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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Idolatria, corrupção espiritual e covardia

Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia. 

G.K.Chesterton

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela c

Do BLOG DO ANGUETH
G. K. Chesterton, Sexta-feira, Março 10, 2006

A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes.

É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos.

O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.

Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena.

Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul.

E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história.

Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio;

os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência;

o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida.

Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.

Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver.

E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir.

Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge.

O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo.

Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.


[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)

Cavaleiro do Templo: uma internauta querida contribue com estes dados: Editora Quadrante. Rua Iperoig, 604. São Paulo. Tel. 3873-2270. www.quadrante.com.br.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

O Grande Frasista G. K. Chesterton

Do blog do ANGUETH
Segunda-feira, Outubro 24, 2005

Verdades Eternas

Os sovinas acordam cedo; os ladrões, pelo que sei, acordam na noite anterior.

Defender quaisquer das virtudes cardeais tem, hoje em dia, toda a excitação de um vício.

Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.

As falácias não se tornam menos falácias porque se tornaram modas.

Imparcialidade é um nome pomposo para indiferença, que é um nome elegante para ignorância.

Uma inconveniência é apenas uma aventura erroneamente considerada; uma aventura é uma inconveniência corretamente considerada.

O que amargura o mundo não é excesso de crítica, mas a ausência de autocrítica.

Um homem são é aquele que tem a tragédia em seu coração e a comédia em sua cabeça.

Entre os ricos você nunca encontrará um homem verdadeiramente generoso, nem por acaso. Eles podem doar seu dinheiro, mas nunca se doam; eles são egoístas, enigmáticos, secos como ossos velhos. Para ser inteligente o suficiente para conseguir todo aquele dinheiro, você deve ser estúpido o suficiente para desejá-lo.

Força moderada é usada na violência, força suprema é usada na levitação.

A simplificação de qualquer coisa é sempre sensacional.

Protestos sempre voltam como um eco dos confins do mundo; mas o silêncio nos revigora.

Costumes são, geralmente, generosos. Hábitos, são quase sempre, egoístas.

Acredito que o que realmente acontece na história é o seguinte: o homem idoso está sempre errado; e os jovens estão sempre errados sobre o que está errado. A forma prática que isso toma é a seguinte: enquanto o homem idoso se apega a algum costume estúpido, o homem jovem sempre o ataca, com alguma teoria que se mostra igualmente estúpida.

O centro de toda a existência do homem é um sonho. Morte, doença, insanidade, são, meramente, acidentes materiais, como uma dor de dente ou uma torção no tornozelo. Que essas forças brutais sempre sitiam e, freqüentemente, capturam a cidadela, não prova que elas são a cidadela.

O otimista é uma pessoa em permanente rebelião que, geralmente, vive e morre num esforço desesperado e suicida para persuadir as pessoas do quando elas são boas.

Ter o direito de fazer uma coisa não é, em absoluto, estar certo em fazê-la.

Todos os exageros estão certos, se eles exageram as coisas certas.

A comédia do homem sobrevive à sua tragédia.

Ultimamente não temos tido boas óperas cômicas, pois, o mundo real tem sido mais cômico que qualquer ópera imaginável.

Quando homens instruídos começam a usar a razão, então, geralmente, descubro que eles não a têm.

O homem livre é dono de si próprio. Ele pode se prejudicar comendo ou bebendo; ele pode se arruinar com o jogo. Se ele assim se comporta, ele é um grande idiota, e pode ser uma alma condenada; se não for esse o caso, ele é tão livre quanto um cachorro.

O esteta nunca faz nada além do que lhe é mandado fazer.

O esteta aspira à harmonia, não à beleza. Se seu cabelo não combina com o purpúreo por do sol, contra o qual ele se posta, ele rapidamente tinge seu cabelo com uma sombra de púrpura. Se sua esposa não combina com o papel de parede, ele se divorcia.

O reformador está sempre certo sobre o que está errado. Ele, geralmente, está errado sobre o que está certo.

A razão é sempre uma espécie de força bruta; aqueles que apelam mais para a cabeça do que para o coração, mesmo que pálido e educado, são, necessariamente, homens violentos. Falamos de ‘tocar’ o coração do homem, mas não podemos fazer nada com a sua cabeça, exceto golpeá-la.

O homem é sempre algo pior e algo melhor que um animal; e meros argumentos sobre a perfeição animal nunca o tocam. Assim, no sexo nenhum animal é cortes ou obsceno. E assim, nenhum animal inventou algo tão ruim quanto a embriaguez – ou tão boa quanto a bebida.

Quando entramos numa família, pelo ato de nascermos, entramos realmente num mundo que é incalculável, num mundo que tem suas próprias e estranhas leis, num mundo que poderia passar sem nós, num mundo que não criamos. Em outras palavras, quando entramos numa família, entramos num conto de fadas.

Uma coisa pode ser muito triste para ser crível ou muito má para ser crível ou muito boa para ser crível; mas ela não pode ser tão absurda para ser crível, neste planeta de sapos e elefantes, de crocodilos e peixes-espada.


Conselhos gratuitos

Não se deleite consigo mesmo. Deleite-se com a dança, com peças teatrais, com passeios de automóveis, com champagne e com ostras; deleite-se com jazz, com cocktails e com boates, se você não se diverte com nada melhor; deleite-se com a bigamia, com o roubo ou com outro crime qualquer; mas nunca se deleite consigo próprio.

Não olhe para os rostos nos jornais e revistas ilustrados. Olhe para os rostos na rua.

Quando for fazer um agrado a um amigo ou a uma criança, dê-lhes o que eles gostam, nunca o que seja bom para eles.

Concordo com o realista irlandês que diz que prefere a profecia depois do acontecido.


