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segunda-feira, 10 de março de 2008

As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano - Parte I

por Heitor De Paola em 04 de agosto de 2005

Resumo: Para entender porque os riscos de uma radicalização esquerdista na América Latina não são irrelevantes, é necessário conhecer o longo processo histórico que envolve as atividades comunistas ao longo do século XX.

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Uma nova ameaça terrorista (...) pode bem vir de um eixo incluindo Cuba de Fidel Castro, o regime de Chávez na Venezuela e um recém eleito presidente radical no Brasil, todos com ligações com Iraque, Irã e China.

(…) Isto pode levar a que 300 milhões de pessoas em seis países caiam sob o controle de regimes radicais anti-EUA (...). Um eixo Castro-Chávez-da Silva significaria ligar 43 anos de luta anti-americana de Castro com a riqueza petrolífera da Venezuela e com o potencial econômico e a incipiente capacidade nuclear incluindo mísseis, do BrasiL. Constantine Menges, 2002

Quem primeiro usou a expressão “eixo do mal” foi o Professor Constantine Menges, do Hudson Institute, num artigo para o Washington Times intitulado “Blocking a new axis of evil”, publicado em 07/08/2002, em plena campanha presidencial brasileira quando todas as pesquisas indicavam a vitória de Lula. Posteriormente, escreveu vários artigos sobre o tema. Tiveram quase nenhuma repercussão no governo americano e no Brasil onde somente os articulistas ligados ao Professor Olavo de Carvalho, eu incluso, deram a devida atenção. Nos EUA a predominância da preocupação era com o Oriente Médio e as análises errôneas dos assessores do Secretário de Estado Colin Powell, notadamente Otto Reich, sobre a AL e a então Embaixadora dos USA em Brasília, Donna Hrinak, que declarou em junho de 2002 que Lula “encarnava o sonho americano”, sem tomar conhecimento do apoio de Lula ao terrorismo internacional, incluindo islâmico, o que viria a ser confirmado pela seleção de países árabes a que visitou como Presidente. Denunciava Menges: “este candidato radical é o promotor do terrorismo internacional por coordenar planos terroristas de organizações anti-americanas radicais que se reúnem anualmente no Foro de São Paulo”.

Suas observações continuam pertinentes ainda hoje mas necessitando de algumas atualizações. A principal delas, a de rastrear a evolução deste Eixo com as estratégias comunistas de dominação mundial anteriores e inseri-lo em seu lócus apropriado dentro das mesmas. Para isto, as políticas do Eixo serão estudadas à luz das informações contidas nos Memorandos enviados à CIA por Anatoliy Golitsyn e reunidos nos livros New Lies for Old e The Perestroika Deception.

À guisa de apresentação, basta por enquanto dizer que Golitsyn foi agente graduado do KGB, formou-se pela Universidade de Marxismo-Leninismo e pela Escola Diplomática, foi membro do Komsomol (Juventude Comunista) e tornou-se membro do Partido Comunista em 1945, tendo percorrido todos os passos dentro dos serviços de contra-informação soviéticos. Em 1961, exilado nos EUA, passou a escrever memorandos para a CIA, denunciando a estratégia comunista que não estava sendo percebida porque o Ocidente usava métodos superados de avaliação.

O grande mérito de Golitsyn, que extrapola o estudo específico da URSS, é o de fornecer aos analistas políticos de qualquer situação ligada a partidos comunistas, inclusive no presente, uma nova metodologia de avaliação, até mesmo para o estudo – que eu saiba inédito - que pretendo fazer neste artigo.

AS TRÊS GRANDES ESTRATÉGIAS COMUNISTAS DE DOMÍNIO MUNDIAL E SUA REPERCUSSÃO NA AMÉRICA LATINA [2]

Find the beginning of things – And you will understand much. Abbie Farwell Brown

Perguntado em 1994 pelo Deputado americano Clark Bowles, se o objetivo de longo prazo do movimento comunista continuava a ser o mesmo, de dominação mundial, Mo Xiusong, Vice Presidente do Partido Comunista Chinês, disse: Sim, certamente. Esta é a única razão pela qual existimos! Note-se que em 1994 já haviam transcorrido nove anos do início da Perestroika, cinco da Queda do Muro de Berlim e a China já “se abria” economicamente para o capital internacional. E o pior é que muitos, alguns ingênuos, outros mal intencionados, ainda acreditam que esta “abertura” é para valer e não apenas parte de uma estratégia de usar o capital ocidental – único lugar onde ele existe! – para tornar-se cada vez mais forte militarmente e mais facilmente destruir o Ocidente. Os chineses mostram que aprenderam a lição leninista: “os capitalistas comprarão a corda com que serão enforcados”. Já os capitalistas não aprenderam nada, com sua crença mística no “mercado” onipotente capaz de gerar milagres somente por seu apelo à liberdade, e estão não apenas comprando a corda mas financiando a fábrica de cordas e investindo em suas ações na bolsa para serem destruídos com o bolso cheio de dinheiro!

A PRIMEIRA GRANDE ESTRATÉGIA

O objetivo desta primeira estratégia era apenas derrubar o Regime Tzarista na Rússia e conquistar o poder para os Bolcheviques. Em 1917, quando da revolução que acabou com a Monarquia russa, enquanto todos os partidos agiam às tontas, improvisando, apenas um, o Partido Bolchevique, sabia exatamente o que queria e já fora definido por Lenin em seu “O que fazer?” publicado em 1902. Na realidade esta primeira estratégia foi preparada durante 20 anos, desde o final do século XIX, implementada e testada durante a Revolução de 1905 e acalentada durante todo o tempo de exílio de Lenin.

As repercussões na América Latina foram indiretas. Foram escassos os interesses na região, Lenin voltou-se para os países ricos na ânsia de conseguir sobreviver às contradições do regime e à violenta guerra civil que se seguiu à tomada do poder. Foram fundados partidos comunistas em vários países latino-americanos - como o Partido Comunista do Brasil - mais por difusão ideológica do que propriamente por uma ação direta da incipiente URSS. Uma iniciativa mais séria do Komintern só veio a se desenvolver durante a Segunda Estratégia (1919-1953).

SEGUNDA GRANDE ESTRATÉGIA

Seus objetivos principais foram promover o comunismo na Rússia e fomentar a Revolução Comunista Mundial. Inicialmente, Lenin desenvolveu um ataque frontal ao mundo capitalista através da fundação do Komintern em 1919.

Posteriormente, para tentar salvar a economia que entrava em colapso aceleradamente, Lenin lançou a NEP Nova Política Econômica – precursora do pseudo-capitalismo chinês atual, com a promoção de reformas políticas para tornar o comunismo mais atraente, um limitado capitalismo controlado pelo Estado visando conseguir créditos e tecnologia do Ocidente, o aumento do comércio internacional, e atrair capitais de que necessitava desesperadamente.

Com a morte de Lenin, Stalin partiu para a industrialização e coletivização forçadas, repressão maciça e poder pessoal absoluto, liquidando a NEP em 1929. Na década de trinta passou a explorar as contradições entre as Grandes Potências – principalmente através do Pacto Nazi-Soviético (Molotov-Ribbentrop).

Com a ruptura do Pacto por parte de Hitler, Stalin aliou-se com os Estados Unidos e a Inglaterra para conseguir ajuda militar americana e enfrentar o Exército alemão. Para enganar aos novos aliados, Churchill e Roosevelt, mostrou-se apenas um líder nacionalista, sem pretensões expansionistas, às expensas da ideologia, escondendo a grande estratégia expansionista já em preparo e posta em prática no pós-Guerra: expansionismo para o Leste Europeu e a Ásia.

OFENSIVAS NA AMÉRICA DURANTE A SEGUNDA ESTRATÉGIA
Para abordar este assunto utilizarei o termo “Ofensivas” que facilita a apresentação didática do assunto. Durante a Segunda Estratégia, distingo duas ofensivas, separadas pelo período da Segunda Guerra Mundial.

PRIMEIRA OFENSIVA (1919-1943)
Com a criação do Komintern (Terceira Internacional ou Internacional Comunista [3]) em 1919, Lenin deu o passo principal no sentido de completar a tarefa legada por Marx e Engels no Manifesto Comunista: o internacionalismo proletário. Georgij Mikhailov Dimitrov, o búlgaro que viria a desempenhar importantes funções no Komintern, sendo Secretário Geral de 1934 até 1943, num artigo publicado em Sófia em maio de 1919 para o Partido Comunista Búlgaro, [4] já se referia a duas cartas enviadas por Lenin: uma para os trabalhadores da América (do Norte) e outra para estes e os trabalhadores europeus. Na primeira carta Lenin distribuía as principais tarefas do proletariado mundial, ressaltava o caráter eminentemente pacífico da URSS, a importância da Ditadura do Proletariado e da Revolução Russa para um novo mundo. Na segunda, notando o sucesso do proletariado revolucionário em vários países em sua luta pelo poder político, ele reforçava a importância da Internacional Comunista como meio para atingir os fins da revolução mundial proletária. A política central do Komintern era estabelecer Partidos Comunistas em todos os países como forma de incrementar a revolução proletária mundial.

Ainda sob a direção de Grigory Yevseievich Zinoviev, a área principal de atuação do Komintern foi a Alemanha onde logo após o final da guerra e a queda da Monarquia Hohenzollern estourou uma revolta popular, a Revolução Alemã de 1918, incitada pela Spartakus Bund (Liga Spartacus), fundada por Rosa Luxemburg (“Rosa Vermelha”) e Karl Liebknecht, que em dezembro deste mesmo ano mudou o nome para Partido Comunista Alemão aceitando as 21 Condições do Komintern [5]. Além da Alemanha ser o principal país onde uma revolução era possível, a Spartakus Bund tinha grande influência nos sindicatos de marinheiros mercantes, dos mais atuantes em 1918, e o Komintern anteviu o potencial de disseminação mundial desses marujos [6]. Foi logo fundada em Hamburgo uma “Casa Liebknecht”, na aparência totalmente apartidária, para “descanso e lazer” dos marujos alemães e de outros países. Estas casas foram logo espalhadas pelos principais portos europeus, como Rotterdam, Antuérpia, Le Havre, Marselha, etc., e daí para o mundo. Organizava-se também a estiva nestes portos.

Na área sindical foi estimulada a filiação das centrais nacionais de trabalhadores à Internacional Vermelha de Centrais de Trabalhadores, Profintern, simultaneamente combatendo todos os outros movimentos sindicais, chamados de anarco-sindicais, por não terem uma direção internacional unificada. Na área política, principalmente após o Sétimo Congresso do Komintern em 1935, foi recomendada a política de Frentes Populares com outros partidos “progressistas”, mantendo no entanto o PC sua plena autonomia como Partido de Vanguarda. Esta política foi muito bem sucedida na França e na Espanha. Num memorável artigo [7] Dimitrov resume toda a importância desta política.

Nos Estados Unidos a grande vitória foi a penetração cultural, levada a efeito sob a direção de Willi Münzenberg. Münzenberg, um radical alemão com grande talento para trabalhos secretos, foi apresentado por Trotsky a Lenin ainda no exílio na Suíça e desde 1915 foi seu companheiro fiel. Foi apresentado por Lenin a Karl Radek, um intelectual radical polonês já do círculo íntimo de Lenin e protegido de Féliks Dzerzhinsky, o inventor do estado policial e fundador da primeira polícia política do regime comunista, a VTchK GPU (iniciais russas para Comissão Extraordinária de Todas as Rússias para Combater a Contra-Revolução e a Sabotagem; posteriormente foi abreviada para VTchK e popularmente conhecida como Cheka). Este trio comandou a infiltração na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina.

Münzenberg foi o primeiro grande mestre numa nova forma de serviço secreto: o front secreto de propaganda e a manipulação de “companheiros de viagem”. Seu objetivo, plenamente alcançado, era criar o principal preconceito político de seu tempo: a crença de que qualquer opinião que servisse à política externa da URSS era derivada dos mais essenciais elementos da decência. Conseguiu instilar o sentimento, que passou a ser tido como a mais pura verdade, de que criticar a política soviética era típico da maldade, estupidez e da inveja, enquanto apoiar a URSS era prova de uma mente esclarecida e avançada, comprometida com o que há de melhor na humanidade e sensibilidade refinada [8]. Todos os “formadores de opinião” foram envolvidos: escritores, artistas, comentaristas, padres, professores, cientistas, capitães da indústria, psicólogos, etc. Todos faziam parte do que Münzenberg chamava com desprezo “Clube dos Inocentes” (daí derivam as expressões inocentes úteis e idiotas úteis). Estes não faziam parte dos que “sabem das coisas”, que conhecem a agenda secreta, e assim tinha que ser para que defendessem a “causa” com ardor moralístico e religioso. A lista dos “inocentes” é qualitativamente impressionante: Ernest Hemingway, John dos Passos, Lillian Hellman, George Groz, Erwin Piscator, Mary McCarthy, Adré Malraux, André Gide, Bertold Brecht, Dorothy Parker, Kim Philby, Guy Borgess, Sir Anthony Blunt, Romain Rolland, Albert Einstein, Upton Sinclair, George Bernard Shaw, H. G. Wells e muitos mais.

Em junho de 1933 Münzenberg organizou um encontro de intelectuais europeus no Congresso Anti-Fascista Europeu, em Paris que veio a se juntar a outros sob o nome Comitê de Luta Contra a Guerra e o Fascismo [9]. A década de 30 foi chamada de “A Década Vermelha” [10].

Na América Latina as principais realizações comunistas nesta infiltração foram em Cuba e no Brasil. Em 1933 em Cuba, seguindo a recomendação de fronts populares, apoiaram a “Revolta dos Sargentos” liderada por Fulgencio Batista, o qual se candidatou e foi eleito Presidente em 1940, com pleno apoio do PC Cubano. Exilado em 1944 retornou em 1952 e foi ditador até a vitória de Fidel Castro em 1959. Durante todo o tempo, até quase a chegada de Castro a Havana, o Partido Comunista apoiou Batista. Castro teve que se entender diretamente com Moscou.

No Brasil, a primeira grande ofensiva comunista se deu em 1935, na chamada Intentona, devidamente barrada pela pronta reação militar. Por ser sobejamente conhecida a sua história, deixo de apresentar detalhes.

INTERREGNO

A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL E O FIM DA ALIANÇA TEUTO-SOVIÉTICA

Em agosto de 1939, uma semana antes da invasão da Polônia, após anos de propaganda maciça e falsa contra o nazi-fascismo, a URSS assina o Pacto Molotov-Ribbentrop [11] com o até então propagandeado arqui-inimigo dos “povos amantes da paz”. No entanto, o Pacto que desamarrou as mãos de Hitler para começar a guerra, apenas culminou e trouxe às claras uma conspiração secreta muito mais antiga, iniciada logo após a I Guerra Mundial, que precisava mais do que nunca ser negada de todas as formas possíveis após a invasão da URSS por Hitler em 1941, já que agora o antigo aliado tornara-se o inimigo temido e odiado.

