Não demonstre medo diante de seus inimigos. Seja bravo e justo e Deus o amará. Diga sempre a verdade, mesmo que isso o leve à morte. Proteja os mais fracos e seja correto. Assim, você estará em paz com Deus e contigo.
terça-feira, 1 de abril de 2008
A EPIDEMIA MOSTRA O ÓBVIO
Esta definição é de Marcelo da Silva Prado do Última Instância
"A epidemia da dengue mostra o óbvio: temos o Estado que merecemos, e esse exemplo serve para ilustrar outros tantos problemas como os lixos em bueiros e as conseqüentes enchentes. Não teremos um Estado eficiente enquanto a nossa população for tão despreparada, alienada e sem educação. O Estado brasileiro é o espelho da nossa sociedade e a mudança somente se dará em conjunto, nunca separadamente. Talvez não haja um momento mais surpreendente da falta do Estado do que na crise da saúde pública do Rio de Janeiro escancarada pela epidemia da dengue".
Má notícia para os urubus: o “Império” sobreviverá - Final
por João Luiz Mauad em 01 de abril de 2008
Resumo: Inversamente ao que prevê o wishful thinking antiamericanista, portanto, será preciso muito mais do que uma crise de hipotecas para colocar uma economia daquele tamanho e complexidade de joelhos.
© 2008 MidiaSemMascara.org
Falemos um pouco de desemprego. O quadro abaixo mostra os volumes de pedidos de seguro-desemprego – média móvel de 4 semanas – desde 2001 até hoje. A análise deste quadro mostra claramente que, ainda que os pedidos tenham aumentado durante 2008, eles ainda estão em níveis muito inferiores àqueles de períodos recessivos. Segundo os padrões estatísticos dos EUA, não se poderia falar em recessão enquanto o volume semanal de novos pedidos não alcançar a marca de 400.000.
Peguem agora os dois gráficos abaixo, que mostram o volume de empréstimos do setor bancário, desde 2005 até agora, tanto para os setores comercial e industrial, como para o consumidor. Reparem que a tendência é de crescimento quase ininterrupto durante todo o período analisado.
Ora, considerando que o crédito à produção e ao consumo é o combustível da economia e, por conseguinte, da geração de riqueza, seria prudente falar em recessão, pelo menos num horizonte de curto prazo?


Se todos os dados acima mencionados parecem indicar que a economia americana ainda não está em recessão, o histórico dos ciclos econômicos nos mostra que ela virá, alguma hora, no futuro. Quando isso ocorrer, no entanto, ao contrário do que gostam de pregar os adeptos da escatologia econômica, que – como o ministro Mantega e o presidente Lula da Silva – já falam numa crise semelhante à de 1929, não se prevê nada muito duradouro.
Como mostram os quadros abaixo, a duração dos períodos recessivos da economia norte-americana vem caindo regularmente, desde o início do século XX. Vejam que, de 1900 a 1926, os americanos permaneceram 44,4% do tempo sob recessão. De 1927 a 1954, a prevalência de períodos recessivos caiu para 28,6% do tempo, chegando a 20% entre 1955 e 1982. Nos últimos 25 anos, apenas 5,3% do tempo a economia mais próspera do planeta esteve em recessão.

De fato, a economia americana tornou-se sempre mais estável ao longo do tempo (veja gráfico abaixo). Reparem que, a partir da década de 1950, as flutuações de crescimento e declínio do produto interno bruto daquele país se deram de forma bem mais suave que na primeira metade do século e, mesmo nos períodos considerados recessivos, as flutuações negativas foram muito menos abruptas.

Só o tamanho e a pujança da economia americana, com seu PIB hoje próximo dos 14 trilhões de dólares, distribuídos de forma amplamente diversificada pelos setores agrário, industrial, de serviços, financeiro e de tecnologia, dentre outros, proporcionam um elevado grau de estabilidade, como que vacinando-a contra as pressões recessivas.
Inversamente ao que prevê o wishful thinking antiamericanista, portanto, será preciso muito mais do que uma crise de hipotecas para colocar uma economia daquele tamanho e complexidade de joelhos. Ainda que Perry e outros estejam errados, e tenhamos realmente uma recessão em 2008, no longo prazo a economia dos EUA continuará em sua trajetória de prosperidade, pois, com recessão ou não, ela ainda será a maior geradora de riquezas, prosperidade e trabalho da História.
Leia também Má notícia para os urubus: o “Império” sobreviverá - I
segunda-feira, 31 de março de 2008
Discurso de Hitler legendando
UMA NOVA CASTA DOMINANTE.
Mas vejam que coisa, não é mesmo? O SOCIALISMO não é igualdade? Porque então a "turma" cria uma nova casta dominante? Simples: não existe proposta socialista, ela é apenas conversa para enganar trouxa. Existe apenas a VONTADE DE ASSUMIR O LUGAR DA CASTA DOMINANTE ANTERIOR. Uma briga pelo poder em outras palavras. Ou você já viu algum país SOCIOPATISTA onde tenha reinado a igualdade de fato, sem a poderosa CASTA POLÍTICA DOMINANTE?
Para comprovar, basta ver Cuba e China. Os apóstulos da igualdade assumiram imediatamente o lugar daqueles que eles mesmos diziam ser os responsáveis por TODAS AS MAZELAS. E passam a ser os responsáveis pelas antigas e pelas novas mazelas tais como matar quem não gostou da coisa, impedir a expressão religiosa e os movimentos políticos contrários. Simples assim. O LULINHA não está podre de rico, de funcionário de zoológico para a compra de uma fazenda por R$ 47.000.000,00 (sim, 47 milhões de reais) desde que seu papai tornou-se presidente (fora as outras maracutaias, claro...)? É a NOVA CASTA DOMINANTE fazendo valer seus "direitos".
E antes que digam que o LULA não é como Hitler, ou seja, socialista (NAZISMO = NACIONAL SOCIALISMO), vejam este vídeo. Prestem atenção ao discurso petista e ao discurso nazista.
Pais e filhos modernos - belo (e não único) exemplo de modernidade pior que aquilo que existia antes...
Somos as primeiras gerações de pais decididos a não repetir com os filhos os erros de nossos pais. E com o esforço de abolir os abusos do passado, somos os pais mais dedicados e compreensivos, mas, por outro lado, os mais bobos e inseguros que já houve na história. O grave é que estamos lidando com crianças mais "espertas", ousadas, agressivas e poderosas do que nunca.
Parece que, em nossa tentativa de sermos os pais que queríamos ter, passamos de um extremo ao outro. Assim, somos a última geração de filhos que obedeceram a seus pais e a primeira geração de pais que obedecem a seus filhos.
Os últimos que tiveram medo dos pais e os primeiros que temem os filhos. Os últimos que cresceram sob o mando dos pais e os primeiros que vivem sob o jugo dos filhos.
E o que é pior, os últimos que respeitaram os pais e os primeiros que aceitam que os filhos lhes faltem com o respeito.
À medida em que o permissivo substituiu o autoritarismo, os termos das relações familiares mudaram de forma radical, para o bem e para o mal. Com efeito, antes se consideravam bons pais aqueles cujos filhos se comportavam bem, obedeciam as suas ordens e os tratavam com o devido respeito. E bons filhos, as crianças que eram formais e veneravam seus pais.
Mas, à medida em que as fronteiras hierárquicas entre nós e nossos filhos foram-se desvanecendo, hoje, os bons pais são aqueles que conseguem que seus filhos os amem, e, ainda que pouco, os respeitem. E são os filhos quem, agora, esperam respeito de seus pais, pretendendo de tal maneira que respeitem as suas idéias, seus gostos, suas preferências e sua forma de agir e viver. E, além disso, os patrocinem no que necessitarem para tal fim.
Quer dizer, os papéis se inverteram, e agora são os pais quem têm de agradar a seus filhos para ganhá-los e não o inverso, como no passado. Isto explica o esforço que fazem hoje tantos pais e mães para serem os melhores amigos e "tudo dar" a seus filhos. Dizem que os extremos se atraem.
Se o autoritarismo do passado encheu os filhos de medo de seus pais, a debilidade do presente os preenche de medo e menosprezo ao nos ver tão débeis e perdidos como eles.
Os filhos precisam perceber que, durante a infância, estamos à frente de suas vidas, como líderes capazes de sujeitá-los quando não os podemos conter e de guiá-los enquanto não sabem para onde vão.
Se o autoritarismo suplanta, a permissividade sufoca.
Apenas uma atitude firme e respeitosa lhes permitirá confiar em nossa idoneidade para governar suas vidas enquanto forem menores, porque vamos à frente liderando-os e não atrás, os carregando e rendidos à sua vontade.
É assim que evitaremos o afogamento das novas gerações no descontrole e tédio no qual está afundando uma sociedade que parece ir à deriva, sem parâmetros nem destino. Os limites abrigam o indivíduo, com amor ilimitado e profundo respeito.
"Assim, somos a última geração de filhos que obedeceram a seus pais e a primeira geração de pais que obedecem a seus filhos".
Os inimigos do agronegócio
Por Marcel Solimeo em Segunda, 31 de Março de 2008
O presidente da República criticou, em solenidade em Foz de Iguaçu, "os competidores internacionais " do agronegócio do Brasil, "especialmente os considerados grandes ", afirmando que "temos que ser cada vez mais profissionais e ter cartão (?) de credibilidade social para fazer frente às intrigas que estão fazendo contra o Brasil no exterior". Afirmou que "quando um país é insignificante do ponto de vista da balança comercial, ninguém se incomoda. Mas quando passa a ser competitivo com as grandes potências do mundo, nós começamos a ser vítimas de ataques". Segundo o presidente Lula, "os dois argumentos mais repetidos são o de que a produção de álcool utiliza trabalho escravo e tira espaço para a produção de alimentos", mas "o Brasil tem apostado na produtividade, o que demonstra que não há risco para a produção de alimentos".
