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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Os fundamentos econômicos da liberdade

INSTITUTO LUDWIG VON MISES BRASIL
Liberdade - Propiedade - Paz


Durante um de seus seminários, um estudante perguntou ao Professor Mises, "Por que não são todos os empresários que são a favor do capitalismo?". "Essa pergunta", Mises respondeu, "é  inerentemente marxista." A resposta de Mises chocou-me à época. Demorou algum tempo para que eu pudesse entender o que ele quis dizer. O autor da pergunta presumiu, assim como Karl Marx, que empresários eram um grupo que tinha um interesse especial - ou um interesse de "classe" - no capitalismo, interesse esse que outras pessoas não tinham.


"O capitalismo", prosseguiu Mises, "beneficia a todos: não apenas os consumidores, mas as massas em geral. Ele não beneficia apenas os homens de negócios. Na realidade, no sistema capitalista alguns homens de negócios sofrem prejuízos. A posição de um empresário no mercado nunca está garantida; a porta sempre está aberta para concorrentes que podem desafiar sua posição e, assim, privá-lo de lucros. No entanto, é exatamente essa concorrência sob o capitalismo que garante aos consumidores que os empresários farão seu melhor para fornecer a eles, os consumidores, os bens e serviços que querem."


Em vários de seus artigos, Mises sempre deixou claro, repetidas vezes, que não é um apologista de empresas e empresários. Ele está interessado é em determinar o sistema econômico que mais aprimora o bem-estar dos indivíduos e as condições de vida das massas. E esse sistema econômico é a liberdade econômica sob o capitalismo. Somente em um ambiente de liberdade econômica, dizia Mises, mais bens e serviços serão produzidos. Somente sob o capitalismo é que os salários sobem e o padrão de vida das massas melhora progressivamente. A razão? Os consumidores são soberanos no livre mercado capitalista. Eles estão em posição de deixar os empresários saberem o que eles querem com mais urgência, recompensando com lucros aqueles que satisfazem seus desejos e impondo prejuízos - isto é, retirando riqueza - àqueles que fracassam. É esse sistema de recompensas e penalidades que guia a produção e que garante que mais dos bens e serviços que os consumidores querem serão produzidos, elevando assim os salários dos trabalhadores e o padrão de vida de todos.


O mercado é a conseqüência da cooperação social pacífica e da liberdade econômica. E é o mercado que torna possível a liberdade, a justiça, a moralidade, a inovação e a harmonia social. Como escreveu Mises:


"Um homem só tem liberdade enquanto puder moldar sua vida de acordo com seus planos", e

"A moralidade só faz sentido quando dirigida para indivíduos que são agentes livres."

 

Bettina Bien Greaves



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Os animais são guiados por desejos instintivos. São seres que se entregam a qualquer que seja o impulso prevalecente em dado momento, impulso esse que clama categoricamente por sua satisfação. Os animais são simples marionetes de seu próprio apetite.


Já a superioridade do homem pode ser comprovada no fato de ele ter a capacidade de escolher entre alternativas. Ele regula seu comportamento deliberadamente. Ele pode controlar seus impulsos e desejos; ele tem o poder de suprimir aqueles desejos cuja satisfação o forçaria a renunciar à realização de outros objetivos mais importantes. Em resumo: o homem age; ele propositalmente concentra esforços para atingir os fins por ele escolhidos. É isso que temos em mente ao declararmos que o homem é um ser moral, responsável por sua conduta.


A liberdade como um postulado da moralidade


Todos os ensinamentos e preceitos da ética - sejam eles baseados em um credo religioso ou em uma doutrina secular como a dos filósofos estóicos - pressupõem essa autonomia moral do indivíduo e, portanto, apelam à sua consciência. Esses ensinamentos pressupõem que o indivíduo é livre para escolher entre vários modos de conduta e requerem que ele se comporte em conformidade com regras definidas, as regras da moralidade. Ou seja: que ele faça as coisas certas e se afaste das erradas.


É óbvio que as exortações e as repreensões da moralidade somente fazem sentido quando voltadas para indivíduos que são agentes livres. Elas são totalmente vãs quando direcionadas para escravos. É inútil dizer a um escravo o que é moralmente bom e o que é moralmente ruim. Ele não é livre para determinar seu comportamento; ele é forçado a obedecer às ordens de seu mestre. É difícil culpá-lo se ele prefere se entregar aos comandos de seu mestre ao invés de desobedecê-lo, quando se sabe que a desobediência significará a mais cruel punição não só para ele, mas também para os membros de sua família.


É por isso que a liberdade não é apenas um postulado político; ela é um postulado de toda a moralidade, seja ela religiosa ou secular.


A luta pela liberdade


Entretanto, durante milhares de anos uma parte considerável da humanidade esteve inteiramente, ou ao menos em muitos aspectos, privada da faculdade de escolher entre o que era certo e o que era errado. Na sociedade daquela época, a liberdade para agir de acordo com sua própria escolha era - para as camadas mais baixas da sociedade, a grande maioria da população - restringida seriamente por um rígido sistema de controles. Uma formulação abertamente franca desse princípio foi o estatuto do Sacro Império Romano-Germânico, que conferia aos príncipes e condes do Reich (Império) o poder e o direito de determinar a fidelidade religiosa de seus súditos.


Os orientais docilmente se sujeitaram a essa situação. Mas os povos cristãos da Europa e seus descendentes que se estabeleceram em territórios além-mar nunca se cansaram de batalhar pela liberdade. Passo a passo eles aboliram todos os privilégios de casta e todas as desvantagens de determinadas posições sociais até que finalmente tiveram êxito na criação de um sistema. E esse sistema é aquele que os arautos do totalitarismo tentam difamar pela alcunha de sistema burguês.


A supremacia dos consumidores


A fundação econômica desse sistema burguês é a economia de mercado, na qual o consumidor é o soberano. O consumidor - ou seja, toda a população - determina, através do ato de comprar e o de não comprar, o que deve ser produzido, em qual quantidade e com que qualidade. Os empresários são forçados, por meio do instrumental de lucros e prejuízos, a obedecer às ordens dos consumidores. Somente irão prosperar aquelas empresas que fornecerem, da melhor e mais barata maneira, as mercadorias e serviços que os compradores estão mais ansiosos para obter. Aqueles que fracassarem em satisfazer o público sofrerão prejuízos e finalmente serão forçados a abandonar os negócios.


Nas eras pré-capitalistas, os ricos eram aqueles proprietários dos grandes terrenos e imóveis. Eles e seus ancestrais adquiriram sua propriedade, os feudos, como presente dado pelos soberanos que - com sua ajuda - conquistaram territórios e subjugaram seus habitantes. Esses aristocráticos proprietários de terras eram verdadeiros lordes, pois não estavam sob o jugo do público consumidor. Por outro lado, os ricos de uma sociedade industrial capitalista estão sempre sujeitos à supremacia do mercado. Eles adquirem sua riqueza ao servir os consumidores de uma forma melhor e mais eficiente do que outras pessoas, e perdem sua riqueza quando essas outras pessoas satisfazem os desejos dos consumidores de uma forma melhor e mais barata do que eles. Em uma economia de livre mercado, os donos do capital são forçados investi-lo naquelas linhas que melhor irão servir o público. Assim, a propriedade dos bens de capital é algo que se transfere continuamente para as mãos daqueles que mais têm êxito em servir aos consumidores. Nesse sentido, é a economia de mercado baseada na propriedade privada que representa o verdadeiro serviço público: é ela que impõe aos proprietários a responsabilidade de empregar seu capital no melhor dos interesses dos consumidores soberanos. É a isso que os economistas se referem quando eles dizem que a economia de mercado uma democracia na qual cada centavo dá direito a voto.


Os aspectos políticos da liberdade


O governo representativo é o corolário político da economia de mercado. O mesmo movimento espiritual que criou o capitalismo moderno substituiu o domínio autoritário dos reis absolutistas e das aristocracias hereditárias pelo sistema de representantes democraticamente eleitos.[1] Foi esse tão menosprezado liberalismo burguês que trouxe a liberdade de escolhas, de pensamento, de expressão e de imprensa, e pôs fim à intolerante perseguição de dissidentes.


Um país livre é aquele em que cada indivíduo tem a liberdade de moldar sua vida de acordo com seus próprios planos. Ele é livre para concorrer no mercado em busca dos empregos mais desejáveis e, no cenário político, dos cargos mais altos. A sua dependência em relação a favores alheios não é maior do que a dependência dos outros em relação a ele. Se ele quiser ter êxito no mercado, terá de satisfazer os consumidores; se quiser ter êxito na vida política, terá de satisfazer os eleitores. Esse sistema trouxe aos países capitalistas da Europa Ocidental, América do Norte e Austrália um aumento demográfico sem precedentes e o mais alto padrão de vida jamais visto na história. O cidadão médio, sobre o qual tanto se fala, tem hoje à sua disposição amenidades e confortos com os quais os homens mais ricos das eras pré-capitalistas sequer sonhavam. Ele tem o privilégio de poder desfrutar das conquistas espirituais e intelectuais da ciência, da poesia e da arte, coisa que, no passado, eram acessíveis apenas a uma pequena elite de pessoas abastadas. E ele é livre para adorar e cultuar os símbolos religiosos que bem quiser.


