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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Como morrem as democracias

 

MÍDIA A MAIS

por Guy Sorman em 24 de fevereiro de 2012 Opinião - Cultura

 

OFim da História recua. Após a queda do Muro de Berlim, lembramos o economista americano Francis Fukuyama[1] que anunciou como a democracia liberal tornara-se o horizonte derradeiro de todas as sociedades. Ele não negou que os conflitos sociais surgiriam, mas impôs a hipótese que nenhuma ideologia alternativa à democracia liberal emergiria ao longo do tempo.

Essa teoria, muitas vezes mal compreendida, da democracia liberal como Fim da História, conseguiu após os atentados de setembro de 2001 (islâmicos ou qualificados como tal) uma outra profecia: igualmente Made in America, que foi formulado por Samuel Huntington[2], sob o título de Conflito de Civilizações. Ele imaginou uma guerra inevitável entre a aliança oriental da China e dos muçulmanos versus o mundo ocidental. Esse modelo de Huntington resistiu ao teste dos fatos reais menos tempo que o de Fukuyama: Huntington não definiu o que ele entendia por civilização, os mundos muçulmanos são divididos entre pró e anti-Ocidente e o Japão “oriental” ou a Índia estão solidamente estruturados no campo da democracia liberal.

Aqui surge, sem que ninguém tenha profetizado, um modelo de mais coisas que podem definir os tempos que estão por vir; o afrontamento entre a democracia liberal, que está se desfazendo por dentro, com o ressurgimento do que é chamado de “a tentação despótica”. Se esta ruptura for concreta, ela esclarece a história em construção.

No campo ocidental (que não é nem uma civilização, nem uma definição geográfica, mas um território mental) a dúvida ronda os espíritos. Depois da ruptura financeira de 2008, cuja complexidade poucos contestam, o mercado e a democracia foram assaltados por uma frente de rejeição ou corrompidos pelo espírito de renúncia.

Vejamos a Grécia e a Itália: os representantes do povo entregam aos tecnocratas (forma atualizada do despotismo esclarecido) o seu lugar na impopularidade do rigor econômico. Seguindo esse raciocínio antidemocrático e antiliberal, vemos o crescimento de partidos autoritários, particularmente na França e na Hungria. À periferia da Europa, as revoluções árabes – de onde ainda esperamos liberdade, dignidade e prosperidade – degeneraram em um caos que - na melhor das hipóteses - reconduzirá o povo aos tecnocratas esclarecidos, porém mais provavelmente aos simples déspotas; eles prometem ordem, moral ou estatal e restauram o capitalismo dos velhacos.

Os países dessa nova ordem são a China e a Rússia, azar ou herança, seus dirigentes reconstituem a tirania de onde eles vêm, mas agora, em forma “capitalista”, uma nova ordem capitalista[3]. Ao conflito anterior a 1989, entre capitalismo e comunismo, seguiu-se uma nova escolha histórica entre capitalismo de Estado e capitalismo de Mercado, uma nova ordem capitalista contra o capitalismo democrático.

Capitalismo contra capitalismo, escreveu Michel Albert em 1991, ele opunha então as duras Américas aos social-democratas da Europa do Norte. Agora, esse “consenso de Pequim”, que é colocado como alternativa triunfalista por sua taxa de crescimento e por sua estabilidade (aparente) a um “consenso de Washington”, como se este fosse anêmico e incerto. Além da questão do crescimento, essa nova ordem capitalista domina com alguns aliados periféricos (Colômbia, Zimbábue) o eixo Moscou-Pequim e tenta também impor uma soberania que garanta aos déspotas (como Síria, Irã) o direito de matar seus cidadãos, em vez de aceitar a intervenção humanitária.

A ascensão dessa nova ordem capitalista depende das circunstâncias: a emoção despertada pela crise de 2008 não foi dissipada e as pessoas se inquietam. Talvez por explicações ineficientes? Na realidade, a estagnação do capitalismo democrático não é insolúvel (nos Estados Unidos sempre ressurge), a crise do Euro inquieta menos, tanto que o crescimento chinês e russo continuam a depender dos ocidentais. E, se olharmos de perto, as sociedades russa e chinesa poderiam, a todo instante, serem quebradas. Essa atração para a nova ordem capitalista se deve à ignorância em que estamos, mas também a que alimentamos. Não foi o caso da URSS quando ela foi exaltada na Europa? Hoje, como antes, encontram-se facilmente dentro do capitalismo democrático “os idiotas úteis”, expressão de Lênin para designar seus aliados objetivos. No Ocidente, suficientemente capitalista, os intelectuais preferem a ordem e os chefes à equidade, dignidade e liberdade. Os “idiotas úteis” ou “quinta coluna” constituem as tropas de choque desse capitalismo de nova ordem.