Tem razão o presidente quanto às críticas que faz aos países desenvolvidos, inclusive no tocante às sobretaxas ao álcool brasileiro, mas faltou acrescentar alguns inimigos do agronegócio, que também deveriam ser objeto da preocupação presidencial. Apenas de passagem, podemos lembrar que seu "guru" Fidel Castro, diante de quem ele se emociona, e seu "amigo" Chávez, têm afirmado publicamente que a produção de álcool se fará às custas dos alimentos. Os maiores inimigos do agronegócio brasileiro, no entanto, se encontram no Brasil, e têm se mostrado cada vez mais agressivos, travestidos de "movimentos sociais", como o MST, Via Campesina e outros.
Repetem-se a cada dia os espetáculos de violência dos autoproclamados "movimentos", como o ataque ao trem da Vale, que representam verdadeiros atos terroristas, em que se afeta a capacidade do País de competir no mercado mundial. Apesar das inegáveis vantagens comparativas que o País desfruta no mercado internacional, ele depende de constantes investimentos em pesquisa e tecnologia para manter sua liderança. A agressiva atuação desses grupos mostra claramente que a luta desses "movimentos " não é pela terra, mas contra a agricultura capitalista e a economia de mercado. Invasões de propriedades, de sedes de órgãos públicos e bloqueios de estradas, ataques a laboratórios e plantações se tornaram tão rotineiros que não mais merecem destaque da mídia, e qualquer indignação da sociedade. Sabe-se que tais "movimentos" recebem recursos de países e empresas estrangeiras, concorrentes do Brasil, através de ONGs, mas que a maior parte de seus recursos é de origem governamental, por intermédio do Incra, cuja atuação pode caracterizá-lo como grande "inimigo" do agronegócio.
Como o Incra é subordinado ao presidente da República, pode-se supor que siga a orientação governamental. Além do apoio ostensivo ao MST e a outros grupos, o Incra ainda procura atacar o direito de propriedade no campo com a tentativa de fazer a revisão dos índices de produtividade, de forma a afetar muitos produtores, o que lhe permitiria transferir mais áreas para "assentamentos", dos quais não se cobra qualquer eficiência . Mais ainda, editou uma absurda portaria, que permite transferir extensas áreas, não apenas rurais como urbanas, a grupos autoproclamados de "quilombolas", à revelia do dispositivo constitucional.
Não há mais, se é que houve em algum momento, dúvidas de que a maioria dos autointitulados "movimentos sociais" possui objetivos outros do que aqueles de melhorar a situação da população mais humilde, agindo por razões ideológicas, embora, muitas vezes, pareçam servir aos interesses de grupos estrangeiros, que temem a capacidade da agricultura brasileira. Embora as críticas do presidente aos "inimigos" externos do agronegócio brasileiro sejam procedentes, preocupa sua omissão no tocante aos " inimigos" internos, que continuam a agredir a lei e vêm doutrinando crianças e jovens, o MST, formando o que poderá ser uma geração de "fundamentalistas agrários" educados no ódio ao capitalismo, à propriedade agrícola.
Os custos do Crime
por Thomas Sowell em 28 de março de 2008
Resumo: O correto não é comparar o custo de manutenção de um criminoso na cadeia com o custo da educação superior, mas sim o custo de manutenção de um criminoso na cadeia e o custo de deixá-lo livre na sociedade. Mas isso não interessa ao New York Times ou outros representantes da esquerda.
© 2008 MidiaSemMascara.org
Por mais de dois séculos, a esquerda tem se preocupado com o destino dos criminosos, freqüentemente ignorando ou menosprezando o destino das vítimas dos criminosos.
Assim, não é surpresa que um recente editorial do jornal The New York Times tenha retomado um tema familiar à esquerda, de ambos os lados do Atlântico, com sua lamentação de que “a taxa de aprisionamento tem subido continuamente, enquanto o índice de criminalidade tem diminuído.”
Em 1997, o escritor Fox Bitterfield expressou, no Times, a mesma lamentação sob a manchete “O Crime Continua Caindo e as Prisões se Abarrotando”. Naquela época, como agora, os esquerdistas parecem considerar incompreensível que os índices de criminalidade se reduzam quando mais criminosos são postos atrás das grades.[1]
Não é surpreendente que a esquerda use uma antiga e irrelevante comparação – entre o custo de manutenção de um criminoso na cadeia e o custo da educação superior. Segundo o Times, os estados de Vermont, Connecticut, Delaware, Michigan e Oregon gastam tanto ou mais com os seus sistemas prisionais quanto com a educação superior.
A comparação relevante seria entre o custo de manutenção de um criminoso na cadeia e o custo de deixá-lo livre na sociedade. Mas, nem o Times, nem outros na esquerda mostram qualquer interesse nessa comparação.
Na Inglaterra, o custo total anual do sistema prisional é de £1.9 bilhão, enquanto que o custo financeiro anual apenas dos crimes cometidos está estimado em £60 bilhões.
A grande diferença entre os dois tipos de custos não é somente numérica. O custo de trancafiar criminosos tem de ser pago pelo orçamento governamental, que os políticos prefeririam gastar em programas assistenciais, que são eleitoralmente mais promissores. Mas o custo maior de deixar criminosos soltos é pago pelo público em geral, em termos financeiros e em termos da violência sofrida.
O resultado líquido é que tanto os políticos quanto os ideólogos da esquerda estão permanentemente advogando “alternativas ao aprisionamento”. Estas incluem programas com nomes adoráveis do tipo “supervisão comunitária” e com coisas high-tech como dispositivos eletrônicos de rastreamento de criminosos.
Mas, como exatamente podemos “supervisionar” um criminoso que está livre? Colocar alguém junto dele 24 horas por dia, 7 dias por semana, seria provavelmente muito mais caro do que deixá-lo trancafiado.
Mas, claro, ninguém está propondo tal coisa. Exigir que o criminoso se apresente, de tempos em tempos, a alguma autoridade pode ser suficiente para justificar o uso da suave expressão “supervisão”. Mas isso dificilmente restringirá o que um criminoso possa fazer com o tempo que ele tem, quando não está se apresentando à autoridade respectiva.
Dispositivos eletrônicos só funcionam quando eles estão sendo usados. Mesmo quando usados 24 horas por dia, 7 dias por semana, esses dispositivos só podem informar onde está o criminoso, não o que ele está fazendo.
Os criminosos libertos que não desejam tanta restrição podem, claro, remover o dispositivo e se tornarem fugitivos, com muito menos risco e problema do que teriam para fugir da prisão.
Um dos aspectos mais insidiosos dos programas “alternativos ao aprisionamento” é que aqueles que controlam tais programas também controlam as estatísticas e outras informações que seriam necessárias para se avaliar as conseqüências reais desses programas.
Eles não só controlam que informação é liberada, mas a quem ela é liberada.
Quando as autoridades, cujas carreiras estão sob risco, podem escolher entre pesquisadores que vêem o aprisionamento como sendo “malévolo” aos criminosos e outros pesquisadores que são muito menos simpáticos aos criminosos, quem você acha que vai ter acesso aos dados?
Um estudo a respeito do tratamento dado a criminosos na Inglaterra – A Land Fit for Criminals [Um país ideal para criminosos], escrito por David Fraser – tem diversos capítulos tratando dos muitos jogos feitos com as estatísticas a fim de fazer dos programas “alternativos ao aprisionamento” iniciativas de sucesso, mesmo quando fracassam estrondosamente, com trágicos resultados para o público.[2]
A Inglaterra desceu uma ladeira muito maior do que aquela que o The New York Times sugere que desçamos. No processo, a Inglaterra deixou de ser uma das nações mais cumpridoras da lei para superar os EUA na maioria das categorias de crimes.
[1] Esquerdista, como se sabe, é o mesmo em qualquer lugar. Aqui no Brasil, a discussão da grande população carcerária e do baixo índice de criminalidade aconteceu recentemente, a respeito de uma comparação entre São Paulo e outros estados brasileiros. Reinaldo Azevedo, em seu blog, mostrou que, no Brasil, a ilogicidade da esquerda é a mesma que Sowell denuncia tanto nos EUA, quanto na Inglaterra. (N. do T.)
[2] Ver, de Sowell, Esquerda e criminalidade: Parte I. (N. do T.)
Publicado por Townhall.com
Tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo
Que falta faz um Voltaire
Escrito por Reinaldo Azevedo, na Veja, 29 de março de 2008
Falei outro dia a estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Um deles, militante socialista, antiimperialista, favorável ao bem, ao justo e ao belo, um verdadeiro amigo do povo (por alguma razão, ele acha que eu não sou), tentou esfregar Rousseau (1712-1778) na minha cara como exemplo de filósofo preocupado com o bem-estar do homem. "Justo esse suíço que não cuidava nem dos próprios filhos, entregando-os todos a asilos de crianças?", pensei. O sujeito amava demais a humanidade para alimentar as suas crias. "O que será que alguns mestres andam dizendo nas escolas?"
Já participei de outros eventos assim. A expressão do momento, nas universidades, é resistir à "colonização promovida pelo mercado". A maioria silenciosa não dá bola pra essa besteira. A minoria barulhenta vai à guerra. O conceito é curioso porque faz supor que possamos ser caudatários, então, de uma cultura autóctone, de um nativismo pré-mercado ou de um tempo edênico em que o mundo não havia sido ainda corrompido.