A distorção socialista da economia de mercado


Todos os fatos a respeito da operação do sistema capitalista foram deturpados e distorcidos por políticos e escritores contrários à escola de pensamento que, no século XIX, esmagou o domínio arbitrário de monarcas e aristocratas e pavimentou o caminho para o livre comércio e a livre empresa. Essa escola chama-se liberalismo. Do ponto de vista desses defensores do retorno ao despotismo, todos os males que atormentam a humanidade se devem às sinistras maquinações feitas pelas grandes empresas. O que é necessário fazer para levar riqueza e felicidade para todas as pessoas decentes é colocar as corporações sob estrito controle governamental. Eles admitem, ainda que bem indiretamente, que isso significa a adoção do socialismo, o sistema vigente na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mas eles declaram que o socialismo será algo inteiramente diferente nos países da civilização Ocidental em relação àquilo que é na Rússia. E ademais, dizem eles, não há outra maneira de despojar as gigantescas corporações do enorme poder que elas adquiriram e impedir que elas sigam prejudicando os interesses populares.


Contra toda essa propaganda fanática, torna-se necessário enfatizar repetidas vezes a verdade: foram as grandes empresas que tornaram possível a melhora sem precedentes do padrão de vida das massas. Para um relativamente pequeno número de abastados, bens de luxo podem ser produzidos por empresas de pequeno porte. Mas o princípio fundamental do capitalismo é produzir para satisfazer as necessidades e desejos da maioria. As mesmas pessoas que estão empregadas nas grandes corporações são as consumidoras principais dos bens produzidos. Se você olhar ao redor das casas das famílias de classe-média, entenderá o que estou dizendo. São as grandes empresas que tornaram todas as conquistas da tecnologia moderna acessíveis ao homem comum. Todas as pessoas são beneficiadas pela alta produtividade da produção em larga escala.


É tolice falar sobre o "poder" das grandes empresas. A marca intrínseca do capitalismo é que o poder supremo em todas as questões econômicas é conferido aos consumidores. Todas as grandes empresas tiveram um começo modesto e se tornaram grandes justamente porque o apoio dado pelos consumidores as fez crescer. Seria impossível que pequenas e médias empresas criassem os mesmos produtos dos quais, hoje, nenhum cidadão médio consegue abrir mão. Quanto maior é uma corporação, mais ela depende da prontidão do consumidor para comprar suas mercadorias. Foram os desejos - ou, dizem alguns, a tolice - dos consumidores que levaram a indústria automotiva a produzir carros cada vez maiores para, logo depois, forçá-las a fabricar novamente carros menores. Redes de lojas e lojas de departamento necessitam ajustar diariamente suas operações para poder satisfazer as mudanças de desejos de seus clientes. A lei fundamental do mercado é: quem manda é o consumidor.


Qualquer um que critique a conduta dos negócios feitos no mercado e tenha a pretensão de saber métodos melhores para a provisão dos consumidores não passa de um tagarela desocupado. Se ele acha que seus esquemas são melhores, então por que ele próprio não os aplica? Sempre haverá capitalistas à procura de um investimento lucrativo para seus fundos. Estes se mostrarão dispostos a fornecer ao tagarela o capital necessário para qualquer inovação sensata. E o público sempre estará ávido para comprar o que for melhor, ou mais barato, ou que for simultaneamente melhor e mais barato. O que vale no mercado não são devaneios fantásticos, mas, sim, ação. Não foi o falatório que enriqueceu os "magnatas", mas o serviço prestado aos consumidores.[2]


O acúmulo de capital beneficia a todos


Virou moda hoje em dia ignorar silenciosamente o fato de que toda e qualquer melhoria econômica depende da poupança e do acúmulo de capital. Nenhuma das maravilhosas conquistas da ciência e da tecnologia poderia ter sido posta em prática se o capital requerido não tivesse sido previamente disponibilizado. O que impede que as nações economicamente atrasadas façam uso pleno dos métodos ocidentais de produção - inação essa que mantém empobrecida sua população - não é a infamiliaridade com os ensinamentos tecnológicos, mas sua insuficiência de capital. Trata-se de uma avaliação seriamente incorreta dizer que os problemas enfrentados pelos países desenvolvidos se devem à sua falta de conhecimento técnico, o chamado "know how". Seus empresários e seus engenheiros, grande parte deles graduados nas melhores universidades dos EUA e da Europa, estão bem familiarizados com o estado da atual ciência aplicada. O que amarra suas mãos é a escassez de capital.


Cem anos atrás os EUA eram ainda mais pobres do que essas nações atrasadas. O que fez com que os EUA se tornassem o país mais afluente do mundo foi o fato de que o "individualismo vigoroso" dos anos anteriores ao New Deal não colocou obstáculos muito pesados no caminho dos homens empreendedores. Os empresários desse país enriqueceram porque reinvestiram a maior parte dos seus lucros em seus negócios, e consumiram apenas uma pequena parte deles em proveito próprio. Assim, eles enriqueceram não apenas eles próprios mas também todas as outras pessoas. Foi essa acumulação de capital que elevou a produtividade marginal do trabalho e, consequentemente, os salários.


No capitalismo genuíno, a cobiça de um empreendedor individual beneficia não apenas ele próprio, mas também todas as outras pessoas. Há uma relação recíproca entre sua aquisição de riqueza - seja por meio dos serviços prestados aos consumidores, seja por sua acumulação de capital - e a melhora do padrão de vida dos assalariados que formam o grosso dos consumidores. As massas - tanto na sua condição de assalariados, como na de consumidores - estão interessadas é na florescência dos negócios. É isso que os antigos liberais tinham em mente quando declararam que, na economia de mercado, prevalece uma harmonia dos verdadeiros interesses de todos os grupos da população.


O bem-estar econômico ameaçado pelo estatismo


Foi na atmosfera mental e moral desse sistema capitalista que o cidadão americano enriqueceu. Ainda existem em algumas partes dos EUA condições que aparentam ser, para os prósperos habitantes dos avançados distritos do país, que são a maioria, altamente insatisfatórias. Mas o rápido progresso da industrialização já teria há muito acabado com esses bolsões de atraso não fossem as infelizes políticas do New Deal, que reduziram bruscamente a acumulação de capital - essa insubstituível ferramenta para o melhoramento econômico.


Acostumado às condições de um ambiente capitalista, o americano médio já toma como certo que a cada ano o mercado irá criar algo novo e mais acessível pra ele. Olhando para trás, relembrando seu próprio passado, ele percebe que muitos objetos que lhe eram totalmente desconhecidos nos dias de sua juventude, bem como muitos outros que àquela época só podiam ser desfrutados por uma minoria ínfima, já são hoje o equipamento padrão de quase todas as famílias. Ele está totalmente confiante que essa tendência vai continuar no futuro. Ele simplesmente chama isso de "o estilo americano de vida", e não pára muito para pensar no que tornou possível essa contínua melhora na oferta de bens materiais. Ele não está devidamente preocupado com o avanço de alguns fatores destinados não apenas a impedir uma ulterior acumulação de capital, mas que podem muito brevemente levar a uma desacumulação de capital. Ele não se opõe às forças que - ao aumentar estupidamente o gasto público, ao reduzir a acumulação de capital, ao consumir partes do capital investido nos negócios e, em última instância, ao inflacionar a oferta monetária - estão enfraquecendo as genuínas fundações de seu bem-estar material. Ele não está preocupado com o crescimento do estatismo, um sistema que, onde quer que foi aplicado, sempre resultou na produção e na preservação de condições que, a seus olhos, seriam horripilantemente miseráveis.


Não há liberdade pessoal sem liberdade econômica


Infelizmente, muitos de nossos contemporâneos são incapazes de perceber quais seriam as conseqüências de uma mudança radical nas condições morais do homem, da ascensão do estatismo e da substituição da economia de mercado pela onipotência do estado. Eles são iludidos pela idéia de que prevalece um dualismo bem definido nas relações do homem. Eles crêem que é possível separar, de um lado, toda a esfera das atividades econômicas e, de outro, toda a esfera das atividades consideradas não econômicas. E entre essas duas esferas, crêem eles, não há qualquer conexão. A liberdade que o socialismo abole é "apenas" a liberdade econômica, enquanto que a liberdade em todas as outras questões permanece intocada.


Entretanto, essas duas esferas não são independentes uma da outra, como assume essa doutrina. Os seres humanos não flutuam em regiões etéreas. Tudo o que um homem faz tem necessariamente que, de uma maneira ou de outra, afetar a esfera econômica ou material - o que requer que ele interfira nessa esfera. Para poder continuar existindo, ele precisa laborar arduamente e lidar com alguns bens tangíveis.


A confusão está explícita na idéia popular de que o que ocorre no mercado refere-se apenas ao lado econômico da vida e da ação humana. Mas, na verdade, os preços de mercado refletem não apenas "interesses materiais" - como conseguir comida, abrigo ou outras amenidades -, mas refletem também aqueles interesses que são costumeiramente chamados de espirituais, nobres, superiores. Por exemplo: o cumprimento ou o não cumprimento de mandamentos religiosos - se abster de certas atividades completamente ou em dias específicos, assistir os necessitados, construir e manter casas de culto religioso, e muitos outros - é um dos fatores que determinam a oferta e a demanda de vários bens de consumo, o que necessita de preços - como sinalizadores de mercado -, que por sua vez necessitam da conduta dos negócios no mercado. Assim, a liberdade que a economia de mercado garante ao indivíduo não é meramente "econômica"; ela se estende para todas as outras áreas. Ela não se distingue de qualquer outro tipo de liberdade. Ela também implica na liberdade de determinar todas as outras questões que são consideradas morais, espirituais e intelectuais.