O culto ao progresso

O progresso é um comparativo para o qual ainda não temos o superlativo.

O progresso deve significar que estamos sempre mudando o mundo para adequá-lo à nossa visão, ao invés de sempre mudarmos a nossa visão.

Minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, a muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira.

Os homens inventam novos ideais porque não ousam tentar os velhos ideais. Eles olham à frente com entusiasmo, porque eles temem olhar para trás.

Tradição significa votar na mais obscura das classes, nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa a se submeter àquela arrogante oligarquia que, por acaso, se encontra por perto.

O mundo moderno é um punhado de carros de corrida, todos obrigados a uma parada, presos num engarrafamento de trânsito.

Confortos raros aos nossos ancestrais são, agora, multiplicados nas fábricas e vendidos indiscriminadamente; e realmente, ninguém atualmente, que não se importe em passar sem ar, espaço, quietude, decência e boas maneiras, precisa se privar de nada que se queira; ou, pelo menos, de uma imitação barata do que se queira.

Uma história de detetive, geralmente, descreve seis homens discutindo sobre como aquele homem morreu. Uma história filosófica moderna, geralmente, descreve seis homens mortos discutindo como algum homem pode estar vivo.

Nenhuma das máquinas modernas, nenhuma das parafernálias modernas ... têm algum poder sobre alguém, exceto sobre aqueles que optaram por usá-las.

Toda a maldição do último século foi o que se pode chamar de a Oscilação do Pêndulo; isto é, a idéia de que o Homem deve ir, alternativamente, de um extremo ao outro. Isso é vergonhoso e chocante; é a negação de toda a dignidade da espécie humana. Quando o Homem está vivo ele permanece parado. É somente quando morre que ele oscila.

Este é o tempo no qual minorias ínfimas e teóricas podem conquistar maiorias inconscientes e não-teóricas.


Guerra e Política

[O marxismo], numa geração, irá para o limbo da maioria das heresias, mas enquanto isso, ele envenenará a Revolução Russa.

A guerra não é o melhor caminho para resolver as diferenças; é o único caminho para evitar que as diferenças sejam resolvidas em seu nome.

Há um corolário da concepção ‘ser muito orgulhoso para lutar’. Os humildes têm de empreender a maior parte da luta.

A única guerra defensável é a guerra de defesa.

O verdadeiro soldado luta não porque ele odeia o que está a sua frente, mas porque ele ama o que está atrás.

Como as revoluções envelhecem, e pior, se tornam respeitáveis!


Governo e Política

Uma vez que se abole Deus, o governo se torna Deus.

A América é o único país jamais fundando sobre um credo.

A Declaração de Independência baseia, dogmaticamente, todos os direitos no fato de que Deus criou todos os homens iguais; e está certa; pois, se eles não fossem criados iguais, eles, certamente, teriam evoluído desigualmente. Não há fundamento para a democracia, exceto no dogma da origem divina do homem.

A democracia inconsciente na América é uma coisa muito boa. É uma suposição verdadeira, profunda e instintiva na igualdade dos cidadãos que, mesmo o voto e as eleições, não destruíram.

Quando você desobedece as grandes leis, você não alcança a liberdade; você não promove nem mesmo a anarquia. Você promove as pequenas leis.

Se você tentar, atualmente, uma discussão real com um jornal de posição política oposta à sua, você não terá nenhuma resposta, exceto jargão ou silêncio.

É um crítico superficial aquele que não enxerga um eterno rebelde no coração de um conservador.

Você nunca terá uma revolução para estabelecer uma democracia. Você deve ter uma democracia para ter uma revolução.

Quando um político está na oposição ele é um expert nos meios para determinados fins; quando é situação, ele é um expert nos obstáculos.

Formei uma clara concepção de patriotismo. Geralmente, o tenho encontrado alçado ao primeiro plano por algum sujeito que tem algo a esconder no segundo plano. Tenho visto uma grande quantidade de patriotismo; e o tenho descoberto como o último refúgio dos patifes.

Não pode haver uma nação de milionários, e nunca houve uma nação de camaradas utópicos; mas pode haver muitas nações de camponeses toleravelmente felizes.

Todo governo é uma horrível necessidade.

É difícil tornar um governo representativo quando ele é, ao mesmo tempo, remoto.

É um bom sinal para uma nação quando as coisas estão sendo feitas imperfeitamente. Isso mostra que todo o povo as está fazendo. E é um mau sinal quando as coisas estão sendo feitas muito bem, pois, isso mostra que somente uns poucos experts e excêntricos as estão fazendo e que a nação está sendo um mero espectador.

Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. O negócio dos progressistas é continuar cometendo erros. O negócio dos conservadores é prevenir que os erros sejam corrigidos.


Sociedade e cultura

Nunca pude ver nada de errado no sensacionalismo; e estou certo de que nossa sociedade sofre mais pela confidencialidade do que por quaisquer revelações extravagantes.

De tudo o que ouvimos da atividade e da pressa americanas, é realmente estranho que os americanos parecem gostar de se demorarem em grandes palavras.

É verdade que sou da velha guarda; muito do que amo foi destruído ou exilado.

Penso que o mais estranho sobre os povos avançados é que, ao mesmo tempo em que eles estão sempre conversando sobre as coisas como sendo problemas, eles, dificilmente, têm qualquer noção do que seja um problema real.

Super-civilização e barbárie estão a menos de uma polegada de distância. E uma marca de ambos é o poder do curandeiro.

Por especialistas em pobreza eu não quero dizer sociólogos, mas homens pobres.

Uma cidade moderna é feia não porque ela é uma cidade, mas porque ela não é suficientemente uma cidade, porque é uma selva, porque é confusa e anárquica, surgindo com a energia egoística e materialista.