A pauta de contestação varia pouco. Que importa se Israel é a única democracia do Oriente Médio? A justiça, sem matizes, estará sempre com os palestinos. O terrorismo islâmico assombra o planeta e obriga os regimes democráticos a uma vigilância que testa, muitas vezes, seus próprios fundamentos? A culpa cabe ao "fundamentalismo cristão" de George W. Bush, com sua "guerra ao terror". As Farc seqüestram e matam? É preciso eliminar a influência que os EUA exercem na América do Sul. O crime assombra a vida cotidiana dos brasileiros? O país precisa é de menos cadeias e mais escolas, como se fossem categorias permutáveis. Existe remédio para a tal "injustiça social"? Claro! Responda-se com a estatização dos pobres. A Terra está derretendo? É preciso pôr fim ao neoliberalismo. Sem contar os malefícios da imprensa burguesa...
Agora sei. É tudo culpa de Rousseau e do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Quem melhor comentou a obra, numa cartinha enviada ao próprio autor, foi Voltaire (1694-1778), pensador francês: "Quando se lê o seu trabalho, dá vontade de andar sobre quatro patas". Este sabia das coisas. Descobriu a "força da grana – e da liberdade – que ergue e destrói coisas belas". Está claro nos textos de Cartas Inglesas. E, à diferença do outro, não dava muita pelota pra esse papo de "igualdade".
Algumas normalistas de meias três-quartos do articulismo pátrio diriam que Voltaire era um malcriado. Onde já se viu tratar daquele jeito um senhor que só pensava no bem da humanidade? Afinal, o que ele queria? Ora, todos cedemos um pouquinho aos interesses coletivos e seremos felizes. Não sou Voltaire: minhas ambições e meu nariz são menos proeminentes, mas noto o convite permanente para que passemos a nos deslocar sobre quatro patas. Na prática, o iluminismo anglo-saxão venceu: a força da grana erigiu cidades, catedrais, civilizações e fez vacinas. O discurso da igualdade, quando aplicado, produziu uma impressionante montanha de mortos. Mas vejam que coisa: é Rousseau quem está em toda parte, reciclado pela bobajada do marxismo, que tentou lhe emprestar o peso de uma ciência social.
O que isso quer dizer na história das mentalidades? O socialismo perdeu o grande confronto da economia e desabou sobre a cabeça dos utopistas, mas as esquerdas têm vencido a guerra da propaganda cultural, impondo a sua agenda, aqui e em toda parte. Dominam o debate público e, pasmem!, foram adotadas pelo capital. Estão incrustadas, como se sabe, nas universidades e nos aparelhos do estado, mas também nas grandes empresas, que financiam institutos culturais e ONGs dedicados a preservar as árvores, as baleias, as tartarugas, a arte e, às vezes, até as criancinhas. De quebra, também nos convidam a ser tolerantes com o que nos mata.
São todos, de fato, "progressistas", filhos bastardos do suíço vagabundo. Eu, um "reacionário", um tanto voltairiano, embora católico, pergunto aos meus botões: um banco não é mais "humanista" quando oferece crédito e spread baratos do que quando se propõe a salvar o planeta? Na propaganda da TV, a mineradora parece extrair do fundo da terra mais sentenças morais do que ferro, mais poesia e idéias de "igualdade" – esta droga perigosa – do que minério. Escondam o lucro! Ele continua a ser um anátema, um pecado social e uma evidência de mau-caratismo. O lucro leva pau até em roteiro de Telecurso 2º Grau. Aposto que boa parte dos nossos universitários, a pretensa elite intelectual brasileira, acredita que as vacinas nascem do desejo de servir, não da pesquisa financiada pela salvadora cupidez da indústria farmacêutica.
O socialismo acabou, sim. Então vamos lá: "Abaixo o socialismo!". Porque ele sobreviveu nas mentalidades e ainda oprime o cérebro dos vivos com o peso de seus milhões de mortos. O século passado viu nascer e morrer esse delírio totalitário. Seu marco anterior importante é a Revolução Francesa, mas sua consolidação se deu com a Revolução Russa de 1917, que ousou manipular a história como ciência da iluminação. A liberdade encontrou a sua tradução nos campos de trabalhos forçados, com a população de prisioneiros controlada por uma caderneta ensebada que o ditador soviético Josef Stalin (1879-1953) levava no bolso. A igualdade mostrou-se na face cinzenta da casta dos privilegiados do regime. A fraternidade converteu os homens em funcionários do partido prontos a delatar os "inimigos do estado e do povo". A utopia humanista vivida como pesadelo impôs-se pelo horror econômico e acabou derrotada pelo inimigo contra o qual se organizou: o mercado. Mas, curiosamente, sobreviveu como um alucinógeno cultural.
De que "socialismo" falo aqui? É claro que o modelo que se apresentava como "a" alternativa não-capitalista de organização da sociedade desapareceu. E a China é a prova mais evidente de sua falência – do modelo original, o país conservou apenas a ditadura do partido único. O livro O Fim da História e o Último Homem, do historiador americano Francis Fukuyama, já se tornou um clássico do registro desse malogro. Demonstrou-se a falência teórica e prática de um juízo sobre a história: aquele segundo o qual o macaco moral que fomos nos tempos da coleta primitiva encontraria o estágio final de sua sina evolutiva no bom selvagem socialista, de espinha ereta, pensamentos elevados e apetites controlados pela ética coletiva.
De fato, os donos das minas de carvão (que seres desprezíveis!), os mercadores cúpidos, os colonizadores e até seus sicários, toda essa gente acabou, mesmo sem saber, civilizando o mundo. Felizmente, o homem não é bom. A sociedade, por meio dos valores, é que ajuda a controlar os seus maus bofes. Estamos falando de duas visões distintas de mundo. Uma supõe uma religião em que o deus único é o estado; o bem alcançado é diretamente proporcional à redução do arbítrio individual: menos alternativas, menos probabilidade de erro. E a outra acolhe a vontade do sujeito como motor da transformação do mundo, respeitadas algumas regras básicas de convivência. Atenção: a democracia moderna nasce dessa vertente, não da outra, semente dos dois grandes totalitarismos do século passado: fascismo e comunismo.
É o modelo de proteção às liberdades individuais, sem as quais inexistem liberdades públicas, que nos faculta o direito de criticar o nosso próprio modelo. Não obstante, as causas influentes, reparem, piscam um olho ora para utopias regressivas, ora para teorias que nos convidam a entender os facínoras segundo a particularíssima visão de mundo dos... facínoras! É a forma que tomou a militância de esquerda, que nos convida a resistir à "colonização promovida pelo mercado".
Tomem cuidado com os militantes da "igualdade" e da "justiça social". Toda crença tem um livro de referência. Esta também. Além de ter sido escrito com o sangue de muitos milhões, só se pode lê-lo adequadamente sobre quatro patas.
Socialismo ou barbárie?
por Carlos I.S. Azambuja em 28 de março de 2008
Resumo: Se o mercado é uma conquista permanente da civilização moderna, então o socialismo real, que o aboliu, cometeu um ato de barbárie.
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KGB, braço-armado da ditadura do proletariado
Quando ainda se encontrava no poder, Gorbachev afirmou que o mercado não era apenas uma invenção capitalista e sim uma conquista permanente da civilização moderna. E que, além do mercado, a propriedade privada e o princípio do lucro eram também aquisições do mundo moderno. No campo político, Gorbachev reconheceu como incontestáveis a democracia parlamentar e as liberdades individuais. Era, então, o tempo da perestroika e da glasnost.
Alguém já se teria preocupado em analisar as conseqüências desses pronunciamentos do ex-Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética e ex-presidente da ex-URSS?
É simples: se o mercado é uma conquista permanente da civilização moderna, então o socialismo real, que o aboliu, cometeu um ato de barbárie e, por vir exigindo a supressão do mercado desde o Manifesto Comunista, ou seja, há mais de 150 anos, o ideal socialista é, ele próprio, uma ameaça à civilização, em vez de ser um corretivo para as mazelas do capitalismo selvagem.
No campo político, o socialismo antepôs a ditadura do proletariado à democracia. Já em 1918, essa ditadura fechou sumariamente a Assembléia Nacional Constituinte na Rússia e instituiu os Gulags (mais de 4 milhões de vítimas reconhecidas, com dezenas de milhares de mortos, segundo estimativas), fomes genocidas (7 milhões de mortos somente na Ucrânia), massacres (desde Kronstadt, em 1921, até Vilna, em 1991), sindicalismos de pelegos, hospitais psiquiátricos para os dissidentes e casas de repouso para os membros da Nomenklatura e para os dirigentes dos partidos-irmãos.
A partir de tais pressupostos político-econômicos, o socialismo real asfixiou a vida social. O controle estatal da produção científica impôs à URSS e aos países satélites um calamitoso atraso tecnológico. Foram destruídas, quase por completo, as emergentes ciências humanas; a filosofia foi reduzida a serva da propaganda; a religião voltou às catacumbas; e áreas inteiras da cultura ocidental foram totalmente censuradas.
As artes, no entanto, sofreram o pior. Os suicídios de Yessenin (Sergei Yessenin, poeta) e de Maiakovski (Vladimir Maiakovski, poeta), o assassinato de Meyerhold (Vsevolod Emilevitch Meyerhold, pseudônimo de Karl Kazimir Theodor Meyerhold, diretor e ator teatral), a deportação de Soljesnitsyn (Alexander Soljenitsyn, escritor), a rejeição de Stravinski (Igor Stravinski, compositor), são apenas alguns indícios dos assombrosos crimes culturais que deixaram desterrada, ou nos porões, as artes na ex-União Soviética, história que ainda não foi contada por inteiro.