Ao controlar absolutamente todos os fatores de produção, o regime socialista controla também a vida de cada indivíduo. O governo determina para cada indivíduo um emprego específico. Ele determina quais livros e jornais devem ser impressos e lidos, quem deve gozar da oportunidade de poder escrever, quem pode ter o direito de usar as salas de montagem para transmitir e usar todos os outros instrumentos de comunicação. Isso significa que aqueles no controle da conduta suprema dos assuntos do governo determinam, em última instância, quais idéias, ensinamentos e doutrinas podem ser propagados, e quais não. O que quer que uma constituição escrita e promulgada possa dizer sobre a liberdade de escolha, de pensamento, de expressão e de imprensa, bem como sobre a neutralidade em questões religiosas, em um país socialista se torna letra morta caso o governo confisque os meios materiais que possibilitam o exercício desses direitos. Aquele que monopoliza todos os meios de comunicação tem o total poder de manter uma mão firme sobre as mentes e as almas dos indivíduos.


O que torna muitas pessoas cegas às características essenciais de qualquer sistema socialista ou totalitário é a ilusão de que esse sistema será conduzido precisamente da maneira que elas próprias consideram desejável. Ao apoiar o socialismo, eles tomam como certo que o "estado" irá sempre fazer aquilo que elas querem que ele faça. Apenas aquele tipo de totalitarismo em que os regentes acatam suas idéias é que é chamado de socialismo "verdadeiro", "real" ou "bom". Todos os outros tipos são denunciados como falsificados. O que elas esperam em primeiro lugar é que o ditador suprima todas aquelas idéias com as quais elas discordam. De fato, todos esses apoiadores do socialismo sofrem, sem que percebam, desse complexo ditatorial ou autoritário. Elas querem que todas as opiniões e planos com os quais discordam sejam esmagados por uma ação violenta da parte do governo.


O significado do direito efetivo de dissentir


Os vários grupos que advogam o socialismo - não interessa se eles se chamam a si próprios de comunistas, socialistas ou reformadores sociais - concordam com seu programa econômico essencial. Todos eles querem substituir a economia de mercado e a supremacia dos consumidores individuais pelo controle estatal - ou, como alguns deles preferem dizer, controle social - das atividades produtivas. O que separa alguns grupos de outros não são questões de gerenciamento econômico, mas convicções religiosas e ideológicas. Existem socialistas cristãos - católicos, protestantes e outras denominações - e existem socialistas ateus. Cada uma dessas variedades toma por garantido que a futura nação socialista será guiada, no caso dos religiosos, pelos mesmos preceitos da sua fé, ou, no caso dos ateus, pela rejeição de qualquer credo religioso. Eles nunca pensam na possibilidade de que o regime socialista possa vir a ser dirigido por homens hostis à sua fé e aos seus princípios morais. Homens que podem considerar como sua tarefa principal utilizar todo o enorme poder do aparato socialista para suprimir aquilo que, do seu ponto de vista, é um erro, uma superstição, ou uma idolatria.


A simples verdade é que apenas onde há independência econômica em relação ao governo os indivíduos podem ser livres para escolher entre o que consideram certo ou errado. Um governo socialista tem o poder de tornar qualquer discordância impossível, discriminando contra grupos religiosos e ideológicos não desejados e negando a eles todos os instrumentos materiais necessários para a propagação e a prática de suas convicções. O sistema de partido único, o princípio político da regra socialista, significa também um sistema de religião e moralidade única. Um governo socialista tem à sua disposição meios que podem ser usados para a obtenção de uma rigorosa conformidade para com todos os aspectos; Gleichschaltung(conformidade política), como os nazistas chamavam. Os historiadores já mostraram o papel importante que a imprensa teve durante a Reforma. Quais seriam as chances dos reformadores se toda a imprensa estivesse sendo operada pelos governos liderados por Carlos V, da Alemanha, e pela Casa de Valois, da França?[3] E, por falar nisso, quais seriam as chances de Marx em um sistema no qual todos os meios de comunicação estivessem nas mãos dos governos?


Qualquer um que queira liberdade de idéias tem de abominar o socialismo. É claro, a liberdade permite ao homem fazer não apenas coisas boas, mas também coisas erradas. Mas nenhum valor moral pode ser atribuído a uma ação - por melhor que ela seja - que tenha sido feita sob a pressão de um governo onipotente.


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Ludwig von Mises (1881-1973) foi o deão da Escola Austríaca. Ele escreveu 25 livros sobre economia, filosofia e história. Esse ensaio foi publicado no livro Economic Freedom and Interventionism.


[1] Apesar de Mises ter sido, na época, um entusiasta da democracia, isso não significa que todo o movimento austríaco atual apóie essa idéia. Com o passar do tempo, a democracia foi corrompida a tal ponto que, hoje, se tornou difícil distingui-la de outras formas de totalitarismo, conquanto mais branda. Leia o artigo de Hans-Hermann Hoppe, Democracia - o deus que falhou. [N. do T.]


[2] No Brasil, infelizmente, criou-se uma maneira fácil, rápida e imoral de enriquecimento: o serviço público. Nele, não há cobranças, não há riscos e não há - ao contrário do mercado - como levar incompetentes à falência. E o que é ainda pior: todos os proventos de seus membros advêm do roubo, pura e simplesmente.[N. do T.]


[3] Carlos V, da Alemanha (1500-1558), um católico devoto, oprimiu heresias religiosas nos Países Baixos e lutou para suprimir o luteranismo nos principados alemães. Durante o reinado dos reis Valois da França (1328-1589), guerras religiosas eclodiram, uma vez que os protestantes franceses, incluindo os huguenotes, lutavam pela liberdade de culto.


 

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

Será que precisamos de mais Keynes agora?

INSTITUTO LUDWIG VON MISES BRASIL Liberdade - Propiedade - Paz


Por Frank Shostak

 

KeynesMagician.jpgAgora que os governos e bancos centrais estão submetendo suas respectivas economias a agressivas políticas monetárias e fiscais, muitas pessoas dizem que as idéias de Keynes voltaram à moda. Ouvimos constantemente que os remédios keynesianos podem impedir que as economias mundiais mergulhem em um severo colapso econômico. Nos Estados Unidos, por exemplo, Republicanos e Democratas estão competindo ferozmente entre si para ver que será o primeiro a submeter a economia americana a inúmeros pacotes de estímulo. Sobre isso, o Financial Times recentemente escreveu,


As recaídas keynesianas tomam formas diferenciadas. Para os Republicanos, este o momento de se propor novos cortes de impostos para os pequenos negócios, incluindo uma suspensão do imposto sobre ganhos de capital, o que muitos acreditam que iria ajudar a estimular a atividade econômica. Já os Democratas preferem uma expansão do seguro-desemprego e do auxílio-alimentação, além de uma ajuda aos proprietários de imóveis que estejam em apuros.


Não obstante os trilhões de dólares que os bancos centrais de todo o mundo já injetaram na economia, alguns ilustres comentaristas asseguram que a quantia ainda não foi suficiente. Por exemplo, Martin Wolfdisse que,


Entretanto, sob as atuais condições, uma política monetária será insuficiente. Esta é uma situação keynesiana que requer remédios keynesianos. Os déficits orçamentários chegarão a níveis outrora considerados inimagináveis. Que assim seja.


É extraordinário sugerir que as idéias de Keynes estejam somente agora retornando para salvar o mundo. As idéias keynesianas jamais deixaram as salas dos estrategistas dos governos e dos bancos centrais. A essência do pensamento dos mais influentes economistas sempre foi keynesiana. Logo, os vários pacotes de estímulo que estão sendo apresentados agora são apenas uma continuação das mesmas políticas keynesianas às quais estamos submetidos há muitas décadas. A atual crise econômica é o resultado da enorme dose de keynesianismo que nos foi ministrada nos últimos anos.


Fazendo um breve resumo, John Maynard Keynes dizia que não se pode confiar plenamente na economia de mercado, que é inerentemente instável. Se deixada livre, a economia de mercado poderia se auto-destruir. Daí a necessidade de os governos e bancos centrais gerenciarem a economia.


Um gerenciamento de sucesso, na abordagem keynesiana, é aquele que influencia o gasto geral da economia. É o gasto que gera a renda. O gasto feito por um indivíduo se transforma em renda para outro indivíduo, de acordo com Keynes. Quanto mais for o gasto, melhor será para todos. O que comanda a economia, portanto, é o gasto geral.


Consumo e produção


Na abordagem keynesiana, a parte mais significante do gasto é determinada pelas despesas do consumidor. Portanto, o motor da economia são as despesas com consumo. É o consumo que gera o crescimento econômico real.


Mas será que o consumo é mesmo o motor da economia? É necessário fazer uma distinção entre consumo produtivo e consumo improdutivo. Enquanto que o consumo produtivo é um agente de crescimento econômico, o consumo improdutivo gera apenas empobrecimento econômico.


