Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.
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segunda-feira, 3 de março de 2008

O cume do progresso humano

Do portal do OLAVO DE CARVALHO
Olavo de Carvalho no Diário do Comércio, 04 de fevereiro de 2008

Freud costumava dizer que a história da mente ocidental tinha sido marcada por três derrotas humilhantes impostas sucessivamente às presunções do ego humano: primeiro, Copérnico demonstrara que o planeta que habitamos não é o centro do universo; depois, Darwin ensinara que o homem não é um ente superior, mas apenas um animal entre outros; por fim, o próprio Freud trazia a prova de que a consciência individual não é sequer a dona de si própria, mas o joguete de forças inconscientes.

A idéia do progresso do conhecimento como uma troca de ilusões grandiosas por verdades cada vez mais deprimentes impregnou-se tão profundamente na cosmovisão das classes letradas, que outros episódios da história das idéias foram interpretados de acordo com ela, quase que por automatismo. Entre Copérnico e Darwin, Newton e Galileu haviam ensinado que nossas impressões do mundo sensível são subjetivas e enganosas, só as quantidades mensuráveis podendo ser objeto de conhecimento certo, e Kant demonstrara a impossibilidade de saber algo de positivo sobre Deus e a imortalidade da alma. Entre Darwin e Freud, Marx evidenciara que a própria história das idéias não é senão a exteriorização aparente de interesses econômicos camuflados, Comte oficializara a proibição de perguntar sobre aquilo que não podemos conhecer pelos métodos da ciência newtoniana, e por fim um contemporâneo de Freud, Max Weber, tirara disso a mais letal das conseqüências: não só o bem e o mal são escolhas arbitrárias, mas o próprio conhecimento científico não é possível sem alguma escolha arbitrária inicial.

Nas décadas seguintes, o rebaixamento da espécie humana prosseguiu implacavelmente. O behaviorismo substituiu a noção mesma da “psique” por um conjunto de reflexos condicionados não muito diferentes dos que determinam a conduta de um rato ou, em última instância, de uma ameba. O estruturalismo e o desconstrucionismo aboliram a noção marxista do sentido da História como um resíduo das ilusões humanistas. A genética, a neurofisiologia, os modelos informáticos do cérebro e a psiquiatria de base farmacológica reduziram a nada as pretensões da própria psicologia freudiana. A ecologia mostrou o ser humano como um bicho mal comportado e destrutivo, prejudicial à natureza. Por fim, o filósofo Peter Singer promoveu os frangos e porcos a titulares de direitos humanos, em pé de igualdade até com uma criatura sublime como ele próprio.

Assim vieram caindo, uma a uma, as “ilusões narcísicas” -- como as chamava Freud – de uma espécie animal que ousara se proclamar imagem e semelhança de Deus. A história das idéias científicas, vista sob esse aspecto, é uma história da humildade intelectual.

Mas aí há três problemas.

O primeiro é que nem todas as teorias incluídas nessa narrativa são igualmente verdadeiras. Galileu fez do Sol o centro do universo, e não só do sistema solar. Marx jurava que o capitalismo iria restringir o mercado, em vez de expandi-lo. O evolucionismo continua em estado de hipótese discutível. E a psicanálise se desmoralizou tanto que Lacan, para tentar salvá-la, teve de descobrir nela uma parte inconsciente e dizer que esta, e não aquela que Freud conhecia, era a genuína psicanálise. Não tem sentido equalizar verdades científicas, erros medonhos e fantasias idiotas como degraus ascendentes de uma escalada cognitiva.

Segundo problema: cada um dos degraus dessa pretensa escalada foi galgado à custa de alguma falsificação monstruosa dos dados históricos. O esquema usado foi sempre o mesmo: embutir à força, em alguma doutrina passada, significados totalmente estranhos à época em que foi enunciada e à mentalidade de seu autor.

Copérnico nunca imaginou que o heliocentrismo tirasse “o homem” do topo do universo criado. Esta interpretação foi inventada um século depois por Giordano Bruno. E, àqueles que pretendessem tirar daí alguma conclusão materialista, o próprio Bruno advertia: façam isso, e se tornarão estúpidos ao ponto de duvidar da sua própria existência (isto veio a acontecer literalmente quando o desconstrucionismo apregoou a “inexistência do sujeito”).

A doutrina darwiniana, ao colocar o ser humano no cume da evolução animal, não podia ao mesmo tempo rebaixá-lo ao nível de um bicho qualquer. A palavra mesma “evolução” exprime uma subida de nível, não uma descida. Isso deveria ser óbvio à primeira vista, mesmo sem a ajuda dos parágrafos finais de A Origem das Espécies , que celebram a ascensão evolutiva como uma obra divina de intelligent design (oh, horror!).