Igualmente, em nome da revolução internacional e da vitória final do socialismo, as nações vizinhas da ex-União Soviética foram sistematicamente agredidas - recordemos as invasões dos países bálticos em 1918 e, posteriormente da Hungria, Checoslováquia, Polônia e Afeganistão -, e o mundo levado à beira do conflito nuclear.
Conclui-se, portanto, que o chamado socialismo real cometeu uma agressão sem precedentes à civilização, agressão que só pode ser comparada à desfechada por um outro tipo de socialismo, o nacional-socialismo. Mas, além das fortes semelhanças, conforme Adolf Hitler afirmou em fevereiro de 1941 - “basicamente, o nacional-socialismo e o marxismo são a mesma coisa”-, existem entre o nazismo e o bolchevismo notáveis diferenças. Uma delas é que o nacional-socialismo permaneceu 12 anos no poder, enquanto o Leviatã do socialismo real governou por 70 anos.
Outra diferença é que o Nuremberg dos bolcheviques não ocorreu e, provavelmente, jamais ocorrerá, pois as instituições jurídicas criadas pelo socialismo real, que, em parte, ainda permanecem vigentes, foram de tal forma corrompidas a ponto de não permitirem iniciativas nesse sentido. Como não existe um vencedor oficial do socialismo real, não haverá julgamento formal de seus crimes contra a humanidade e, nesse sentido, cabe duvidar que o famoso julgamento da História, consolo vão dos acusadores impotentes, faça, algum dia, justiça aos milhões de sacrificados nos arquipélagos Gulag.
Nesse sentido, segundo o jornalista inglês Paul Johnson, da revista “The Spectator” (jornal O Estado de São Paulo de 11 de janeiro de 1998), “O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror, Repressão”, de autoria de um grupo de intelectuais ex-comunistas, lançado em Paris em 1997, com 846 páginas, pode ser considerado o primeiro livro de consulta sobre o que autor chama de “tragédia planetária”. O livro, logo transformado em um best-seller, mostra com riqueza de detalhes que os crimes do comunismo não apenas superaram de longe os do nazismo em termos de quantidade, mas que os dois sistemas, em todos os pontos básicos morais, foram idênticos.
Os nazistas foram responsáveis por 25 milhões de mortes, ao passo que os mortos nos vários Estados do socialismo real não ficaram aquém de 100 milhões, dentre os quais 20 milhões na Rússia e 65 milhões na China.
O mais importante, talvez, é que o “Livro Negro do Comunismo” submete esses crimes de Estado aos mesmos critérios judiciais iniciados com o Tribunal de Nuremberg, em 1945, e recentemente aplicados na Bósnia, na Sérvia e demais Estados que se desprenderam da ex-Iugoslávia. Pelo artigo 6º dos Estatutos de Nuremberg, crimes de Estado se enquadram em três grandes categorias: crimes contra a paz, crimes de guerra, e crimes contra a humanidade.
| Montes de mortos na Ucrânia. |
[*] Grande Fome de 1932-1933, matou 4 milhões de ucranianos, 1 milhão de casaques e mais de 1 milhão de soviéticos. A Ucrânia, com o 2º solo mais fértil do mundo, tornou-se um imenso cemitério a céu aberto quando os comunistas esfomearam até a morte 1/3 da população camponesa so país para a "coletivização" das terras (leia-se escravização dos camponeses). Na economia socialista, quem mais produz alimentos é quem mais morre de fome.
Teoria Materialista da História[1]
Do BLOG DO ANGUETHG. K. Chesterton, sexta-feira, 10 de março de 2006
A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.
Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história
Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.
Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.
[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)
MCT contra MST - boa idéia para os produtores e proprietários rurais
Do portal MÍDIA SEM MÁSCARApor Ipojuca Pontes em 31 de março de 2008
Resumo: O que se esconde por trás do João Pedro Stédile? Por que diante de tantos atos de terrorismo explícito do MST a justiça não consegue colocá-lo por trás das grades?
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“O MST é o braço armado do PT no campo”
(de uma faixa vermelha exposta num acampamento da organização comunista, em São Paulo)
Eis a cronologia da violência organizada: no dia 4 de março cerca de 900 militantes profissionalizados do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e Via Campesina destruíram a Fazenda Tarumã, em Rosário do Sul, ocasião em que a reincidente “campesina” Irma Maria Ostrosky, de foice na mão, tentou degolar o coronel Lauro Binsfield, da Brigada do Rio Grande do Sul. O coronel, para não morrer, defendeu o pescoço com um dos braços que, rasgado em suas carnes, levou sutura de 20 pontos.
Dia 7, na sua vasta ofensiva contra a expansão do pleno desenvolvimento socioeconômico do campo, centenas de integrantes do “movimento” invadiram unidade agrícola da Monsanto, em Santa Cruz das Palmeiras (SP), e destroçaram fazenda experimental de milho transgênico. Um pouco mais tarde, em Pernambuco, antes de ocupar a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do S. Francisco, em Petrolina, os integrantes do MST atearam fogo na casa grande do engenho Cachoeira Dantas, em Água Preta. Na mesma hora e estado, um bando enfurecido ocupou as terras do engenho Pereira Grande, no município de Gameleira, ameaçando os proprietários e trabalhadores rurais. De quebra, em São Paulo, ocuparam boa parte da Usina Cevasa, da Cargill, em Patrocínio Paulista.
No dia 9, no Maranhão, hordas de invasores do MST ocuparam e depredaram as instalações da fazenda Monte Líbano, da Ferro Gusa Carajás, em Açailândia. Com igual propósito, ocuparam a carvoaria da Vale no mesmo município.
No dia 10, em Resplendor, Minas Gerais, o MST bloqueou os trilhos da ferrovia da Vale do Rio Doce e impediu o transporte de 300 mil toneladas de minérios de ferro e o embarque de dois mil passageiros. Em Salvador, Bahia, o grupo predador ocupou a Secretaria da Agricultura, “cobrando” mais recursos públicos. No Maranhão, arma em punho, o bando obstruiu as atividades de construção da Hidrelétrica de Estreito, localizada na BR-010, ocasionando uma morte. Em Xanxerê, Santa Catarina, a horda invadiu e paralisou os trabalhos da empresa Agroeste, voltada para a distribuição de sementes de milho, acarretando prejuízos financeiros e vultosos danos materiais.
No dia 11, mascarados e portando foices, facões, machadinhas, machados e escudos de lata e madeira, milhares de integrantes do MST iniciaram dezenas de manifestações predatórias nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo, Rondônia, Ceará, Pará, São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, todas objetivando impedir as atividades das empresas do agronegócio e a construção de hidrelétricas planejadas para entrar em funcionamento nos próximos anos.
No dia 12, o MST paralisou as atividades da Tractebel, no Paraná, empresa responsável pelo funcionamento da usina hidrelétrica de Salto Santiago, em Saudade de Iguaçu. Na capital de São Paulo, por sua vez, o bando invadiu a sede do desmoralizado Ibama, em protesto contra o parecer favorável do órgão ambiental para a construção da hidrelétrica do Tijuco Alto, da Cia. Brasileira de Alumínio (Grupo Votorantim), no rio Ribeira.
Afinal, no dia 19, depois de seguidas invasões das instalações da Cia. Vale do Rio Doce, a juíza Patrícia Rodriguez Whathely, da 41ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, concedeu liminar proibindo o MST e o seu dirigente João Pedro Stédile de “incitarem e promoverem atos de violência” contra a empresa, penalizando com multa de R$ 5 mil as ações de invasão, força e destruição. No exame da questão, a juíza entendeu que o fato do MST não possuir personalidade jurídica e ser um movimento clandestino não impede sua participação em processo judicial, “devendo seu dirigente nacional representá-lo”.
Senhor de si, alheio à medida judicial imposta pela juíza, Stédile, tido entre os pares como o “poderoso chefão”, disse o seguinte (ao participar de “aula magna” no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro): “A multa é uma idiotice. Tenho multas muito mais altas, mas nada vai parar o trem. Pelo contrário, nós ficamos mais bravos ainda e não vamos mudar de jeito nenhum”. E finalizou sua fala arrogante provocando o presidente da Vale do Rio Doce: “O seu (Roger) Agnelli é um preposto do Bradesco (...) Ele tem todo direito de espernear. E nós temos o direito de continuar a luta para reestatizar a Vale”.
O que se esconde por trás do João Pedro Stédile, o Lampião da vida rural brasileira? Por que ele se transformou no indivíduo mais poderoso da vida pública, privada e clandestina nacional? Por que diante de tantos atos de terrorismo explícito a justiça não consegue colocá-lo por trás das grades? Por que a ação predatória do MST ganha apoio do governo na medida em que a organização criminosa faz recrudescer a violência?
Sim, é verdade: Stédile e o seu movimento bandoleiro contam com o patronato da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), uma agência do establishment britânico. Além do mais, têm também o farto respaldo financeiro de organizações privadas e oficiais estrangeiras dispostas a transformar o Brasil numa “pátria livre, operária e camponesa”, conforme reza a cartilha do movimento (desde já associado à “revolução bolivariana”, de Chávez). Mas tais vinculações seriam suficientes para colocar o facinoroso chefão e sua massa de manobra revolucionaria acima da ordem e da lei?
Diante do panorama avassalador, em que pouco se faz e tudo se protela, a pergunta que a muitos se impõe é a seguinte: por que os interessados não organizam o Movimento dos Trabalhadores Com Terra (MCT) para, usando os mesmos métodos e prerrogativas do MST, recuperarem suas propriedades e, recuperando-as, restabelecerem a paz e a produtividade no campo?