Consumo produtivo


Um padeiro poupa (deixa de consumir) dez pães para poder trocá-los por dez batatas. As batatas passam agora a sustentar (ou financiar) o padeiro enquanto este está envolvido na manufatura de pães. Da mesma forma, os pães servirão para sustentar o fazendeiro enquanto este estiver envolvido na produção de batatas. São as respectivas produções empreendidas pelo padeiro e pelo produtor de batatas que permitem que eles consigam bens de consumo.


O que torna o consumo produtivo neste exemplo é o fato de que tanto o padeiro quanto o produtor de batatas consomem para poder produzir. O consumo de ambos mantém suas vidas e seu bem-estar. Essa é a única razão da produção.


A introdução do dinheiro em nada altera o que foi dito até agora. Por exemplo, o padeiro pode trocar seus dez pães por $10 e então utilizar esse dinheiro para obter dez batatas. Da mesma forma, o produtor de batatas pode agora trocar seus $10 por dez pães. Observe que, à exceção de ter cumprido seu papel de meio de troca, o dinheiro não contribuiu em absolutamente nada para a produção de pães e batatas.


Consumo improdutivo


Até agora, vimos que, para obter batatas, o padeiro teve de trocar pão por dinheiro para então poder trocar esse dinheiro por batatas. Alguma coisa foi trocada por dinheiro que, por sua vez, foi trocado por uma outra coisa - uma coisa é trocada por outra coisa por intermédio do dinheiro.


Até aí, tudo certo.


Mas o real problema surge quando o dinheiro passa a ser criado "do nada". Tal criação de dinheiro estimula o consumo sem que tenha havido qualquer aumento na produção. Essa "falsificação" de dinheiro faz com que alguma coisa seja obtida em troca de nada.


Por exemplo, imagine que um falsificador imprima uma perfeita cédula de $20. Ele não obteve esse dinheiro por meio da produção de algum bem ou pela prestação de algum serviço. Ele não teve de produzir nada para ganhar esse dinheiro. O dinheiro simplesmente foi criado do nada. Portanto, o falsificador obteve $20 sem ter de dar nada em troca.


O falsificador então utiliza esses $20 para comprar dez pães. O que houve nesse caso? Os recursos reais - dez pães - que seriam utilizados pelo produtor de batatas para financiá-lo foram desviados para o falsificador. Observe que esse desvio ocorreu porque o falsificador foi capaz de pagar um preço maior pelo pão - ele paga $2 por pão; antes, o preço era de $1 por pão. Observe também que, dado que o falsificador não produz nada de útil, o consumo no qual ele está incorrendo é improdutivo.


Ao produtor de batatas agora lhe é negado o pão que ele precisa consumir para se sustentar enquanto estiver produzindo batatas. Obviamente isso irá prejudicar a produção de batatas. Como resultado, menos batatas serão disponibilizadas, o que consequentemente irá afetar o consumo do padeiro, o que debilitará sua capacidade de produção.


Podemos ver que, enquanto o consumo produtivo sustenta as atividades geradoras de riqueza e promove a expansão da riqueza real, o consumo improdutivo leva apenas ao empobrecimento econômico.


Um banco central imprimindo dinheiro produz exatamente o mesmo efeito danoso do dinheiro falsificado do exemplo acima. O mesmo é válido para a criação de dinheiro por meio do sistema bancário de reservas fracionárias. Ambos são igualmente perniciosos. A expansão do dinheiro sem o correspondente lastro na produção cria as bases para o consumo improdutivo - é um agente da destruição econômica.


Segundo a abordagem keynesiana, durante uma recessão, quando os consumidores tendem a diminuir seus gastos em consumo, o governo tem a função de intervir e aumentar seu próprio gasto. Por exemplo, o governo pode colocar vários indivíduos desempregados para cavar buracos no chão.


O dinheiro que o governo paga a esses trabalhadores irá estimular o consumo deles, e isso consequentemente irá elevar a renda total da economia. De acordo com esse modelo, não interessa se buracos no chão contribuem para o bem-estar das pessoas; o que de fato interessa é que as pessoas estão sendo pagas e irão utilizar esse dinheiro para estimular o consumo.


Mas acontece que o governo não ganha dinheiro assim como as outras pessoas no mercado. O governo não é um gerador de riquezas. Assim, como é que ele vai pagar os vários indivíduos que estão empregados em projetos não geradores de riqueza? Ele pode obter o dinheiro por três métodos: tributação, pedindo ao banco central que imprima o dinheiro ou pedindo empréstimos. Excetuando-se os empréstimos externos, todas as três opções acima se resumem a tomar a riqueza dos seus genuínos geradores e desviá-la para as atividades do governo. O resultado será o mesmo daquele alcançado pela impressão de dinheiro: o consumo improdutivo.


De acordo com Mises,


é preciso enfatizar o fato óbvio de que um governo somente pode gastar ou investir aquilo que tira dos cidadãos, e que os gastos e investimentos adicionais diminuem, na mesma medida, os gastos e os investimentos que seriam feitos pelos cidadãos.


Disso, podemos concluir que, sendo o governo um ente que não gera riquezas, ele consequentemente não pode fazer a economia crescer em termos reais. Contrariamente à crença popular, quanto mais o governo gastar, pior será para a saúde da economia e, por conseguinte, para o crescimento econômico.


Os pacotes de socorro financeiro destinados a salvar as economias mundiais estão apenas criando os fundamentos para mais sofrimento durante os meses vindouros. Muitos comentaristas e especialistas econômicos que defendem fortes medidas de estímulos governamentais nunca se preocuparam em perguntar como essas medidas serão financiadas - e por financiamento estamos nos referindo à coisa real: de onde virão todos os pães e batatas?


Não ocorre aos simpatizantes do keynesianismo que foram exatamente as políticas fiscais e monetárias da década passada que geraram todo o consumo improdutivo. O resultado de tudo isso foram as inúmeras bolhas que surgiram por toda a economia mundial e que agora estão necessariamente estourando. Como acreditar ser possível que as mesmas políticas econômicas keynesianas que causaram danos maciços aos produtores de riqueza irão reativar a economia?


Implementar mais políticas keynesianas é exatamente o oposto do que deve ser feito agora: permitir que os produtores de riqueza tenham plena liberdade para começar a gerar riqueza genuína. O mundo precisa de uma abundância de consumo produtivo. Mais gastos governamentais e uma criação maciça de dinheiro pelos bancos centrais servirão apenas para fortalecer o consumo improdutivo, adiando as perspectivas de uma significativa recuperação econômica.


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Frank Shostak é um scholar adjunto do Mises Institute e um colaborador freqüente do Mises.org. Ele é o economista-chefe da M.F. Global.


 

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

Hegel, "papai espiritual"de Marx

GULAGS, A HERANÇA SOCIALISTA

"Hegel, imposto de cima pelos poderes vigentes como o Grande Filósofo oficializado, era um charlatão de cerébro estreito, insípido, nauseante, ignorante, que alcançou o pináculo da audácia por garatujar e forjicar as mais malucas e mistificantes tolices. Essas tolices foram barulhentamente proclamadas como uma sabedoria imortal, por seguidores mercenários, e prontamente aceitas como tal por todos os tolos, que se juntaram num coro perfeito de admiração, como nunca antes se ouvira. O extenso campo de influência espiritual que assim foi fornecido a Hegel por aqueles que se achavam no poder capacitou-o a realizar a corrupção intelectual de toda uma geração". 

Schopenhauer (Obras), trecho extraído do livro A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (vol. 2) de Karl R. Popper.

Cavaleiro do Templo: é ou não é uma descrição perfeita do LULISMO, CHAVISMO, NAZISMO, OBAMISMO e de toda a gangue esquerdista mundial? 

O mito de que o laissez faire é o responsável pela crise atual

INSTITUTO LUDWIG VON MISES BRASIL  Liberdade - Propiedade - Paz


Por George Reisman

 

MarxPress.jpgA imprensa está trabalhando com afinco para criar um dos maiores mitos da história: o mito de que a atual crise financeira é resultado direto da liberdade econômica e do capitalismo laissez faire.


A tentativa de culpar o laissez faire é prontamente confirmada por uma pesquisa no Google utilizando-se os termos "crisis + laissez faire". Na primeira página dos resultados, ou nos itens aos quais esses resultados levam, aparecem declarações dos seguintes tipos:


· "A crise hipotecária representa o fracasso do laissez faire".

· "[Nicolas] Sarkozy diz que a economia 'laissez faire', a 'auto-regulação', e a visão de que o 'todo-poderoso mercado' sempre sabe o que é melhor acabaram".

· "A ideologia americana do laissez faire, como praticada durante a crise do subprime, foi tão simplista quanto perigosa", diz Peer Steinbrück, ministro das finanças da Alemanha.

·  "[Henry] Paulson utiliza uma abordagem laissez faire para a crise financeira..."

·  "Para os dias do laissez faireau revoir"[1]


Artigos recentes no The New York Times fornecem confirmações adicionais. Por exemplo, um artigo declara que "Os Estados Unidos têm uma cultura que celebra o capitalismo laissez faire como sendo o ideal econômico..."[2] Um outro artigo nos informa que "Por 30 anos, o sistema político americano tem sido enviesado em favor das desregulamentações dos negócios e contrário a novas regras"[3] Em um terceiro artigo, uma dupla de repórteres garante que "Desde 1997, Mr. Brown [o Primeiro Ministro Britânico] tem sido uma voz poderosa em favor da adoção, pelo Partido Trabalhista, da filosofia econômica americanista que defende a baixa regulamentação. Essa postura laissez faire estimulou os bancos britânicos a se expandirem internacionalmente e irem buscar retornos em áreas bem distantes da sua missão principal, que é a de atrair depósitos."[4] Deste modo, até a Grã-Bretanha é descrita como tendo uma "posturalaissez faire."