Auto-negação é o teste e a definição do auto-governo.


Amor, casamento e os sexos

Amor significa amar o inamável, ou não é uma virtude, em absoluto.

As mulheres são as únicas realistas; todo seu objetivo na vida é opor seu realismo ao extravagante, excessivo e, ocasionalmente, embriagado idealismo dos homens.

O grande prazer do casamento é que ele é uma crise permanente.

O bom trabalho de um homem é conseqüência do que ele faz, o da mulher, do que ela é.

As mulheres têm uma sede de ordem e beleza como algo físico; há um estranho poder feminino de odiar a feiúra e o desperdício, enquanto que o homem bom somente odeia os pecados e as virtudes dos homens maus.

O casamento é um duelo mortal que nenhum homem honrado deve rejeitar.

Os primeiros dois fatos que um menino ou menina saudável sentem sobre o sexo são: primeiro que é bonito e depois que é perigoso.

Tenho poucas dúvidas de que quando São Jorge matou o dragão ele estava com um medo terrível da princesa.


Religião e Fé

Um dos principais usos da religião é que ela nos lembra nossa origem na escuridão, o simples fato de que fomos criados.

A Bíblia nos diz para amar nosso próximo e também para amar nosso inimigo; provavelmente porque eles são a mesma pessoa.

Se não houvesse Deus, não haveria nenhum ateu.

Há aqueles que odeiam o Cristianismo e chama esse ódio um completo amor pelas outras religiões.

O ideal Cristão não foi tentado e considerado imperfeito; ele foi considerado difícil e não foi tentado.

Os mistérios de Deus são mais satisfatórios que as soluções humanas.

Tem sido afirmado, muito acertadamente, que a religião é a coisa que faz o homem ordinário se sentir extraordinário; é uma verdade igualmente importante que a religião é a coisa que faz o homem extraordinário se sentir ordinário.

Teologia é somente o pensamento aplicado à religião.

A verdade é, claramente, que a rigidez dos Dez Mandamentos é uma evidência, não da obscuridade e estreiteza da religião, mas, ao contrário, da sua liberalidade e humanidade. É mais econômico afirmar as coisas proibidas do que as permitidas: precisamente porque muitas coisas são permitidas e apenas poucas proibidas.

Estes são tempos em que se espera do Cristão que ele admire todo credo, exceto o seu próprio.

O Puritanismo foi uma honrada disposição mental, uma nobre voga. Em outras palavras, foi um admirável erro.


Natal

Quando um homem considera o dia de Natal uma mera desculpa para se encharcar de comida e bebida, isso seria falso mas, haveria um fato verdadeiro escondido em algum lugar. Mas quando Bernard Shaw diz que o dia de Natal é somente uma conspiração estritamente comercial de avicultores e comerciantes de vinho, então ele diz algo chocante e magnificentemente estúpido. Ele poderia também ter dito que os dois sexos foram inventados por joalheiros interessados na venda de anéis.

Quem pensa que o Menino Jesus nasceu em dezembro entende por isso exatamente o que nós entendemos; que Cristo não é meramente um sol de verão para o próspero, mas um fogo invernal para o infeliz.

Quanto mais nos orgulhamos de que a história de Belém é simples o bastante para ser compreendida pelos pastores, e quase pelas ovelhas, tanto mais nos deixamos levar, através de obscurecidos e belos afrescos e procissões imaginárias, pelo mistério e majestade dos Três Reis Magos.

A grande maioria das pessoas continuará a observar formas que não podem explicar; elas continuarão, no dia de Natal, a trocar presentes de Natal e a aspirarem a benção de Natal; elas continuarão a fazê-lo; e algum dia, repentinamente, elas acordarão e descobrirão o por quê.


Moralidade e Verdade

Os homens não discordam muito nas coisas que eles consideram más; eles discordam, enormemente, sobre que males eles considerarão desculpáveis.

Não é que não temos patifes suficientes para amaldiçoar; é que não temos homens bons suficientes para amaldiçoá-los.

Há motivos para dizer a verdade; há motivos para evitar a calúnia; mas não há defesa possível para o homem que calunia e não diz a verdade.

A verdade integral é, geralmente, a aliada da virtude; a meia verdade é sempre aliada de algum vício.

A verdade é sagrada; e se você diz a verdade muito freqüentemente, ninguém acreditará.

A civilização tem corrido à frente da alma do homem, e está produzindo mais rápido do que ele pensa e possa agradecer.

Não é intolerância ter certeza de se estar certo; mas é intolerância ser incapaz de imaginar como pudemos ter errado.

Haveria muito menos desgraça se as pessoas não idealizassem o pecado e se posassem como pecadores.

Todos os homens têm sede de dizer a verdade mais do que bestas cansadas são sedentas por água; mas eles naturalmente se negam a confessá-los quando outras pessoas, que cometeram os mesmos crimes, se sentam por perto e se riem deles.

Idolatria é cometida, não somente pela instituição de falsos deuses, mas também, pela instituição de falsos demônios; fazendo os homens temerem a guerra e o álcool, ou a lei econômica, quando eles devem temer a corrupção espiritual e a covardia.

Eu digo que o homem deve estar certo de sua moralidade pela simples razão de que ele tem de sofrer por ela.

Para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o sol é realmente o sol; para o homem humilde, e para o homem humilde somente, o mar é somente o mar.

Grandes verdades podem, somente, ser esquecidas, mas nunca podem ser falsificadas.

A voz de rebeldes e profetas especiais, recomendando descontentamento, deve, como eu disse, se fazer ouvir de quando em vez, repentinamente, como um anúncio. Mas as vozes dos santos e sábios, recomendando contentamento, devem soar incessantemente, como o mar.