Propriedade Privada e Pena de Morte
Sábado, 16 de fevereiro de 2008
Como sabemos, o nível de conhecimento dos católicos em geral sobre a doutrina da Igreja Católica está diminuindo numa rapidez incrível. Isso não chega a ser uma surpresa para quem acompanha a grande crise da Igreja, sobretudo depois do Concílio Vaticano II. O que era, no século XIX e no início do século XX uma preocupação dos papas, se torna hoje uma realidade inquestionável.
Só para citar um exemplo, o Papa São Pio X, na encíclica SACRORUM ANTISTITUM (1 de setembro de 1910), diz dos sermões e homilias dos padres modernistas de então: “Procuram lisonjear os ouvintes ‘que são movidos pelo prurido de novidade’, contanto que mantenham as igrejas cheias, embora as almas não sejam curadas por permanecerem vazias. Por isso não falam nunca do pecado, nunca dos novíssimos, nunca de outras verdades gravíssimas que poderiam abalar a salvação, mas falam somente ‘com palavras de bajulação’; e isso o fazem também com eloqüência mais de tribunal do que de apóstolos, mais profana do que sagrada, atraindo para eles aplausos; esses já haviam sido condenados por São Jerônimo, quando escreveu: ‘Quando tu ensinas em assembléia, seja suscitado não o aplauso do povo, mas o arrependimento; teu louvor sejam as lágrimas dos ouvintes’.” [ênfases minhas]
Lembremos de um dito popular antigo: “Padre santo, povo piedoso. Padre piedoso, povo bom. Padre bom, povo aceitável. Padre aceitável, povo tíbio. Padre tíbio, povo ruim. Padre ruim, povo corrupto. Padre corrupto, povo péssimo”.
Vocês podem escolher em qual desses níveis acima nos encontramos. Daí, o povo católico estar à mercê de todo tipo de confusão.
Há duas discussões recentes no blog do Reinaldo de Azevedo, que são questões a respeito das quais a Doutrina Católica tem uma posição muito clara. Elas ilustram a situação de desconhecimento em que nos encontramos.
Uma delas se refere ao quinto mandamento (Não matar) e a outra ao sétimo mandamento da Lei de Deus (Não roubar).
Em resumo, a questão sobre o quinto mandamento surgiu quando Reinaldo Azevedo saúda a morte de um terrorista árabe sanguinário e seus críticos logo lembram que ele, como católico, não devia saudar a morte de ninguém. Ele explica sua posição assim (cito de memória): “A morte de só homem nos diminui a todos. A morte de um sanguinário nos eleva a todos. Isso não nos desobriga de rezar pela alma dele.”
Ele está certo! Dentre as situações em que não há violação do quinto mandamento há a legítima defesa e a pena de morte (também a guerra santa). Sim, irmãos católicos, a Igreja apóia a pena de morte. Leiam o Catecismo em vigor, itens 2265 e 2267. A pena de morte deve ser aplicada exatamente em criminosos sanguinários, “se essa for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto”, com diz o catecismo.
Só para lembrar aos esquecidos católicos, houve uma época em que parte da cristandade, sob influência herética, condenou, contra as afirmações da Igreja, a guerra e a pena de morte como coisas más em si. Estávamos então em pleno renascimento (o verdadeiro) medieval, nos séculos XII e XIII. Quem defendia essas idéias eram os cátaros, seita herética que quase destruiu toda a humanidade, não fosse a reação armada articulada pela Igreja. Isso nos deixa uma lição muito importante: idéias têm conseqüências.[1] Atenção: os verdadeiros ancestrais dos pacifistas modernos são os cátaros. Não tenham dúvidas disso.
A outra questão surgiu quando Reinaldo Azevedo comenta sobre o padre que está estimulando a invasão de terras pelo MST. Ele comenta que a CNBB não apoiou o tal padre e que reafirmou que a Igreja defende o direito de propriedade. Sim, irmãos católicos, a Igreja determina o respeito à propriedade privada, por mais que os padres comunistas modernos nos afirmem o contrário. Leiam os comentários ao sétimo mandamento do Catecismo em vigor, itens 2408 e 2409.
É claro que apenas ouvindo as homilias dos padres modernos, ou mesmo, lendo os comentários bíblicos nas edições modernas das Sagradas Escrituras[2], teremos a certeza de que todos os profetas do Antigo Testamento, Jesus Cristo e os apóstolos foram todos comunistas e pacifistas desde criancinha.
[1] A propósito, há um livro extraordinário de Richard Weaver com este título. Eu (Antônio Emílio Angueth de Araújo) traduzi a introdução desse livro e o postei aqui no blog. (C.T. - o link é do CAVALEIRO DO TEMPLO pois já postei esta tradução aqui).
[2] Ver, Exegese de uma exegese bíblica.
A dissolução do Ocidente: uma introdução
Richard Weaver, Sábado 23 de Setembro de 2006
Nota inicial: Richard M. Weaver (1910-1963) foi professor de inglês na Universidade de Chicago. Apesar de sua curta vida, foi um expoente do pensamento conservador americano e sua obra é extensa (basta digitar seu nome na Amazon.com para se ter uma idéia de suas obras ainda editadas). Ele é, contudo, praticamente desconhecido no Brasil. Arriscando-me a cometer alguma injustiça, afirmo nunca ter visto referência a seu nome em obras em português. Em 1948, ele escreveu um pequeno livro de 187 páginas intitulado “Ideas Have Consequences” que até hoje é editado pela editora da Universidade de Chicago, do qual traduzo seu capítulo introdutório. O livro é um extraordinário diagnóstico da situação da queda do homem ocidental. Na contra-capa do livro, Robert Nisbet, outro grande conservador americano, afirma que “este livro profundamente profético não só iniciou a renascença do conservadorismo filosófico neste país [EUA], como também, no processo, nos forneceu um arsenal de insights sobre as doenças que acometem nossa nação e é tão atual hoje, como quando de sua primeira edição.” Que esse livro nunca tenha sido traduzido para o português e editado no Brasil é só mais uma confirmação do que nos ensina, insistentemente, Olavo de Carvalho. É necessário que libertemos nosso país da sinecura acadêmica em que se transformou a universidade brasileira.
Este é um outro livro sobre a dissolução do Ocidente. Eu tento fazer duas coisas pouco comuns na crescente literatura sobre o assunto. Primeiro, apresento uma avaliação do declínio baseada não em analogia, mas em dedução. O ponto de partida é a suposição de que o mundo é inteligível, que o homem é livre e que as conseqüências que, agora, expiamos são o produto de uma escolha não inteligente e não de necessidade biológica ou de outra natureza qualquer. Em segundo lugar, subjaz em minha proposta – senão de solução, pelo menos de início de solução – a crença de que o homem não deve utilizar-se de uma análise científica como pretexto por sua impotência moral.
Considerando o mundo a que essas questões são endereçadas, tenho me surpreendido com a dificuldade de admissão de certos fatos iniciais. Essa dificuldade é devida, em parte, à prevalecente teoria Whig da história[1] – com a sua crença de que o ponto mais avançado no tempo representa o ponto de mais elevado de desenvolvimento – que é, sem dúvida, auxiliada pelas teorias da evolução que sugerem ao desatento a existência de um tipo de passagem necessária do simples ao complexo. No entanto, o problema real se encontra numa camada mais profunda. Trata-se do espantoso problema, quando casos reais são enfrentados, de fazer os homens distinguirem entre o melhor e o pior. Têm as pessoas, atualmente, uma escala de valores suficientemente racional para avaliar esses predicados com inteligência? Há fundamento para se declarar que o homem moderno se tornou um idiota moral. São tão poucos os que se preocupam em examinar suas próprias vidas, ou conseguem suportar a censura diante da constatação de que nosso estado presente pode ser um estado de queda, que se pode perguntar se as pessoas, hoje, entendem o que significa a superioridade de um ideal. Pode-se esperar que haja uma perda da capacidade do raciocínio abstrato; mas o que dizer quando afirmações do tipo mais concreto são feitas e as pessoas não conseguem perceber diferenças ou tirar uma conclusão? Por quatro séculos, todo homem tem sido não só seu próprio sacerdote, mas também seu próprio professor de ética, e a conseqüência é uma anarquia que ameaça até o consenso mínimo de valores necessário à existência do estado político.
Certamente temos razão em dizer, de nossa época: se procuras um monumento à nossa tolice, olha para ti. Nestes dias que passam, temos visto cidades obliteradas e fés antigas atacadas. Podemos perguntar, com as palavras de Mateus, se não estamos enfrentando “a tribulação” que “será tão grande como nunca foi vista, desde o começo do mundo.”[2] Por muitos anos, temos nos movido com uma imprudente confiança de que o homem atingiu uma posição de independência, que tornou desnecessários os antigos limites. Agora, na primeira metade do século XX, no topo do progresso moderno, contemplamos surtos inigualáveis de ódio e violência; vemos nações inteiras desoladas pela guerra e transformadas em campos de concentração por seus conquistadores; descobrimos que metade da humanidade considera a outra metade criminosa. Por todo lado, ocorrem sintomas de psicose coletiva. Mais portentoso ainda é que surgem fundamentos divergentes de valores, de forma que nosso globo planetário único é escarnecido por mundos com diferentes entendimentos. Esses sinais de desintegração despertam o medo e o medo leva a esforços unilaterais desesperados de sobrevivência, que só fazem avançar o progresso.