A história desta aliança de 11 anos (considerando-se oficialmente os anos de 1922 a 1933, mas que na verdade começou em 1919 e só terminou de fato em 1941) jamais foi contada no Brasil, pois a negação e a desinformação com que foi dissimulada desde o início, ainda continua vigorando entre nós, apesar da abertura dos arquivos secretos de Moscou. Já se pode perceber aqui uma das mais importantes conseqüências da terceira onda de infiltração que será descrita adiante: a má fé que faz com que parte da pseudo-intelectualidade brasileira omita, de caso pensado, todos os fatos do mundo comunista e o total apatetamento e anomia dos demais. Os cursos de história continuam falando de um antagonismo mortal entre a “esquerda socialista” (a palavra comunista é proibida e a socialista é atraente) e a “direita fascista”. Como esta foi uma das mais bem sucedidas operações de desinformação soviéticas, levantarei uma ponta do véu que a tem encoberto, baseado em relatos de documentos [12] que hoje estão à disposição de quem quiser ler – se puder se livrar de suas pré-concepções ideológicas.
* * *

O já citado Karl Radek foi preso em Berlim em fevereiro de 1919 pela participação e organização através da Spartakus Bund da Revolução de 1918. Depois da assinatura do Tratado de Versailles, no verão do mesmo ano, Radek foi transferido de uma cela de segurança máxima para outra extremamente confortável. Nesta foram realizadas as primeiras reuniões secretas que levaram à cooperação entre o Exército Vermelho dos Operários e Camponeses e o Reichswehr (Exército Alemão). Em dezembro do mesmo ano Radek é libertado sem julgamento e vai a Moscou levando o esboço de um tratado de cooperação que reativaria o acordo feito por Lenin com o governo do Kaiser que lhe permitiu passar pelo território alemão para assumir o poder na Rússia em 1917 e que teve como conseqüência o cessar fogo e a paz de Brest-Litovsk de 3 de março de 1918. Durante este intervalo houve realmente antagonismo entre as forças “de direita”, (representada por diversos grupos para-militares, principalmente os Stahlhelm - Capacetes de Aço) e a Spartakus Bund. Os Stahlhelm podem ser considerados o núcleo de onde se originaram as Sturm Abteilungen (SA) do Partido Nazista.

Esta cooperação era de interesse fundamental para as duas partes. Na URSS, com a eliminação de quase toda a oficialidade do exército tzarista, principalmente do Generalato, o recém fundado Exército Vermelho não passava de um amontoado de amadores dirigidos por outro amador: Trotsky. Além de tudo, a Rússia estava diplomaticamente isolada. Já a Alemanha, encontrava-se limitada e humilhada pelo Tratado de Versailles que impusera pesadíssimas indenizações mas sobretudo uma suprema humilhação para os valorosos guerreiros prussianos: o Tratado proibia a Alemanha de possuir uma Força Aérea, submarinos, navios de guerra de grande tonelagem (cruzadores e encouraçados); proibia ainda a fabricação de aviões militares e dirigíveis, tanques e blindados em geral, e armas químicas. Limitava os efetivos em 100.000 homens. Portanto, os dois países poderiam ser chamados apropriadamente de “Párias de Versailles”.

Ficou acertado, portanto, que a Rússia incrementaria suas defesas ao receber capital e assessoria técnica, enquanto a Alemanha poderia fazer uso de bases altamente secretas no território russo para fabricar armamento ilegal, principalmente tanques e aviões de guerra, além do fornecimento de metais como molibdênio, níquel, tungstênio e especialmente manganês, sem o qual a produção alemã de aço ficaria paralisada. Formou-se uma empresa de fachada chamada GEFU (Gesellschaft zur Förderung gewerblicher Untermehmungen - Companhia para o Desenvolvimento de Empresas Industriais). Finalmente em 1922 foi assinado o Tratado de Rapallo, confirmado pelo Tratado de Berlin [13] de 1926. O Reichswehr foi autorizado a organizar bases militares na URSS para realizar testes de material, ganhando experiência em táticas e treinamento de pessoal nos setores proibidos pelo Tratado de Versailles. A Alemanha retribuía com compensações materiais e com o direito do Exército Vermelho participar dos testes e manobras. Uma fábrica de produção de gás mostarda e outra de munição de grosso calibre foram estabelecidas.

O segredo era total de ambas as partes. Os soldados alemães usavam trajes civis e não podiam dizer onde estavam nem para seus familiares. Mesmo após a nazificação da Alemanha e a mudança de nome de Reichswehr para Wermacht a colaboração continuava. Em 13 de maio de 1933 numa recepção na Embaixada do Reich em Moscou, Kliment Efremovitch Voroshilov, Comissário do Povo para Assuntos Militares e Navais (Ministro da Guerra), falou da aspiração de manter boas relações entre os “exércitos amigos” no futuro. E o General Mikhail Nikolayevich Tukhachevsky, Vice Comissário e Chefe do Estado-Maior afirmou: “Não se esqueçam que é nossa política que nos separa, não nossos sentimentos de amizade do Exército Vermelho e da Wermacht (...) vocês e nós, Alemanha e URSS, podemos ditar nossos termos ao mundo todo se permanecermos juntos”. Não obstante, uma das razões para os grandes expurgos de 1936-38, os chamados “Julgamentos de Moscou” [14], foi para manter o segredo destas operações altamente secretas. Stalin executou todos os principais artífices soviéticos desta conspiração, incluindo Tukhachevsky, Radek e Zinoviev. Voroshilov foi um dos acusadores.

Os dois países encontravam-se unidos contra o mundo ocidental, independentemente das agitações maquinadas pelo Partido Comunista Alemão e pelas divergências internas, o que levou Lloyd George a declarar, no final da Primeira Guerra: “O maior perigo do momento consiste no fato da Alemanha unir seu destino com os Bolcheviques e colocar todos os seus recursos materiais e intelectuais, todo seu talento organizacional ao serviço de fanáticos revolucionários, cujo sonho é a conquista do mundo pela força das armas. Esta ameaça não é apenas uma fantasia” [15]. E não era! A história posterior só fez comprovar a idéia profética do ex Primeiro Ministro Britânico!
* * *

Esta conspiração precisava ser mais dissimulada ainda após as hostilidades e, em parte, para isto foi fundado em 1943 o Kominform [16] (Bureau Comunista de Informação) que durou até 1956, quando foi dissolvido na “desestalinização”. O Kominform era coordenado pelo PCUS e pelos partidos comunistas da Bulgária, Checoslováquia, França, Hungria, Itália, Polônia, Romênia e Iugoslávia (esta última até sua expulsão em junho de 1948). O Komimform foi o responsável pela intensa desinformação durante a guerra e o pós-guerra imediato e através dele Stalin plantou no Ocidente a falsidade da oposição entre o socialismo – de esquerda – o bem maior para o qual curvava-se o “processo histórico”, e o nazi-fascismo – de direita – na contramão do “processo histórico”. Quando na realidade são vinhos da mesma pipa.

A SEGUIR: SEGUNDA OFENSIVA – TERCEIRA ESTRATÉGIA E TERCEIRA OFENSIVA

Notas:

[1]Este artigo é baseado em Palestra com o mesmo título apresentada no Clube Militar do Rio de Janeiro em 05/07/05, sob os auspícios da ONG TERNUMA (Terrorismo Nunca Mais)
[2]Uma abordagem mais detalhada dessas estratégias será feita num próximo artigo: True Lies III: Perestroika, a Mentira do Século.
[4] Two open letters by Lenin to the American and European workers, in http://www.marxists.org/reference/archive/dimitrov/works/1919/lenin.htm
[6] Uma descrição romanceada mas fiel está no livro de Richard Julius Hermann Krebs, sob o pseudônimo de Jan Valtin, Do fundo da Noite. Em inglês Out of the Night.
[8] Stephen Koch, Double Lives: Spies and Writers in the Secret Soviet War of Ideas Against the West, Free Press, NY, 1994.
[9] Richard Gid Powers, Not Without Honor: The History of American Anticommunism, Yale Univ. Press, London & New Haven, 1995.
[10] Eugene Lyons, The Red Decade: The Stalinist Penetration of America, Bobbs-Merril, Idianapolis, 1941.
[12] Ver The Red Army and the Wermacht: how the Soviets militarized Germany, 1922-1933, and paved the way for Fascism, Yuri Dyakov & Tatiana Bushueyva, Prometheus Book, NY, 1995.
[15] Citado em Truth about Peace Treaties, Munich, 1957.
Sobre o assunto leia também: Uma questão de metodologia - Parte I e II; True Lies I e II

As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano - Parte II

Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA
por Heitor De Paola em 13 de agosto de 2005

Resumo: McCarthy foi um presente dos deuses para os comunistas de todo o mundo, pois deu aos inimigos do anti-comunismo o que eles esperavam desde o início da Guerra Fria: um rosto onde colocar o velho estereótipo de fascista anti-comunista histérico.

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SEGUNDA ESTRATÉGIA (CONTINUAÇÃO) - PERÍODOS PÓS-GUERRA E GUERRA FRIA

"Perpetual peace is a futile dream".

“… give me 10 days and I'll start a war with those God damn Reds and make it look like their fault. Then we can push the motherfuckers back into Moscow where they belong! (…) If we have to fight them, now is the time. From now on we will get weaker and they stronger”. General George S Patton

À medida que ia conhecendo melhor os soviéticos crescia a forte convicção de Patton, talvez o mais genial dos generais da II Guerra, de que a melhor atitude seria esmagar o comunismo ali mesmo, enquanto havia chance de fazê-lo ao menor custo de vidas americanas. Numa reunião com o Secretário da Guerra Americano, Robert Patterson, em 7 de maio de 1945 na Suíça [1], Patton sugeria que, dado o imenso problema de suprimentos que o Exército Vermelho enfrentava, “não vamos dar tempo a eles de arranjar suprimentos. Se dermos, teremos apenas vencido e desarmado a Alemanha mas teremos falhado na libertação da Europa; teremos perdido a guerra!”. Em mais uma de suas grandes tiradas, concluiu: “devemos manter nossas botas polidas, baionetas afiadas, e apresentarmo-nos fortes perante os russos. Esta é a única linguagem que eles entendem e respeitam”.

Patton foi deixado sem combustível na arrancada final para Berlin, todos os exércitos ocidentais pararam de avançar, por ordem de Roosevelt através de Eisenhower, até que os russos chegassem a Berlin, como ficara acertado nas reuniões entre os Três Grandes em Teheran e Yalta [2]. Já Stalin não cumpriu com nenhum dos acordos que assinara além de fazer mais exigências em Potsdam, que só foram aceitas pela covardia de Truman, só superada pela de Roosevelt nas duas anteriores. Roosevelt, um socialista declarado que pela primeira vez tinha posto a funcionar um programa socialista nos EUA – o New Deal – tinha uma fascinação pelo ditador soviético que chamava Uncle Joe, a quem acreditava que podia manobrar, sem perceber que era ele que estava sendo habilmente manipulado pelo titio.

A previsão de Patton não tardou em se realizar. O final da Segunda Guerra possibilitou o expansionismo da URSS para todos os países conquistados pelo Exército Vermelho. De comunismo num só país chegou-se a um bloco de 12 países submetidos à sovietização forçada na Europa Oriental, o que levou Churchill, num discurso em Fulton, Missouri, em março de 1946, a criar o termo “Cortina de Ferro”. Seguiram-se as tentativas de tomada da Grécia, da Turquia e do Irã. Já salvar a Áustria tinha sido muito difícil. O titio queria tudo! Além disto, a recusa da URSS em permitir que os países da Cortina de Ferro recebessem a ajuda do Plano Marshall, atacado como apenas mais um plano imperialista, o cerco a Berlin Ocidental e o reforço aos Partidos Comunistas na França e na Itália acabaram por, finalmente, abrir os olhos do Secretário de Estado americano George C. Marshall para com que tipo de gente estava lidando: como Patton dissera, com gente que só entende a linguagem da força! Com o início da reação americana estava instalada a chamada Guerra Fria. Porém, por não seguirem as palavras de Patton, foi preciso pagar o custo de inúmeras vidas americanas no leste da Ásia, com as tentativas expansionistas para a Coréia e posteriormente para a Indochina.

No entanto, a fome, a ineficiência administrativa e o fracasso da repressão maciça, o anti-semitismo declarado (em 1 de dezembro de 1952, numa reunião do Politburo, Stalin declarava que “todo judeu é um nacionalista e agente potencial da inteligência americana”) levou a uma crise geral no mundo comunista e ao abandono da segunda estratégia. A economia e a agricultura estavam em ruínas, o poder total era exercido pela polícia política. Surgiram guerrilhas nacionalistas nos países da Cortina de Ferro.

A morte de Stalin em 1953 desencadeou uma terrível luta interna no PCUS em que pereceram Lavrientii Beria e Andrieij Zhdanov, criador e diretor do Kominform. Em 1956, no XX Congresso do Partido, Khrushchov denuncia alguns – não todos! – “crimes de Stalin”, com o duplo objetivo de dar uma aparência de transparência e de salvar a ideologia comunista bastante desmoralizada pela truculência dos últimos anos, colocando toda a culpa no ex-ditador. O discurso, considerado secreto, “vazou” para toda a URSS um mês depois, o que evidencia que o segredo era conto da carochinha. Como Stalin já fizera com Trotsky, sua imagem some de todas as fotos oficiais. Foi este fato que inspirou Orwell a compor a atividade de seu personagem principal de 1984, Winston, no “Ministério da Verdade”. Após uma batalha final na luta pelo poder em 1957, contra os stalinistas descontentes do chamado “Grupo Anti-Partido”, liderado por Vyachieslav Molotov, Georgy Malienkov e Lazar Kaganovitch, Nikita Sergeyevitch Khrushchov assume a Primeira Secretaria do PCUS, elimina o Kominform, completando a conquista do poder em 1958 ao afastar Malienkov e tomar também o cargo de Primeiro Ministro da URSS. Em reunião secreta do Politburo em 1958 decidiu-se abandonar esta estratégia e foram elaboradas as linhas mestras da Terceira, que foi implantada paulatinamente até a Perestroika em 1985.

Em 1964 Khrushchov é derrotado no Comitê Central e afastado. Foi a primeira transição pacífica do regime e o primeiro líder soviético a morrer de causas naturais. Consoante a decisão de voltar à direção colegiada preconizada por Lenin, assume a “Troika”: Leonid Brezhnev, como Primeiro Secretário do Partido, Alieksiéi Kosygin, como Primeiro Ministro e Nikholai Podgorny como Presidente do Presidium do Soviet Supremo, cargo que veio a ser tomado por Brezhnev em 1977 até a sua morte em 1982.

SEGUNDA OFENSIVA MUNDIAL (1944-1985)

“The Soviet Union is a clear and present danger to America and the West (because) nothing less that the entire world can in the end, satisfy totalitarian imperialism”. Arthur M. Schlesinger Jr., 1948

Como a guerra atingiu direta ou indiretamente todos os continentes, o pós-guerra imediato foi um período de acomodação e realinhamento político-ideológico mundial. Os fatos mais importantes deste período (1945 a 1964) foram:

1- Criação da Organização das Nações Unidas, 1945;

2- Criação do Estado de Israel, 1948;

3- Tomada do poder na China pelos comunistas em 1949;

4- Nasser e os oficiais nacionalistas tomam o poder no Egito, 1952;

5- Criação das bases do Movimento de Países Não-Alinhados na Conferência de Bandung, Indonésia, em 1955 pelos líderes da Índia – Jawaharlal Nehru – Egito – Gamal Abdel Nasser- e Iugoslávia - Josip Broz “Tito”;

6- Guerra da Indochina 1947-53 terminada com a derrota francesa para o Exército comunista de Ho Chi Minh e Vo Nguyen Giap, o Viet Minh, na Batalha de Dien Bien Phu, 1953-54. Criação de dois Vietnãs: o do Norte, comunista, e o do Sul, ainda sob influência européia que, com a retirada francesa, solicita o envio de “assessores militares” americanos;

7- Processos de descolonização na África e Ásia;

8- Revolta na Hungria, 1956

9- Nasser nacionaliza o Canal de Suez, 1956, Inglaterra, França e Israel invadem o Egito;

10- Castro toma Havana e declara-se comunista, Tratado de Amizade com Moscou. Toma novo impulso a ofensiva comunista na América Latina voltada principalmente para Venezuela e Brasil;
11- Crise de Berlin, 1961: Khrushchov ameaça interromper o tráfego entre a cidade de Berlin e a Alemanha Ocidental. Kennedy estuda a estratégia de “First Strike” (Atacar sem aviso prévio a URSS com mísseis nucleares, caso esta invadisse Berlin). Início da construção do Muro de Berlin;
12- Crise dos mísseis soviéticos em Cuba, 1961, bloqueio da ilha, retirada dos mísseis mediante garantia americana de que não interferiria em Cuba;

13- Cuba é expulsa da Organização dos Estados Americanos, 1962.

