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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Economistas liberais foram direta ou indiretamente estatizados ou cooptados pelo petismo. Até eles, quando contestados, respondem: “Seu, seu… antipetista!” É a caça às bruxas como parte da construção da hegemonia!

 

REINALDO AZEVEDO

20/06/2012 às 7:43

 

Queridos, mais um texto longo, mas acho que necessário. Sei que vocês não se assustam com isso. Sem ofender ninguém! Se acharem pertinente, bola pra frente para que o jogo continue. Sim, este blogueiro mixuruca volta à questão do binômio “Bolsa Família-redução da violência” e ao economista PhD por Stanford

Vocês acompanharam a “Batalha de Itararé” entre Reinaldo Azevedo e o professor João Manoel Pinho de Mello, da PUC-RJ, um dos autores de um estudo que atribui ao Bolsa Família — especificamente à sua extensão aos jovens de 16 e 17 anos — responsabilidade considerável na queda dos índices de violência na cidade de São Paulo. Escrevi um primeiro e despretensioso post a respeito na manhã de domingo. Contestei e critiquei as conclusões, mas não ofendi os pesquisadores. Uma das coisas boas da Internet é isto: o leitor pode verificar no ato, se quiser, que falo a verdade. Pra quê? João Manoel respondeu com impressionante violência e arrogância à minha crítica, exibindo as suas credenciais. Eu era, afinal, um reles blogueiro, e ele PhD por Stanford. Como eu ousava? Publiquei seu texto e respondi.

É claro que há pessoas considerando que eu estou errado, e ele certo! Publiquei comentários com essa avaliação. Mas boas figuras das ciências matemáticas, das ciências humanas e das ciências econômicas que avaliam que suas conclusões são ou precipitadas ou erradas mesmo. No curso deste texto, é quase forçoso que alguns argumentos sejam repisados, mas farei de tudo para evitar. Sabem por quê? Porque o objeto deste post é outro. O objeto deste post é demonstrar que boa parte dos nossos liberais foi estatizada ou cooptada pelo manto protetor do estado. Tornaram-se presas — alegres e saltitantes, na maioria das vezes — da construção da hegemonia petista. E não sou eu a dizê-lo, não, viu, João Manoel!? São os petistas; os que estão no comando da festa.

Vamos ver. Em nenhum momento — de novo: os textos estão disponíveis — atribuí a João Manoel e a seus amigos filiação partidária, desvio esquerdista ou alinhamento ideológico com o petismo. Nada! Zero! O professor respondeu, no entanto, como se eu o tivesse feito, e boa parte de seu texto agressivo, malcriado e pedante — o que denota uma espantosa insegurança sobre suas próprias conclusões — busca demonstrar que não tem fundamento a acusação de que ele seja petista ou de esquerda. Ocorre que eu jamais o acusei disso. Como prova dos noves de suas eventuais boas intenções — liberais? Sei lá eu… —, lembra que o Banco Mundial financia a pesquisa — como se não fosse o Banco Mundial justamente uma das instituições fascinadas por programas como o Bolsa Família… Tudo nos conformes e nada a estranhar.

Vamos ver. É claro que as conclusões que considero — e não só eu — erradas de seu estudo virarão peça publicitária do petismo. Não se pode, claro!, atribuir a responsabilidade a João Manoel por isso. Não é porque alguém pode fazer eventual mau uso da verdade e da ciência que se vai deixar de dizer a verdade e praticar ciência. No caso do estudo, malgrado os esforços que quero crer honestos, não se produziram nem uma coisa nem outra. Ora, poderíamos ter ficado nesse terreno, e assim se faz o debate intelectual no mundo livre. Mas não! João Manoel, como quem abrisse um pacote de bombons (disse ele) e decidisse comê-los todos, achou que poderia me esmagar com concupiscência e fúria. E se deu obviamente mal. Empanturrou-se com sua arrogância.

Não podendo explicar por que a violência teria caído em São Paulo em razão do Bolsa Família — embora a cidade, proporcionalmente, tenha menos beneficiários do programa do que a maioria das outras capitais —, mas crescido na maior parte das capitais e dos estados, restou-lhe uma saída um pouco vexaminosa: afinal, ponderou, quem poderia assegurar que, sem o programa, ela não teria crescido ainda mais? É uma pergunta, sabe qualquer cientista, irrespondível no campo da ciência ao menos. O estudo de João Manoel é tão ruim, mas tão ruim — e isso nada tem a ver com a econometria, mas com o “econômetra” — que ele chegou à sua conclusão, disse, com base em dados da diminuição da violência no entorno de onde moravam os jovens atendidos pelo Bolsa Família. Uma simples consulta à Polícia Militar e à Policia Civil informariam que os jovens infratores praticam seus delitos longe das comunidades nas quais moram. Toda a sua complexa ciência — e sua estupenda arrogância — é anulada por sua ignorância de causa. Ele acabou achando na pesquisa aquilo que queria encontrar.