Como Macbeth, o homem ocidental tomou uma má decisão, que se tornou a causa eficiente e final de outras más decisões. Já nos esquecemos de nosso encontro com as bruxas na charneca? Ele aconteceu no século XIV e o que as bruxas disseram ao protagonista desse drama foi que o homem poderia realizar-se mais integralmente se ele, simplesmente, abandonasse sua crença na existência dos transcendentais. Os poderes da escuridão estavam trabalhando sutilmente, como sempre, e eles expressaram essa proposição como uma, aparentemente, inofensiva forma de ataque aos universais. A derrota do realismo lógico no grande debate medieval foi o evento crucial da histórica da cultura ocidental; disso seguem aqueles atos que nos trás, agora, à moderna decadência.
Pode-se acusar essa descrição de simplificar excessivamente o processo histórico, mas tenho para mim que as políticas conscientes de homens e governos não são meras racionalizações que surgem como resultado de incontáveis forças. Elas são, ao contrário, deduções a partir de nossas mais básicas idéias sobre o destino humano, e elas têm o poder, não inteiramente desobstruído, de determinar o curso de nossa história.
Por essa razão, volto-me para Guilherme de Occam como o melhor representante de uma alteração surgida na concepção do homem sobre a realidade, naquele momento histórico. Foi Guilherme de Occam quem propôs a fatídica doutrina do nominalismo, que nega que os universais tenham uma existência real. Seu triunfo resultou em que os termos universais são meros nomes que podem servir à nossa conveniência. A questão de fundo envolve saber se existe uma fonte da verdade superior ao, e independente do, homem; e a resposta a essa questão é decisiva para qualquer visão da natureza e do destino da humanidade. O resultado prático da filosofia nominalista é banir a realidade que é percebida pelo intelecto e postular como realidade a que é percebida pelos sentidos. Com essa mudança na afirmação do que é real, toda a orientação da cultura se desviou e estamos trilhando, agora, o caminho do moderno empirismo.
É fácil deixar de enxergar a significância de uma mudança por ela apresentar um caráter abstrato e ter acontecido no passado remoto. Aqueles que não descobriram que a visão-de-mundo é a coisa mais importante em relação ao homem – quando, por exemplo, ele constrói uma cultura – devem considerar a cadeia de circunstâncias que, com perfeita lógica, seguiu-se ao nominalismo. A negação dos universais leva consigo a negação de toda experiência transcendente. A negação de toda a experiência transcendente significa inevitavelmente – apesar de se terem encontrado formas de subterfúgios – à negação da verdade. Com a negação da verdade objetiva não há como escapar do relativismo – “do homem como medida de todas as coisas”. As bruxas falaram com a habitual ambigüidade dos oráculos, quando disseram ao homem que pela escolha fácil ele poderia se realizar mais inteiramente, pois, elas estavam iniciando um percurso que isola o homem da realidade. Assim começou a “abominação da desolação” que aparece hoje como uma sensação de alienação de toda realidade fixa.
Como a alteração de uma crença tão profunda acaba por influenciar todo o arcabouço conceitual, depois de muito tempo, surgiu uma nova doutrina sobre a natureza. Enquanto anteriormente a natureza tinha sido considerada uma imitação de um modelo transcendental, constituindo uma realidade imperfeita, agora, ela era vista como contendo os princípios de sua própria constituição e comportamento. Tal revisão teve duas importantes conseqüências para indagação filosófica. Primeira, ela encorajou um estudo cuidadoso da natureza, estudo que veio a ser conhecido como ciência, na suposição de que pelos seus atos (da natureza), ela revelava sua essência. Segunda, e pelo mesmo motivo, ela pôs de lado a doutrina das formas imperfeitamente realizadas. Aristóteles reconheceu um elemento de ininteligibilidade no mundo, mas a visão da natureza como um mecanismo racional expulsou este elemento. A expulsão do elemento de ininteligibilidade na natureza foi acompanhada pelo abandono da doutrina do pecado original. Se a natureza física é a totalidade e se o homem é apenas natureza, é impossível pensar que ele sofra de um mal constitucional; seus defeitos devem ser, agora, atribuídos simplesmente a sua ignorância ou a algum tipo de privação social. Chega-se assim, por uma límpida dedução, ao corolário da bondade natural do homem.[3]
E isso não é tudo. Se a natureza é um mecanismo auto-operante e o homem um animal racional adequado a suas necessidades, a próxima coisa a fazer é elevar o racionalismo ao posto de uma filosofia. Como o homem propunha, então, não ir além do mundo, seria apropriado que ele considerasse como sua mais alta vocação o desenvolvimento de métodos de interpretação dos dados supridos pelos seus sentidos. Seguiu-se a transição para Hobbes e Locke e os racionalistas do século XVIII, que ensinaram que o homem precisava apenas alimentar a razão com as evidências da natureza. A questão sobre a constituição do mundo se tornava, a partir de agora, sem sentido, pois, formulá-la pressuporia algo anterior à natureza, na ordem da existência. Assim, não é o misterioso fato da existência do mundo que interessa ao novo homem, mas as explicações de como ele funciona. Essa é a base racional da moderna ciência, cuja sistematização dos fenômenos é, como Bacon declarou em Nova Atlântida, um meio de domínio.
Nesse momento, a religião começa a assumir uma dignidade ambígua e a questão sobre se ela vai continuar a existir num mundo de racionalismo e ciência deve ser enfrentada. Uma solução é o deísmo, que faz de Deus o resultado de uma leitura racional da natureza. Mas essa religião, como todas as que negam uma verdade anterior, foi impotente para unir os homens; ela apenas permite cada homem livre interpretar o mundo dos sentidos como lhe aprouver. Seguiram-se referências à “natureza e à natureza de Deus,” e a anomalia de uma religião “humanizada”.
O materialismo nos espreitava no horizonte, pois, ele estava implícito no que já tinha sido acordado. Assim, ele logo se tornou imperativo para explicar o homem por meio de seu ambiente, que foi o trabalho de Darwin e outros no século XIX (e ainda mais significativo sobre o grau de penetração de tais mudanças é o fato de que outros estavam chegando a explicações semelhantes, quando Darwin as publicou em 1859). Se o homem entrou no século XIX em nuvens de glória transcendental, ele estava, agora, reduzido a um nível que satisfazia aos positivistas.
Com o ser humano assim firmemente abrigado na natureza, se tornou imediatamente necessário perguntar sobre o caráter fundamental de sua motivação. Necessidade biológica, resultado da sobrevivência do mais adaptado, foi oferecida como a causa causans, depois que a importante questão a respeito da origem humana foi decidida em favor do materialismo científico.
Após ter se tornado corrente a idéia de que o homem é moldado inteiramente por pressões ambientais, é obrigatório estender a mesma teoria da casualidade às suas instituições. Os filósofos sociais do século XIX encontraram em Darwin um poderoso apoio para suas teses sobre os seres humanos sempre agirem a partir de incentivos econômicos, e foram esses filósofos que completaram a abolição da liberdade da volição humana. O grande cenário da história ficou, assim, reduzido a empreendimentos econômicos de indivíduos e classes; e prognósticos elaborados foram construídos sobre a teoria do conflito econômico e sua resolução. O homem, criado à imagem de Deus, o protagonista de um grande drama em que sua alma corre perigo, foi substituído por um animal consumidor à procura de riqueza.
Finalmente, surgia a psicologia comportamental, que negava não somente a liberdade da vontade, mas até daqueles meios de orientação que são os instintos. Por causa da natureza escandalosa dessa teoria ter ficado logo aparente, ela fracassou em ganhar adeptos em número semelhante às outras teorias; mesmo assim, ela é somente uma extensão lógica delas e deveria ser adotada pelos defensores da causação material. Essencialmente, ela é uma redução ao absurdo da linha de raciocínio que começou quando o homem deu um alegre adeus ao conceito de transcendência.
Não há termo adequado para descrever a condição a que o homem foi deixado, exceto “abismalidade”. Ele está num abismo negro e profundo e não há nada que possa tirá-lo de lá. Sua vida é prática sem teoria. À medida que os problemas sobre ele se acumulam, ele aprofunda a confusão, por enfrentá-los com políticas ad hoc. Secretamente, ele anseia pela verdade, mas se consola com o pensamento de que a vida deve ser experimental. Ele vê suas instituições se desmoronando e racionaliza com uma conversa sobre emancipação. Guerras têm de ser travadas, aparentemente com crescente freqüência; portanto ele revive velhos ideais – ideais que suas atuais suposições tornam sem significado – e, por meio da máquina do estado, os força, novamente, a fazer o serviço. Ele luta contra um paradoxo: sua total imersão na matéria o torna inadaptado para tratar os problemas da matéria.
Seu declínio pode ser representado como uma longa série de abdicações. Ele foi encontrando cada vez menos fundamento para a autoridade, ao mesmo tempo em que pensava estar se consolidando como o centro da autoridade no universo; de fato, parece haver aqui um processo dialético que tira poder do homem na proporção em que ele considera que sua independência o habilita a tal poder.
Essa estória é eloqüentemente refletida nas alterações que aconteceram na educação. O deslocamento da verdade do intelecto para os fatos da experiência aconteceu decisivamente após o encontro com as feiticeiras. Um pequeno sinal aparece, “uma nuvem menor que uma mão humana”, numa modificação que surgiu no estudo da lógica no século XIV – o século de Occam. A lógica se tornou gramatizada, passando de uma ciência que ensinava aos homens o vere loqui para uma que os ensinava o recte loqui ou de uma divisão ontológica por categorias a um estudo das significações, com o inevitável foco nos significados históricos. Aqui começa o ataque à definição: se as palavras não correspondem mais a realidades objetivas, parece não ser errado tomar certas liberdades com as palavras. Desse ponto em diante, a fé na linguagem como um meio de alcançar a verdade enfraquece, até que a nossa época, repleta de um agudo sentimento de dúvida, procura por uma solução na nova ciência da semântica.