A doutrina freudiana, sim, parece rebaixar o ser humano, na medida em que reduz a consciência a um produto de fatores inconscientes. Mas, se a passagem para o nível autoconsciente resultava da destruição das ilusões narcísicas da infância, como poderia a destruição de mais uma ilusão ser um rebaixamento e não uma subida? O próprio Freud jamais desistiu da aposta em que o Ego terminaria por absorver e superar o Id, nisto consistindo, aliás, a promessa central da psicanálise. Ao falar de rebaixamento das pretensões humanas, Freud usou de uma figura de linguagem que enfatizava unilateralmente um só aspecto da sua própria obra, omitindo a compensação dialética da qual estava perfeitamente consciente. E fez o mesmo com os ensinamentos de Copérnico e Darwin para transformar os dois, à força, em precursores dele próprio.

Daí por diante, fazer história das idéias mediante analogias extemporâneas tornou-se moda universal, rebaixando a compreensão pública do passado a uma sucessão de fofocas de cortiço contra a dignidade humana. O resumo enciclopédico dessas fofocas constitui a visão histórica vigente, como um dogma de fé, nas cabeças de praticamente todos os nossos contemporâneos. Ela ressurge diariamente em editoriais de jornal, discursos parlamentares e redações de escola, com unanimidade global, e serve de argumento para justificar decisões políticas, econômicas e estratégicas, bem como para arbitrar discussões domésticas e dar aparência de coisa importante a teses universitárias sem pé nem cabeça.

O terceiro problema é que nenhuma daquelas descobertas alegadamente humilhantes tornou a intelectualidade mais humilde. Ao contrário: cada uma delas foi celebrada como uma vitória da razão e das luzes contra as trevas do passado, daí resultando efusões de orgulho cada vez mais demenciais e reivindicações de poder cada vez mais ilimitadas.

Copérnico e Newton serviram de argumento para os revolucionários de 1789 concentrarem mais poder em suas mãos do que qualquer tirano da antigüidade e matarem mais gente em um ano do que a Inquisição matara em três séculos.

O positivismo e o cientificismo deram nascimento a inumeráveis ditaduras iluminadas, algumas das quais entendiam a matança de padres, freiras e índios (especialmente cristianizados) como uma expressão superior da racionalidade humana.

O marxismo, não preciso nem falar. Quem não conhece o “Livro Negro do Comunismo”? Os feitos bárbaros que ele descreve seriam monumentos à humildade intelectual?

O behaviorismo e escolas psicológicas subseqüentes desenvolveram nos seus praticantes a ambição de moldar o comportamento alheio como se fosse um produto industrial. A ecologia reforçou essa ambição, criando projetos de controle global que determinam até o que você pode ou não pode comer e obrigam você a preencher uma pilha de formulários para colher um cacho de bananas.

Eric Voegelin chamava “historiogênese” a visão simbólica da história como um processo ascendente que, culminando na pessoa do narrador, fazia da sua época a suprema detentora do conhecimento humano. Inicialmente ele pensou que esse esquema fosse uma invenção da modernidade, mas depois descobriu que isso já existia no antigo Egito e na Mesopotâmia. A historiogênese é um cacoete mental deformante que reaparece em todas as épocas, graças à incoercível tendência do ser humano para fazer de si próprio o umbigo do universo.

A modernidade só acrescentou a isso o detalhe especialmente ridículo de que ela descreve a ascensão gloriosa que conduz até ela própria como um processo de autolimitação racional e humildade intelectual crescente. Com isso a concepção umbigocêntrica da história tornou-se caricatura de si própria, nisto consistindo a suprema glória intelectual dos tempos modernos.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

150 anos de Freud - ou colocando o cara que se sentia "mais como um conquistador do que um homem de ciências" no seu devido lugar

Do site do NIVALDO CORDEIRO

Primeiro umas palavrinhas do Cavaleiro do Templo:

Quem está doente por achar-se o centro do Universo (ou seja aqueles(as) que olham no espelho, vêem rugas e caem em desespero, olham para a bunda (minha ex fazia isto e era psicóloga (!!!)) e entendem ser um desatre inominável ela estar "caindo", os que precisam ter 3 Ferraris na garagem para se sentirem machos reprodutores aptos a copularem com mulheres e por aí afora) não poderiam deixar de adorar Freud e seus discípulos como Lacan, o cara que "comia" mulheres casadas, fazendo filho com elas, inclusive. Afinal, pela primeira vez, a razão explicava tudo!!!

Olavo (de Carvalho) já disse que quando Aristóteles falava sobre alguma coisa, você podia ver que ele realmente vivia e fazia aquilo que ele falava. Ou seja, SUA VIDA EXPRESSAVA SUA CIÊNCIA. Lacan é adorado por muitos da área. Como pode? Digo, se você quer fazer alguma coisa contrária à ética ocidental, pelo menos faça em sigilo total. Evidentemente isto não melhora nada, talvez até piore pois à conduta é somada a mentira e falsidade. Falo em ética pois os profissionais da área dizem ser anti-ético ENVOLVEREM-SE EMOCIONALMENTE com seus "clientes". Mas comer poderia, então? Que p***a é esta???

Eu imagino Lacan, por exemplo, tentando ajudar algum paciente (vamos corrigir isto de uma vez: são CLIENTES os que deitam no divã e não PACIENTES) com problemas em casa, com a esposa ou o marido. O que um canalha como este diria para esta pessoa, se não tinha respeito (e não escondia isto, seus atos o denunciam) algum pela coisa chamada família?
Olavo chama isto de paralaxe cognitiva. O sujeito fala uma coisa e faz outra que "mata" o que ele disse.

