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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Religião política: o que isso realmente significa?

 

LUCIANO AYAN

Neste blog, o que mais tenho executado é o ceticismo em direção à religião política, a qual também é alvo de minhas principais críticas.

Entretanto, reconheço que já vi leitores questionando: “que diabos esse Luciano quer dizer por religião política?”. Em meu texto “A Esquerda como um Todo” eu coloquei todas as características da esquerda, e também a chamei de religião política. Mas faltou uma definição estrita do termo religião política em si, já que estabelecer um rótulo não é uma definição. Eu defini o pensamento de esquerda, mas não por que ele DEFINE-SE como a religião política.

No texto “Princípios e Fundamentos para o Ceticismo Político”, eu digo várias diferenças entre a religião tradicional e a religião política. Mas neste também fiquei devendo a definição.

Eis então que fiz um “mea culpa” e resolvi desafiar a mim próprio na busca por uma definição para religião política que seja condizente com os fatos, e, se isso não for possível, eu tenho que ser intelectualmente honesto e abandonar esse termo.

Uma premissa inicial que tomo, inspirado tanto pela abordagem de John Gray nos livros “Cachorros de Palha” e “Missa Negra” como pela experiência adquirida no debate com os religiosos políticos, é a de que a religião política é uma ADAPTAÇÃO do cristianismo, o qual é uma religião tradicional.

Por isso temos que analisar a religião tradicional, para entender se, nesta adaptação, o termo religião política é adequado para definir a esquerda.

Religião tradicional refere-se a um sistema que engloba cosmovisão, valores morais, crença em divindades e busca do sentido da vida. Algumas religiões tradicionais englobam narrativas, simbologias e tradições, além de ritualística. Mas é possível ter uma religião sem rituais, obviamente.

Segundo John Gray (e concordo com ele), provavelmente inspirados pelo sucesso do cristianismo, positivistas, humanistas e demais perfis revolucionários fizeram um “upgrade”, trocando a crença em Deus pela crença no homem, criando uma cosmovisão e estabelecendo novos valores. E, é claro, deram um sentido às suas vidas (na opinião deles, deram um sentido a vida de todos os homens).

O cristianismo milenarista, que defendia a vinda de Jesus em carne para a salvação terrena (não espiritual), é como um “elo perdido” entre a religião tradicional e a religião política.

Cristãos podem até se ofender com essa comparação, mas atenção: ela não nos diz nada em relação à validade ou não da crença em si. Portanto, quando estou buscando o “elo perdido” entre o cristianismo milenarista e a religião política, faço-o de forma antropológica, sem atribuir validade filosófica ou não ao sistema de crenças cristão.

Seja lá como for, temos várias semelhanças, como por exemplo a crença em um apocalipse, que é transformada por esquerdistas em coisas como “colapso do sistema capitalista”. A crença em uma salvação é transformada também em um tipo diferente de “salvação”, no caso aquela criação de um “novo mundo”, sem sofrimentos, sem injustiças e/ou sustentado pela “razão e ciência”.

Como era de se esperar, há um conjunto de valores que permite um senso de identidade no grupo, em ambos os casos.

Quando avaliamos a crença em Deus, ela pode ou não existir para os membros da religião política, dependendo de cada perfil de crença. Em alguns casos, a religião política é HOSTIL à crença em Deus, provavelmente pelo fato de que esta crença irá competir com uma de suas crenças centrais, a crença no homem:Crença na idéia de que o homem, poderá por sua ação, através da razão, empatia e/ou ciência (ou qualquer outro atributo usado para simular âncoras positivas) eliminar as contingências humanas, como luta por auto-preservação, territorialismo, gregarismo e busca pelo poder, para então criar um cenário na Terra em que um grupo específico de homens (estes “iluminados”) protegeriam a humanidade como um todo, com justiça para todos e amplificação da felicidade global.”

Justiça seja feita, existem variações da crença no homem, algumas em que tentam racionalizá-la um pouco mais, e outras em que a confiança é absoluta, e isso se reflete em coisas como crença em um estado forte (comandado, naturalmente, por homens) ou em um governo centralizado global.

Já deixei claro que as semelhanças realmente são muitas, com a diferença de que não há crença em Deus, e que não veremos religiosos políticos rezando por aí, assim como realizando novenas e procissões. Entretanto, eles adoram uma passeata para promover suas crenças.