O mesmo aconteceu com a educação. A Renascença adaptou, de modo crescente, o seu curso de forma a produzir um bem-sucedido homem do mundo, apesar de não deixá-lo sem filosofia e sem as Graças, pois, o mundo era ainda, por herança pelo menos, idealista e, portanto, próximo o bastante das concepções transcendentais para perceber os efeitos desumanizantes da especialização. No século XVII, as descobertas físicas pavimentaram o caminho para a incorporação das ciências, a despeito de que não tenha sido antes do século XIX que estas começassem a desafiar a própria existência das antigas disciplinas intelectuais. E nesse período, a mudança ganhou ímpeto, auxiliada por dois desenvolvimentos de imensa influência. O primeiro foi o patente aumento do domínio do homem sobre a natureza, que deslumbrou a todos, excluindo-se apenas os mais atentos; e o segundo foi a crescente exigência de educação popular. O último desenvolvimento poderia ter sido positivo, mas ele foi arruinado pelo insolúvel problema da autoridade numa democracia igualitária: ninguém tinha o mandato para dizer quais das múltiplas aspirações deveriam ser atendidas. Finalmente, numa abjeta capitulação à situação, numa abdicação da autoridade do conhecimento, surgiu o sistema eletivo. Seguiu-se então um carnaval de especialismo, profissionalismo e vocacionalismo, freqüentemente estimulado e protegido por estranhos instrumentos burocráticos, de tal forma que sob o honrado nome de universidade se abrigou uma extraordinária confluência de interesses – não poucos desses, anti-intelectuais até em suas pretensões. Instituições de ensino não contrabalançaram, mas contribuíram para o declínio, por perderem o interesse no Homo sapiens e desenvolverem o Homo faber.
Estudos se transformam em hábitos e é fácil ver essas mudanças refletidas no tipo dominante de líder de época para época. No século XVII o líder foi, de um lado, o monarquista e o defensor erudito da fé e, de outro, intelectuais aristocráticos do porte de John Milton e teocratas puritanos que se assentaram na Nova Inglaterra. O século seguinte assistiu a dominação dos Whigs na Inglaterra e o advento dos enciclopedistas e românticos no Continente, homens a quem não faltava preparo intelectual mas que, assiduamente, cortavam as cordas que nos uniam à realidade, na medida em que sucumbiam à ilusão de que o homem é bom por natureza. A repreensão de Frederico, o Grande, a um sentimentalista, “Ach, mein lieber Sulzer, er kennt nicht diese verdammte Rasse,” resume a diferença dos dois cenários. O período subseqüente testemunhou o surgimento do líder popular e demagogo, o típico inimigo do privilégio, que ampliou o direito do voto na Inglaterra, forjou a revolução no Continente, e nos EUA substituiu a ordem social vislumbrada pelos Pais Fundadores pelo demagogismo e pela máquina política urbana. O século XX introduziu o líder das massas, apesar de que neste ponto ocorreu uma fissura, cujo profundo significado teremos ocasião de comentar. Os novos profetas da reforma se dividem nitidamente em humanitários sentimentais e um grupo de elite de teóricos desapiedados que se orgulham de sua imunidade ao sentimentalismo. Odiando este mundo que eles não criaram, depois de sua devassidão de séculos, os modernos comunistas – revolucionários e lógicos – se movem em direção ao rigor intelectual. Nessa decisão reside a mais nítida devassidão originada na deserção do intelecto do homem renascentista e seus sucessores. Nada há de mais perturbador para o homem moderno do Ocidente que a claridade lógica com que os comunistas enfrentam todos os problemas. Quem dirá que esse sentimento não nasce de uma profunda apreensão do fato de que aqui se encontram os primeiros realistas em centenas de anos, e que não há caminho intermediário que salvará o liberalismo ocidental?
A história da passagem do homem pelo transcendentalismo religioso ou filosófico já foi contada muitas vezes e, como ela tem sido contada como uma história de progresso, é extremamente difícil hoje fazer as pessoas, em qualquer número, verem implicações contrárias. Mesmo assim, estabelecer a decadência como um fato é a tarefa mais urgente de nosso tempo, pois, até que demonstremos que o declínio cultural é um fato histórico – que pode ser confirmado – e que o homem moderno tem esbanjado a herança dos antepassados, não poderemos combater aqueles que caíram presas do otimismo histérico.
Tal é a tarefa. Seu mais sério obstáculo é que as pessoas que trilham o caminho do declínio desenvolvem uma insensibilidade que aumenta sua degradação. A perda é percebida mais claramente no início; depois que o hábito se implantou, nota-se a anômala situação da apatia se instalando à medida que a crise moral se aprofunda. Quando os primeiros e tênues alertas aparecem é que se tem as melhores chances de salvação; e isso, desconfio, explica porque os pensadores medievais ficavam extremamente agitados sobre questões que nos parecem, hoje, sem nenhuma relevância. Se se avança, as vozes de alerta se tornam inaudíveis e não é impossível atingir-se o estado em que se perde completamente a orientação moral. Então, em face da enorme brutalidade de nosso tempo, parecemos incapazes de dar as respostas apropriadas às perversões da verdade e aos atos de bestialidade. Variadas situações mostram nossa complacência em presença de contradições que negam a herança da Grécia e de uma insensibilidade ao sofrimento que nega o espírito do Cristianismo. Particularmente, desde as grandes guerras observamos essa situação. Aproximamo-nos de uma condição em que seremos amorais sem a capacidade para percebê-lo e degradados sem os meios de medir nossa queda.
Essa é a razão pela qual, quando refletimos sobre os cataclismos de nosso tempo, ficamos profundamente impressionados com os fracassos do homem frente a seus desafios. No passado, grandes calamidades exigiram, senão grandes virtudes, pelo menos posturas heróicas; mas depois dos tremendos julgamentos pronunciados contra os homens e as nações nas décadas recentes, detectamos notas de trivialidade e paródia. Uma estranha disparidade se desenvolveu entre o drama dessas ações e a conduta dos protagonistas, e temos a impressão de assistir atores que não compreendem seus papéis.
O otimismo histérico persistirá até que o mundo admita a existência da tragédia novamente, e ele não poderá admitir a existência da tragédia até que ele, de novo, distinga o bem do mal. A esperança da restauração depende da recuperação da “cerimônia da inocência,” daquela clareza de visão e conhecimento da forma que nos capacita a perceber o que é hostil e destrutivo, o que não se adequa a nossa ambição moral. O tempo da busca é agora, antes que adquiramos a despreocupação daqueles que preferem a perdição. Pois, com o passar do tempo, o movimento se torna centrífugo; regozijaremos em nosso abandono e nada nos dará um maior senso de realização do que a destruição de algum baluarte de nossa cultura.
Nessas circunstâncias, não é surpresa que, quando sugerimos às pessoas que considerem a mera possibilidade da decadência, só encontramos incredulidade e ressentimento. Devemos considerar que estamos, de fato, pedindo uma confissão de culpa e uma aceitação de uma obrigação austera; estamos fazendo exigências em nome do ideal ou do supra-pessoal, e não podemos esperar uma recepção mais cordial da que receberam, em outros tempos, os perturbadores da complacência. Ao contrário, nossa recepção será pior hoje, pois um século e meio de ascendência burguesa produziu um tipo de mentalidade altamente refratária a pensamentos perturbadores. Somado a isso vem o egoísmo do homem moderno, alimentado de muitas formas, que dificilmente possibilitará a humildade necessária à autocrítica.
Os apóstolos do modernismo começam, usualmente, sua réplica mordaz com uma lista das modernas realizações, não percebendo que, assim, eles dão testemunha de sua imersão em particulares. Devemos lembrá-los que não podemos começar a enumerar até que tenhamos definido o que se busca ou o que se tenta provar. Não será suficiente apontar as invenções e processos de nosso século, a menos que se possa mostrar que eles são mais que uma esplêndida florescência da queda. Qualquer um que queira louvar alguma realização moderna deve esperar até que possa relacioná-la aos professados objetivos de nossa civilização, tão rigorosamente quanto o escolástico relacionava um corolário à sua doutrina da natureza de Deus. Sem isso, todas as demonstrações são inúteis.
Se concordarmos, contudo, de que devemos falar de fins antes que de meios, podemos começar por algumas questões perfeitamente triviais a respeito da condição do homem moderno. Comecemos, em primeiro lugar, por perguntar se ele sabe mais ou é, no geral, mais sábio que seus predecessores.
Essa é uma grave consideração e se a alegação moderna do maior saber é correta, nossa crítica desmorona, pois dificilmente pode-se imaginar que um povo cujo conhecimento tenha aumentado ao longo dos séculos, venha a escolher um curso nocivo.
Naturalmente, tudo depende do que queremos dizer por conhecimento. Apoio-me aqui na proposição clássica de que não há conhecimento no nível da sensação, que, portanto, o conhecimento é conhecimento de universais e o que quer que conheçamos, nos habilita a predizer. O processo de aprendizagem envolve interpretação e quanto menos particulares exigimos para chegar a nossas generalizações, mais aptos estudantes seremos na escola da sabedoria.
Toda a tendência do moderno pensamento – pode-se dizer, todo o seu impulso moral – é de manter o indivíduo ocupado com intermináveis induções. Desde o tempo de Bacon, o mundo tem se afastado, e não se aproximado, dos primeiros princípios, de tal forma que, em nível verbal, vemos o “fato” substituindo a “verdade”, e em nível filosófico, testemunhamos o ataque às idéias abstratas e ao questionamento especulativo. A suposição oculta do empirismo é que a experiência nos dirá o que estamos experimentando. Na arena popular, pode-se dizer, a partir de certas colunas jornalísticas e de certos programas de rádio, que o homem médio se imbuiu dessa noção e imagina que uma cuidadosa aquisição de particulares o transformará num homem de conhecimento. Com essa patética confiança, ele recita suas crenças! Foi dito a ele que conhecimento é poder e que conhecimento se constitui de um grande número de pequenas coisas.