Toda a ciência, mesmo a divina ciência, é uma sublime história de detetive. Mas ela não é para detectar porque o homem está morto; mas o obscuro segredo do porquê ele está vivo.

A maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.

Se quisermos dar aos pobres entretenimento, devemos nos preparar para dá-los luxo. Se não os fizermos suficientemente ricos para serem limpos, então, devemos fazer o que fazíamos com os santos. Devemos reverenciá-los por estarem sujos.

O mundo será, muito proximamente, dividido, a menos que me engane, entre aqueles que continuarão explicando nosso sucesso, e aqueles, algo mais inteligentes, que estão tentando explicar nosso fracasso.

O que chamamos emancipação é, sempre e por necessidade, simplesmente, a livre escolha da alma entre um conjunto de limitações em detrimento de outro.

Há alguns desejos que não são desejáveis.

Na luta pela existência, a esperança começa a alvorecer somente para aqueles que permanecerem por dez minutos depois que tudo tenha se tornado desesperado.

A indulgência e tolerância modernas beneficiam os ricos; e não beneficiam mais ninguém.

O principal negócio terreno do ser humano é construir seu lar e seus arredores, tão simbólico e significativo para sua imaginação quanto ele seja capaz.


Teoria Econômica e Distributismo

O Grande Negócio e o Estado Socialista são muito parecidos, especialmente o Grande Negócio.

Nenhuma sociedade pode sobreviver da falácia socialista de que existe um número absolutamente ilimitado de autoridades inspiradas e uma quantidade absolutamente ilimitada de dinheiro para pagá-las.

Um cidadão dificilmente distingue entre um imposto e uma multa, exceto pelo fato de que a multa é, geralmente, muito menor.

Muito capitalismo não significa muitos capitalistas, mas muito poucos capitalistas.

O preço é uma coisa maluca e incalculável, enquanto o Valor é uma coisa intrínseca e indestrutível.

Os empresários, especialmente os grandes empresários, estão agora organizados como um exército. É, como alguns diriam, um militarismo suave sem derramamento de sangue; como eu digo, um militarismo sem as virtudes militares.

Todos, excetos os duros de coração, devem estar consternados com o patético dilema do homem rico, que tem de manter o homem pobre gordo o suficiente para conseguir trabalhar e magro o suficiente para ter de trabalhar.

Do ponto de vista de qualquer pessoa sã, o problema atual da concentração capitalista não é somente uma questão de lei, mas de lei criminal, para não falar de demência criminal.

Porque a garota deve ter cabelos longos, ela deve os ter limpos; porque ela os deve ter limpos, ela não deve ter uma casa suja; por que ela não deve ter uma casa suja, ela deve ter uma mãe livre e sem trabalho; por sua mãe não trabalhar, ela não deve ter um locador usurário; porque o locador não deve ser usurário, deve haver uma redistribuição de propriedade; porque deve haver uma redistribuição de propriedade, deve haver uma revolução.
Há apenas uma coisa em nosso meio, atenuada e ameaçada, mas detentora de um certo poder, como um fantasma da Idade Média: os Sindicatos.

[O capitalismo é] aquele sistema comercial em que a oferta imediatamente responde pela demanda e em que todo mundo parece estar completamente insatisfeito e incapaz de conseguir aquilo que deseja.

Nossa sociedade é tão anormal que o homem normal nunca sonha em ter a ocupação normal de cuidar se sua própria propriedade. Quando ele escolhe um negócio, ele escolhe um, entre milhares de negócios, que envolve cuidar da propriedade dos outros.

O argumento real contra a aristocracia é que ela sempre significa o governo do ignorante. Pois, a mais perigosa forma de ignorância é a ignorância do trabalho.

Fazer o locatário e o locador a mesma pessoa tem certas vantagens, tal como o locatário não pagar o aluguel e o locador não trabalhar muito.

Você não pode ter uma fazenda familiar sem ter família.

Eu daria à mulher não mais direitos, mas mais privilégios. Ao invés de mandá-la procurar aquela liberdade que, notoriamente, prevalece em bancos e fábricas, eu, especialmente, projetaria uma casa em que ela pudesse ser livre.


Arte e Literatura

Arte, como a moralidade, consiste em traçar uma linha em algum lugar.

A decadência da sociedade é louvada pelos artistas assim como a decadência de um defunto é louvada pelos vermes.

O temperamento artístico é uma doença que aflige os amadores.

Os selvagens e os artistas são igual e estranhamente levados a criarem algo mais feio que eles mesmos. Mas, os artistas acham a tarefa mais difícil.

A decoração do mundo não é trabalho da natureza, mas um trabalho de arte, assim, ele envolve um artista.

Por uma curiosa confusão, muitos críticos modernos passaram da proposição de que uma obra-prima pode ser impopular para a outra proposição de que, a menos que seja impopular, ela não é uma obra-prima.

E em todo o mundo, a velha literatura, a literatura popular, permanece a mesma. Ela consiste de muita tristeza digna e de muito divertimento indigno. Suas tristes lendas são de corações partidos; suas lendas alegres são de cabeças partidas.

As palavras de uma boa prosa significam o que elas dizem. As palavras de uma boa poesia significam o que elas não dizem.


Palavras Passadas e Dilemas Atuais

Pais ausentes
O que é chamado matriarcado é, simplesmente, anarquia moral, na qual as mães ficam sozinhas porque todos os pais são fugitivos ou irresponsáveis.

Volta à natureza
Propriamente falando, é claro, não existe tal coisa como uma volta à natureza, porque não uma tal coisa como uma saída dela. A frase lembra um cavalheiro, levemente embriagado, que se levanta na sua própria sala de jantar e declara, firmemente, que está indo para casa.