A mentalidade exibida nessas declarações está tão completamente em desacordo com o real significado de laissez faire que ela até seria capaz de descrever a política econômica da velha União Soviética, em suas últimas décadas, como sendo laissez faire. Por essa lógica, é assim que seria caracterizada a política de Brejnev e de seus sucessores de permitir que os trabalhadores das plantações coletivas cultivassem por conta própria pedaços de terra de até uma acre e vendessem o produto nos mercados das cidades soviéticas. Seguindo-se a lógica da mídia, isso também seria "laissez faire" - pelo menos em comparação à época de Stalin.


O capitalismo laissez faire tem um significado muito bem definido, mas que é totalmente ignorado, contradito e categoricamente corrompido por declarações como as de cima. O capitalismo laissez faire é um sistema político-econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção em que os poderes do estado são limitados à proteção dos direitos do indivíduo contra a iniciação de qualquer força física. Essa proteção deve ser utilizada sempre que houver alguma iniciação de força física da parte de outros indivíduos, de governos estrangeiros e, mais importante, de seu próprio governo. Essa última função é realizada por recursos como uma constituição escrita, um sistema de divisão de poderes com pesos e contrapesos, uma explícita declaração de direitos, e uma eterna vigilância exercida pelos cidadãos que têm o direito de ter e portar armas. Sob o capitalismo laissez faire, o estado consiste apenas e essencialmente de uma força policial, tribunais de justiça, e uma força de defesa nacional, que reprime e combate aqueles que iniciarem força física. E nada mais.[5]


A total absurdidade dessas declarações que garantem que o atual ambiente político-econômico dos EUA de alguma maneira representa o capitalismo laissez faire se torna berrantemente óbvia quando se tem em mente o papel extremamente limitado do governo em um genuíno ambiente laissez faire e então compara esse papel aos seguintes fatos relativos à atualidade dos Estados Unidos:


1.      Os gastos governamentais nos EUA atualmente chegam a mais de 40 por cento da renda nacional - isto é, a soma de todos os lucros, salários e ganhos com juros auferidos no país. Isso sem levar em conta nenhum dos maciços gastos extra-orçamentários, como aqueles direcionados às semi-estatais Fannie Mae e Freddie Mac. Também não se está considerando os recentes gastos com os variados "socorros financeiros". O que essa porcentagem significa é que mais de 40 dólares de cada 100 produzidos são apropriados pelo governo contra a vontade dos cidadãos que produzem esse montante. O dinheiro e os bens envolvidos são entregues ao governo apenas porque os cidadãos que os produzem não querem ir para a cadeia. Assim, a liberdade de eles utilizarem a totalidade de sua própria renda é violada em escala colossal. Em contraste, sob um capitalismo laissez faire, os gastos do governo seriam tão modestos que uma simples tarifa sobre vendas poderia ser suficiente para financiá-los. O imposto de renda de pessoa física e jurídica, o imposto sobre a herança e sobre ganhos de capital, o imposto para a Seguridade Social e para a saúde pública não existiriam.


2.      Há atualmente quinze gabinetes ministeriais federais, nove dos quais existem com o único propósito de interferir respectivamente na habitação, nos transportes, na saúde, na educação, na energia, na mineração, na agricultura, no trabalho e no comércio; e praticamente todos eles atualmente invadem desrespeitosamente um ou mais aspectos da liberdade econômica do indivíduo. Sob um capitalismo laissez faire, onze desses quinze gabinetes deixariam de existir e somente os ministérios da justiça, da defesa, do estado e do tesouro permaneceriam. E, ademais, dentro desses ministérios, reduções adicionais seriam feitas, tais como a abolição da Receita Federal, pertencente ao Ministério do Tesouro, e da Divisão Antitruste, pertencente ao Ministério da Justiça.


3.      A interferência econômica dos atuais ministérios é reforçada e amplificada pelas mais de cem comissões e agências federais, sendo as mais conhecidas delas, além da Receita Federal, do Fed e da FDIC [agência federal cuja função é garantir os depósitos feitos em bancos comerciais], o FBI, a CIA, a EPA [agência que regulamenta o meio ambiente], a FDA [agência de vigilância sanitária, equivalente à nossa Anvisa], a SEC [agência que regulamenta a bolsa de valores - equivalente à nossa CVM], a CFTC [agência reguladora que controla os mercados de futuros e de opções], a NLRB [agência que regulamenta os sindicatos], a FTC [agência que regulamenta o mercado, para "proteger o consumidor"], a FCC [agência que regulamenta a área de telecomunicações e radiodifusão], a FERC [agência que regulamenta a área de energia], a FEMA [agência direcionada para serviços de emergência. Teve "ótima" atuação após o furacão Katrina], a FAA [agência que regulamenta o tráfego aéreo], o CAA [decreto do "ar limpo"], a INS [serviço de imigração e naturalização], a OHSA [agência da segurança do trabalho], a CPSC [agência que protege contra riscos associados ao consumo], a NHTSA [agência que regulamenta a segurança das estradas], a EEOC [agência que promove a igualdade racial nos empregos], a BATF [agência que regulamenta álcool, tabaco, armas de fogo e explosivos], o DEA [agência anti-drogas], a NIH [agência responsável por pesquisas biomédicas], e a NASA. Sob um capitalismo laissez faire, todas essas agências seriam abolidas, com a possível exceção do FBI, que seria reduzido às suas legítimas funções de contra-espionagem e de combate a crimes contra a pessoa e a propriedade que ocorressem entre os estados.


4.      Para completar esse catálogo de interferência governamental e de atropelamento de qualquer vestígio de laissez faire, o Registro Federal, datando do final de 2007, o último ano para o qual havia dados completos, continha 73.000 (setenta e três mil) páginas de detalhadas regulamentações governamentais. Trata-se de um aumento de mais de 10.000 (dez mil) páginas desde 1978. Esses 30 anos durante os quais ocorreu  esse aumento de páginas foram os mesmos anos em que, de acordo com o The New York Times, "o sistema político americano tem sido enviesado em favor das desregulamentações dos negócios e contrário a novas regras". Sob um capitalismo laissez faire não haveria Registro Federal. As atividades dos remanescentes ministérios e de suas subdivisões seriam controladas exclusivamente por legislações devidamente promulgadas, e não por regras criadas arbitrariamente por funcionários governamentais não eleitos.


5.     E, é claro, a tudo isso deve ser acrescentado o aparato maciço de leis, secretarias, agências e regulamentações em nível estadual e municipal. Sob um capitalismo laissez faire, a maioria desses aparatos seria completamente abolida, e os que restassem passariam pelo mesmo tipo de redução radical no tamanho e escopo por que passaram seus semelhantes em nível federal.


O que essa breve descrição mostrou é que o atual sistema político-econômico dos EUA está tão distante de um capitalismo laissez faire que, na realidade, ele se aproxima mais é de um estado policial. A capacidade que a mídia tem de ignorar toda a maciça interferência governamental que existe hoje e caracterizar o atual sistema econômico americano como sendo de liberdade econômica e laissez fairemostra que ela, se não profundamente desonesta, vive em um mundo ilusório.


A intervenção governamental é a responsável pela crise


Muito além disso está o fato de que a responsabilidade real pela crise financeira jaz precisamente nas maciças intervenções governamentais, principalmente nas intervenções realizadas pelo Federal Reserve System (o banco central americano), que fez injeções maciças de dinheiro no sistema financeiro baseando-se na crença de que simplesmente criar dinheiro do nada e disponibilizá-lo no mercado de crédito é um substituto válido para todo o capital (riqueza) criado pela produção e pela poupança. Essa é uma política que o Fed vem seguindo - desde sua criação em 1913, mas com um vigor excepcional desde 2001 - para superar o estouro da bolha do mercado de ações cuja criação foi ele mesmo quem inspirou.


O Federal Reserve e outras porções do governo perseguem uma política de criação de dinheiro e crédito para proteger os bancos e ajudá-los a encobrir a realidade, fazendo parecer que é possível o correntista ter o dinheiro e emprestá-lo ao mesmo tempo. Essa fraude ocorre da seguinte maneira: quando indivíduos ou empresas depositam dinheiro nos bancos, eles continuam tendo acesso irrestrito a esse dinheiro - seja para fazer compras ou para pagar contas - por meio de cheques ou cartão de débito, ao invés de terem de utilizar o dinheiro físico. E como os bancos estão agora aptos a emprestar os fundos que foram depositados dessa forma (normalmente os bancos criam novas contas-correntes, ao invés de fazerem empréstimo direto de dinheiro físico), eles simplesmente incorrem na criação de dinheiro adicional. Os depositantes (correntistas) continuam tendo acesso ao dinheiro deles, ao mesmo tempo em que os tomadores de empréstimo têm agora acesso ao grosso dos fundos depositados. Ou seja, o mesmo dinheiro teoricamente agora tem dois donos distintos e com acesso simultâneo a ele. Nos anos recentes, o Banco Central estimulou a tal ponto esse processo que os depósitos à vista (conta-corrente) foram criados a uma razão 50 vezes maior do que as reservas reais em dinheiro que os bancos possuíam [ou seja, um compulsório de 2 por cento], uma situação mais do que propícia para a implosão.