Dessa forma, o deslocamento do questionamento especulativo para a investigação da experiência tem deixado o homem moderno tão encharcado de multiplicidades que ele não consegue mais vislumbrar seu caminho. Entendemos, assim, o dictum de Goethe que diz que só podemos dizer que sabemos mais, na medida em que sabemos pouco. Se nosso contemporâneo tem uma profissão, ele será capaz de descrever alguma parte ínfima do mundo com minuciosa fidelidade, mas lhe faltará ainda a compreensão. Não pode haver verdade num programa de ciências isoladas, e o pensamento de nosso especialista será invalidado assim que relações ab extra são introduzidas.
O mundo do conhecimento “moderno” é como o universo de Eddington, que se expande por difusão até que se aproxima do ponto de nulidade.
O que os defensores da presente civilização querem dizer quando afirmam que o homem moderno é mais instruído que seus antepassados é que ele é alfabetizado em grandes números. A alfabetização pode ser demonstrada; mesmo assim, pode-se questionar se houve, em alguma época, panacéia tão decepcionante, e somos compelidos, depois de cem anos de experiência, a ecoar a observação amarga de Nietzsche: “Todo aquele que aprende a ler, arruína, a longo prazo, não somente a escrita, mas também o pensamento.” Não é o que o indivíduo consegue ler; é o que ele realmente lê – e o que ele pode, por todos os meios imagináveis, aprender com o que lê –, que determina a questão deste nobre experimento. Desenvolvemos a técnica de aquisição; quão confortáveis podemos estar com a forma de as pessoas empregarem essa técnica? Numa sociedade onde a expressão é livre e a popularidade é recompensada, elas lêem principalmente o que as perverte, e estão continuamente expostas à manipulação pelos controladores das máquinas de imprimir. Pode-se duvidar que uma pessoa, em três, consiga extrair o que se possa considerar conhecimento de suas leituras livremente escolhidas. O impressionante número de fatos a que o homem moderno tem, hoje, acesso serve apenas para afastá-lo dos primeiros princípios, de tal forma que sua orientação se torna periférica. E pairando sobre tudo, como um lembrete dessa tolice, está a tragédia da Alemanha moderna, uma nação totalmente alfabetizada.
Aqueles que são baconianos e preferem sapatos à filosofia, responderão que esse é um argumento ocioso, pois a verdadeira glória da moderna civilização é que o homem aperfeiçoou seu legado a tal ponto que agora ele pode dele se beneficiar. E é provável se encontrarem estatísticas mostrando que o homem médio atual, em países que não foram devastados pela guerra, tenha mais coisas a consumir que seus antepassados. Sobre isso, contudo, há dois comentários importantes a fazer.
O primeiro é que como o homem moderno ainda não definiu sua forma de vida, ele deu o primeiro de uma séria interminável de passos quando entrou na luta por uma vida “adequada”. Uma das mais estranhas disparidades da história é a encontrada entre o sentimento de abundância das sociedades mais antigas e simples e o sentimento de escassez das sociedades atuais, ostensivamente ricas. Charles Péguy referiu-se ao sentimento de um “vagaroso estrangulamento econômico” do homem moderno, o sentimento de nunca ter o suficiente para as exigências que seu padrão de vida o impõe. Padrões de consumo que ele não pode manter, e que ele não precisa manter, surgem virtualmente disfarçados de obrigações. Como a abundância da vida simples é substituída pela escassez da vida complexa, parece que, de alguma forma inexplicável, idealizamos a prosperidade até que, para a maioria, ela fosse apenas uma ficção. Certamente os baconianos ainda não podem declarar vitória até que fique provado que a substituição da desambição pela cobiça e das exigências estáveis das necessidades pela espiral crescente dos desejos, leva a uma condição de maior felicidade.
Suponha, contudo, que ignoremos esse sentimento de frustração e voltemos nossa atenção para o fato de que, em comparação, o homem moderno possua mais bens. Essa mesma circunstância instala um conflito, pois é uma lei permanente da natureza humana o fato de que quanto mais o homem se delicia com o que tem, menos se dispõe a suportar a disciplina do trabalho árduo – isso equivale a dizer, menos desejoso está de produzir aquilo que será depois consumido. O trabalho deixa de ter uma função na vida; torna-se algo que é relutantemente trocado por aquela competência ou por aquela superfluidade a que todos têm “direito”. Uma sociedade mimada dessa forma pode ser comparada com o alcoólatra: quanto mais ele se embebeda, menos capaz ele se torna de trabalhar e de adquirir os meios para manter seu hábito. Um alto nível de vida, pela sua própria tentação à luxúria, incapacita quem o possui para o trabalho necessário a mantê-lo, fato que tem sido observado em incontáveis épocas nas histórias de indivíduos e nações.
Mas, deixemos de lado todas as considerações particulares desse tipo e perguntemos se o homem moderno, por razões aparentes ou obscuras, se sente crescentemente feliz. Evitemos concepções superficiais sobre esse estado e nos voltemos para algo fundamental. Considero aqui na definição de Aristóteles: “sentimento de vitalidade consciente”. O homem moderno se sente bem com a vida, ele a contempla como um homem forte aguarda uma competição?
Primeiro, precisa-se levar em conta a profunda ansiedade psíquica, a extraordinária permanência da neurose, que torna único o nosso tempo. O homem moderno típico tem o olhar de uma presa. Ele sente que perdemos o pulso da realidade. Isso, por sua vez, produz uma desintegração, e a desintegração torna impossível aquele tipo de predição razoável por meio da qual os homens, em eras de sanidade, são capazes de ordenar suas vidas. E o medo disso advindo, liberta a grande força desorganizadora do ódio, de forma que estados são ameaçados e guerras se sucedem. Poucos homens hoje confiam que a guerra não exterminará a herança de seus filhos; e, mesmo que esse mal seja contido, o indivíduo não se confortará, pois ele sabe que a tecnologia Juggernaut[4] pode distorcer e destruir o padrão de vida que ele construiu para si mesmo. Uma criatura destinada a olhar para trás e para frente descobre que a primeira ação se tornou fora de moda e a segunda, impossível.
Além disso, há outra privação. O homem é constantemente assegurado de que ele tem, hoje, mais poder do em qualquer tempo anterior, mas sua experiência diária é de incapacidade. Olhe para ele na confusão de uma grande cidade. Se ele trabalha em uma empresa, há grandes chances de que ele tenha sacrificado todo tipo de independência por aquela dúbia independência dita financeira. As organizações corporativas modernas fazem da independência uma coisa muito cara; de fato, elas podem fazer da integridade um luxo proibitivo para o homem comum, como mostrou Stuart Chase.[5] Esse homem não é só um provável escravo em seu trabalho diário, mas ele está também cercado, tolhido e confinado de incontáveis formas, muitas delas sendo apenas instrumentos que tornam fisicamente possível o viver na multidão. Pelo fato de que essas são privações do que é legítimo, o resultado é a frustração, daí o olhar, no rosto daqueles cujas almas ainda não se apequenaram, de penúria e infelicidade.
Essas são algumas questões que devem ser apresentadas aos defensores do progresso. Objetar-se-á certamente que a decadência da época atual é uma das permanentes ilusões da humanidade; será dito que cada geração sente em relação à próxima o mesmo que os pais sentem em relação aos filhos, não acreditando que eles sejam capazes de tratar com o imenso mundo. Em reposta devemos afirmar que, dadas as condições descritas, cada geração sucessiva mostra, realmente, um declínio no sentido de que ela dá um passo a mais na direção do abismo. Quando uma mudança está acontecendo, cada geração para ela contribuirá, e o fato de que algumas culturas passaram de um alto grau de organização para a dissolução pode ser demonstrado tão objetivamente quanto qualquer outro fato na história. Pense apenas na Grécia, em Veneza, na Alemanha. A asserção de que mudanças de geração a geração são ilusórias e de que existem apenas ciclos de reprodução biológica é outra forma de negação de padrões e, em última análise, de negação do conhecimento, que é a fonte de nossa degradação.
A civilização tem sido um fenômeno intermitente; a essa verdade temos nos permitido ficar cegos pela insolência do sucesso material. Muitas sociedades mostraram, em seu entardecer, um brilho pirotécnico e uma capacidade para refinadas sensações, muito além de qualquer coisa vista em seus dias de vigor. Que tais coisas existam e ainda trabalhem contra o caráter mesmo da escolha, que é a âncora da sociedade, é a grande lição a ser aprendida.
Em última análise, nosso problema é como recuperar a integridade intelectual que permitirá ao homem perceber a ordem do bem.
[1] Whig theory of history – teoria histórica associada a estudiosos da era Vitoriana e Eduardiana, tais como Henry Maine e Thomas Macaulay. O traço fundamental dessa teoria é a consideração de que a história humana vai da selvageria ao progresso, da ignorância à paz, história de prosperidade e ciência. (N. do T.)
[2] Mat 24, 21 (N. do T.)
[3] Ver Os inimigos do conservadorismo segundo Edmund Burke. (N. do T)
[4] Do Hindu, JagannAth, literalmente, senhor do mundo, título de Vishnu. O termo é usado aqui como sinônimo de força inexorável que atropela tudo em seu caminho. (N. do T.)
[5] Ver “The luxury of integrity”(O luxo da integridade), de Stuart Chase
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Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