Preconceito
O preconceito é uma incapacidade de conceber, seriamente, uma alternativa a uma proposição.

Pena Capital
De minha parte, não haveria nenhuma execução, exceto pela plebe; ou, pelo menos, pelo povo agindo muito excepcionalmente. Eu proibiria a pena capital, exceto em casos de confisco. Assim, haveria alguma chance de uns poucos de nossos reais opressores serem enforcados.

Distribuição de Preservativos
Nossos mestres materialistas podem, e provavelmente irão, colocar o Controle de Natalidade em um programa prático imediato, enquanto todos nós estamos discutindo o terrível perigo de alguém colocá-lo numa distante Utopia.

O Sistema Educacional
O propósito da Educação Compulsória é o de negar às pessoas comuns seu senso comum.

Apesar das autoridades acadêmicas se orgulharem de conduzir tudo por meio da Avaliação, elas raramente cedem ao que as pessoas religiosas descrevem como Auto-Avaliação. A conseqüência disso é que o Estado moderno tem educado seus cidadãos numa série de modas transitórias.

Uma Sociedade Litigante
A posição que agora nos encontramos é esta: começando pelo Estado, tentamos remediar os fracassos de todas as famílias, de todas as creches, de todas as escolas, de todas as oficinas, de todas as instituições secundárias que tiveram, no passado, alguma autoridade própria. Tudo é, ao fim, levado aos Tribunais. Nós estamos tentando parar o vazamento que acontece do outro lado.

Psicanálise
Psicanálise é uma ciência conduzida por lunáticos para lunáticos. Eles estão, geralmente, preocupados em provar que as pessoas são irresponsáveis; e eles, certamente, tiveram sucesso em provar que algumas pessoas são.

Direitos Reprodutivos
Deixemos todos os bebes nascerem. Então, afoguemos aqueles de quem não gostarmos.

Separação Igreja-Estado
Liberdade religiosa deve significar que todos são livres para discutir sobre religião. Na prática ela significa que a quase ninguém é permitido mencionar o assunto.

Fonte: http://www.chesterton.org

quarta-feira, 2 de abril de 2008

G. K. Chesterton

"Quando os homens param de acreditar em Deus, não é que não acreditem em mais nada – eles passam a acreditar em tudo."

segunda-feira, 31 de março de 2008

Teoria Materialista da História[1]

Do BLOG DO ANGUETH
G. K. Chesterton, sexta-feira, 10 de março de 2006

A teoria materialista da história – que afirma que toda a política e a ética são expressões da economia – é uma falácia, de fato, muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas, sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na história é como dizer que o objetivo de todas as suas marchas militares ou peregrinações religiosas deve ter sido a Perna Dourada da Senhora Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Senhor Willoughby Patterne. Mas, são esses movimentos que constituem a história da espécie humana e sem eles não haveria praticamente história. Vacas podem ser puramente econômicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas ações externas, pelo menos; mas, essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais ativo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes.

Mas, com relação a serem econômicos os movimentos que fazem a historia do homem, podemos dizer que a história somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direção a uma horrível selvageria da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Ártico foram em direção ao norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o sul. E se deixarmos, de fora da história humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser história. O esboço da história é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A história econômica não seria sequer história

Mas há uma falácia mais profunda além deste fato óbvio; os homens não precisam viver por comida meramente porque eles não podem viver sem comida. A verdade é que a coisa mais presente na mente do homem não é a engrenagem econômica necessária a sua existência, mas a própria existência; o mundo que ele vê quando acorda toda manhã e a natureza de sua posição geral nesse mundo. Há algo que está mais próximo dele que a sobrevivência e esse algo é a vida. Pois, tão logo ele se lembre qual trabalho produz exatamente seu salário e qual salário produz exatamente sua refeição, ele reflete dez vezes que hoje é um dia lindo, ou que este é um mundo estranho, ou se pergunta se a vida vale a pena ser vivida, ou se seu casamento é um fracasso, ou se ele está satisfeito ou confuso com seus filhos, ou se lembra de sua própria juventude, ou ele, de alguma forma, vagamente revê o destino misterioso do homem.

Isso é verdade para a maioria dos homens, mesmo para os escravos assalariados de nosso mórbido industrialismo moderno, que pelo seu caráter hediondo e sua desumanidade tem, realmente, posto a questão econômica em primeiro plano. É muito mais verdade para os numerosos camponeses, caçadores e pescadores que constituem a massa real da humanidade. Mesmo aqueles áridos pedantes, que pensam que a ética depende da economia, devem admitir que a economia depende da existência. E nossos devaneios e dúvidas cotidianos são sobre a existência; não sobre como podemos viver, mas sobre porque vivemos. E a prova disso é simples; tão simples quanto o suicídio. Vire o universo de cabeça para baixo em sua mente e você virará todos os economistas de cabeça para baixo. Suponha que um homem deseje morrer e que o professor de economia se torne um tédio com sua elaborada explicação de como ele deve viver. E todas as iniciativas e decisões que fazem do nosso passado humano uma história têm esse caráter de desviar o curso direto da pura economia. Tal como o economista deve ser desculpado por calcular o salário de um suicida, ele deve também ser desculpado por prover uma pensão de aposentadoria para um mártir. Tal como ele não precisa se preocupar com a pensão de um mártir, ele não deve se preocupar com a família de um monge. O plano do economista é modificado por insignificantes e variados detalhes como no caso de um homem ser um soldado e morrer pelo seu próprio país, de um homem ser um camponês e amar especialmente sua terra, de um homem ser mais ou menos influenciado por qualquer religião que proíba ou permita isso ou aquilo. Mas tudo isso se resume não a um cálculo econômico sobre despesas, mas a uma elementar consideração sobre a vida. Tudo isso se resume ao que o homem fundamentalmente sente, quando ele contempla, dessas janelas estranhas que ele chama os olhos, essa estranha visão que ele chama o mundo.