Em todos estes acontecimentos a URSS esteve presente. Em 10 de fevereiro de 1941 o General Walter Krivitsky, ex-chefe do GRU (Diretório Central de Inteligência – órgão militar), exilado nos EUA, foi encontrado morto em Nova York. As investigações [3] não conseguiram nenhuma evidência de assassinato, parecia suicídio mas muito providencial, pois três anos antes de sua morte Krivitsky havia convencido o membro do Partido Comunista Americano Whittaker Chambers a reconhecer que o comunismo não passava de mais uma forma de ditadura sem nenhuma ideologia que não a tomada do poder. Chambers não só reconheceu como denunciou vários ex-correligionários como Alger Hiss, funcionário do Departamento de Estado e seu irmão Donald, como membros do Partido e agente do GRU, a ninguém menos que o próprio Roosevelt que riu e mandou-o a um lugar não publicável [4]. Roosevelt não só riu como promoveu Alger. Tentativas de denunciar a Dean Acheson, Sub-Secretário de Estado, deram no mesmo.

Pois na Assembléia de fundação da ONU, o Secretário Geral nomeado por Roosevelt era exatamente Alger Hiss. A influência de Stalin na fundação da ONU, na elaboração de sua Carta e na escolha da sede, é inegável. A Carta defendendo direitos humanos que Stalin – e seus sucessores – jamais pretenderam obedecer, servia como uma luva para acusar os países ocidentais quando da ocorrência de qualquer deslize menor. A escolha de uma cidade americana, e de preferência próxima a Washington D.C., era fundamental para a infiltração de agentes sob o manto da proteção diplomática. Hiss também havia sido o arquiteto da Conferência de Yalta (fevereiro de 1945) [5] entre os três grandes, onde desempenhou papel importante na divisão do mundo em áreas de influência, garantindo à URSS uma parte leonina. A infiltração de agentes comunistas em postos chave do governo americano vem, portanto, desde a administração Roosevelt, como veio a ser revelado pelo Projeto Venona [6] de análise criptográfica dos documentos de fontes soviéticas que vieram a confirmar também a atuação do casal Rosenberg na transmissão de informações nucleares americanas para a URSS. Já aqui funcionou a pleno vapor o aparelho de denúncias de violação dos direitos humanos, enquanto Stalin prendia, torturava e matava à vontade.

Em 1948, quando trabalhava na revista Time, Chambers foi chamado a depor no Comitê de Atividades Anti-Americanas da Câmara de Representantes (HUAC) e reafirmou as acusações produzindo inclusive evidências inegáveis através de microfilmes de 65 documentos datilografados por Hiss (a máquina foi identificada pelos laboratórios do FBI) em 1938, contendo cópias de documentos secretos roubados pelo próprio. Estes papéis ficaram conhecidos como os Pumkin Papers [7]. Chambers reuniu todas as evidências e a história do período em seu livro Witness [8] e, embora atacadas como mentirosas por toda a intelectualidade esquerdista da época, têm sido confirmadas uma a uma pela abertura de todos os documento secretos. Estas revelações e também o desrespeito por Stalin aos acordos de Yalta, principalmente a prisão dos membros do Governo Polonês Provisório no Exílio, criaram nos EUA – e no mundo em geral – um quase consenso anti-comunista [9]. Este consenso tinha que ser destruído e no seu lugar criar um outro: a demonização do anti-comunismo.

O ano de 1948 é também o da candidatura radicalmente esquerdista de Henry Wallace à Presidência dos EUA e das peripécias da esquerda americana que se lhe seguiram, já contadas por mim em outro artigo [10]. A infiltração na área cultural americana continuou e se intensificou seguindo os passos de Münzenberg. De maneira geral, toda a mídia e o show business americano foram devidamente doutrinados pelos agentes soviéticos e a grande maioria de escritores, cineastas, redatores da mídia, artistas, etc. se tornaram facilmente companheiros de viagem. No mês de agosto do mesmo ano reunia-se em Breslau (hoje Wroclaw), Polônia, a “Conferência Cultural pela Paz”, convocada pelo Kominform através dos já companheiros de viagem europeus, numa “Carta Aberta aos Escritores e Homens de Cultura dos Estados Unidos”. Os americanos que compareceram prepararam imediatamente outra reunião no Hotel Waldorf Astoria, Nova Iorque em 1949, denominada “Conferência Cultural e Científica pela Paz Mundial” que contou com o apoio explícito de Albert Einstein, Charlie Chaplin, Leonard Bernstein, Pablo Picasso e muitos outros nomes famosos. Um mês depois, reunia-se em Paris o “Congresso Mundial da Paz”. O alvo principal destes movimentos era liquidar o Plano Marshall que apontava para uma rápida recuperação da Europa não dominada por Stalin[11] que estagnava num império de repressão, decadência moral e econômica. A comparação era, obviamente, temida.

Os intelectuais anti-comunistas planejaram uma contra-ofensiva. Entre eles estavam George Orwell, Anthur Koestler (que tinha sido garoto propaganda de Münzenberg), Hanna Arendt, Melvin Lasky, Raymond Aron e Sidney Hook, Diretor de “Americanos pela Liberdade Intelectual”. Mas a reação era tímida pois depois do brado de Sartre – “todo anti-comunista é um rato!” - mesmo os escritores mais famosos encontraram dificuldade para publicar suas obras.
No movimento anti-comunista deve-se destacar a ação do Comitê de Atividades Anti-Americanas (HUAC). Existindo de forma provisória desde 1938 tornou-se permanente em 1945 quando passou a investigar as atividades comunistas na indústria cinematográfica. Seu maior feito, como já foi descrito acima foi a investigação sobre os irmãos Hiss. Mas somente em 1946, com o Partido Republicano assumindo a maioria na Câmara, o Comitê, agora presidido por J. Parnell Thomas, passou a investigar a fundo a penetração comunista em Hollywood. Para não entrar em muitos detalhes selecionei o testemunho neste Comitê da escritora Ayn Rand, russa de nascimento, tendo fugido em 1926 e anti-comunista convicta. Rand foi uma das denunciantes e desafiada a mostrar o que via como propaganda na produção cinematográfica deu um impressionante e arrasador testemunho sobre o filme The Song of Russia, de 1941, estrelado por Robert Taylor, que vale a pena ser lido na íntegra por todos aqueles que sabem que as produções artísticas – mormente filmes, teatro e novelas – são propaganda mas não têm idéia do como se faz [12], pois Rand disseca o filme com excepcional maestria. Rand, sem dúvida uma das maiores defensoras da liberdade de pensamento, assim se expressou quando foi condenada por denunciar colegas: “O princípio de liberdade de expressão requer que não passemos leis proibindo (os Comunistas) de falar. Mas este princípio não implica em que devemos dar a eles emprego e apoio para defenderem nossa destruição às nossas custas”.

Este Comitê é freqüentemente – e propositadamente – confundido com o Comitê sobre Operações Governamentais do Senado a cujo Sub-Comitê Permanente de Investigações pertencia o Senador Joseph McCarthy. A confusão é de um primarismo atroz, pois um Senador jamais poderia fazer parte de um Comitê da Câmara. Apesar disto, colou e até hoje a confusão se mantém. McCarthy foi um presente dos deuses para os comunistas americanos e de todo o mundo, pois deu aos inimigos do anti-comunismo o que eles vinham esperando desde o início da Guerra Fria: um nome e uma cara onde colocar o velho estereótipo de fascista anti-comunista histérico. Segundo Powers (op.cit.) McCarthy foi o maior desastre na desastrada história do anti-comunismo da América. McCarthy começou sua carreira anti-comunista em 1950 – três anos após o depoimento de Ayn Rand – com um discurso em que dizia ter uma lista de 205 nomes de altos funcionários do governo federal que eram agentes soviéticos. Sua atuação foi de tal modo histérica que não demorou para que até mesmo republicanos achassem exagerado, solidificando a idéia de que o anti-comunismo não passava de delírios furiosos de um maluco. Iniciava-se a grande mitologia da “Era McCarthy”, do “macartismo” que teria mergulhado os EUA num reino de terror. Peter Collier e David Horowtiz (citados por Monica Charen, op. Cit.) descreveram em 1989 que “trinta anos após a morte de Joe McCarthy, o macartismo se tornou sinônimo de autoridade sinistra e repressão política... indivíduos e partidos (complemento eu: mundo afora) competem em rotular outros com o macartismo como o trunfo moral com o qual paralisam automaticamente qualquer argumento”. Quem não ouviu alguém dizer, em tom de suprema indignação moral: isto é macartismo!

Pois o uso que a eficiente contra-propaganda soviética fez deste mito, confundindo investigações sérias com estridências delirantes, fez com que todos os envolvidos tanto em Hollywood como no governo fossem vistos como pobres vítimas inocentes. A verdade é bem outra. Hollywood estava mesmo infestada de agentes soviéticos. E as poucas dezenas de funcionários federais que McCarthy conseguiu acusar, através do Projeto Venona e da abertura dos arquivos secretos soviéticos autorizada por Yeltsin, revelaram-se mais de 300 agentes soviéticos infiltrados nos governos Roosevelt e Truman. Ann Coulter (op. cit.) cita no primeiro escalão, além dos irmãos Hiss, Harry Dexter White, Sub-Secretário do Tesouro, Lauchlin Currie, Assistente Administrativo de Roosevelt, Duncan Lee, Chefe do Estado-Maior do Office of Strategic Services (OSS) antecessor da CIA, Harry Hopkins, Assistente Especial de Roosevelt, Henry Wallace, Vice-Presidente 1940-1944 (depois candidato radical), Harold Ickes, Secretário do Interior, e muitos, muitos mais.

Antes de passarmos à América Latina é preciso mencionar um movimento que se não foi fundado diretamente por Moscou, teve sua influência e apoio: o Movimento de Países Não Alinhados (NAM) [13]. O termo foi cunhado pelo Primeiro Ministro da Índia, Jawaharlal Nehru num discurso no então Ceilão (hoje Sri Lanka) onde definiu seus cinco pilares: 1. respeito pela integridade territorial, 2. não agressão mútua, 3. não interferência em assuntos internos dos outros países, 4. benefícios mútuos e igualitários e 5. co-existência pacífica. Em 1955 em Bandung, Indonésia, são lançadas as bases do movimento, embora somente em 1961, em Belgrado, Iugoslávia, ocorreu a primeira reunião de cúpula organizada por Nehru, Nasser e Tito e apoiada por Ahmed Sukarno, Presidente comunista da Indonésia. Compareceram 25 países da África, Ásia e Cuba, um país obviamente alinhado com a URSS. O movimento – que defendia um distanciamento igual dos dois blocos na Guerra Fria – existe até hoje com outros propósitos como o Grupo dos 77.

Enquanto durou a Guerra Fria a URSS usou seus fortes laços com Cuba e Índia e os da China com o Paquistão, o Vietnã e a Indonésia, para fazer do NAM uma espécie de amortecedor de suas próprias ações agressivas, principalmente em referência aos itens 3. e 5. acima, como argumentos utilizados sempre que era acusada de ferir os “direitos humanos” retrucando que não admitia ingerências ns sua política interna; enquanto freqüentemente interferia em diversos países, como veremos a seguir, especificamente na América Latina.

A SEGUNDA OFENSIVA NA AMÉRICA LATINA

A guerra revolucionária é uma luta de classes, de fundo ideológico, imperialista, para a conquista do mundo; tem uma doutrina, a marxista-leninista. É uma ameaça para os regimes fracos e uma inquietação para os regimes democráticos. Perfaz, com outros, os elementos da guerra fria. (...) concebida por Lenin para, de qualquer maneira, continuar a revolução mundial soviética. Marechal Castello Branco, 1962

Como no resto do mundo, as Embaixadas Soviéticas eram centros de espionagem e entre seu pessoal diplomático constava uma rezindientura, uma “residência” do KGB e outra do GRU (militar). O rezidient do KGB, chefe da espionagem no país, tinha funções mais importantes do que o Embaixador e freqüentemente era hierarquicamente superior. É preciso reafirmar que todos os órgãos comunistas no exterior – visíveis ou clandestinos – têm uma única finalidade estratégica permanente: a conquista mundial, no que difere do serviço diplomático dos países democráticos, cujos órgãos secretos realizam principalmente operações de informação e contra-informação e só acessoriamente em casos extremos de intervenção direta nos assuntos internos dos países em que estão como representantes. O mesmo se pode dizer dos Partidos Comunistas, tenham o nome que tiverem, que jamais são partidos que representem interesses nacionais ou mesmo regionais, mas sempre são representantes do movimento comunista internacional do momento, seja o Komintern, o Kominform, a OLAS, o Foro de São Paulo, etc. Ainda hoje, como veremos a seguir na Parte III, as Embaixadas russas têm a mesma função.

Entre 1945 e 1959 a estratégia mundial era baseada na chamada “visão etapista” [14], segundo a qual há necessidade de uma etapa nacional-burguesa ou nacional-desenvolvimentista, que sob a égide e comando da burguesia permitiria a melhor organização dos trabalhadores e a superação dos óbices históricos do modo de produção capitalista, em particular, o latifúndio. Era preciso identificar uma burguesia nacional capaz de contrapor-se aos interesses dos demais países capitalistas e criar um capitalismo nacional autônomo. Por esta razão o Partido Comunista Cubano sempre procurou alianças com partidos burgueses tradicionalmente nacionalistas, e como já foi dito, apoiou firmemente o governo de Fulgencio Batista até sua dissolução com a fuga dos principais líderes e a chegada iminente de Castro a Havana.

Castro, inicialmente se auto-declarava católico (foi criado em colégios jesuítas) e até pousou para fotos de terço ao pescoço. Para o PCC Castro não passava de um aventureiro. Membro do Partido Socialista Popular e da Liga Anti-Imperialista 30 de Setembro desde 1946, viajou para Panamá, Venezuela e Colômbia em 1948 em preparação para o Congresso Latino Americano de Estudantes. Neste último país, onde se realizava então a 9a Conferência Pan-Americana, logrou entrevistar-se com o líder do Partido Liberal, Jorge Eliecer Gaitán, que horas depois foi assassinado, iniciando-se o movimento que veio a ser conhecido como Bogotazo [15], uma revolta popular que representa um primeiro ataque comunista direto no continente, na qual Castro faz seu batismo de fogo. A intenção era destruir a Conferência onde se estudavam medidas contra a ofensiva comunista que se iniciava na América do Sul e derrubar o Governo conservador colombiano. Castro, juntamente com Alfredo Guevara, Olivares e Rafael Del Pino tomam parte ativa no movimento que também foi apoiado por Rómulo Betancourt, então ditador da Venezuela. Com a derrota, de volta a Havana Castro adota como seu livro de cabeceira o Que Fazer? de Lenin. Em 1953, com a derrota na tentativa de tomar o Quartel Moncada refugia-se no México aonde vem a conhecer Ernesto “Che” Guevara, General Bayo e outros comunistas. A tomada do poder por Castro em 1959 marca uma profunda e radical mudança da ofensiva comunista na América Latina.