Todo esse novo e adicional dinheiro entrando no mercado de crédito é basicamente capital fictício, no sentido de que ele não representa novos e adicionais bens de capital no sistema econômico, mas, sim, uma mera transferência de parte da atual oferta de bens de capital que, em mãos diferentes, será aplicada em atividades menos eficientes e geralmente mais imprevidentes. A atual crise imobiliária é talvez o exemplo mais evidente disso em toda a história.


Uma quantia maior que um trilhão e meio de dólares de dinheiro criado do nada em conta-corrente foi canalizada para o mercado imobiliário como resultado das taxas de juros artificialmente baixas causadas pela presença de uma quantia crescente de dinheiro novo no mercado de crédito. Por causa da natureza de longo prazo de seu financiamento, o setor imobiliário é especialmente suscetível aos efeitos de taxas de juros mais baixas, que podem ser astutamente utilizadas para reduzir os pagamentos mensais de hipotecas. Isso fez aumentar a demanda por imóveis e pelos empréstimos hipotecários necessários para financiar essa demanda. (Ver um resumo dessa seqüência aqui).


Por um período de anos, o resultado foi um enorme aumento na construção e na compra de novos imóveis, o que fazia com que os preços das casas subissem rapidamente, o que levava a um espiral de novos aumentos na construção e na compra de novas casas na expectativa de que haveria um aumento contínuo em seus preços.


Para se ter uma medida da irresponsabilidade do Fed, no período de tempo transcorrido desde 2001 ele aumentou a oferta de depósitos em conta-corrente em mais de 70 por cento da quantia total que ele já havia criado durante os 88 anos de sua existência - ou seja, ele criou quase 2 trilhões de dólares.[6] Esse foi o aumento da quantia em que os depósitos a vista (conta-corrente) excediam as reservas bancárias (o dinheiro que os bancos têm disponível para pagar os correntistas que quiserem dinheiro físico). O Fed provocou esse aumento do capital ilusório por meio da criação de reservas bancárias adicionais. Ele criou essas reservas bancárias adicionais para poder atingir uma taxa de fundos federais (taxa básica de juros) - isto é, a taxa de juros que os bancos cobram entre si para o empréstimo de reservas no mercado interbancário - que estivesse muito abaixo da taxa de juros determinada pelo mercado. Durante um período de três anos, de 2001 a 2004, o Fed derrubou as taxas de juros para menos de 2 por cento e, de julho de 2003 a junho de 2004, ele as derrubou ainda mais, mantendo-as em aproximadamente 1 por cento. (Para ver em mais detalhes como o Banco Central determina as taxas de juros, clique aqui).


O Federal Reserve também possibilitou aos bancos operarem com uma porcentagem de reservas bancárias em seu menor nível histórico. Enquanto que num livre mercado os bancos manteriam reservas em ouro em um montante igual aos seus depósitos a vista - ou ao menos em uma proporção substancial de seus depósitos a vista[7] -, o Fed se esforçou para tornar possível que os bancos operassem com reservas de papel-moeda inconversível em um montante que sequer chegava a 2 por cento do total de depósitos.


O Federal Reserve derrubou a taxa básica de juros e produziu esse vasto aumento na oferta de capital ilusório com o propósito de diminuir todas as taxas de juros praticadas pelo mercado. Esse capital ilusório adicional só poderia encontrar tomadores de empréstimo a uma taxa de juros mais baixa. O objetivo do Fed era diminuir os juros a níveis tão baixos de modo que eles não poderiam sequer compensar o aumento nos preços. Ele deliberadamente buscou obter uma taxa de juros real negativa sobre o capital, isto é, uma taxa menor do que a taxa em que os preços sobem. Isso significa que um emprestador, ao receber os juros devidos após um ano, tem um poder de compra menor do que tinha no ano anterior, quando ele tinha apenas o seu principal.


Ao fazer isso, o objetivo último do Fed era estimular o investimento e os gastos em consumo. Ele queria que o custo de se obter capital fosse mínimo, de modo que ele pudesse ser investido na maior escala possível, e que as pessoas considerassem que segurar dinheiro fosse algo prejudicial, o que iria estimulá-las a gastá-lo mais rapidamente. Gastos e mais gastos eram tudo o que o Fed queria, na crença de que era isso o que devia ser feito para se evitar o desemprego em larga escala.


Depois de algum tempo, o desejo do Federal Reserve de obter uma taxa de juros negativa foi alcançado, mas em um grau muito além daquele desejado. Ele queria uma taxa real de retorno negativa em 1 ou 2 por cento. Mas o que ele obteve no mercado imobiliário foi uma taxa de retorno real negativa capaz de ser medida apenas em termos dos enormes prejuízos do capital investido. Nas palavras do The New York Times, "Desde que a crise começou, as instituições financeiras de todo o mundo já perderam por volta de $500 bilhões em títulos lastreados em hipotecas. A menos que alguma coisa seja feita para estancar o rápido declínio dos valores dos imóveis, essas instituições provavelmente irão perder valores adicionais em torno de $1 trilhão a $1,5 trilhão."[8]


Essa vasta perda de capital ocorrida na derrocada do setor imobiliário é que é responsável pela incapacidade de os bancos fazerem empréstimos para muitos negócios aos quais normalmente poderiam e iriam emprestar. A razão pela qual eles não podem mais emprestar é que os fundos e a riqueza real que foram perdidos não mais existem e, logo, não podem ser emprestadas a mais ninguém. Essa política do Federal Reserve de expansão de crédito baseada na criação de novos e adicionais depósitos a vista serviu apenas para disponibilizar capital para tomadores de empréstimo indignos de crédito. Consequentemente, tal política privou outros mutuários, com histórico creditício muito melhor, do capital que precisavam para permanecer com seus negócios ativos. Essa política se tornou uma política de redistribuição e destruição.


Esse capital que acabou sendo mal investido e perdido no setor imobiliário é um capital que agora está indisponível para empresas como Wickes FurnitureLinens 'N ThingsLevitz FurnitureMervyns e inúmeras outras, que foram à falência por não terem conseguido obter os empréstimos que precisavam para se manter operantes. E, é claro, dentre as principais vítimas estão os próprios grandes bancos. Os prejuízos que eles sofreram acabaram com seu capital e levaram-nos à bancarrota. E a lista de mortos e feridos certamente continuará subindo.


Qualquer discussão sobre a derrocada do setor imobiliário seria incompleta caso não se mencionasse o sistemático consumo do capital imobiliário que foi estimulado durante vários anos pela mídia e pelos ignorantes da ciência econômica. Crentes fiéis da ideologia keynesiana de que os gastos em consumo representam a base genuína da prosperidade, os palpiteiros consideravam que o constante aumento nos preços dos imóveis era uma maneira poderosa de estimular tais gastos. Se o preço dos imóveis aumenta, aumenta-se o patrimônio dos proprietários, o que os permite renegociar suas hipotecas e até mesmo contrair mais empréstimos para financiar mais consumismo. E isso, segundo os palpiteiros, manteria a economia funcionando em nível ótimo. Mas, o que ocorreu, foi previsivelmente o oposto: esse esquema serviu apenas para sobrecarregar muitas famílias com hipotecas que agora já são maiores do que o valor de suas casas. Isso não teria ocorrido caso as hipotecas não tivessem sido utilizadas para financiar mais consumo. Esse consumismo é a causa de ter havido uma perda de capital ainda maior do que a perda ocorrida em decorrência dos maus investimentos.


Também não seria completa uma discussão sobre a derrocada imobiliária que não mencionasse o papel exercido pelas garantias governamentais que foram dadas aos vários empréstimos imobiliários. Se o governo garante o principal e os juros de um empréstimo, não há qualquer motivo para que um emprestador se preocupe com as qualificações do mutuário - afinal, ele não terá prejuízos se fizer o empréstimo, não importa o quão ruim ele acabe sendo.


Um número substancial de empréstimos hipotecários carregava tais garantias. Por exemplo, um artigo doThe New York Times descreveu o Ministério da Habitação e Desenvolvimento Urbano como "uma agência que azeitou as engrenagens hipotecárias para os compradores de primeira viagem, assegurando bilhões de dólares em empréstimos". O artigo descreve como esse ministério reduziu progressivamente os padrões de empréstimos: "famílias não mais precisavam mostrar um histórico de cinco anos de renda estável; três anos já eram suficientes... os emprestadores agora podiam eles mesmos escolher seus avalistas, ao invés de se submeterem a um grupo selecionado pelo governo... os emprestadores não mais tinham de entrevistar cara a cara os mutuários assegurados pelo governo", pois a aprovação do governo para a concessão do seguro hipotecário havia se tornado automática.


O artigo do Times segue descrevendo como que "Emprestadores" da estirpe do Countrywide Financial, que era um dos maiores e mais destacados, "despontaram em cena apenas para atender aqueles mutuários cujo histórico creditício era muito ruim para colocá-los na categoria de empréstimos 'prime', que cobra taxas de juros menores". O artigo observa que o "Countrywide assinou uma promessa ao governo de que faria uso de 'esforços ativos e criativos' para estender a propriedade de imóveis às minorias e aos americanos de baixa renda".[9] "Esforços ativos e criativos" é uma boa descrição do que os emprestadores fizeram ao oferecer tipos tão bizarros de hipotecas, como aquelas que requeriam o pagamento de "juros somente", e depois permitindo que até mesmo os juros deixassem de ser pagos ao utilizarem o artifício de adicionar os juros à quantia ainda pendente do principal. (Esse tipo de hipoteca era apropriado para aqueles cuja única razão de comprar uma casa era esperar que os preços subissem suficientemente para poderem revendê-la).