Não se conclui que as democracias liberais vão morrer, nem que a nova ordem capitalista vai prevalecer sobre o capitalismo democrático. Como escreveu Jean François Revel[4], em 1983, em Como as democracias acabam, trata-se aqui de descrever as ameaças. Dissipá-las exige desenvolver um conhecimento mais detalhado dessa nova ordem capitalista, não transparente por definição. Não se enfatiza suficientemente o quanto ele infla sua taxa de crescimento e beneficia acima de tudo as nomenclaturas do Estado indiferente às camadas mais baixas da sociedade, metade da população na China ou na Rússia. Paralelamente, o retorno a esse capitalismo de nova ordem no mundo árabe levaria as mulheres à vassalagem e a economia à estagnação perpétua. Enquanto isso, certos países muçulmanos desenvolvem-se mais rapidamente que na época do despotismo, porque são capitalistas mais próximos da democracia (Turquia, Indonésia). Deveria observar-se também que, na África ou na América Latina, os regimes democráticos capitalistas (Brasil[5], Chile ou Gana) tornaram-se mais justos.

No mundo ocidental, ao reexaminarmos as crises, esquecemos que ao longo dos últimos dez anos a renda per capita da Alemanha, por exemplo, cresceu 1,3% por ano, consequência de uma sociedade próspera, porque a Alemanha foi enraizada ao capitalismo democrático, sem ceder aos impulsos estatizantes. Finalmente, além das estatísticas, o capitalismo democrático sozinho procura os bens não quantificados que nós respiramos sem percebermos, o que faz parecerem ser concedidos, como a liberdade de expressão, a busca pela equidade ou igualdade dos sexos. Enquanto que, no capitalismo de nova ordem, todo mundo retém sua respiração e controla suas palavras. Tudo isso não é suficientemente dito: nem nos países da ordem, porque é imprudente falar; nem no mundo do capitalismo democrático, enquanto os idiotas úteis confiscarem a palavra.

Tradução: Maria Júlia Ferraz

Disponível no site do autor


[1] Pensador nascido nos Estados Unidos em 1952. É um dos ícones do movimento que a esquerda acadêmica chama de Neoconservadorismo. Causou revolta nos cursos de História, ao afirmar o “fim da história” após a queda do muro de Berlim. Sua tese foi tão discutida que Perry Anderson, um renomado historiador inglês marxista, escreveu um livro para “analisar a análise” de Fukuyama: O Fim da História - de Hegel a Fukuyama, Jorge Zahar Editora.

[2] Samuel P. Huntington, economista americano (1927-2008) que previa um choque entre civilizações devido a conflitos religiosos. Influenciou muito o pensamento de Fukuyama. Extremamente controvertido.

[3] O autor fala de um “ordo-capitalismo”. Seria o capitalismo engessado, estatizante, que aparentemente continua ligado aos meios capitalistas de produção, mas, em uma análise mais profunda, tem profunda ligação com o Estado, estagnando a economia.

[4] Filósofo e escritor francês (1924-2006), crítico do marxismo. Durante a década de 1980 seus artigos foram publicados com frequencia na imprensa brasileira e teve várias de suas obras traduzidas para o português, entre elas A Grande Parada e A obsessão antiamericana. Estudou as causas do fracasso do regime soviético e suas variantes e as influencias do comunismo sobre grande parte da inteligentzia ocidental.

[5] Lembremos que, no caso do Brasil, a Europa tem uma visão muito idealizada sobre o que ocorre no país, portanto a opinião do autor não reflete obrigatoriamente o ponto de vista deste site, que prefere uma abordagem crítica em relação ao assunto. Entretanto, essa idealização não desmerece a análise bem fundamentada sobre as ameaças de um capitalismo engessado no mundo de hoje. Sobre essa idealização recomendamos a leitura do artigohttp://www.midiaamais.com.br/brasil/7742-brasil-como-modelo-nao-obrigado.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".