Como relata com rigor histórico Percival Puggina [16]: “Dissolveu-se o Congresso, desmontaram-se os partidos existentes, cassaram-se direitos políticos, instalaram-se tribunais revolucionários, cujas sentenças não estavam sujeitas a recursos, suspendeu-se o direito ao habeas corpus, emitiram-se leis que permitiram o seqüestro de bens, inclusive bens de cubanos residentes no exterior que praticassem atos contra a revolução, e instituiu-se a pena de morte para os delitos contra o novo regime” (p. 38). No final do ano de 1959, já não havia dúvida de que Fidel Castro não era o herói da democracia em que muitos acreditaram, e sim um ditador comunista. No início do ano seguinte, 1960, o ditador faz a reforma agrária e a nacionalização de refinarias de petróleo, empresas comerciais, bancos e estabelecimentos industriais. O comunismo chegara à antiga Pérola do Caribe. Fidel Castro continuou governando o país com mão-de-ferro por quarenta e cinco anos, num regime de partido único, com a proibição de qualquer tipo de oposição”.

Com esta importante base territorial ao mesmo tempo dentro da América Latina e a poucas milhas ao sul do execrado inimigo, a URSS se viu subitamente fortalecida. A estratégia baseou-se fundamentalmente na ofensiva contra dois países chaves da região: Venezuela e Brasil. Chamo aqui atenção para o que está ocorrendo hoje e será objeto da parte III: não é coincidência que o atual eixo seja novamente Havana-Caracas-Brasilia, é estratégia de longo prazo profundamente estudada e sistematicamente seguida! Esta pode ser a principal contribuição desta série de artigos.

O primeiro país, por estar nadando num mar de petróleo e com isto podia – e ainda pode – realizar duas tarefas revolucionárias simultâneas: fornecer o petróleo aos aliados comunistas e negá-lo aos EUA no caso de conflito armado. Contrariando a tradicional mentira de que os revolucionários sempre lutaram contra as ditaduras (como em Cuba), a Venezuela gozava da mais ampla democracia sob o governo agora legitimamente eleito de Rómulo Betancourt (1959-1964) que pusera fim a 60 anos de sucessivas ditaduras, golpes de Estado, “pronunciamientos” e “governos provisórios”. Betancourt foi o segundo Presidente eleito em eleições diretas no século XX e o quarto em toda a história venezuelana, sendo que o anterior, Rómulo Gallegos, eleito em 1948, foi derrubado no mesmo ano pelo Tenente Coronel Carlos Eduardo Chalbaud. Como fosse impossível a infiltração comunista no governo – embora Betancourt tenha sido acusado de “homem de Moscou” por ter tomado parte do Bogotazo – os ataques ao país foram violentos. As praias caribenhas da Venezuela estavam coalhadas por constantes invasões de barcaças cubanas transportando armas russas e tchecas. Movimentos guerrilheiros eram estimulados e derrotados pelo governo que continuou a transição democrática até o golpe de Hugo Chávez.

Já o Brasil, por ser o maior, mais rico em recursos naturais, com uma estrutura agrária que embora antiquada era extremamente promissora e em vias de industrialização acelerada no governo desenvolvimentista de Juscelino Kubitstchek, despertava a cobiça internacional, não só aos comunistas diga-se de passagem. Mas aqui foi diferente pois encontrou um governo dócil ao comunismo na figura de João Goulart.

A meu ver - opinião que reconheço exposta a muitas críticas – o governo Goulart é fruto de um erro cometido na Constituição de setembro de 1946. Recém saídos da ditadura Vargas os Constituintes quiseram estabelecer uma Constituição o mais democrática possível e incorreram em alguns erros, sendo um deles a eleição em chapas separadas do Presidente e do Vice-Presidente. Já no primeiro governo após Dutra (1946-51) quando foi eleito o ex-ditador Getúlio Vargas, o seu vice foi de outro Partido, Café Filho. Getúlio aproximou-se muito das esquerdas, principalmente com a nomeação de João Goulart para Ministro do Trabalho, desde então um populista de esquerda. Um ano após o suicídio de Getúlio este dispositivo já deu problemas pois apesar das eleições terem dado a vitória a Juscelino Kubitschek e Goulart para Vice (agora numa coligação PSD/PTB), setores anti-comunistas tentaram impedir a posse dos mesmos, que veio a ser sustentada pelo então Ministro da Guerra Henrique Duffles Teixeira Lott, com o apoio explícito do General Humberto de Alencar Castello Branco que veio a romper com o mesmo quando, meses depois, as organizações sindicais resolveram entregar ao ministro uma espada de ouro.

Delineava-se aí o incremento da ruptura dentro das Forças Armadas que viria a desabrochar claramente em 1961 e depois em 1965. Lott foi o candidato a Presidente pela coligação PTB/PSD e mais uma vez Goulart a Vice. Nas eleições de 1960 ocorreu o que poderia ser previsto. Jânio Quadros, candidato apoiado pela UDN – mas contra alguns de seus principais líderes como Carlos Lacerda – tinha como candidato a Vice o mineiro Milton Campos. Os eleitores escolheram Jânio e Jango e com a renúncia do primeiro 7 meses após a posse formou-se a confusão, habilmente solucionada pela adoção do regime parlamentarista para que Jango fosse aceito pelos setores anti-comunistas. Digo habilmente mas não eficientemente, pois desde então até março de 1964 o Brasil foi quase pura agitação. Num artigo anterior [17] faço um relato destes tempos atribulados. Num plebiscito de resultados duvidosos em janeiro de 1963, volta-se ao regime presidencialista e o governo até então razoavelmente contido no seu afã esquerdista, entra em fase de implantação de uma ditadura sindicalista no Brasil. É neste ponto que defendo que se as chapas fossem únicas, com a posse de Milton Campos, um valoroso e intransigente democrata, a história do Brasil seria bem outra.

Todas as organizações populares fundadas ao longo da ditadura Vargas – sejam sindicatos, sejam órgãos previdenciários – apesar de terem trazido algum benefício de curto prazo para a população, tinham a principal finalidade de funcionar como massa de manobras, a tal ponto que se criou o termo “pelego” para os líderes sindicais, evidenciando que serviam apenas de suportes para a sela em que os dirigentes montavam. Estas organizações foram utilizadas por todos os governos – e ainda o são – mas principalmente na era Goulart serviam de suporte para os desmandos do governo federal e seus acólitos. Com seu apoio Goulart tentou passar no Congresso as “Reformas de Base”, passo inicial para sua futura ditadura personalista sindical com forte influência comunista.

Sucede que o Brasil daquela época contava com líderes anti-comunistas civis e militares de primeira grandeza. Só para citar alguns Governadores: Lacerda no Rio, Adhemar de Barros em São Paulo, Magalhães Pinto em Minas, Ildo Meneghetti no Rio Grande do Sul, etc. Possuíam também maioria no Congresso Nacional, apesar das estridências das esquerdas. As altas patentes militares, formadas por ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) ou seus discípulos diretos. A Igreja Católica era pré-Teologia da Libertação e maciçamente se opunha à comunização do País.

O povo brasileiro levantou-se em massa contra os projetos janguistas e comunistas, principalmente após o apoio do Presidente à insubordinação hierárquica dos sargentos e fuzileiros e do Comício da Central do Brasil [18] de 13 de março de 1964, onde Leonel Brizola pregou abertamente o fechamento do Congresso e o apoio comunista ficou ainda mais patente nos discurso e nas faixas e cartazes. Nas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, entre as quais a principal foi em São Paulo [19], exigiram a manutenção do regime democrático no que foram plenamente atendidas pelas forças armadas e pelo Congresso Nacional onde até mesmo o democrata ex-Presidente Juscelino Kubitschek, então Senador por Goiás, apoiou o movimento. Não foi portanto um “golpe de Estado” para implantar uma ditadura “fascista” mas um legítimo movimento contra-revolucionário para impedir uma ditadura comunista. Foi então abortada a primeira leva desta segunda ofensiva não apenas no Brasil mas momentaneamente provocou um arrefecimento da ofensiva em todo o Continente e a necessidade de elaborar uma nova estratégia regional.

A RESPOSTA: A CONFERÊNCIA TRICONTINENTAL DE HAVANA

A resposta foi dada por Cuba através da Conferência Tricontinental dos Povos Africanos, Asiáticos e Latino-Americanos reunida em Havana em 3 de janeiro de 1966[20]. Compareceram 83 grupos de vários países dos três continentes, com 513 Delegados, 64 Observadores e 77 Convidados. 27 países latino-americanos estavam representados. A delegação soviética era a maior de todas com 40 membros. Foi estabelecido em Havana o quartel-general para apoiar, dirigir, intensificar e coordenar operações guerrilheiras e terroristas nos três continentes. O “imperialismo norte-americano” foi eleito o principal inimigo.

Moscou assume a plena liderança afastando a influência chinesa mas, paradoxalmente, o pensamento maoísta se torna predominante. O primeiro orador foi Nguyen Van Tien, delegado da Frente de Libertação Nacional do Vietnã do Sul, Viet Cong. O segundo foi Tran Danh Tuyen, representante no Vietnam do Norte exigindo a imediata rendição das tropas americanas no Sul.

A Resolução Geral aprovada incluiu: 1. a condenação do imperialismo ianque; 2. o imperialismo ianque é o maior inimigo de todos os povos do mundo; 3. o imperialismo ianque constitui a base para a opressão dos povos; 4. proclamou o direito dos povos de enfrentar o imperialismo com violência revolucionária, as “guerras de libertação nacional”; 5. condenou vigorosamente o imperialismo ianque pela “agressão” ao Vietnam do Sul; 6. proclamou a solidariedade com a luta armada dos povos da Guatemala, Venezuela, Peru e Colômbia; 7. condenou a política agressiva do governo americano e seus aliados “fantoches” contra o Camboja e outros povos da Indochina; 8. condenou o bloqueio americano contra Cuba. O brado final foi “formar vários Vietnams em escala tricontinental para a derrota final do imperialismo”.

Como Cuba havia sido expulsa da OEA em 1962, era necessário desmoralizar esta Organização. Aprovou-se uma resolução dizendo que a OEA “não tem autoridade legal nem moral para representar as nações latino-americanas. Que a única organização que poderia representá-las seria uma composta de governos democráticos e anti-imperialistas que fossem o produto genuíno da vontade soberana de todos os povos da América Latina”. Esta organização já estava para ser formada poucos dias depois e seria a Organización Latino Americana de Solidariedad (OLAS). Antes de abordá-la brevemente cabe uma advertência.

Mais uma vez chamo a atenção para o seguinte: tal como a fundação do Foro de São Paulo em 1990, a Conferência Tricontinental foi convocada para salvar o regime castrista da falência, pois segundo dados estatísticos e testemunhos como o de Juanita Castro Ruz, irmã de Fidel que fugiu de Cuba em 1964, os camponeses se recusavam a trabalhar no campo para o Estado, pois apoiaram Fidel por sua promessa de lhes dar títulos de propriedade e o governo se apossava de todo seu trabalho mediante as cooperativas de tipo soviético que foram implantadas. Mesmo Fidel tendo obrigado funcionários públicos, estudantes e até crianças para fazer a colheita que os camponeses recusavam – é claro que o programa foi apresentado pela amordaçada imprensa cubana e pelos fantoches da mídia mundial, como exemplo de solidariedade para ajudar os camponeses numa colheita monstro! - Cuba produziu somente 3½ toneladas de açúcar quando em 1952 os “pobres camponeses expropriados” do regime capitalista produziram 7 milhões, portanto 100% a menos após a “libertação” dos camponeses! Em 7 de janeiro do mesmo ano a cota pessoal de arroz foi baixada pela metade, de 3 para 1½ quilos por mês. Todo governo capitalista falido que quer se manter no poder imprime mais dinheiro e gera inflação; o regime comunista só pode se manter exportando sua falência para outros países.

Para isto serviria a OLAS, fundada imediatamente após o final da Conferência Trilateral, pela unanimidade dos representantes latino-americanos, por proposta do então senador chileno Salvador Allende para, declaradamente, levar avante “as táticas e estratégias revolucionárias”, mas de imediato, financiar o déficit cubano. Tanto é verdade que a URSS percebeu isto e como estava interessada em não interromper a importação de trigo da Argentina, manda a Havana o Primeiro-Ministro Aleksiéi Kossigin em junho de 1967 pedindo o adiamento das ações da OLAS, o que Fidel recusa e a URSS, provisoriamente, suspende a ajuda a Cuba.

Leia também: As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano - Parte I

A SEGUIR: CONSEQÜÊNCIAS NO BRASIL – A LUTA ARMADA – A TERCEIRA ESTRATÉGIA – GRAMSCI E A ORGANIZAÇÃO DA CULTURA – A TERCEIRA OFENSIVA: O EIXO DO MAL E SUAS CONEXÕES CONTINENTAIS E EXTRA-CONTINENTAIS

Notas:

[1] http://natall.com/national-vanguard/assorted/patton.html

[2] http://www.trumanlibrary.org/whistlestop/BERLIN_A/BOC.HTM , mesmo link para A Conferência de Potsdam

[3] http://foia.fbi.gov/foiaindex/krivit.htm

[4]Ann Coulter, Treason: Liberal Treachery from the Cold War to the war on Terrorism, Three River Press, 2003

[5]http://en.wikipedia.org/wiki/Yalta_conference

[6] http://www.piedmontcommunities.us/servlet/go_ProcServ/dbpage=page&gid=01325001151050417428684380 e http://www-hoover.stanford.edu/pubaffairs/newsletter/99summer/venona.html

[7] http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/hiss/pumpkinp.html e http://www.law.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/hiss/hissaccount.html

[8] Cit. in Hilton Kramer, The Twilight of the Intellectuals: Culture and Politics in the Era of Cold War, Ivan R Dee, Chicago, 1999

[9] Monica Charen, Useful Idiots, Regnery Publishing Inc., Washington D.C., 2003

[10] A América Dividida – Parte II

[11] Richard Gid Powers, Not Without Honor: The history of American Anticommunism, Yale Univ, Press, 1998

[12] http://www.noblesoul.com/orc/texts/huac.html

[13] http://www.nationmaster.com/encyclopedia/Non_Aligned-Movement, com vários links

[14] Ver de Carlos Azambuja

[15] http://www.icdc.com/~paulwolf/gaitan/gaitanbogotazo.htm
e http://www.amigospais-guaracabuya.org/oagmp064.php

[16] A Tragédia da Utopia, Porto Alegre: Literalis, 2004

[17 ] Desfazendo Alguns Mitos sobre 64

[18] http://www2.uol.com.br/rionosjornais/rj46.htm

[19] http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/brasil_20mar1964.htm

[20] http://www.latinamericanstudies.org/tricontinental.htm

As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano - Parte III

Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA
por Heitor De Paola em 25 de agosto de 2005

Resumo: A estratégia da “convergência” explora a colaboração inconsciente dos inimigos através de aparentes reformas econômicas e democráticas, tirando proveito das tendências globalizantes da elite ocidental para estabelecer a “Nova Ordem Mundial”.