[1] Excerto do capítulo VII (‘The War of the Gods and Demons’ – A Guerra dos Deuses e Demônios) do livro ‘The Everlasting Man’ (O Homem Eterno). Quem se interessar pode ‘baixar’ uma cópia grátis desse livro, em inglês, do sítio The On-Line Books. Até onde eu sei, há uma tradução desse livro para o português, pela Editora Quadrante, que está fora de catálogo no momento. Eu não a conheço. (N. do T.)

domingo, 30 de março de 2008

O Espírito dos Tempos - por Cavaleiro do Templo, um sub-título: Conservador x Revolucionário

Do BLOG DO ANGUETH
sexta-feira, 12 de agosto de 2005

Nota -
Este texto é o último parágrafo da Introdução do livro Heretics de G.K.Chesterton. A tradução foi feita por mim que, também, lhe dei um título.

Suponha que uma grande comoção surja, numa rua, sobre alguma coisa, digamos um poste de iluminação a gás, que muitas pessoas influentes desejam derrubar. Um monge de batina cinza, que é o espírito da Idade Média, começa a fazer algumas considerações sobre o assunto, dizendo à maneira árida da Escolástica: “Consideremos primeiro, meus irmãos, o valor da Luz. Se a Luz for em si mesma boa –”. Nessa altura, ele é, compreensivelmente, derrubado. Todo mundo corre para o poste e o põe abaixo em dez minutos, cumprimentando-se mutuamente em sua praticalidade nada medieval.

Mas, com o passar do tempo, as coisas não funcionam tão facilmente. Alguns derrubaram o poste porque queriam a luz elétrica; alguns outros, porque queriam o ferro do poste; alguns mais, porque queriam a escuridão, pois, seus objetivos eram maus. Alguns se interessavam pouco pelo poste, outros muito; alguns agiram porque queriam destruir os equipamentos municipais; alguns outros porque queriam destruir alguma coisa. E acontece uma guerra noturna, ninguém sabendo a quem atinge. Então, gradualmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, forma-se a convicção de que o monge estava certo, afinal, e que tudo depende de qual é a filosofia da Luz. Mas, o que podíamos discutir sob o lâmpada a gás, agora temos de discutir no escuro.

O Ressurgimento da Filosofia – Por quê?

Do BLOG DO ANGUETH
G.K. Chesterton em domingo, 09 de julho de 2006

O melhor motivo para o ressurgimento da filosofia é que a menos que um homem tenha uma filosofia, certas coisas horríveis acontecerão a ele. Ele será prático; ele será progressista; ele cultivará a eficiência; ele acreditará na evolução; ele realizará o trabalho dele mais próximo e imediato; ele se devotará a feitos, não a palavras. Assim, atingido por rajadas e mais rajadas de estupidez cega e destino aleatório, ele caminhará trôpego para uma morte miserável, sem nenhum conforto, exceto uma série de slogans; tais como esses que cataloguei acima.

Essas coisas são simples substitutos dos pensamentos. Em alguns casos, eles são pedaços esparsos do pensamento de alguém. Isso significa que um homem que se recusa a ter sua própria filosofia não terá nem mesmo a vantagem de uma fera, a de ser deixado à mercê de seus próprios instintos. Ele terá apenas os esgotados fragmentos de alguma filosofia alheia; o que as feras não precisam herdar; daí sua felicidade.

Os homens sempre têm uma de duas coisas: ou uma completa e consciente filosofia ou uma inconsciente aceitação de fragmentos dispersos de alguma incompleta, devastada e, freqüentemente, desacreditada filosofia. Esses fragmentos dispersos são as frases que eu citei: eficiência, evolução etc. A idéia de ser “prático”, em si mesma, é tudo que resta de um Pragmatismo que não se sustenta. É impossível ser prático sem uma Pragma. E o que aconteceria se você abordasse o próximo homem prático que encontrasse e dissesse ao pobre pateta: “Onde está sua Pragma?” Fazer o trabalho mais próximo e imediato é um nonsense óbvio; mesmo assim, isso é repetido em muitos almanaques. Em noventa por cento dos casos, isso significaria fazer o trabalho a que você menos se adequasse, tal como limpar janelas ou esmurrar um policial.

“Feitos em vez de palavras” é, em si mesmo, um excelente exemplo de “Palavras em vez de pensamentos”. Jogar uma pedra no lago é um feito e mandar um preso para a forca é uma palavra. Mas, há palavras verdadeiramente fúteis; quase inteiramente delas consiste esse tipo de jornalismo científico popular e filosófico.

Alguns têm medo de que a filosofia os entediará ou os confundirá; a razão é que eles não pensam apenas numa série de longas palavras, mas também num novelo de complicadas noções. Essas pessoas deixam de perceber toda a natureza da atual situação. Esses são os males que já existem; principalmente pelo desejo de uma filosofia. Os políticos e os jornais estão sempre usando longas palavras. Não se constitui em uma completa consolação o fato de eles as usarem erradamente. As relações políticas e sociais já são desesperadamente complicadas. Elas são muito mais complicadas do que qualquer página de metafísica medieval; a única diferença é que os medievalistas podiam desembaraçar o novelo e entender as complicações; os modernos não podem. As principais coisas práticas atuais, como corrupção financeira e política, são enormemente complicadas. Nos contentamos em tolerá-las porque nos contentamos em não entendê-las, em vez de compreendê-las. O mundo dos negócios precisa de metafísica – para simplificá-lo.