Outra semelhança que une os dois tipos de religião é a presença de componentes de fé. Exemplos são a crença na ressurreição de Cristo e o nascimento virginal, no cristianismo, enquanto existe a crença de que o homem irá construir um paraíso em Terra por sua ação, eliminando as contingências naturais humanas (exemplo: o hardware biológico que o ser humano possui de nascença), para o “bem comum”, dentre outras.

Existem também algumas diferenças entre a religião tradicional e a religião política, mas estas, assim como a crença em Deus convertida em crença no homem, podem ser explicadas como “adaptação” da religião cristã.

Por exemplo, a religião cristã, assim como as outras, permite o uso de metáforas, mas a religão política é sempre literal. Os cristãos podem interpretar que o mundo tem 6,000 anos, como também interpretar que possui 14 bilhões. Já as interpretações da religião política são preto no branco.

O que temos aqui é uma quantidade incrível de semelhanças, e as poucas diferenças SÓ PODEM ser creditadas à “adaptação”, ou seja, o salto do cristianismo milenarista para positivismo/humanismo, que são mais que os protótipos de toda religião política atual, como também componente central de variações como social democracia, marxismo, nazismo, fascismo e outras.

Observem que neste texto, não estou me importando em atribuir juízo de valor. Eu poderia fazê-lo, mas com certeza eu me empolgaria e perderia o objetivo central que tenho aqui, o de definir a religião política, e, se não conseguir, abandonar o termo.

Como experimento, peguemos as definições do dicionário Michaelis para religião, no caso, a religião tradicional:

  1. Serviço ou culto a Deus, ou a uma divindade qualquer, expresso por meio de ritos, preces e observância do que se considera mandamento divino.
  2. Sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana ao Criador.
  3. Culto externo ou interno prestado à divindade.
  4. Crença ou doutrina religiosa; sistema dogmático e moral.
  5. Veneração às coisas sagradas; crença, devoção, fé, piedade.
  6. Prática dos preceitos divinos ou revelados.
  7. Temor de Deus.
  8. Tudo que é considerado obrigação moral ou dever sagrado e indeclinável.
  9. Ordem ou congregação religiosa.
  10. Ordem de cavalaria.
  11. Caráter sagrado ou virtude especial que se atribui a alguém ou a alguma coisa e pelo qual se lhe presta reverência.
  12. Conjunto de ritos e cerimônias, sacrificais ou não, ordenados para a manifestação do culto à divindade; cerimonial litúrgico.

Vamos agora a algumas definições de religião política, baseado em tudo que foi apresentado aqui:

  1. Serviço ou culto ao homem, de forma que existe a crença em que o ser humano irá eliminar sua contingência para a criação de um paraíso em Terra.
  2. Sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana a esses homens.
  3. Culto externo ou interno prestado a esses homens.
  4. Crença ou doutrina utópica, incluindo sistema moral e cosmovisão relacionada.
  5. Veneração aos líderes ideológicos relacionados e a seus ideais, com devoção e fé.
  6. Prática dos princípios defendidos pelos líderes ideológicos.
  7. Tudo que é considerado obrigação moral ou dever obrigatório de todo militante.
  8. Ordem ou instituição fundada para defender os princípios ideológicos defendidos.
  9. Identidade de grupo para definir o caráter ou virtude especial atribuídos ao membro do grupo.

Mas ainda reconheço que várias definições assim podem mais gerar confusão do que auxiliar-nos, de forma que, para fins práticos, tenho que encontrar UMA definição, que será usada daqui por diante no blog.

Vamos a uma tentativa final: Sistema de crenças com ênfase na crença em que o ser humano irá eliminar suas contingências humanas para a criação de um mundo melhor e/ou igualitário e/ou justo. Este sistema de crenças inclui senso de identidade de grupo, moral particular ao grupo, militância política, organização sob forma de instituições (incluem-se ONGs e fundações), fé nesses ideais, definição de bodes expiatórios e prática dos princípios do grupo.

Existem vários outros pontos que poderia incluir, mas no máximo isso deixaria as coisas mais complicadas.