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TERCEIRA OFENSIVA - A LUTA ARMADA

“Pode-se fazer uma enormidade de coisas: seqüestrar, dinamitar, abater os chefes de polícia (...) depois continuar expropriando armas e dinheiro. Desejamos que o Exército adquira armamento moderno e eficaz; nós o tiraremos dele. (...) Nós estamos ligados à OLAS bem como a outras organizações revolucionárias do continente e, em particular, às que nos países vizinhos lutam com a mesma perspectiva que nós.

É, enfim, um dever para com Cuba; libertá-la do cerco imperialista ou aliviar seu peso, combatendo-o externamente em todas as partes. A revolução cubana é a vanguarda da revolução latino-americana; esta vanguarda deve sobreviver”.
CARLOS MARIGHELA – Terrorista

Como vimos na seção anterior, a pronta reação militar brasileira em 1964 deu uma brusca freada na tentativa de tomar o poder por dentro de um governo fraco, caótico irresponsável e cúmplice da estratégia comunista. A resposta não se fez esperar, menos de dois anos depois, com a Conferência Tricontinental e a fundação da OLAS para a organização de novas bases para a continuação da ofensiva.

Recapitulando: a primeira ofensiva no Brasil, golpista, foi a Intentona em 1935. A segunda foi a tentativa de tomada do poder “por dentro”. Entramos agora na terceira, a luta armada. Como veremos adiante, a Terceira Estratégia já estava em marcha desde 1958 e a visita de Kossigin a Cuba, referida no final da última seção, já fazia parte da mesma, mas não se freia um trem em alta velocidade sem risco de descarrilamento. Como muitos sabem, os Partidos Comunistas obedientes a Moscou continuaram defendendo a via pacífica e parlamentar e, aqui no Brasil, o PCB colocou-se frontalmente contra a luta armada.

As ações armadas que já existiam de forma esporádica antes de 64 – como as Ligas Camponesas de Francisco Julião e os Grupos dos Onze de Leonel Brizola [1] - se intensificaram desde então mas ainda sem as características de ação coordenada. Já em agosto de 64 descobria-se um plano terrorista de inspiração brizolista em Porto Alegre, que levava o nome de Operação Pintassilgo [2], que previa o ataque a diversos quartéis, a tomada da Base Aérea de Canoas, no Rio Grande do Sul, e a utilização dos aviões da FAB para o bombardeamento aéreo do Palácio Piratini, visando à morte do Governador Ildo Meneghetti. A prisão em Porto Alegre, em 26 de novembro de 1964, do capitão-aviador, Alfredo Ribeiro Daudt, abortou a operação e todos os seus planos caíram em poder da polícia. Diversos militares da Aeronáutica estavam envolvidos. Em novembro houve explosão de bomba no Cine Bruni no Rio de Janeiro; em março de 65, nova tentativa brizolista, agora de uma ação guerrilheira com financiamento castrista, através do Coronel Jéferson Cardim Osório, também fracassada no Paraná; atentado a bomba contra o jornal “O Estado de São Paulo” em abril. Na Argélia, Miguel Arraes consegue o apoio de Ahmed Ben Bella para lançar as bases de um movimento guerrilheiro no Brasil. Mesmo com o golpe de Estado dado em Argel por Houari Boumedienne foram mantidas as garantias.

A manhã de 25 de julho de 1966 pode ser considerada como o marco inicial da ação terrorista no Brasil, já como primeiro resultado entre nós da Conferência Tricontinental, quando três bombas explodiram no Recife, das quais a mais hedionda foi a do Aeroporto Internacional dos Guararapes, que pretendia eliminar o candidato a Presidente da República, General Costa e Silva. No total 2 pessoas morreram – um jornalista e um almirante reformado – e 16 ficaram feridas, das quais 13 eram civis, entre jornalistas, estudantes, professores, advogados e funcionários públicos, além de uma criança de 6 anos.

Em 1o de dezembro do mesmo ano um dos mais importantes membros do Comitê Central do PCB, Carlos Marighela, pede demissão da Comissão Executiva do Partido devido a discordâncias quanto à manutenção da luta pacífica e parlamentar contra o regime militar. Já no início do ano havia escrito um panfleto intitulado “A Crise Brasileira” onde deixa claro que “o Exército Brasileiro terá que ser derrotado e destruído por ser o poder armado da classe dominante”.

No ano de 1967 Marighela vence as eleições internas na Conferência Estadual do PCB de São Paulo e, em julho, contrariando a orientação de Prestes e de Moscou comparece à reunião da OLAS que Kossygin tentara adiar mas Fidel confirmara. Sendo desautorizado por Prestes recusa-se a obedecer e é expulso do PCB em setembro, fundando a Ação Libertadora Nacional (ALN), dando início à luta armada mais organizada seguindo seu “Mini Manual de Guerrilha Urbana” [3].

A reunião da OLAS (31/07 a 10/08/67) contou com a presença de mais de setecentos delegados representando movimentos revolucionários de 22 países latino-americanos. Foi enfatizada a definição de ação contra a intervenção político-militar e a penetração econômica do imperialismo norte-americano. O documento final determinava, por consenso, a existência de um Comitê Permanente, sediado em Havana, que se constituiria na “genuína representação dos povos da América Latina” (como vimos na Parte I para desqualificar totalmente a OEA por ter expulsado Cuba). Cuba firmava-se assim como a vanguarda revolucionária da América Latina. Apesar de, na aparência, a OLAS se tratar apenas de um órgão de solidariedade não impositivo, era realmente uma nova Internacional Comunista, um novo Komintern, dirigido para a área específica da América Latina. À sua sombra várias organizações terroristas se estabeleceram em todos os países, sendo as mais importantes da América do Sul:

- no Brasil, além da ALN e das ações armadas do PCB, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) de Carlos Lamaraca outro terrorista e desertor, a VAR-Palmares, a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP); a Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil (APML) [4];

- no Uruguai, o Movimiento de Liberación Nacional (TUPAMAROS);

- na Argentina, o Movimiento Peronista MONTONERO, o Ejército Revolucionário del Pueblo (ERP);

- no Chile, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR);

- no Peru, o Movimiento Revolucionario Tupac Amaru (MRTA) e o Sendero Luminoso;

- na Colômbia, Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC) e o Ejército de Liberación Nacional (ELN);

- na Bolívia o Ejército de Liberación Nacional (ELN).

Mais uma vez, a pronta ação militar brasileira, com a edição do Ato Institucional nº 5 em 13 de dezembro de 1968, que dava mais poderes às forças da lei para combater o terrorismo e a guerrilha, paralisou momentaneamente a ofensiva. A violência armada não foi, portanto, como hoje se ensina aos jovens, uma reação ao Ato Institucional nº 5 que "endureceu" o regime. Ela já existia antes, muito antes mesmo, já nos governos Juscelino, Jânio Quadros e João Goulart. Pelo contrário, tanto a Contra-Revolução de 64 quanto o AI-5 foram reações à crescente escalada da luta armada de acordo com as determinações de Havana.

Mas a ofensiva só amainou, não arrefeceu o ânimo nos demais países da América Latina, cabendo uma menção importante ao Chile. Antes disto, no mesmo ano de 1968 uma Junta Militar esquerdista, comandada pelo General Juan Velasco Alvarado, tomou o poder no Peru, estabelecendo um governo nacionalista e pró-soviético que durou sete anos. A aproximação com Cuba e URSS chegou a ponto de equipar as Forças Armadas Peruanas com armamento exclusivamente soviético (do que o país se ressente até hoje) e permitiu o estacionamento de tropas guerrilheiras de outros países. Em setembro de 1969, outro General nacionalista Alfredo Ovando Candia depõe o Presidente da Bolívia Luis Adolfo Siles Salinas. Em setembro de 1970 ganha as eleições chilenas o socialista e idealizador da OLAS, Salvador Allende. O Cone Sul, com exceção da Argentina, encontrava-se nas mãos das esquerdas.

A história do governo Allende e sua deposição por Augusto Pinochet tem sido contada com as habituais mentiras da esquerda e não cabe aqui entrar em detalhes [5] mas se faz necessária uma breve explicação sobre a famosa Operação Condor, tão atacada como um complô dos militares “fascistas” do Cone Sul contra pobres vítimas que apenas queriam “libertar” seus povos.

É preciso recordar que o desafio terrorista contra os governos do continente, há 25 anos, nada mais era do que uma derivação da Guerra Fria [6]. Em 1974 - menos de um ano após a deposição do governo marxista de Allende, foi fundada em Paris uma Junta de Coordenação Revolucionária (JCR), integrada pelo Exército de Libertação Nacional (ELN) boliviano, o Exército Revolucionário do Povo (ERP) argentino, o Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros (MLN-T) uruguaio e o Movimento de Izquierda Revolucionário (MIR) chileno. O secretário-geral da JCR era o cubano Fernando Luis Alvarez, membro da Direção Geral de Inteligência (DGI) cubana, e casado com Ana Maria Guevara, irmã de Che Guevara - o que conferia à JCR um caráter de instrumento do Estado cubano. Sua função era coordenar as ações da esquerda revolucionária latino-americana, principalmente no Cone Sul. Nos anos 80, a ação armada subversiva ganhou impulso no Chile, com os sucessivos desembarques de armas realizados desde navios cubanos, em janeiro, junho e julho de 1986: 3.200 fuzis, 114 lança-foguetes soviéticos RPG-7, 167 foguetes anti-blindagem LAW (alguns utilizados no atentado contra Pinochet nesse mesmo ano de 1986, que causou a morte de 5 militares de sua escolta), granadas, munições e outras armas. Ou seja, o maior contrabando de armas jamais registrado na América Latina.

Mais uma vez a história “oficial” esquerdista inverte os dados: na realidade a Operação Condor foi uma reação às ações coordenadas previamente dos movimentos revolucionários e quando existe uma ameaça terrorista de caráter internacional, os órgãos de segurança dos países ameaçados se coordenam. Sempre foi assim, e continua sendo.

TERCEIRA GRANDE ESTRATÉGIA (DE LONGO PRAZO)

Our national traedy (as well as other former communist countries) is that there was no clear defeat of the ruling communist system, no Nuremberg-style trial of its crimes, no vigorous lustration (de-communisation) process. The West was quick to celebrate the end of the Cold War and the victory of democracy in the former Iron Curtained countries, but in reality there was no change of “elites”there. VLADIMIR BUKOVSKY

Para entrar no estudo desta terceira grande estratégia é preciso retroceder ao final da década de 50 e detalhar alguns pontos que já foram tocados. Entre 1958 e 1960, reconhecendo as deficiências industriais e agrícolas e a crise geral do sistema, inclusive da ideologia em todo o mundo, a cúpula do KGB e Khrushchov decidiram fazer um estudo aprofundado para elaborar uma nova estratégia mundial de longo prazo.

Os estudos foram levados a efeito sob a liderança de Alieksandr Shieliepin, então à testa do KGB, e mostraram que não mais havia lugar no mundo para levantes populares violentos e revoluções sangrentas - a tomada de poder em Cuba foi, durante a fase de estudos, um presente dos céus muito bem costurado. Também tornava-se cada vez mais difícil de estabelecer regimes comunistas rígidos com estatização total da economia, comprovadamente ineficientes. Foi decidido que a nova estratégia de longo prazo visaria objetivos intermediários que foram amplamente anunciados, escondendo-se no entanto o essencial: o objetivo final continuava a ser o mesmo, o domínio mundial.

A finalidade essencial da nova estratégia era fazer o mundo ocidental acreditar que o comunismo acabara e a democracia e o liberalismo econômico venceram na Europa do Leste. Com isto, desmoralizar qualquer movimento anti-comunista como paranóico, reacionário, ultrapassado, caduco, enfim, não dar ouvidos aos que percebiam a manobra estratégica. Pretendia-se enfraquecer e neutralizar a ideologia anti-comunista e sua influência política nos USA, e no resto do mundo, apresentando-a como anacronismo reacionário sobrevivente da Guerra Fria e um obstáculo à re-estruturação mundial e à paz. O resultado principal colhido na década de 70 foi a chamada détente, palavra francesa que significa “relaxamento de tensões” iniciada pelo mais ferrenho anti-comunista da década anterior, Richard Nixon quando de sua viagem a Moscou em maio de 1972, para o encontro com Leonid Briezhniev e, posteriormente, com sua ida à China no mesmo ano. Com a détente pretendia-se demonstrar que até no Ocidente a “abertura” do regime estava sendo aceita como legítima.

Com isto se pretendia reduzir a influência mundial dos países ocidentais, inverter o equilíbrio de poder a favor do bloco comunista rompendo as alianças militares ocidentais, paralisar os programas ocidentais de armamentos e explorar esta inversão de equilíbrio no sentido da conquista final do mundo capitalista através de “convergência” em termos comunistas.

Preparava-se a adoção plena da Perestroika, palavra que em russo significa re-estruturação, não como foi candidamente aceito nos meios ocidentais a re-estruturação da URSS mas da visão que todo o mundo capitalista tinha da mesma, segundo as linhas de “convergência”, com vistas ao Governo Mundial.

A estratégia da “convergência” explora a colaboração inconsciente dos inimigos através de aparentes reformas econômicas e pseudo-democráticas criando uma falsa oposição controlada na URSS e nos demais países socialistas. Estimulou-se a crença da existência de três grupos, “liberais”, “dogmáticos” e “pragmáticos”, em luta entre si na URSS, para usar a falsa idéia da existência de conservadores “anti-progressistas” para aliar-se aos USA no combate a estes grupos nos dois lados, e liquidar com os verdadeiros conservadores no lado americano! Cabe explicitar que a palavra russa para convergência é sblizhienie que numa tradução literal significa “aproximar para contato”. Esta aproximação deveria ser feita através da exploração das tendências globalizantes da elite ocidental (p. ex., Robert Muller, Al Gore, Ramsey Clark, Bill & Hillary Clinton, Armand Hammer, George Bush Sr, Noam Chomsky, John Kerry) em íntima colaboração com os comunistas para estabelecer “Um Só Mundo”, a “Nova Ordem Mundial”.

As propostas foram apresentadas e aprovadas pelo Congresso dos Oitenta e Um Partidos Comunistas, em Moscou, em 1960. Não foi mera coincidência que neste mesmo ano foi fundada a Universidade da Amizade entre os Povos, mas conhecida como Universidade Patrice Lumumba, nome dado um ano após, destinada a estudantes selecionados pelos partidos comunistas de todo o mundo – mesmo os que estavam na clandestinidade –, para formar líderes fiéis à ideologia comunista em todos os setores da vida intelectual e acadêmica do ocidente. Já no primeiro ano foram registrados 539 estudantes de 59 países, mais 57 soviéticos selecionados pelo KGB. Com exceção daqueles de performance excepcional, que foram selecionados para agentes do KGB, os demais deviam retornar aos seus países como idiotas úteis para intensificar a propaganda da URSS “amante da paz” e da humanização do regime – “socialismo com face humana” – em seus respectivos países.

Ocorreram várias reuniões secretas entre Khrushchov e Mao Zedong onde teria ficado decidido um acordo secreto com a China para início da Grande Estratégia do Bloco, a da tesoura, ou de pinça: para dar credibilidade às “mudanças” era preciso que Mao se opusesse e, defendendo Stalin, “rompesse” com a URSS. Ficou aí definido o “Conflito Sino—Soviético” que viria a se intensificar no início dos anos 60.