Eu sei que essas palavras serão recebidas com escárnio, e com a reafirmação mal-humorada de que não é momento para nonsense e paradoxo; e que o que é realmente desejável é um homem prático para ir em frente e limpar toda a bagunça. E um homem prático, sem dúvida, aparecerá, um de uma sucessão interminável de homens práticos; e ele, sem dúvida, irá em frente, e talvez “limpará” alguns milhões para si próprio e deixará uma bagunça maior ainda; tal como os homens práticos anteriores fizeram. A razão é perfeitamente simples. Esse tipo de pessoa excessivamente rude e sem consciência sempre aumenta a confusão; porque ela está à mercê de diferentes motivos ao mesmo tempo; e ele não os distingue. Um homem tem, já totalmente entrelaçado em sua mente, (1) um desejo entusiástico e humano por dinheiro, (2) um desejo pedante e superficial de estar progredindo, ou indo pelo caminho de todo mundo, (3) um desconforto por ser considerado muito velho para se relacionar com os jovens, (4) uma certa quantidade de um vago, mas genuíno, patriotismo ou espírito público, (5) uma incompreensão do erro cometido pelo Sr. H. G. Wells, na forma de um livro sobre a Evolução. Quando um homem tem todas essas coisas dentro de sua cabeça e nem sequer tenta resolvê-las, ele é chamado, pelo consenso e aclamação geral, um homem prático. Mas do homem prático não se pode esperar algum aprimoramento em relação à impraticável confusão; pois, ele não pode sequer organizar a confusão de sua própria mente, o que dizer de sua altamente complexa comunidade e civilização. Por alguma estranha razão, é comum dizer que esse tipo de homem prático “sabe o que faz”. É claro que isso é exatamente o que ele não sabe. Ele pode, em alguns casos felizes, conhecer o que ele quer, como um cachorro ou um bebê de dois anos; mas mesmo assim, ele não sabe o porquê de seu desejo. E é o porquê e o como que deve ser considerado quando estamos elucidando a razão de uma cultura ou tradição ter se tornado tão confusa. O que precisamos, como os antigos entenderam, não é um político que é um negociante, mas um rei que é um filósofo.

Peço desculpas pela palavra “rei”, que não é estritamente necessária no contexto; mas eu sugiro que seria uma das funções do filósofo ponderar sobre tais palavras e determinar se elas têm ou não importância. A República Romana e todos os seus cidadãos tinham um horror enorme da palavra “rei”. Como conseqüência eles inventaram e nos impuseram a palavra “imperador”. Os grandes republicanos que fundaram a América também tinham horror da palavra “rei”; que depois reapareceu com a especial qualificação de um Rei do Ferro, um Rei do Petróleo, um Rei do Porco, ou outros monarcas similares, feitos de materiais semelhantes. O negócio de um filósofo não é necessariamente condenar a inovação ou negar a distinção. Mas é sua tarefa perguntar-se exatamente o que é que ele ou os outros desgostam na palavra “rei”. Se o que ele desgosta é um homem usando um casaco cheio de manchas, feito de pele de um animal chamado arminho, ou um homem que tinha um anel de metal colocado sobre sua cabeça por um clérigo, ele terá de decidir. Se o que ele desgosta é que tal casaco ou tal poder seja passado de pai para filho, ele perguntará se isso ocorre nas condições comerciais correntes. Mas, de qualquer forma, ele terá o hábito de testar a coisa pela reflexão; por meio da idéia de que gosta ou desgosta; e não meramente pelo som da sílaba ou a aparência das letras da palavra.

Filosofia é meramente pensamento que foi cuidadosamente considerado. É, freqüentemente, muito enfadonho. Mas, o homem não tem alternativa, exceto entre ser influenciado pelo pensamento refletido ou ser influenciado pelo pensamento irrefletido. O último é o que comumente chamamos, hoje, de cultura e erudição. Mas o homem é sempre influenciado por pensamento de algum tipo, seu próprio ou de alguém; de alguém que ele confia ou de alguém de quem ele nunca ouviu falar, pensamento de primeira, segunda ou terceira mão; pensamento de lendas esquecidas ou de rumores não confirmados; mas sempre algo com a sombra de um sistema de valores e uma razão para preferência. Um homem testa qualquer coisa por meio de alguma coisa. A questão aqui é se ele alguma vez testa o teste.

Tomarei um exemplo, entre milhares que poderia escolher. Qual é a atitude de um homem comum ao ser informado sobre um evento extraordinário: um milagre? Quero dizer um tipo de coisa que é informalmente chamado de sobrenatural, mas que deveria ser chamado propriamente de preternatural. Pois, a palavra sobrenatural aplica-se somente ao que é mais elevado que o homem; e muitos milagres modernos são como se viessem de um lugar consideravelmente inferior. De qualquer forma, o que os homens modernos dizem quando se confrontam com algo que, aparentemente, não pode ser explicado naturalmente? Bem, a maioria dos homens modernos diz asneira. Quando uma tal coisa é mencionada, em romances e em histórias de jornais ou revistas, o primeiro comentário que se ouve é, “Mas, meu caro amigo, este é o século XX!” Vale a pena ter um pequeno treino em filosofia, se não por outras razões, pelo menos para não parecer tão surpreendentemente idiota. A afirmação tem, no todo, muito menos sentido ou significado do que, “Mas, meu caro amigo, estamos numa tarde de terça-feira.” Se milagres não podem acontecer, eles não acontecem nem no século XX, nem no século XII. Mas se eles podem acontecer, ninguém pode provar que em algum momento determinado eles não possam acontecer. O melhor que pode ser dito para um cético é que ele não pode explicar o que ele quer dizer, e portanto, o que quer que ele queira dizer, ele não pode explicar o que diz. Mas se ele somente quer dizer que se poderia acreditar em milagres no século XII, mas que não se pode acreditar neles no século XX, então, ele está errado novamente, tanto em teoria quanto em fatos. Ele está errado em teoria, porque um inteligente reconhecimento de possibilidades não depende de datas mas de filosofia. Um ateu poderia ter desacreditado em milagre no primeiro século e um místico poderia continuar a acreditar em milagres no século XXI. E ele está errado em fatos, porque há fortes indícios que haverá muito misticismo e um grande número de milagres no século XXI; e há, certamente, um crescente número deles no século XX.