Consultem, se quiserem, a página 25 do Mapa da Violência. Entre 2007 e 2010, o índice de homicídios CRESCEU nos 7 estados da Região Norte, em 8 dos 9 estados da Região Nordeste (exceção feita a Pernambuco), em 2 dos 3 estados da Região Sul (menos RS) e em três das quatro unidades da federação do Centro-Oeste (a exceção é MS). Houve queda nos quatro Estados do Sudeste. Em sua resposta, que buscava escoicear (os economistas amigos do comedor de bombons consultem o dicionário antes de me ofender), não esclarecer, João Manoel tentou alegar fatores específicos que teriam elevado a violência em “alguns estados” do Nordeste. Como vocês viram, o índice de homicídios cresceu entre 2007 e 2010 em 20 das 27 unidades da federação. E o resultado não será diferente se vocês pesquisarem as regiões metropolitanas.

Sua saída foi dizer: “Eu sou PhD por Stanford, e você é só um blogueiro”. Sim, sim! Ele é um PhD por Stanford, e eu sou só um blogueiro. Não obstante isso, a violência cresceu em 20 dos 27 estados no período por ele estudado e na esmagadora maioria das regiões metropolitanas. Eu sou, como diria Drummond, “essa coisa quase que maldita”, e ele é aquele portento, mas o fato é que os jovens infratores praticam seus crimes bem longe de casa, o que, lamento, joga não a econometria, mas as conclusões do “econômetra” no lixo. Ainda que ele “trabalhe duro”, como li num dos blogs que tratam do assunto. A propósito: não o chamei de preguiçoso — sua carta quilométrica a este reles blogueiro prova que é esforçado. Eu chamei seu estudo de equivocado — sim, de “bobajada” também.

Antes que prossiga, quero aqui, em tom até um tanto jocoso, embora o assunto seja sério, acusar um comportamento tolinho de alguns de seus amigos. No fundo, perguntam como pode um jornalista se atrever a questionar um PhD. Sem que eu faça também um estudo econométrico, dizem, estou proibido de contestá-lo. Ulalá! Ainda que eu fosse PhD em alguma coisa — e há muito não vejo no Brasil e no mundo gente argumentando com essa arma —, não seria o caso de brincar de luta de espadas, não é? Não faço isso, não! Esse comportamento não evidencia amor à ciência, mas pouca disposição para o debate e para o contraditório. Não é recente — e não dará para discutir o tema neste post — a tendência de certas correntes da economia de se considerar uma espécie de ciência das ciências, capazes de substituir a ideologia, a moral, a ética e, como se pode ver, se preciso, até a própria matemática. Afinal, são cientistas! Sei… Gente mais aguda do que João Manoel chegou a achar que um filósofo poderia ser um bom tirano. Deu merda, claro! Não chegou ainda a vez dos economistas…

Estatização dos liberais
Um dia estas coisas terão de ser contadas com mais vagar, detalhes etc. Que fique para a academia. Aponto um fenômeno que me parece estar em curso. Quem sabe um historiador das ideias se interesse por isso. Há muito tempo os chamados economistas, vá lá, “liberais” vivem às turras com seus adversários desenvolvimentistas — ou que nome tenham seus sucedâneos. As divergências são muitas e se manifestam em vários campos. Uns preferem menos estado, outros mais; uns acham bobagem proteger a indústria nacional, outros consideram questão de sobrevivência; uns acreditam em políticas sociais focadas nos que estão em situação mais vulnerável, deixando que os mais aquinhoados pela sorte cuidem de si mesmos; os outros defendem políticas sociais universalistas; uns acham que ajuste fiscal induz crescimento, os outros acham que ele pode contribuir para afundar ainda mais os países; uns estão mais próximos do mercado financeiro (a PUC do Rio fornece farta mão de obra para esse setor da economia), outros preferem o mundo da produção… Faço aqui generalizações só para caracterizar minimamente os campos. Eu tendo até a me identificar mais com o primeiro grupo. É até possível que João Manoel esteja nele, não sei.