Foram imediatamente abolidas as práticas stalinistas de repressão, restaurado o estilo leninista de liderança colegiada e iniciada a preparação para introduzir a fase final de re-estruturação e “democratização” da URSS. Foram atribuídos novos papéis ao KGB e adotado um padrão de não violência. A parte secreta da estratégia incluía a montagem do poderio militar do bloco como um todo sem que o Ocidente percebesse (por isto o pseudo-conflito com a China), um retorno ao estilo leninista de atividade diplomática contra os principais países inimigos, o uso de guerra psicológica (KGB e outros) para desestabilizar o mundo ocidental e suas instituições. Simultaneamente explorando o potencial dos partidos dos países comunistas, dos partidos comunistas ocidentais e dos “movimentos de libertação” no Ocidente.

Na Itália, onde estava o maior partido comunista europeu, Palmiro Togliatti, que substituíra Antonio Gramsci em 1937 como Presidente (no exílio) do Partido e muito aprendera com suas “Cartas do Cárcere” (ver adiante), começou a preparar o que mais tarde viria a ser o “Eurocomunismo”, uma versão adocicada e palatável que dava uma aparência civilizada e democrática no sentido de aceitar o jogo da alternância no poder e apelava para a classe média e os novos movimentos que estavam surgindo depois da guerra, como o feminismo e pela “libertação” dos homossexuais. Em 1964 assinou o “Memorando de Yalta” em que, com secreta aquiescência de Khrushchov, declarava o PCI autônomo de Moscou e propunha um novo modelo para os países socialistas, o chamado “Unidade na Diversidade”. Em termos internacionais cunhou o termo “policentrismo” para significar que a unidade socialista mundial não funcionaria sem que cada partido pudesse se desenvolver de forma autônoma, sem a interferência de outras fontes. Mas isto era apenas a jogada de um velho stalinista, na verdade um dos maiores amigos de Stalin durante o exílio.

Não por coincidência, uma das decisões mais importantes tomadas em Moscou foi a de estudar a fundo as teses de Antonio Gramsci. Logo após sua morte em 1937, sua cunhada encaminhou seus escritos para Togliatti, então exilado em Moscou. Somente depois do fim da II Guerra Togliatti organizou e publicou a obra.

ANTONIO GRAMSCI E A ORGANIZAÇÃO DA CULTURA
(C.T. - importantíssimo entender o salafrário do Gramsci e sua proposta de destruição do Ocidente. Sem isto, nunca entenderemos o caos em que nos encontramos.)

Não cabe aqui um estudo profundo da obra de Gramsci, para isto remeto o leitor às obras citadas em [7], muito das quais será aqui aproveitado. Com Gramsci fica patente que, embora mantendo o framework proletário, o foco de “classe” muda completamente dos “proletários” para os “intelectuais. Não se trata mais de uma “revolução proletária” mas sim de uma revolução dos intelectuais com os proletários a reboque. Gramsci simplesmente assume o que a revolução comunista sempre foi: uma revolução de elite travestida de popular.

Inicialmente, Gramsci faz uma distinção entre o intelectual “orgânico” – criado pela classe dos intelectuais, pelo partido-classe – e o intelectual “tradicional – aquele que mantém sua autonomia e continuidade histórica. A organização da cultura é conseguida exatamente através da hegemonia dos intelectuais orgânicos (organizados, como órgãos de um único organismo, o Partido, o “intelectual coletivo”). Cabe a estes homogeneizar a classe que representam e elevá-la à consciência de sua própria função histórica: transformar uma classe em-si numa classe para-si [8], a Nova Classe ou Nomenklatura [9]. O conceito de intelectual, no entanto é bem amplo, abrigando professores, contadores, funcionários públicos graduados ou de estatais, profissionais da imprensa, show-business e tutti quanti. Toda a atividade prática necessita criar uma espécie de escola de dirigentes, que tende a criar um grupo de intelectuais “especialistas” [10], que servem para orientar os demais quanto a seus interesses específicos de classe. Note-se que sempre que ocorre algum fato relevante a imprensa recorre logo a “especialistas”, pessoas designadas pelo intelectual coletivo para dizer como os outros devem pensar a respeito do assunto. Quem ouse pensar diferente é severamente admoestado pelos “especialistas”, obrigado a uma auto-crítica e se reincidir, é posto no ostracismo e perde o apoio de todos os companheiros de viagem. A proposta de revolução educacional de Gramsci sugere a criação de escolas profissionais especializadas, nas quais o destino do aluno e sua futura atividade serão predeterminados.

O controle das consciências deve ser o objetivo político maior. Este controle é assegurado pelo domínio sobre os órgãos de informação. O objetivo é o controle do pensamento na própria fonte, na própria mente que absorve e processa as informações e a melhor forma de fazê-lo é modelar palavras e frases da maneira que melhor sirvam aos propósitos políticos. Em outro artigo me refiro à modelação das palavras ética e paz [11]. O controle da mente Ocidental, além do uso desonesto da linguagem e das informações, é feito também através da desmoralização proposital do Ocidente por ataques corrosivos contra as instituições, promovendo ativamente o uso de drogas, o agnosticismo, o relativismo moral e cognitivo, a permissividade e o estímulo às transgressões (palavra mágica altamente sedutora, principalmente para os jovens) e ataques concentrados à família tradicional, promovendo a homossexualidade, o aborto, as famílias “não-tradicionais”. Desconstruindo o mundo ocidental este ficará presa fácil para a Nova Ordem Mundial comunista. O “desconstrucionismo” - que faz tanto sucesso no Brasil através de Jacques Derrida - é parte fundamental da estratégia [12]. Vem daí a expressão “pós-moderno”, o resultado da desconstrução até mesmo do próprio “modernismo” burguês. Um outro método eficiente é a educação “construtivista” que não passa de um desconstrutivismo radical do senso comum e a introdução na criança daquilo que o intelectual coletivo – via magistério – quer, mas de tal modo que a criança pensa estar construindo seu mundo por si mesma.

A linguagem precisa também ser desconstruída e no seu lugar colocar uma outra, a linguagem do “politicamente correto”. As ciências – fruto exclusivo da civilização judaico-cristã – também são desmoralizadas pela introdução de formas “alternativas” (medicinas ou terapias alternativas, superstições orientais apresentadas como “outras ciências”, etc.). São “novas formas de luta pela hegemonia”, alguns são assuntos jamais sonhados por Gramsci mas que são desenvolvidas sob sua égide pelo intelectual coletivo.

As primeiras a serem destruídas devem ser as tradições morais, culturais e religiosas. Gorbachov em 1987, já em pleno processo de Perestroika, afirmou: “Não pode existir trégua na luta contra a religião porque enquanto ela existir, o comunismo não prevalecerá. Devemos intensificar a destruição de todas as religiões aonde for que elas sejam praticadas ou ensinadas” [13]. O principal meio de destruição das religiões passou a ser não mais o ataque frontal, que poucos resultados deu, mas a infiltração nos seminários das idéias marxistas, como a “teologia” da libertação, conforme sugerido por Gramsci que percebera que a Igreja Católica é indestrutível num confronto direto. Um outro meio é o estímulo a crenças e práticas primitivas como o culto a Gaia, as seitas indígenas primitivas, a teosofia, os cultos orientais, já explorados por mim noutro artigo [14].

Note-se que Gramsci enfatizava não a pregação revolucionária aberta, mas a penetração camuflada e sutil. “Para a revolução gramsciana vale menos um orador, um agitador notório do que um jornalista discreto que, sem tomar posição explícita, vá delicadamente mudando o teor do noticiário, ou do que um cineasta cujos filmes, sem qualquer mensagem política ostensiva, afeiçoem o público a um novo imaginário, gerador de um novo senso comum. Jornalistas, cineastas, músicos, psicólogos, pedagogos infantis e conselheiros familiares representam a tropa de elite do exército gramsciano” (..) “cuja atuação cria novas reações, novas atitudes morais que, no momento propício, se integrarão harmoniosamente na hegemonia comunista” (O. De C., op. cit.), palavra que é riscada do dicionário gramsciano.

A estratégia política de “transição pacífica para o socialismo” é montada sobre esta infiltração cultural; por esta razão, é necessária a defesa intransigente do ambiente mais democrático possível. A diferença com os partidos verdadeiramente democráticos é que, para estes últimos, a democracia é um fim político em si para florescimento das liberdades de pensamento, religiosa, econômica. Para o partido-classe, não passa de um meio para acabar com ela assim que passem ao estágio seguinte: o da hegemonia e do consenso. Por isto esses partidos são os mais intransigentes defensores da ampliação e aprofundamento das franquias democráticas e de conceitos tais como cidadania – tão sedutor que é papagaiado até por quem não concorda com os fins do partido-classe -, com a vantagem adicional de convencer a população de que são realmente os maiores democratas.

O consenso torna-se hegemônico quando o senso comum – conjunto de valores, tradições, filosofias, religiões, etc., aceitos consciente ou inconscientemente pela maioria de uma sociedade – é superado e esta sociedade passa a pensar de forma que acredita ser espontânea e autônoma aquilo que lhe foi incutido de forma subliminar, lenta e gradual pelo intelectual coletivo.

No entanto, é preciso levar em conta que o intelectual coletivo não passa do imbecil coletivo (apud Olavo de Carvalho): Gramsci é apenas o “profeta da imbecilidade, o guia de hordas de imbecis para quem a verdade é a mentira e a mentira é a verdade (...) O perigo que há nela é a malícia que obscurece, não a inteligência que clareia; e a malícia é a contrafação simiesca da inteligência” (0. de C., op.cit). O gramcismo levado às suas últimas conseqüências resultará em varrer a inteligência da face da Terra, o retorno à barbárie mais primitiva, o fim da ciência e da filosofia - enquanto busca da verdade - e a paralisação de todo progresso, seja do pensamento, seja tecnológico.

A SEGUIR: QUARTA OFENSIVA NO MUNDO E NA AMÉRICA LATINA: O EIXO DO MAL

[1] Para informações completas sobre os atos terroristas ver História do Terrorismo no Brasil, CD-ROM (3.42 Mb)( distribuído pela ONG TERNUMA (Terrorismo Nunca Mais) que pode ser obtido gratuitamente no site http://www.ternuma.org/.

[2] Estas e as demais informações deste teor têm como fonte o livro 1964, A Revolução Perdida, de Raymundo Negrão Torres, ed. pelo autor, Curitiba, 2002.

[3]Para ler na íntegra em Inglês ir a http://www.marxists.org/archive/marighella-carlos/1969/06/minimanual-urban-guerrilla/. Uma boa resenha em Português pode ser encontrada no artigo de Carlos I. S. Azambuja.

[4] Para uma visão mais abrangente: C. I. S. Azambuja, e do mesmo autor o Cap 48 do livro A Hidra Vermelha, Ed Samizdat, 1985.

[5]Uma visão mais verdadeira pode ser encontrada em http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3797

[6]Para o que se segue ver de C. I. S. Azambuja.

[7] Antonio Gramsci, Cartas do Cárcere, Civilização Brasileira, 1966; Antonio Gramsci, Os Intelectuais e a Organização da Cultura, idem, 1979; Sergio A. de Avellar Coutinho, A Revolução Gramcista no Ocidente, Ed. Ombro a Ombro, 2002; Olavo de Carvalho, A Nova Era e a Revolução Cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci, disponível para download em http://www.oalvodecarvalho.org/. A bibliografia é copiosa para quem quiser se aprofundar.

[8] Carlos Nelson Coutinho, introdução ao livro Os intelectuais e a Organização da Cultura.

[9]Ver meu Uma Questão de Metodologia – Parte II.

[10] Ver meu artigo em http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=3785

[11] Uma questão de Metodologia – Parte I.

[12] Carlos Reis, http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=2797

[13] Perestroika Deception

[14]True Lies II: A Face Oculta do Governo Mundial.
Leia também As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano Parte I e II

As raízes históricas do Eixo do Mal Latino-Americano - Parte IV

Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA
por Heitor De Paola em 03 de setembro de 2005

Resumo: A expressão pessoal máxima dos fenômenos relacionados a idéia de se criar uma nova ordem mundial é Mikhail Gorbachov, que sempre disse claramente o que pretendia: “ (...) Voltar-se para Lenin estimulou grandemente o partido (comunista) e a sociedade em sua busca por explicações e repostas às questões que surgiam”.

© 2005 MidiaSemMascara.org

A QUARTA OFENSIVA

The (KGB) leadership has retained its position. The most able and loyal officers were sent to work “underground”, creating the gangs that blackmail the businessmen and to control the organized crime. The others were strategically placed in the administrative structures as civil servants (while still remaining in the service of the KGB). Thousands of operatives were called back from the West to aplly their experience at home. VLADIMIR BUKOVSKY

Como foi exposto na Parte III desta série: “A finalidade essencial da nova estratégia era fazer o mundo ocidental acreditar que o comunismo acabara e a democracia e o liberalismo econômico venceram na Europa do Leste. Com isto desmoralizar qualquer movimento anti-comunista como paranóico, reacionário, ultrapassado, caduco, enfim, não dar ouvidos aos que percebiam a manobra estratégica. Pretendia-se enfraquecer e neutralizar a ideologia anti-comunista e sua influência política nos USA, e no resto do mundo, apresentando-a como anacronismo reacionário sobrevivente da Guerra Fria e um obstáculo à re-estruturação mundial e à paz”.

A influência sobre o movimento contra a guerra do Vietnã dentro dos EUA e no resto do mundo foi imensa mas já abordei este aspecto em artigos anteriores [1] neste site. Basta acrescentar que a esquerda americana recebia apoio e vultuosas quantias da URSS, via a rezidientura do KGB em Washington, D.C.

Não obstante, tornava-se vital criar a figura de um “dissidente” cujo nome e títulos desse total credibilidade à ofensiva, liquidando com as desconfianças. Esta surgiu através do mais brilhante físico nuclear soviético, Andreiï Sakharov, conhecido como o “Pai da Bomba Termonuclear (Bomba H) soviética” [2]. Genuinamente preocupado com o potencial destrutivo que havia desencadeado, foi presa fácil para os profissionais da desinformação do KGB. Já em 1961 se opusera veementemente aos planos de Khrushchov de detonar uma bomba de 100 megatons na atmosfera (até então os testes haviam sido subterrâneos). Há controvérsias quanto ao grau de participação consciente de Sakharov nos planos soviéticos. O que é certo é que um regime policial que executava todos os seus dissidentes permitir a total liberdade de expressão, reunião e saídas do país de que Sakharov gozou de 1961 a 1975 é muito suspeito. Teria sido apenas um idiota útil como Einstein e tantos outros? Golitsyn afirma que não, que era agente do KGB mesmo.

Em 1968 lança seu famoso “Manifesto”, Progress, Coexistence, and Intellectual Freedom (New York: Norton, 1968), também conhecido como Thoughts on Progress, Peaceful Coexistence and Intellectual Freedom. Neste, pela primeira vez, a palavra sblizhienie, convergência, é mencionada, como “aproximação entre os regimes socialista e capitalista que eliminasse ou diminuísse substancialmente os perigos (nucleares). Convergência econômica, social e ideológica possibilitariam uma sociedade democrática e pluralista, cientificamente governada (...) uma sociedade humanitária que tomaria conta da Terra e seu futuro...” [3]. Note-se que estava lançada a base ideológica para o futuro governo mundial, objetivo final da ofensiva, por um “dissidente”, o que dava maior credibilidade do que se algum líder do PCUS o fizesse.

Em 1970 junta-se a Valiery Chalidzie, Igor Shafarievich, Andreï Tvierdokhliebov e Grigorï Podyapolski para fundar o primeiro “Comitê dos Direitos Humanos” que se espalhariam como praga em todo o mundo, obviamente por ação dos operadores do KGB. Em 1975 ganha o Prêmio Nobel da Paz, sob “protestos” do governo soviético. Em dezembro de 1979 Sakharov critica a invasão soviética do Afeganistão e o governo, numa operação genial de despistamento, tira todas as suas medalhas e honrarias e o exila na cidade de Gorky, de onde veio a sair em 1986 para assumir o posto de assessor para a Perestroika no Governo de Gorbachov.

