seus inúmeros seminários, seriam motivo suficiente para atiçar a fúria dos ativistas LGBTs, deflagrando contra seu autor uma espécie de campanha macarthista? Creio que não. Com toda certeza, veríamos uma militância radical e facciosa despejar sobre o hipotético “Conselho Federal de Psicanálise” – doravante designado pela sigla CFP – uma saraivada de protestos, denúncias e representações disciplinares, algo capaz de infernizar a vida de qualquer profissional consciencioso. 

Imagine a cena kafkiana: conselheiros do CFP se reúnem às pressas num gabinete cor-de-rosa da capital para redigir censura pública contra um dos maiores psicanalistas do século XX! Como qualquer pessoa razoável, você deve estar se perguntando de que autoridade intelectual ou moral se valem esses conselheiros, e se existiriam de fato motivos plausíveis para punir o psicanalista. Alguma heresia? Algum pecado capital? Algum delito de opinião? Nada disso. A grande encrenca de Jacques Lacan é que sua opinião sobre a “cura gay”, certa ou errada, se pauta unicamente por critérios empíricos, teóricos e/ou clínicos. E se há uma coisa que os conselheiros, ou melhor, que os “comissários do povo” não podem aceitar, é a “alienação” de uma “ciência burguesa”.

Na cartilha submarxista dos comissários, toda e qualquer construção teórica que se atenha aos indícios e evidências da prática clínica, padece de um vício de origem absolutamente intolerável.  Idéias sem pedigree ideológico não assumem “compromissos sociais”, não propiciam o engajamento político ou favorecem a “justiça social”. E não adianta. Por mais que você tente explicar aos comissários que o maior compromisso social da ciência é produzir conhecimento, eles não querem nem saber. O negócio deles é afagar ativistas radiais e barulhentos, coisa que sempre faz sob o nobre pretexto de defender os “direitos humanos”.

É nessa atmosfera mental que pronunciamentos como o de Jacques Lacan, independente do mérito científico que porventura tenham, acabam sendo alvo dos mais variados vitupérios. Como bons burocratas, os comissários do CFP fogem às discussões teóricas, sobretudo quando o assunto é complexo e demanda certo esforço intelectual. Para eles, é mais fácil baixar uma resolução e, usando seu poder de polícia, suprimir possíveis controvérsias.

A lógica stalinista dos comissários do CFP funciona como o tribunal da rainha de copas em Alice nos País das Maravilhas. Se existe uma contenda científica em torno d’algum tema, eles proferem a sentença por meio de uma resolução, e só depois, quando se instaura o processo disciplinar, é que vem o julgamento. Eu sei que o método não é lá muito democrático, mas é o jeito soviético de ser dos nossos comissários.

Agora, sejamos francos: existe gesto mais boçal do que “barnabés” de uma repartição pública chamando às falas um intelectual do porte de Jacques Lacan? Logo ele, um queridinho das esquerdas, acusado injustamente de “reforçar preconceitos sociais” (vide art. 3º da resolução 01/99), apenas porque teve a petulância de defender publicamente a tal “cura gay”? Quanta infâmia, não?!

E se esse linguarudo pensa que seus problemas acabaram, está enganado. Tão-logo os ativistas gays se dêem conta de que suas mais loucas pretensões foram averbadas pelo carimbo de um órgão oficial, eles largam o mundo da fantasia e passam imediatamente ao ato, iniciando uma verdadeira caça às bruxas contra o ilustre psicanalista. Assim, eles se infiltram no seu consultório, filmam clandestinamente sua prática clínica, jogam sua reputação profissional na sarjeta, até que o pobre coitado, infectado por uma espécie de lepra social, perde por completo os meios de subsistência. Quem não já viu esse filme? Basta lembrar o caso da psicóloga Rozângela Justino, contra a qual foi perpetrado o maior “assassinato de personalidade” já registrado na história da psicologia brasileira.

Mas, caro leitor, nem só de simpatias gayzistas vive nosso hipotético CFP. As teses materialistas e atéias também despertam afinidades entre os comissários. Embora não cheguem ao ponto de assumi-las publicamente, suas tendências niilistas acabam transparecendo sob a forma atenuada de um discurso laicizante. Com a alegação de que defendem uma “ciência secular” desde a autoridade de um Estado laico, o CFP crê piamente que pode impedir psicólogos de professar sua fé ou manifestar adesão a valores religiosos. Nem precisa lembrá-los de que as garantias constitucionais, válidas para todos os cidadãos, também se aplicam aos psicólogos.  Basta que eles entendam que, num Estado laico, só quem não pode ostentar preferências religiosas é o próprio poder público, e não os cidadãos que ele governa. O mesmo raciocínio se aplica à relação que existe entre o CFP e seus associados.

Eu me pergunto, cá com os meus botões, o que fariam os comissários do CFP se um dia topassem com as seguintes declarações: 

1. “Coisa alguma da mensagem do Cristo está em contradição com as descobertas freudianas”  

2. “Freud, sem o saber, estabeleceu uma base empírica de vida que está de acordo com o ideal cristão.”

Alguém arriscaria um palpite sobre sua autoria? Quem pensou na psicóloga Marisa Lobo, errou. Tais declarações partiram de dois renomados psicanalistas, a saber, François Dolto e Gregory Zilboorg, respectivamente. A primeira delas foi retirada do livro Os Evangelhos à luz da Psicanálise (Verus editora, 2010) e a segunda, do livro Psicanálise e Religião (Editora Vozes, 1969). Ambos eram cristãos professos e escreveram obras com o objetivo de, cada um a seu modo, estabelecer interseções entre a religião cristã, a mensagem bíblica e a psicanálise. E fizeram isso, diga-se de passagem, com uma boa dose de criatividade. Mas será que os comissários do nosso hipotético CFP teriam a audácia de intimar os psicanalistas cristãos à sede da autarquia, e em seguida ameaçar-lhes com um processo disciplinar, caso as menções ao cristianismo não fossem retiradas de suas obras num prazo de 15 dias? Chegariam a tanto? Ninguém se sabe...

O certo é que a tragédia da psicologia brasileira, como se vê, beira o mais rematado ridículo. Os conselhos de psicologia, em sua maior parte, foram tomados por uma horda de bárbaros, uma arraia-miúda cuja mentalidade foi forjada na agitação das passeatas, na violência dos piquetes e no burburinho dos diretórios acadêmicos. Quanto mais intelectualmente inepta, quanto mais inculta, tanto mais essa corriola exala seu fanatismo ideológico.  Como não possui argumentos, persegue, intimida e protesta com gritos e palavras de ordem.  Quando dialoga, o faz com aquela linguagem manietada dos clichês e slogans politicamente corretos. Enfim, seus atos e pensamentos refletem os paradoxos de uma loucura: são intolerantes quando clamam por tolerância, totalitários quando defendem a diversidade, injustos quando reivindicam direitos e autoritários em nome da democracia. Viva o comissariado do povo!

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".