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sexta-feira, 4 de maio de 2012

O DESCONSTRUCIONISMO MODERNO E A LEGITIMAÇÃO DA MENTIRA

 

STATO FERINO

Publicado por Stato Ferino em maio 3, 2012

O Desconstrucionismo, dizem, foi um movimento filosófico moderno caracterizado pela busca da verdade a partir da “desconstrução” do objeto em estudo. Seria este seu núcleo essencial metódico, sua diferença específica basilar. No entanto, não tão dito mas muito mais evidente é o fato de que sempre resta certa perplexidade quando propõe-se a demarcação das reais e efetivas fontes de tal escola, sensíveis desde Nietzsche, mas maduras apenas no âmbito cultural do que alcunhou-se “Escola de Frankfurt”  (corpo doutrinário cuja existência mesma, por sua vez e também, é ainda mais discutível).

De fato, a única consideração certeira e irrefragável a respeito da doutrina desconstrucionista é que, a despeito de seu arrogado status de sistema de análise fragmentada da realidade, como única via para a acepção da plenitude da mesma, acabou por manifestar a inesperada conclusão, produto de seu método, nos seguintes termos, mais corriqueira e celebremente aplicados às artes plásticas: cada um tem a sua interpretação da obra; cada um, seu ponto de vista; cada qual, sua verdade, jamais uma ilusão ou uma mentira, ainda que diametralmente dissonante de qualquer das verdades alheias.

Extirpa-se do convívio humano, desse modo tão simples quanto convenientemente, a relação secularmente dicotômica entre os pares falso/verdadeiro, ilusório/real, mentiroso/honesto. O procedimento é o mais primário possível: com uma pinça filosófica matreira, suspende-se das díades seus primeiros termos, não mais possíveis nessa “nova (e flexível) realidade”. Em seguida, atira-se-os no latão de lixo que guarda as verdades malquistas pela novilíngua – hoje menos ficta que real – possível apenas com a proliferação do desprezo desconstrucionista para com a verdade.

O aparente absurdo da conclusão, no entanto, não se conforma à mera condição de desconforto lógico superficial. Trata-se, em verdade, do produto puro, natural e inevitável dessa tradição.

Nesta altura, tal conjunto de considerações sobre o desconstrucionismo permite-nos subsumi-lo com perfeição ao conceito de “Paralaxe Cognitiva”, construído pelo filósofo Olavo de Carvalho, e assim definido: trata-se do “afastamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real do indivíduo que está fazendo essa construção”.

Transbordando o núcleo de nosso tema, convém narrar a revolução filosófica (cujo substrato maior foi precisamente a postura paralaxitante de seus filhos) que permitiu a mesma existência da tradição desconstrucionista.

Ocorre que, a partir de certo momento histórico, deu-se tal ruptura no caminho trilhado pela filosofia ocidental, até então mansa para com toda verdade que a seus olhos saltasse. Com efeito, podemos ver cristalinamente que filósofos como Aristóteles, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho teorizavam com os olhos postos diretamente sobre a natureza que os circundava, cientes de sua inserção nessa mesma e peremptória natureza, e não como donas de casa distraídas diante do Discovery Channel, transmutável em novela das oito com um clique no controle-remoto.

Observava-se, de dentro, como quem dentro se encontra; depois, tão de dentro quanto antes, mas como quem fora e acima sempre esteve.

Com o Racionalismo, o contraste entre consciência situacional e ponto de vista lunático acentuou-se e enrijeceu-se . Descartes, com a “dúvida universal”, põe-se como observador distante da natureza. Spinosa e Leibniz também deram continuidade a esse novo caminho, com a readaptação da Teoria dos Dois Relógios e com a Teoria do Conhecimento. Com Bacon, a universalidade do empirismo foi posta como critério padrão da Verdade; e uma rede de legitimação da mentira, travestida de critério de busca do real, firmemente estabelecida.

Retornando à contemporaneidade, vemos com certa freqüência o uso das expressões “cada um tem sua verdade”, ou “a verdade é relativa”. Numa tentativa covarde de fuga de discussões, o ser humano tem se posto acima da própria natureza, outorgando a si mesmo como que um título deístico, capaz de fazer nascer uma realidade desprovida de fontes anteriores e palpáveis.

Essa empreitada de arrogância, como vimos, estende-se de há muito.

Assim Descartes, ao duvidar de tudo, esvaziando-se por completo de qualquer conhecimento prévio, constrói o mais puro absurdo. É que o estabelecimento mesmo daquilo que seria o primeiro enunciado da verdade, “penso, logo existo”, já o faz circundar por um terreno que é, pura e simplesmente, de domínio do real.

Spinosa, da mesma forma, acaba por se contradizer ao afirmar que tudo está dentro de Deus, ora entendido como a totalidade da Natureza. Tudo estando imerso na realidade metafísica, como o indivíduo pode pretender analisar a natureza como observador externo? Vale dizer, fora de si mesmo?

De seu turno, o Empirismo, ao tentar estabelecer a experiência como critério único da verdade, incorre em erro deveras psicótico. Senão, o que significa a parte da realidade que não pode ser submetida (ou simplesmente não foi) ao teste da experiência ? Ou, a despeito de qualquer outra fonte informativa, deve alguém afirmar seguramente a  inexistência da China por jamais ter posto os pés em seu solo?

No seio da própria realidade Cristã, a qual aceita em Cristo a verdade absoluta, o tal desconstrucionismo tem emprestado ares de modernidade a padres e pastores. O que se chama de “Teologia Aberta”, fortemente defendida por pastores amparados num Rabino de nome Harold Kuschner, trás a idéia de um deus posto como espelho ante o indivíduo. Um deus que se amolda às carências e percepções de cada um. Um deus, por conseguinte, relativo, ele sim moldado à imagem e semelhança desses tantos lunáticos que obtêm seis da soma de quatro com um.

E assim, paulatina e deliberadamente, é que vemos nascer a aberração filosófica que permeia nossos dias. Aberração esta muito visível, para ficarmos com exemplos recentes, nas peripécias de um tal cartunista que, a despeito de provido dessas duas bolas que temos todos, exige livre acesso ao banheiro das damas; também na recente metamorfose do termo “Estado laico” em “Estado ateu”, mágica essa operada em conjunto por uma associação de lésbicas e pelo Poder Judiciário, com a fito de que se retirassem todos os crucifixos fixados nos tribunais gaúchos; quanto aos direitos humanos que com grande paixão atribue-se a bois, papagaios e cachorros, cremos prescindíveis quaisquer comentários.

Nesse sentido é que o desconstrucionismo trás seus males para contemporaneidade. Hoje já se mostra maduro o suficiente seu mais importante fruto: a possibilidade ilimitada de manipulação automática  da realidade ao bel-prazer de um homem-deus, que se julga acima e fora daquilo tudo mesmo que é mais evidente a seus sentidos e a seu intelecto.

No âmbito do Direito, temos um reflexo irreversível da “revolução silenciosa” operada pelo desconstrucionismo. Ocorre que as Cortes, donas da verdade contra todos, têm cada vez mais se preocupado em cumprir ritos que buscar a materialidade dos fatos. Um indivíduo é evidentemente culpado, mas por contra da mais boboca nulidade procedimental é livrado de uma sentença que o doa no bolso ou nos ossos. Quanto à doutrina e à academia, continuam seus doutores imersos numa chacina cada vez mais cega, em que se quer moldar já quase defunta natureza aos conceitos, e não vice-versa.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
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" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".