Vejam que curioso: o petismo sempre foi avesso, como sabem, aos tais liberais — que a turma chegou a chamar de “neoliberais”. A eles são atribuídas as maiores atrocidades econômicas e políticas, como a… privatização de estatais, por exemplo, que fez um bem imenso ao Brasil. Muito bem: há uma corrente desse, vá lá, “liberalismo” que é fascinada pela crítica ao desperdício do estado com políticas sociais universalistas — que atendam a todos — e que é obcecada justamente pelo gasto social focado, direcionado aos mais vulneráveis. As esquerdas e o petismo sempre foram duros críticos desses programas. Não por acaso, em 2003, enquanto tentava criar o Fome Zero, Lula chamava as bolsas criadas no governo FHC (depois reunidas no Bolsa Família) de “esmola”. Dizia que o pobre que recebia o benefício ficava preguiçoso e não “plantava macaxeira”. Já escrevi a respeito, reproduzindo trecho daquele discurso.

O PT, obviamente, mudou ao chegar ao poder (já havia feito a conversão um pouco antes). No segundo mandato de Lula e agora, no governo Dilma, os liberais perderam um pouco de influência. Mas é evidente que os petistas adotaram parte do seu receituário (EU ME REFIRO APENAS À ECONOMIA), no que fez muito bem, diga-se. Aquela vertente dos “economistas da pobreza”, que defendem os gastos sociais focados, viu em programas como o Bolsa Família e o ProUni se não a realização de suas utopias, ao menos a aplicação de algumas de suas mais caras teorias. E passaram a gerar uma frenética massa crítica, atribuindo ao programa virtudes verdadeiramente fabulosas.

A título de ilustração, lembro que ajudaram a definir, por exemplo, com o patrocínio do governo, o novo perfil das classes sociais no Brasil — que já teria 54% da população na classe média. Merecem essa denominação famílias com renda per capita entre R$ 300 e R$ 1000. E há subgrupos, assim: a baixa classe média,  entre R$ 300 e R$ 440; a média, entre R$ R$ 441 a R$ 640; e a alta classe média, entre R$ 641 e R$ 1.020. A classe alta tem dois grupos: um com renda familiar per capita entre R$ 1.0210 e R$ 2.480, e outro acima de R$ 2.480. Descobri que a minha empregada é da classe média alta. Alguns porteiros e o zelador do meu prédio são da classe alta… alta!!! Onde vocês acham que mora a “classe média” com renda per capita de… R$ 300? Mas quero voltar ao leito.

Alguns desses nossos liberais acabaram caindo de encantos por esse estado — e, por óbvio, por esse governo — que, sob o pretexto de “focar os gastos sociais”, passou a promover proselitismo político-ideológico com recursos públicos. Afinal, o Bolsa Família, na gestão petista, se teve o condão de reduzir a pobreza extrema — já o vinha fazendo antes, é bom notar —, tornou-se também uma máquina de propaganda eleitoral. Criticá-lo se tornou um anátema entre os ditos “esquerdistas” do PT e, como se nota, entre os “liberais estatizados”. No caso em tela, é bom lembrar, nem mesmo entrei no mérito do programa, como sugere João Manoel. Eu me limitei a contestar a conclusão do seu estudo. Ela não é ruim porque contraria o senso comum. A ciência frequentemente faz isso. É ruim porque se dá na contramão de fatos absolutamente verificáveis, evidentes, escancarados. Ao tentar explicar como chegou ao resultado, vimos que a econometria estava sendo torturada pelo “econômetra“.

João Manoel certamente não é petista, mas se comportou como um petralha. Quando não tinha mais argumentos, resolveu acusar o meu “antipetismo” como evidência de meu olhar distorcido. Posts abaixo, há uma reportagem do G1 em que o ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, afirma que a aliança do PT com Paulo Maluf “não é uma tragédia” porque o que é importa e ver quem tem a “hegemonia” da aliança e do processo político. E a hegemonia, ele deixa claro, é do PT. Por conta dela e desde que mantida, qualquer aliança é possível.

Em nome dessa mesma hegemonia, os petistas cooptaram parcela considerável dos economistas que se dizem liberais. Até porque, e isto é apenas um fato, boa parte deles trabalha, direta ou indiretamente, para o mercado financeiro, que não tem razões para brigar com o lulo-petismo. Não estou demonizando ninguém, não. Só estou evidenciando que essa tal hegemonia implica também a tentativa de asfixia do processo político e a satanização da divergência, coisa que não interessa a alguns economistas.

Começo com ele, termino com ele: não vendo melhor maneira de me atacar, João Manoel me chamou, como é mesmo, de “arrogante”, “blogueiro” e… antipetista!!!

Texto publicado originalmente às 7h

Por Reinaldo Azevedo

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".