Da mesma forma que inúmeras casas foram compradas baseando-se na infundada crença de que os preços subiriam eternamente, uma vasta quantia de complexos derivativos financeiros foi vendida baseando-se na infundada crença de que o Federal Reserve de fato tinha o poder que sempre alegou ter de evitar toda e qualquer depressão - poder esse que a mídia e a maioria dos economistas repetida e entusiasmadamente afirmavam verdadeiro.


Os derivativos receberam uma cobertura tão negativa da imprensa que passa a ser necessário evidenciar que uma apólice de seguro de um imóvel é um derivativo. E muitos dos derivativos que foram vendidos e que agora estão criando problemas de insolvência e quebradeira - a saber, os "credit default swaps (CDS)" - eram apólices de seguro, de uma forma ou de outra. O defeito delas é que, ao contrário dos seguros comuns feitos para imóveis, os CDS não tinham uma lista de exclusões suficientemente abrangente.


As apólices de seguro de imóveis excluem de sua cobertura danos causados por guerras e, em vários casos, dependendo das condições de risco de uma determinada área, por terremotos e furacões. Da mesma forma, aqueles derivativos mais complexos deveriam excluir perdas resultantes de colapsos financeiros causados pela expansão maciça de crédito orquestrada por um banco central. (Porém, considerando-se que de fato seja impossível determinar tal exclusão, até porque muitos dos prejuízos podem ocorrer antes de a natureza da causa se tornar evidente, então esses derivativos não deveriam existir e o mercado não mais irá criá-los por causa dos riscos inaceitáveis que eles acarretam). Acontece que décadas de lavagem cerebral feita pelo governo, pela mídia e pelo sistema educacional acabaram convencendo a todos de que tal colapso não mais era possível.


A crença na impossibilidade de depressões também teve um papel proeminente na criação e venda das "collateralized debt obligations (CDOs - obrigações de dívidas colateralizadas)". Aqui, hipotecas de qualidade totalmente díspares foram empacotas conjuntamente e securitizadas no mercado secundário. Em muitos casos, grandes compradores empacotaram coleções dessas securities e securitizaram essas securities. Como cada vez mais proprietários foram dando calote em seus empréstimos, ninguém mais agora é capaz de julgar o valor dessas securities. Para fazer isso, seria necessário desemaranhar todos esses pacotes de securities até o nível de hipotecas individuais.


Tal emaranhado de securities jamais seria vendido em um mercado que não estivesse completamente sobrepujado pela intensa propaganda de que depressões são impossíveis sob o gerenciamento governamental do sistema financeiro.


Finalmente, uma discussão sobre a derrocada imobiliária não seria completa se não fizesse menção às formas de extorsão virtual que serviram para encorajar empréstimos a mutuários indignos de crédito. Sobre isso, a enciclopédia Wikipedia escreve,


Community Reinvestment Act [CRA] ... é uma lei federal americana cujo propósito é estimular os bancos comerciais e as associações de poupança a satisfazerem as necessidades dos tomadores de empréstimo de todos os segmentos de suas comunidades, inclusive as vizinhanças de baixa e média renda ... As regulamentações do decreto CRA dão aos grupos comunitários o direito de comentar e protestar contra os bancos que não cumprirem as diretivas do CRA. Tais comentários podem ajudar ou obstruir as expansões das atividades desses bancos.


Essas palavras significam exatamente isso: o decreto CRA dá poderes completos aos "grupos comunitários" para que eles determinem o sucesso ou o fracasso financeiro de um banco. Somente se um banco estivesse fazendo empréstimos significativos para mutuários que, em condições normais, não obteriam tais empréstimos, é que esses "grupos comunitários" ficariam satisfeitos e deixariam que o banco continuasse operando desimpedidamente. O mais famoso desses grupos comunitários é a ACORN.


Um decreto como o CRA só foi possível por causa das ameaças de calúnia contra os bancos, que seriam acusados de "racistas" caso escolhessem não conceder empréstimos a pessoas cujo risco creditício era enorme e que também calhassem de pertencer a alguma minoria. Essas ameaças de calúnia caíram como uma luva para várias agências governamentais que exercem poder discricionário sobre os bancos e que, por isso, têm o poder da intimidação e podem prejudicá-los caso não obedeçam aos desejos dessas agências. O mesmo é válido para todos os outros emprestadores de hipotecas, além dos bancos.


O que essa extensa análise das reais causas da atual crise financeira mostrou é que foi a intervenção governamental, e não um livre mercado ou um capitalismo laissez faire, a responsável por cada aspecto essencial dessa crise.


O mito do laissez faire e o marxismo da mídia


O mito de que o laissez faire existe nos EUA atual e de que ele é o responsável pela atual crise econômica é propugnado por pessoas que não têm conhecimento algum sobre uma teoria economia sólida e racional ou sobre a real natureza de um capitalismo laissez faire. Elas defendem tal idéia apesar de terem estudado - ou melhor, por terem estudado - nas principais faculdades e universidades do país e do mundo. Em termos de assuntos econômicos, essas pessoas foram educadas inteira e exageradamente nas doutrinas totalmente falaciosas e perniciosas de Marx e Keynes. Ao alegarem ver a existência de um laissez faire em meio a todas essas maciças interferências governamentais, que constituem o exato oposto do laissez faire, elas estão tentando reescrever a realidade com o intuito de fazê-la se conformar às suas visões e preconcepções marxistas do mundo.


Elas absorvem as doutrinas de Marx muito mais nas aulas de história, filosofia, sociologia e literatura do que nas aulas de economia. As aulas de economia, conquanto normalmente não sejam marxistas, fornecem apenas refutações altamente insuficientes das doutrinas marxistas e dedicam quase a totalidade do tempo defendendo o keynesianismo e outras doutrinas anticapitalistas menos conhecidas, tais como a doutrina da concorrência perfeita e pura.


São muito poucos os professores e alunos que já leram uma única página sequer dos escritos de Ludwig von Mises, que é o teórico supremo do capitalismo e alguém cujo conhecimento dos escritos é essencial para se obter uma compreensão profunda do capitalismo. Quase todos eles, portanto, são essencialmente ignorantes de uma teoria econômica sólida.


Quando eu digo que o sistema educacional e a mídia são marxistas, não estou insinuando que seus membros defendem a socialização completa da propriedade ou que eles são necessariamente defensores do socialismo. O que estou dizendo é que eles são marxistas na medida em que aceitam as idéias de Marx em relação à natureza e ao funcionamento do capitalismo laissez faire.


Eles aceitam a doutrina marxista de que, na ausência de uma intervenção governamental, o interesse próprio e a busca do lucro - a "cobiça desenfreada" - dos empresários e capitalistas iriam derrubar o salário para um mínimo de subsistência, enquanto que elevariam as horas de trabalho para o limite da resistência humana, impondo condições de trabalho horríveis e obrigando crianças pequenas a irem trabalhar nas fábricas e nas minas. Eles apontam para o padrão de vida miseravelmente baixo e para as terríveis condições suportadas pelos assalariados nos primórdios do capitalismo, principalmente na Grã-Bretanha, e acreditam que isso comprova sua argumentação. E eles prosseguem, argumentando que foram apenas as intervenções do governo na forma de legislações pró-sindicatos e pró-salário mínimo, leis de jornada máxima de trabalho, proibição de qualquer trabalho infantil, e decretos referentes às condições de trabalho, que serviram para melhorar as condições dos assalariados. Eles acreditam que a revogação dessas legislações levaria a um retorno das miseráveis condições econômicas do início do século XIX.


Eles vêem os lucros dos empresários e capitalistas como sendo ganhos imerecidos e injustos, arrancados dos assalariados - supostamente os verdadeiros produtores - pelo equivalente à força física, donde consideram que os assalariados são escravos virtuais ("escravos assalariados") e que os capitalistas "exploradores" são os virtuais donos de escravos. Intimamente ligado a isso, eles consideram que a tributação dos empresários e capitalistas e o conseqüente uso desses proventos em benefício dos assalariados, em aplicações como a seguridade social, a saúde pública, a educação pública, e as moradias públicas, são políticas que servem pura e simplesmente para devolver aos assalariados uma pequena porção da renda que alegadamente lhe foi pilhada durante o processo da "exploração".


Em total acordo com Marx e sua doutrina de que, sob o capitalismo laissez faire, os capitalistas expropriam toda a produção do assalariado acima do nível necessário para sua mínima subsistência, eles crêem que a intervenção do governo não prejudica ninguém, exceto os capitalistas e empresários imorais. Nunca os assalariados. Assim, não apenas os impostos utilizados para pagar pelos programas sociais, mas também os salários mais altos determinados pelas legislações pró-sindicatos e pró-salário mínimo, são tidos como saídos unicamente dos lucros, sem qualquer efeito negativo sobre os assalariados, como o desemprego. O mesmo raciocínio se dá para o efeito da menor carga horária de trabalho imposta pelo governo, para as condições de trabalho melhores e para a abolição do trabalho infantil: os custos maiores resultantes dessas políticas simplesmente são considerados como se saídos da "mais-valia" dos capitalistas, e nunca do padrão de vida dos próprios assalariados.