Mas, eu tomei aquela primeira resposta superficial porque há um significado no mero fato de que ela apareça em primeiro lugar; e sua própria superficialidade revela algo do subconsciente. É uma resposta quase automática; e palavras ditas automaticamente são de alguma importância em psicologia. Não sejamos tão severos com o valoroso cavalheiro que informa seu caro interlocutor que este é o século XX. Nas profundezas misteriosas de seu ser, mesmo aquela enorme asneira significa realmente alguma coisa. A questão é que ele não pode explicar o que ele quer dizer; e este é o argumento para uma melhor educação em filosofia. O que ele realmente quer dizer é algo como, “Há uma teoria a respeito desse misterioso universo para a qual mais e mais pessoas ficaram inclinadas durante a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do XIX; e até este ponto pelo menos, essa teoria cresceu com um crescente número de invenções da ciência às quais devemos nossa presente organização – ou desorganização – social. Essa teoria afirma que causa e efeito têm, desde o início, operado numa seqüência ininterrupta como um destino fixo; e que não há nenhuma vontade por atrás ou no interior desse destino; de tal forma que ele deve trabalhar na ausência de tal vontade, como uma máquina deve funcionar sem a presença de um homem. Havia mais pessoas no século XIX que acreditavam nessa particular teoria do universo do que havia no século IX. Eu mesmo acredito nela; e portanto eu, obviamente, não posso acreditar em milagres.” Isso faz completo sentido; mas também faz a contra-afirmação; “Eu não acredito nela; e portanto eu, obviamente, acredito em milagres.”

A vantagem de um hábito filosófico elementar é que ele permite a um homem, por exemplo, entender uma afirmação como esta, “O fato de poder ou não poder haver exceções a um processo depende da natureza do processo.” A desvantagem de não ter esse hábito é que um homem se tornará impaciente mesmo com um truísmo tão simples; e chama-lo-á lixo metafísico. Ele, então, disparará a seguinte afirmação: “Não se podem ter tais coisas no século XX”; o que é realmente um lixo. Mesmo assim, a última afirmação pode ser explicada a ele em termos suficientemente simples. Se um homem vê as águas de um rio caminhando rio abaixo, ano após ano, ele terá razão em considerar, podemos dizer em apostar, que isso acontecerá até que ele morra. Mas, ele não terá razão em dizer que as águas do rio não podem caminhar rio acima, até que ele saiba porque elas correm rio abaixo. Dizer que isso acontece por causa da gravidade responde a questão física mas não a filosófica. Somente se repete que há uma repetição; não se toca na questão mais profunda sobre se essa repetição pode ser alterada por algo proveniente do exterior. E isso depende da existência de algo no exterior. Por exemplo, suponha que um homem tenha visto o rio apenas num sonho. Ele poderia ter sonhado noventa e nove sonhos, sempre se repetindo e sempre com as águas fluindo rio abaixo. Mas, isso não evitaria que o centésimo sonho pudesse mostrar o rio subindo a montanha; porque o sonho é um sonho, e há algo exterior a ele. Mera repetição não prova realidade ou inevitabilidade. Devemos conhecer a natureza da coisa e a causa da repetição. Se a natureza da coisa é uma Criação, e a causa da coisa um Criador, em outras palavras, se a própria repetição é somente a repetição de algo desejado por uma pessoa, então, não é impossível para essa mesma pessoa desejar uma coisa diferente. Se um homem é um idiota para acreditar num Criador, então ele será um idiota para acreditar num milagre; mas não ao contrário. Ao contrário, ele é simplesmente um filósofo que é consistente com sua filosofia.

Um homem moderno é livre para escolher qualquer uma das filosofias. Mas, a verdadeira questão do homem moderno é que ele não conhece nem mesmo sua própria filosofia, mas somente sua própria fraseologia. Ele pode somente responder à próxima mensagem produzida pelo espiritualista, ou à próxima cura atestada por doutores em Lourdes, com a repetição do que são, geralmente, nada mais que frases; ou são, na melhor das hipóteses, preconceitos.

Assim, quando um brilhante homem como o Sr. H. G. Wells diz que tais idéias sobrenaturais se tornaram impossíveis para “pessoas inteligentes”, ele não está (neste caso) falando como uma pessoa inteligente. Em outras palavras, ele não está falando como um filósofo; porque ele não está nem mesmo dizendo o que ele quer dizer. O que ele quer dizer não é “impossível para homens inteligentes”, mas, “impossível para monistas inteligentes”, ou, “impossível para deterministas inteligentes”. Mas, não é uma negação da inteligência afirmar qualquer concepção lógica e coerente de um mundo tão misterioso. Não é uma negação da inteligência pensar que toda experiência é um sonho. Não é pouco inteligente pensá-la como uma ilusão, como alguns budistas fazem; muito menos pensá-la com um desejo criativo, como fazem os cristãos. Estamos sempre ouvindo que os homens não devem manter as divisões tão pronunciadas de suas religiões. Como um passo imediato em direção ao progresso, é mais urgente que eles sejam mais claros e mais pronunciadamente divididos em suas diferentes filosofias.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".