Algumas perguntas ainda poderiam ser feitas, e de bate-pronto trago algumas respostas:

  • Onde fica a definição dos beneficiários e funcionais? Essa questão fica em um domínio além da definição do que é religião política. Na verdade, é uma consequência da religião política em si. Explicando melhor: se alguém confia em Deus, obviamente se este Deus existir ele não vai enganar essa pessoa. É claro que um pastor desonesto pode enrolar o fiel, mas isso é uma opção, não uma consequência direta da religião. Já na religião política, pelo fato da crença no homem, os mais espertos vão pedir o “poder” para transformar as coisas e criar o “mundo melhor”, através de estados inchados e/ou totalitários, por exemplo. Portanto, a religião política é um ambiente PERFEITO para a existência dos beneficiários e funcionais.
  • Como fica a questão das estratégias e rotinas da religião política? Essa questão também fica em um domínio além da definição do que é religião política. Considerando a aplicação prática no dia-a-dia da religião política, estratégias precisaram ser criadas ao longo do tempo para manter a dependência dos funcionais aos beneficiários, mas algumas destas estratégias também podem ser utilizadas fora da religião política. Enfim, as estratégias e rotinas são consequências naturais da PRÁTICA da religião política, para atender os beneficiários.
  • Essa definição realmente abarca todos os perfis da esquerda? Sim. Faça o experimento. Teste o comportamento de um funcional nazista, marxista, neo ateísta, humanista e vai dar tudo no mesmo. Todo esse comportamento se traduz na definição apresentada aqui.
  • Todos os religiosos políticos possuem a “crença no homem” de acordo com sua definição?Praticamente todos, a não ser aqueles que tentaram racionalizar a crença para torná-la mais aceitável e menos ridicularizável, e mesmo nesses casos eles não falam em “utopia” mas em “mundo muito melhor”. No restante dos atributos, a definição aplica-se à risca.
  • Muitos humanistas e neo ateus se declaram céticos. Eles não se incomodariam com o termo religião política? Não há motivos para incômodo, pois a religião política não implica em crença em Deus e no sobrenatural, mas sim em crença no homem. E isso todos eles possuem. Um exemplo é quando Dawkins disse que o gregarismo seria eliminado SE  as religiões fossem eliminadas. Observe que ele é um sujeito crente em uma cosmovisão incluindo crenças para “correção do mundo”. Mas de onde ele tirou a idéia de redução do gregarismo pela redução da religião senão por um salto de fé?  É como se algum guru dissesse: “tirai, tirai a religião do mundo, e confie em mim que o ser humano não mais se dividirá, e os motivos para guerras… cessarão”. Este é o tipo de credulidade que caracteriza a religião política. Outro ponto: neo ateus e humanistas são céticos em relação a Deus e o sobrenatural, mas extremamente crédulos na religião política. São crentes políticos.
  • Há um objetivo final para a esquerda (religião política) definido como “Obtenção do poder totalitário”. Como isso se encaixa na definição? Não se encaixa. Na verdade, esse é o objetivo dos BENEFICIÁRIOS da religião política.
  • A definição de religião política engloba toda a esquerda. Mas não engloba a direita também? Pois pessoas de direita também querem um mundo melhor. Não engloba, pois os direitistas não acreditam em um mundo muito diferente daquele que temos hoje. O máximo que os adeptos da direita querem é ir fazendo o que for possível, e ainda olham para o passado, tentando aprender com o que ocorreu. O ato de não confiar em um estado inchado, por exemplo, é por uma questão de ceticismo em relação aos que tomam conta deste estado. Um estado inchado significa dar muito poder ao homem. O conservador acredita que é melhor ter poderes paralelos, no caso o poder do estado, que não teria como suplantar o poder do mercado. Isso ocorre por falta de crença em relação ao homem, em oposição à crença no homem dos religiosos políticos.
  • É possível alguém viver sem religião tradicional ou religião política? Eu acho muito raro, talvez (não tenho certeza) por que o cérebro humano seja programado para ter crenças na autoridade. Raros são pontos fora da curva, como eu, que não tenho crença nem na religião tradicional como na religião política. Por isso, é esperado que alguém ao abandonar a religião tradicional seja vítima da religião política. Entende-se também por que a luta contra a religião tradicional é uma das estratégias centrais da religião política.

Enfim, acredito que com as respostas a essas hipotéticas perguntas (e sintam-se livres para fazerem outras), mostrei que a definição trazida por mim de religião política consegue compreender todo um padrão de comportamentos.

E, pelo componente de fé identificado, reitero que a forma ideal de tratarmos a religião política é com o ceticismo.

Da mesma forma que há 300 anos isso é feito para a religião tradicional.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".