A importância de Sakharov na ofensiva mundial foi inestimável. No Manifesto, apresentando-se como porta-voz dos dissidentes, ele fizera diversas previsões como se fossem wishful thinking de um idealista mas que não passavam de um cronograma para disseminação da estratégia já em curso para orientação da esquerda ocidental. Divulgados como desenvolvimentos espontâneos e improvisações, escondiam que eram a própria essência da estratégia. “Previu” a vitória dos “realistas” (reformistas de esquerda) sobre os “conservadores” na URSS, reforçando do lado americano a preponderância dos socialistas do Partido Democrata.

Os resultados esperados eram, obviamente o enfraquecimento moral, militar e político americano, conquistando a elite americana para a cooperação sobre meio-ambiente, espaço, desarmamento e solução conjunta de problemas sociais, econômicos, etc. Acabar com o consenso do “perigo vermelho” e desestabilizar o complexo industrial-militar americano. Primordialmente convencer a elite intelectual americana das semelhanças entre os dois sistemas e da importância da convergência, o que foi facílimo dentro do Partido Democrata que sempre tivera uma ala socialista importante, à qual pertencia Jimmy Carter que assumiu a Presidência em 1977. Sakharov envia uma carta a Carter expondo o ponto de vista soviético sobre direitos humanos e Carter responde com uma política nitidamente contrária aos interesses estratégicos americanos abandonando aliados tradicionais como Anastacio Somoza na Nicarágua e o Xá Mohammed Reza Pahlevi no Irã, sob a justificativa de defender os direitos humanos que estavam sendo desrespeitados. É claro que ambos eram autocratas que governavam com mão de ferro seus países mas o que veio depois foi infinitamente pior com os Sandinistas e Aiatolás e de quebra, sofrendo uma vergonhosa invasão da Embaixada de seu País em Teerã. Em abril 1981, já fora do poder, sua ex-Embaixadora Permanente na ONU, Jeane Kirkpatrick, numa conferência no Kenyon College com o título de “Establishing a Viable Human Rights Policy” [4], detalha a política de Direitos Humanos de Carter em perfeita consonância com o “dissidente” Sakharov. Estranhamente, esta política se voltou somente para os regimes de força do Ocidente, muito menos destrutivos e assassinos do que os do mundo socialista, para os quais bastavam alguns protestos de praxe. Logo após assumir Carter havia declarado enfaticamente que os EUA estavam agora “livres daquele exagerado medo do comunismo que antes nos levava a apoiar qualquer ditador que tivesse o mesmo medo” [5]. O fato é que a estratégia da convergência estava dando tão certo que em 1978 Cyrus Vance, Secretário de Estado, declarou à revista TIME que “o Presidente Carter e o Secretário Geral Leonid Briezhniev partilham os mesmos sonhos e aspirações” [6]. É impressionante como tal absurdo foi tão facilmente aceito: o Presidente de um País democrático e um ditador de um regime totalitário “partilharem os mesmos sonhos e aspirações”! Pois foi, evidenciando o acerto da estratégia de doutrinação gramsciana da intelectualidade ocidental.

A elite americana já há muito tempo vinha dividida. Quando Richard Nixon, um ferrenho anti-comunista e defensor da escalada no Vietnã, houve por bem acabar com a guerra e retirar as tropas, o fez muito mais para pacificar o seu País do que pela ficção hoje tida como senso comum, de que a derrota era inevitável. Era, não nas selvas vietnamitas, mas sim nas Universidades rebeladas e no Congresso onde os democratas lhe amarravam as mãos, impedindo o ataque às linhas de abastecimento do Vietcong na região do Bico de Papagaio do Camboja. Já em 1964, com a guerra recém começada, Barry Goldwater, Candidato Republicano a Presidente dos EUA, declarava: “Eu teria dito ao Vietnã do Norte através de folhetos lançados de nossos bombardeiros B-52: abandonem a guerra em três dias ou da próxima vez que estes ‘bebês’ voltarem por aqui, jogarão milhares de bombas, reduzindo o Vietnã do Norte a um pântano (...) Eu preferiria matar um monte de vietnamitas a um único soldado americano (...) e já os perdemos demais!” [7]. Mas o eleitorado preferiu re-eleger Lyndon Johnson e sua política de apaziguamento e em nove anos os EUA afundaram num atoleiro sem fim, tendo todas as chances de ganhar a guerra! Possivelmente os norte-vietnamitas teriam reagido a Goldwater da mesma forma que os iranianos fizeram quando Reagan foi eleito com uma campanha de decidido enfrentamento: liberaram os reféns da Embaixada americana em Teerã no mesmo dia de sua posse! Como fora previsto pela teoria do dominó, constantemente negada pelas esquerdas mundiais como “fantasia paranóica” para justificar a agressão imperialista contra os pacíficos vietnamitas, todos os países da Indochina caíram em mãos comunistas: Além do Vietnã, o Laos e o Camboja, este último nas mãos sangrentas de Pol Tot.

Em 1972, quando Nixon iniciou a détente com a URSS e depois visitou a China, o fez sem saber que o conflito sino-soviético era apenas cortina de fumaça para uma aliança de todo o bloco comunista. Nixon e seu Secretário de Estado Henry Kissinger pretenderam fazer uma cunha no bloco ao abrir relações diplomáticas e comerciais com a China.

Nixon e Kissinger, segundo Golitsyn, foram iludidos pelo “rompimento” entre a URSS e a China que foi reforçado através dos incidentes na fronteira Namur-Ussuri [13] de março a setembro de 1969. Os dois maiores exércitos do mundo mobilizaram não mais que poucos milhares de soldados para tomar uma ilhota de aproximadamente 3 quilômetros de extensão – Damansky, para os russos, Zhen Bao para os chineses – sem nenhuma importância econômica ou estratégica. Mas a propaganda parecia indicar que haveria uma guerra nuclear entre os dois Países. Muitos analistas dizem que o vencedor do conflito foi os EUA. “Suspeitando” das intenções da URSS, a China teria iniciado estrategicamente a incrementar suas relações com Washington o que levou os líderes soviéticos a relaxar as tensões da guerra fria e, finalmente, à détente. Mas a estratégia era bem outra: atrair capitais americanos para os dois lados que já viam a falência à frente e permitir o intercâmbio de estudantes e cientistas. A verdadeira vencedora foi a estratégia da convergência.

A VITÓRIA DA SBLIZHIENIE ENTRE A INTELECTUALIDADE AMERICANA

“Um pacifista é um sujeito que alimenta um crocodilo, na esperança de ser comido por último”. WINSTON CHURCHILL

Foi arrasadora a vitória da estratégia da convergência entre a intelectualidade ocidental. Antes de chegar à América Latina, objetivo desta série, é preciso estudar o efeito na intelectualidade americana, objetivo final da estratégia. Deixo de lado a Europa e a influência nefasta da maioria dos intelectuais da École Normale, principalmente do pseudofilósofo e escritor sofrível Jean-Paul Sartre, não sem recomendar a leitura atenta do livro de Raymond Aron O Ópio dos Intelectuais e para um Estudo mais detalhado suas Memórias, o livro de François Furet Le Passé d’une Illusion: Essai sur l’idée communiste au XX Siècle, bem como para entender o que ocorre hoje A Obsessão Antiamericana: Causas e Inconseqüências, de Jean-François Revel. Também não há espaço para investigar a contribuição da Escola de Frankfurt, o que demandará um outro artigo.

Se defender o comunismo como o fazia Sartre e seus colegas, era uma atitude antipática para uma grande parte da intelectualidade americana, fazer a apologia da paz foi extremamente eficaz. Não mais se defendia um regime já reconhecidamente tirânico, mas sim a paz, não como ausência momentânea de guerra, mas uma paz absoluta, o bem maior da Humanidade, com um adversário com o qual era razoável até mesmo ter “objetivos comuns”, convergentes, pois não se tratavam mais de inimigos, mas de povos que também amavam a paz e precisavam dela para seu desenvolvimento em direção à convergência. Junto com o “entulho” do anti-comunismo, jogava-se no lixo também os “belicistas” como Patton e Goldwater e dobrava-se até mesmo Nixon.

Neste último sentido foi muito importante o trabalho de Henry Kissinger que, apesar de Republicano, movia-se muito melhor entre os liberais de esquerda sendo o artífice da tão almejada détente e da abertura para a China, abandonando os fiéis aliados de Taiwan e obedecendo à exigência de Mao Zedon, Zhu Enlai e Lin Piao para estabelecer relações diplomáticas com a China comunista. Vitória diplomática maior da estratégia comunista, impossível! Kissinger, como Assessor de Segurança e depois como Secretário de Estado preparou belamente a vergonhosa capitulação em Saigon – segundo Paul Johnson “a mais grave e humilhante derrota em toda a história americana” [9] – e o caminho para a vitória de Jimmy Carter, o Neville Chamberlain da década de 70 que bem merecia a observação de Churchill, em epigrafe, feita a seu antecessor! Com a renúncia do Vice-Presidente Spiro Agnew em 1973, o Presidente da Câmara de Representantes Gerald Ford foi eleito para este cargo, vindo a assumir a Presidência com a renúncia de Nixon em 1974. Ford, um Presidente bem intencionado mas fraco foi totalmente manobrado por Kissinger. Desde então, e até a posse de Reagan, caíram em mãos comunistas o Iêmen do Sul, Angola, Etiópia, Moçambique, Granada, Nicarágua e Afeganistão. Mas, as a side effect, Kissinger e Carter levaram cada um o seu Nobel da Paz e hoje cobram milhares de dólares por conferência.

A política de apaziguamento de Carter voltou-se exclusivamente, como já referi acima, para combater as “violações dos direitos humanos” nos países ocidentais e aliados dos EUA, países que segundo seu Assessor de Segurança, Zbigniew Brzezinski buscavam “formas viáveis de governo capazes de lidar com o processo de modernização”. Estas formas viáveis, alternativas à democracia ocidental que os Presidentes dos EUA juram defender, eram todas “formas” de uma coisa só: comunistas! E apesar da evidência histórica mostrar que os comunistas jamais haviam vencido uma eleição livre, a esquerda americana, embalada pelo canto da convergência, persistiu no argumento de que eles representavam a vontade popular, e aceitavam, aparentemente com ingenuidade, suas palavras de que estavam buscando os “interesses populares”. Apesar de todas as violações dos tais direitos por todos os países comunistas, principalmente a URSS que prendia e internava no Gulag seus dissidentes, o argumento básico da esquerda americana era de que os EUA também tinham sua parte de culpa pelas tensões e conflitos internacionais e “não podemos pretender dar lições de moralidade aos outros enquanto houver em nosso País uma criança faminta, um adulto pobre ou um imigrante analfabeto em todos os 50 Estados” (citado por M Charen op. cit.).

Esta tática fez história e ainda hoje é empregada, conscientemente pelos comunistas e seus companheiros de viagem, e inconscientemente até por pessoas que são sinceramente anti-comunistas mas que são sutilmente trabalhadas no sentido de compararem os males do comunismo com os do capitalismo. Na mais absoluta falta de argumentos que justifiquem as atrocidades por eles cometidas, só resta aos comunistas o recurso a não responder às mesmas, senão atacar de volta. Como os defensores da democracia e do liberalismo não almejam a perfeição, é claro que existem muitas falhas num regime que apenas prioriza a liberdade individual. É fácil perceber as desigualdades sociais, que são produtos das naturais e inevitáveis desigualdades entre as pessoas. Mas, maliciosamente chamadas de “injustiças sociais”, ficam caracterizadas como produtos do “sistema capitalista” e da propriedade privada. Característica desta tática foi a reação ao lançamento, em 1997, do volume O Livro Negro do Comunismo. Sem conseguir opor nenhuma objeção racional, sem nenhuma contra-pesquisa que mostrasse os erros do mesmo, lançaram um violento livro panfletário, O Livro Negro do Capitalismo.

Não havia ingenuidade alguma já que a experiência demonstra dia-a-dia a mesma coisa e Carter continua fazendo das suas – como a homologação do plebiscito venezuelano fraudado por Chávez – através do Carter Center “for the Advancing of Human Rights and Alleviating Sufferings”, ou Centro Carter para o avanço dos direitos humanos e alívio dos sofrimentos. Dos sofrimentos de todos, menos dos sofredores da China, de Cuba, da Venezuela, da Coréia do Norte, etc. Obviamente, esta “defesa dos direitos humanos” seletiva significa a plena vitória da pregação de Sakharov, não por coincidência enviada a Carter e não a Nixon nem Ford. Numa crítica à esta política, Reagan dizia, em 1977 [10]: “Se os direitos humanos passarão a ser nossa principal preocupação, deveríamos defender uma visão única e não dupla”. Já em 1975, numa das suas audições de rádio dizia que “nossos formadores de opinião estão sempre vendo perigos à direita e parecem cegos àqueles à esquerda”. Sobre o regime da Revolução dos Cravos em Portugal, Reagan compara o comportamento da mídia com outros regimes militares menos repressivos, mas à direita: “A mídia está de tal forma sob preconceitos (anti-americanos) que nem chega a perceber os próprios preconceitos. (…) Um simples fator é decisivo para sua tomada de posição: o regime proscreveu o Partido Comunista? Então é ruim!” Caso outros partidos fossem suprimidos, nada se falava!

A MUDANÇA ESTRATÉGICA DA ADMINISTRAÇÃO REAGAN

We are too great a nation to limit ourselves to small dreams. We are not, as some would have us believe, doomed to an inevitable decline. RONALD WILSON REAGAN, 40o Presidente dos EUA

Após o fiasco do governo Carter o eleitorado americano mandou outro “belicista” para a Casa Branca: Ronald Reagan. Já no discurso de posse ele deixou claro, como a frase em epígrafe, que as coisas iam mudar, que o papel dos EUA no mundo deixaria de ser o de uma nação acuada pelo comunismo, como fica claro também no discurso sobre a corrida armamentista, dois anos depois, perante a Associação Evangélica Nacional, quando pela primeira vez se referiu à URSS como o “império do mal”: “Convoco-os a estarem cientes da tentação do orgulho - a tentação de tranqüilamente se declararem acima de todos os demais e rotular os dois lados como culpados, a ignorar os fatos da história e dos impulsos agressivos do império do mal, de simplesmente chamar a corrida armamentista um grande mal-entendido e por isto se retirarem da luta entre o certo e o errado, entre o bem e o mal”.

Monica Charen (op. cit.) refere que o termo “Império do Mal” provocou uma tempestade de desprezo por parte da esquerda americana. Strobe Talbot, da revista TIME, mais tarde Sub-Secretário de Estado de Clinton, pôs o dedo na ferida: “Quando um Chefe de Estado fala desta maneira, ele mexe com as inseguranças soviéticas”. Mas a insegurança tinha sido mexida muito antes, logo no primeiro ano da administração. Segundo Lee Edwards [11], na biografia de Edwin Meese III, um dos mais importantes assessores de Reagan, “Dois eventos claramente visíveis nos primeiros nove meses da administração Reagan alertaram a nação e o mundo que havia agora um Presidente muito diferente. Foram eles a aprovação (pelo Congresso) do Economic Recovery Tax Act (com um corte geral de impostos da ordem de 25% que reativou a economia estagnada por Carter), e a maneira firme com que enfrentou a greve dos controladores de tráfego aéreo (fazendo cumprir a lei que proibia a greve no serviço público, demitindo sumariamente os faltosos). (...) E um terceiro evento, altamente confidencial, pelas suas conseqüências – uma pequena reunião na Casa Branca sobre as defesas anti-mísseis”.