Essa é a mentalidade de toda a esquerda e em particular dos membros do sistema educacional e da mídia. É a visão de que a busca pelo lucro e pela satisfação material são inerentemente letais caso não sejam forçosamente retaliadas e rigidamente controladas pela intervenção governamental. É, como foi dito, uma visão que considera os empresários e os capitalistas como sendo donos de escravos, não obstante o fato de que empresários e capitalistas não utilizam armas, chicotes ou correntes para encontrar e manter seus trabalhadores. Ao contrário, a única arma do capitalista e do empresário é oferecer melhores condições e melhores salários em relação ao que esses trabalhadores poderiam encontrar alhures.


Não surpreendentemente, o sistema educacional e a mídia compartilham a visão de Marx de que o capitalismo laissez-faire é uma "produção anárquica", o qual os empresários e os capitalistas gerenciam atabalhoadamente, como galinhas sem cabeça.  Na visão deles, racionalidade, ordem e planejamento emanam apenas do governo, e não de participantes no mercado.


E essa, como eu disse, é a estrutura intelectual da grande maioria dos professores de hoje e de suas várias gerações predecessoras. E essa é exatamente a mesma estrutura intelectual de seus alunos, que zelosamente absorveram seus ensinamentos equivocados e que acabaram, alguns deles, se tornando repórteres e editores das principais publicações midiáticas, tanto jornais como revistas. É a intelectualidade de seus alunos que hoje comenta e comanda as edições de praticamente todos os canais de notícias.[10] E é através dessa estrutura intelectual que a mídia hoje tenta entender e reportar a atual crise financeira.


De acordo com a visão deles, o capitalismo laissez faire e a liberdade econômica são uma fórmula para a injustiça e para o caos, ao passo que o governo é a voz e o agente da justiça e da racionalidade nas questões econômicas. Tão firmemente eles mantêm essa crença que, quando vêem algo que pensam ser evidência de injustiça e caos em larga escala no sistema econômico, tal como ocorreu na atual crise financeira, eles automaticamente presumem que isso seja o resultado previsível da busca pelo interesse próprio e da liberdade econômica que torna possível essa busca. Dada essa atitude básica, o princípio que guia os "jornalistas" contemporâneos é a idéia de que sua função é encontrar os empresários e capitalistas que são responsáveis pela maldade e os funcionários do governo que deram a liberdade para eles cometerem esse mal. Finalmente, uma vez cumprida a missão acima, a tarefa final passa a ser identificar e apoiar as políticas de intervenção e controle governamental que supostamente irão eliminar o mal e impedir sua repetição no futuro.


Seu temor e ódio da liberdade econômica e do capitalismo laissez-faire, bem como a necessidade que sentem de serem capazes de denunciar o sistema como sendo a causa de todos os malefícios econômicos, são tão grandes que eles chegam ao ponto de fingir para eles mesmos e para sua audiência que tal sistema de fato existe no mundo atual, quando ele claramente não existe nem remotamente. Ao fazerem a assertiva de que o laissez faire existe e é o responsável pelo problema atual, eles se tornam aptos a direcionar toda a força do ódio que sentem pela liberdade econômica e pelo capitalismo laissez faire contra aquela mínima fatia de liberdade econômica que, de alguma maneira, conseguiu se manter existindo e contra a qual os iluminados agora decidiram desferir sua fúria. Essa fatia, eles alegam, é a responsável total pela inanição dos trabalhadores na desumana exploração da mão-de-obra que, em sua ignorância, eles garantem que é imposta pelos capitalistas sob um sistema laissez faire. Suas platéias, já devidamente doutrinadas pela lavagem cerebral tanto da mídia como do ambiente educacional que freqüentaram, rapidamente passam a seguir ordens e ajudam no esforço de estimular o ódio.


O resultado é sentenciado por palavras como as que seguem, que apareceram em um daqueles mesmos artigos do The New York Times que eu havia citado antes:


Temos agora uma raiva coletiva, uma repulsa, por todo o sistema financeiro, e é óbvio que teremos uma forte reação regulatória... cujos efeitos irão se transmitir para outros setores porque os eleitores estão com a consciência de que "as grandes empresas são animais selvagens e elas precisam ser colocadas em suas jaulas"[11]


E é dessa maneira que os inimigos do capitalismo e da liberdade econômica se mostram capazes de prosseguir sua campanha em prol da destruição econômica e da devastação. Eles utilizam a acusação de "laissez faire" como uma espécie de gazua para aumentar os poderes do governo. Por exemplo, no início dos anos 1930, eles acusaram o presidente Hoover de estar seguindo uma política laissez faire, mesmo com ele intervindo maciçamente na economia para impedir a queda dos salários, queda essa que era essencial para evitar que uma reduzida demanda por mão-de-obra se transformasse em desemprego em larga escala. O desemprego maciço que previsivelmente resultou dessa intervenção de Hoover, e o qual eles tiveram êxito em justificar como sendo conseqüência do laissez faire, foi utilizado ardilosamente por eles para enganar todo o país, fazendo as pessoas apoiarem resolutamente as intervenções ainda maiores que surgiram depois, com o New Deal.


Hoje, eles continuam jogando esse mesmo jogo. Sempre denunciando o laissez faire e sempre alegando que os fracassos desse fantasma precisam ser superados com ainda mais regulamentações e controles governamentais. Hoje, as maciças intervenções não só do New Deal, mas também do Fair Deal (Truman), da New Frontier (Kennedy), da Great Society (Johnson) e de todas as administrações subseqüentes, foram acrescentadas àquelas mesmas grandes intervenções que já existiam ainda na década de 1920 e às quais Hoover substancialmente expandiu. E, ainda assim, supostamente continuamos vivendo sob o laissez faire. Parece que enquanto alguém continuar sendo capaz de se mover e respirar sem estar sob o jugo do estado, o laissez faire continuará sendo a política dominante, o que torna necessário a criação de ainda mais controles governamentais.


O ponto final lógico desse processo é que, um dia, todos terminarão acorrentados a uma parede, ou ao menos sendo forçados a fazer algo tipo viver em um CEP cujos números sejam os mesmos do seu CPF. E então o governo saberá exatamente quem é cada um, onde essa pessoa está e deixará claro que ela não poderá fazer absolutamente nada sem antes ter obtido a devida aprovação e permissão do estado. E então o mundo estará a salvo de qualquer um que tente fazer algo que o beneficie e que, por isso, supostamente prejudique os outros. E, quando chegarmos a esse ponto, o mundo irá desfrutar toda a prosperidade que abundará da total paralisia.


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George Reisman, Ph.D. é o autor de Capitalism: A Treatise on Economics. (Uma réplica em PDF do livro completo pode ser baixada para o disco rígido do leitor se ele simplesmente clicar no título do livro e salvar o arquivo). Ele é professor emérito da economia da Univers da Pepperdine University. Seu website:www.capitalism.net. Seu blog www.georgereisman.com/blog/.


Notas


[1] Ver http://www.volunteertv.com/international/headlines/29762874.html.


[2] Steve Lohr, "Intervention Is Bold, but Has a Basis in History," 14 de outubro, 2008, p. A14.


[3] Jackie Calmes, "Both Sides of the Aisle See More Regulation," 14 de outubro, 2008, p. A15.


[4] Landon Thomas Jr. e Julia Werdigier, "Britain Takes a Different Route to Rescue Its Banks," 9 de outubro, 2007, p. B7.


[5] Como o autor deixa claro, essa é a doutrina do capitalismo laissez faire. Já o anarco-capitalismo é contrário à existência de qualquer aparato estatal, inclusive os mencionados pelo autor.

Para mais informações sobre o tema, ver os seguintes artigos:[N. do T.]

O setor público: desestatizando a segurança, as ruas e as estradas

A possibilidade de uma justiça privada

Serviços de defesa no livre mercado

Democracia - o deus que falhou

As elites naturais, os intelectuais, e o estado

Quatro medidas para melhorar o sistema de saúde

Se você gosta da natureza, privatize-a

A teoria do caos


[6] Cheguei a essa quantia calculando o total de depósitos a vista em janeiro de 2001 e em agosto de 2008. Cada total foi obtido pela soma dos valores de M1 com os depósitos em fundos mútuos do mercado monetário, tanto os de varejo como os institucionais. Desses dois totais eu subtraí o respectivo total de reservas bancárias de ambas as datas. Disso, eu calculei a variação percentual.


[7] Se, como já descrevi, criar depósitos a vista que totalizam valores monetários maiores do que as reservas bancárias significa realmente uma tentativa de trapaça, então é possível concluir que um livre mercado iria na prática requerer reservas de 100 por cento.


[8] Joe Nocera, "Shouldn't We Rescue Housing?" 18 de outubro, 2008, p. B1.


[9] David Streitfeld e Gretchen Morgenson, "The Reckoning, Building Flawed American Dreams," 19 de outubro, 2008, p. A26.


[10] Para uma abrangente refutação de todos os aspectos dessa abordagem intelectual, ver George Reisman, Capitalism: A Treatise on Economics (Ottawa, Illinois: Jameson Books, 1996), capítulos 11, 14, e em outros trechos.


[11] Jackie Calmes, loc. cit.

 


Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".