A decisão de demitir os controladores de vôo havia tido um efeito de alerta sobre os líderes soviéticos que perceberam que não apenas por discursos mas por atos, Reagan devia ser tratado seriamente como um Presidente que “iria aos limites extremos para defender seus princípios”.

Da reunião altamente secreta na Casa Branca resultou a Strategic Defense Iniative (SDI) que se tornou mais conhecida pelo nome que lhe deram seus opositores: Guerra nas Estrelas (Star Wars), pois grande parte seria baseada no espaço. Reagan não se sentia satisfeito em confiar na estratégia que até então imperava, denominada sugestivamente de MAD, de Mutual Assured Destruction (Garantia de Destruição Mútua), baseada em manter os dois lados amedrontados de, caso atacasse, ser retaliado e destruído. O SDI, por outro lado, garantia aos EUA uma segurança extra pois permitia destruir os mísseis de um eventual ataque inimigo antes de atingirem o território e os próprios silos de mísseis americanos. Este último era o ponto crucial, além de defender a população civil e as cidades, um ataque bem sucedido aos silos dos ICBM (Intercontinental Ballistic Missiles) – mísseis balísticos intercontinentais – deixaria os EUA indefesos – seja frente a uma nova salva de mísseis, seja à invasão por guerra convencional.

Pela primeira vez os EUA desenvolviam uma estratégia anti-soviética, não mais uma política de duração limitada (ver Parte I desta série), pois o posicionamento progressivo do complexo SDI foi planejado para durar várias administrações. Reagan mostrava que só negociaria partindo de uma posição de força, podendo retaliar quaisquer ataques traiçoeiros. Reagan conhecia muito bem o significado de tratados e conversações para os comunistas: nada mais do que papéis para serem rasgados tão logo tenham sido úteis aos seus planos. Mas, posteriormente acabou se deixando ludibriar num ponto crucial: a farsa chamada Perestroika.

A ÚLTIMA FASE DA ESTRATÉGIA: A PERESTROIKA

The Western world in general, and the United States in particular, have seriously misunderstood the nature of changes in the communist world. We are not witnessing the death of communism, but a new communist offensive of strategic disinformation. ANATOLIY GOLITSYN

Uma estratégia de longo prazo não pode prever e muito menos determinar os acontecimentos de modo que eles “caibam” nos planos, mas sim estar preparada para a necessária mudança dos planos de acordo com a evolução dos acontecimentos que lhes são externos. A eventual re-eleição de Carter permitiria que continuasse o mesmo jogo de convergência com o reconhecimento de áreas de comum acordo. Em 1975, face ao desenvolvimento de novos mísseis soviéticos de alcance intermediário – com raio de ação que permitia atingir toda a Europa Ocidental – os SS-20 - a administração Carter entrara em negociações com a URSS que obviamente não levariam a lugar algum. Reagan não hesitou e pressionou os países da OTAN a permitirem o posicionamento em seus territórios, a partir de 1983, de 464 mísseis de cruzeiro (Cruise Míssils) e 108 mísseis balísticos Pershing II, simultaneamente com o estabelecimento de reuniões bilaterais para a redução dos dois lados.

Gorbachov em seu Perestroika:Novas Idéias para Meu País e o Mundo [12], afirma que após uma distensão nas relações entre os dois países na década de setenta, houvera uma rápida deterioração no início da década de oitenta, “coincidentemente” com a posse de Reagan em 20 de janeiro de 1981. Com esta brusca virada na estratégia americana, urgia alguma medida que fizesse face a ela, além do que o lançamento do programa IDS tornava a competição em armamentos previamente ganha pelos EUA, pois a URSS não tinha condições econômicas nem tecnológicas de desenvolver um sistema igual. Tentativas neste sentido exigiriam um esforço desproporcional às possibilidades soviéticas, já esgotadas ao limite máximo. A URSS estava em vias de um levante popular simplesmente por falta de comida! E isto revelaria ao mundo que o governo soviético não defendia causas populares mas apenas os interesses da casta dirigente, da Nova Classe (Djillas), da Nomenklatura.

Foi aí que se revelou a importância de uma estratégia de longo prazo, pois o passo já estava previsto desde o início da formulação da estratégia em 1958: o lançamento de uma vasta campanha de desinformação que mais uma vez desmoralizasse os sentimentos anti-comunistas, novamente em expansão na Era Reagan. Na verdade, já estava previsto desde a década de trinta e em 1931 Dmitriï Manuilsky, tutor de Khrushchov, já falava do lançamento “dentro de uns trinta anos” da mais vasta e teatral campanha pacifista: “...faremos inacreditáveis concessões. Os países capitalistas, estúpidos e decadentes cairão na armadilha pela possibilidade de fazer novos amigos e mercados e cooperarão na sua própria destruição”.

Os comunistas conhecem muito bem as fraquezas dos regimes democráticos e as exploram, principalmente duas: a dependência da opinião pública e de eleições regulares, e a mudança periódica de políticas pela mudança de governos. Como a Nomenklatura não precisa se preocupar com estas bobagens burguesas, tem tempo de planejar prevendo estas mudanças e inclusive atuar na opinião pública – através dos “formadores de opinião” - para influir nas mesmas.

É claro que uma parte desta estratégia consistia em convencer o Ocidente de que não havia estratégia alguma e condenar todos que a isto se referissem como seguidores de uma ridícula “teoria da conspiração”. Reagan já havia percebido isto, pois numa audição radiofônica de março de 1978 (op. cit.) dizia com sua fina ironia: “Muitos anos atrás, quando os americanos estavam bem conscientes das ameaças de subversão comunista, reuniu-se um grande congresso em Moscou (...) (possivelmente o referido Congresso dos 81 partidos) que adotou um plano para lutar contra o anti-comunismo. Uma parte deste plano era dirigida aos EUA e sugeria uma campanha sutil que tornasse o anti-comunismo fora de moda (...) até que os anti-comunistas viessem a ser ridicularizados como idiotas caçadores de bruxas que procuram comunistas até embaixo da cama (looking for Reds under the beds) ...vocês podem repetir isto mas, por Deus, não lhe dêem o nome de conspiração!.(...) Qualquer pessoa que deixe entrever em público que acredita numa ‘teoria da conspiração’ estará se jogando no mar sem salva-vidas”.

Tomando emprestada uma expressão do General Golbery do Couto e Silva, as relações dos EUA com os países comunistas sempre se pautaram por “sístoles” e “diástoles”, enfrentamento e pacificação, correspondendo aproximadamente, mas não exatamente, às administrações Republicanas e Democratas. Os soviéticos, e hoje os chineses, estão preparados para mudar sua tática de acordo com estas mudanças, porém perseguindo os mesmos objetivos estratégicos.

A Perestroika (que abordarei com mais detalhes num próximo artigo) não passou de uma continuação da mesma estratégia que se desenvolve desde 1958. Como já disse anteriormente, o termo re-estruturação não se aplica à aparência de “profundas” transformações no mundo comunista, mas exclusivamente da visão que o Ocidente tem do mundo comunista, fazendo acreditar na dissolução da ideologia comunista e no fim da Guerra Fria, removendo o “inimigo soviético” das mentes ocidentais, principalmente nos EUA. Eliminando-se o anti-comunismo elimina-se a necessidade de armamentos, pois estes não têm sentido sem “inimigos”. Golitsyn já previra em 1961 a possibilidade de ser derrubado o muro de Berlim, uma troca teatral de dirigentes (a tentativa de golpe contra Gorbachov para dar a ele mais credibilidade) e a proscrição do Partido Comunista na URSS, o que veio a ser feito por Boris Yeltsin.

Estas ações bombásticas serviam primordialmente para criar a impressão de que a burocracia soviética estava se tornando mais democrática e ocidentalizada, influenciando o Congresso americano a introduzir mudanças reais na burocracia americana, inclusive e principalmente na CIA, e diminuir os orçamentos das Forças Armadas, Estratégicas e de Segurança – antes de tudo convencer o Congresso americano a paralisar o programa “Guerra nas Estrelas”, e criar condições para real cooperação entre a KGB e os serviços ocidentais correspondentes. No entanto, os velhos membros do PC e do Komsomol se incorporaram nas novas estruturas “democráticas”, portanto não houve extinção do PC - mas redistribuição dos seus quadros – e muito menos do KGB, que apenas trocou de nome, pondo na clandestinidade os agentes de maior valor, enquanto se desenvolvia o processo de substituir Yeltsin por um confiável chekista (apelido dos remanescentes dos diversos órgãos de segurança), que veio a ser Vladimir Putin, que interrompeu a abertura dos arquivos secretos, liquidando assim com a outra pérola a ser vendida ao Ocidente: a glasnost, transparência, que já era muito limitada.

Dentro da URSS nada mudara no essencial. O KGB recebeu novas tarefas, renunciando totalmente ao aspecto repressivo anterior como o padrão que o identificava. Passou a exercer o comando e controle da guerra psicológica e de desinformação, criando uma falsa oposição controlada dentro da URSS e neutralizando e dissolvendo os movimentos oposicionistas genuínos. Recrutou escritores, cientistas, diretores de teatro e cinema, jornalistas, estimulando-os a seguir linhas ideológicas antes proibidas, criando uma falsa dissidência, com a intenção de auxiliar a estratégia de convergência já referida. Para a repressão o regime passou a contar com um “exército” de 5 milhões de druzhiniï (vigilantes) e dos ativistas do Komsomol (juventude comunista), liderados por antigos chekistas. Ensaiou-se, nos mesmos moldes, uma controlada liberação religiosa, com agentes-sacerdotes que, penetrando nas diversas religiões, iniciaram o contato com seus congêneres ocidentais. Como conseqüência, por volta de 1980 não havia mais nenhum movimento democrático ou nacionalista genuíno.

Além da campanha contra o anti-comunismo e o abandono da ditadura do proletariado e sua substituição por um “governo de todos”, houve também uma mudança de foco que ajuda a confundir a “oposição”, e dissimular a estratégia, fornecendo combustível para os idiotas úteis continuarem acreditando que o comunismo acabou. Como a ideologia é totalmente amorfa e protéica, adaptando-se a qualquer necessidade, pois o que interessa é manter a Nova Classe no poder, o foco classista – ideologia do proletariado – que já havia mudado sutilmente para a “defesa da paz” e posteriormente para a “defesa dos direitos humanos” - mais uma vez encontra “excluídos” e “oprimidos” para defender: as “minorias” raciais e sexuais, os doentes mentais (vide movimento anti-manicomial), os aidéticos, os drogados e quem mais sirva para seus propósitos. Até as minorias religiosas servem, embora variem de país para país. Acaba se transformando numa “ideologia dos esquisitos” [13], dos que se sentem anormais – fora das normas sociais – os alternativos, todos os que odeiam a normalidade e a liberdade e se sentem por elas oprimidos. Ao invés de tentarem se adaptar ou aceitar o mundo como ele é, encontram na velha ideologia do proletariado as ferramentas de ataque às normas para obrigar às maiorias a se curvarem à anormalidade, à esquisitice, a formas “alternativas” de qualquer coisa, enfim, acreditam que destruindo a tão odiada normalidade livrar-se-ão do terrível sofrimento que os oprime. Triste ilusão. E triste fim para a outrora tão "gloriosa e heróica ideologia do proletariado"!

* * *

É impressionante o sucesso obtido por esta maluquice em poucas décadas em todo o Ocidente, mormente nos EUA aonde a estratégia encontrou eco consciente, de má fé, numa intelectualidade hipócrita que parou de pensar quando buscou os rendosos empregos nas Universidades e nas Fundações, ficando abjetamente aos pés dos metacapitalistas em busca de poder através da destruição da própria sociedade que os gerou e agora não mais lhes interessa. Interessa o poder mundial, tomar conta da ONU e de todos os organismos internacionais – e para tal encontraram bravos cúmplices na Nova Classe comunista que financiam largamente através das mesmas Fundações multimilionárias – Ford, Rockfeller, Soros, Tides, IANSA – entre elas a Fundação Internacional para a Sobrevivência e Desenvolvimento da Humanidade, para pesquisa sobre o meio ambiente, poluição, direitos humanos, controle de armas – desarmamento dos cidadãos de bem - e desenvolvimento econômico no sentido socialista, e outras joint-ventures USA-URSS que persistiram após a “queda do muro”. Basta ver como certos sensos comuns se solidificaram de tal maneira que parecem sempre haver existido, como por exemplo, a de que o crescimento econômico só se justifica se houver “distribuição de renda”, eliminando o sentido capitalista anterior de crescimento pelo desejo de ter mais que foi o que realmente ajudou a diminuir a pobreza no mundo, pois significa investimento produtivo e empregos na iniciativa privada, que ofende àqueles que aspiram ser apenas funcionários privilegiados da Nova Classe de um opressivo governo mundial. Não passa um mês sem que a ONU ou suas congêneres e afiliadas não publique um relatório mostrando que, “apesar do crescimento, aumenta a desigualdade e a injustiça social”.

O pior é que sua influência se faz sentir desde a infância para formar pequenos robôs a seu serviço. É estarrecedora a re-estruturação da educação americana: incutem desde os primeiros passos a idéia da necessidade de uma total transformação da Sociedade, equacionam cidadania americana com interdependência internacional, cidadania mundial, global. O Bem deixa de ser um alto valor moral tradicional para ser apenas sinônimo de global.

A expressão pessoal máxima destes fenômenos é Mikhail Sergeyevitch Gorbachov e sua crescente influência nos negócios mundiais. Mas a verdade seja dita: Mikhail Sergeyevitch disse claramente o que pretendia. Já nas primeiras páginas de seu livro (op. cit.) deixa claro que a fonte ideológica da Perestroika não é nada de novo, mas um retorno a Lenin: “Lenin continua a viver nas mentes e corações de milhões de pessoas. (...) Voltar-se para Lenin estimulou grandemente o partido e a sociedade em sua busca por explicações e repostas às questões que surgiam”. Só não leu quem não quis.

A SEGUIR: A OFENSIVA NA AMÉRICA LATINA E O EIXO DO MAL

[1]Principalmente A América Dividida – Parte II e Este é John Kerry.

[2]Assunto também já abordado em A América Dividida – Parte I.

[3] http://www.aip.org/history/sakharov/reflect-text.htm

[4]http://www.thirdworldtraveler.com/Human%20Rights%20Documents/Kirkpatrick_HRPolicy.html

[5]Edward Walsh, Carter Stresses Social Justice in Foreing Policy, Washington Post, 23 de maio de 1977.

[6] Cit. Em Monica Charen, Useful Idiots, Regnery Publshing, 2003.

[7] Cit. por Ann Coulter in Treason: Liberal Treachery from Cold War to the war on terrorism, Three Rivers Press, 2003.

[8] Para maiores esclarecimentos acesse CNN.com

[9] Modern Times: The World from the Twenties to the Nmineties”, Perennial, NY, 2001.

[10] Extraído de Reagan in His Own Hands: The Writings or RR that Reveal his Revolutionary Vision of America, compilação, seleção e comentários de seus textos por uma equipe da RR Presidential Foundation, Touchstone, NY, 2002.

[11] To Preserve and Protect: The Life of Edwin Meese III, The Heritage Foundation, 2005.

[12] Editora Best Seller, São Paulo, 1987.

[13] David Horowitz, The Politics of Bad Faith, Free Press, 1998.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".