Daqui a pouco iremosa ao texto do Nivaldo. Adorei porque coloca o mané do Freud no seu devido lugar, bem abaixo do que ele achava que ocupava. Não que seja um idiota completo. Mas o cara se achava um conquistador... Eu entendo como conquistador aquele sujeito que, ao conquistar, impõe goela abaixo dos CONQUISTADOS o que ele acha certo.
*****

150 anos de Freud
07/05/2006

Pode-se questionar a obra de Freud de muitas formas, a começar pela discutível obtenção de resultados terapêuticos da psicanálise aplicada, pelos métodos de pesquisa que não resistem a um exame poperiano, pelos reducionismo absurdo à questão da sexualidade enquanto gênese do “mal estar da civilização”. Endosso todas essas críticas. Pode-se inclusive alargá-las na abordagem que ele fez do problema das religiões, algo inaceitável sob todos os aspectos, errada.

Ele tem, todavia grandes méritos. Além do notável escritor, Freud contribuiu decisivamente para a ciência da psicologia, trazendo-a para o centro dos debates. Entendo que Freud, o freudismo e as diversas psicologias dele derivadas refletem uma necessidade dos tempos. Freud foi a resposta da razão aos problemas da unilateralidade que o Ego alcançou com a modernidade, especialmente na sua dimensão filosófica. Com o trio Descarte, Kant e Nietzsche o Ego foi elevado ao centro criador da própria realidade, assassinando-se Deus no processo. No âmbito da ciência, as conquistas da astronomia, da física, da matemática e a teoria da evolução pareciam dar a certeza de que a mente era o centro de tudo e que a “hipótese de Deus” era uma relíquia bárbara de povos incultos. Destruiu-se assim a metafísica, todo o saber acumulado por milênios por homens extraordinários foi declarado falso.

O filho do Homem passou a ser o demiurgo solitário a comandar a própria realidade, a literalmente criá-la. O despertar de cada dia passou a ser uma recriação contínua das coisas na cabeça desses homens arrogantes, para quem o Universo era mental. Penso, logo tudo existe foi o reducionismo absurdo contra o qual Freud sublevou-se. Do suposto Universo mental adveio o relativismo moral, a falsificação do direto natural, a contra-cultura da Nova Era, o relativismo do próprio saber. Afinal, o saber científico é, por definição, provisório e destinado a ser superado. E, pior, o projeto de aperfeiçoar a natureza humana pela engenharia social, de triste e macabra memória.

A sua abordagem propondo levar a sério a interpretação dos sonhos, à moda do Antigo Testamento, fez desmoronar as certezas todas. O filho do Homem, por Freud, descobriu que não era senhor de sua própria casa, que havia uma falha essencial ao alcance da observação direta de cada um, que ninguém havia levado em conta entre os modernos: o inconsciente. Mas Freud o postula tentando manter uma abordagem racionalista e cientificista e não notou que lutava precisamente contra essa unilateralidade dos tempos modernos. A palavra inconsciente (ou subconsciente, o que é ainda pior) é, ela mesma, uma forma de depreciar o desconhecido mais conhecido de todas os tempos, o elemento transcendente. Freud “descobriu” que boa parte da nossa vida é passada a dormir e os processos psíquicos continuam nesse estágio da vida, a despeito da morte aparente do Ego, que ressurge ao despertar. Provocou uma revolução epistemológica.

Mas há uma segunda coisa importante na obra de Freud. Ele descobriu que o Ego inflado precisava de terapia, que o filho do Homem estava mentalmente doente e era uma doença de toda a civilização. Também pudera, com a inflação desmedida a equipará-lo a Deus, fez-se necessário que alguém de gênio viesse dizer que havia algo escuro, elementar, irracional sobre o qual se assentava o Ego, de um lado, e, do outro, que havia a necessidade de se buscar um equilíbrio, uma ordem psíquica e que, para tal, o demiurgo orgulhoso deveria fazer uma confissão das suas faltas, deitar-se frágil no divã, entregar a alma – o Ego ele mesmo – a outrem para trazê-la de volta à realidade. Deitar-se no divã equivale a uma genuflexão dos tempos medievos no confessionário. É preciso dizer que Freud foi sensacional nesse intento e nos legou um caminho para a prática da mais difícil das virtudes, a humildade. Desde então as cabeças coroadas, os homens de ciência, as personalidades célebres tiveram um meio de descer de suas falsas alturas e enfrentar a pequeneza própria dos seres criados sem fazer o sacrifício de entrar em um templo religioso.

Mas foi um homem do seu tempo, tentando falar em linguagem científica para os cientistas. Vivia-se a plena ditadura dos laboratórios. A metafísica havia sido suplantada pela física, morreu. Filósofos haviam se rebaixados à condição de epistemólogos dos pesquisadores, especialmente dos físicos. Seu grande mérito não foi maior porque, voltando aos tempos dos profetas com as suas interpretações de sonhos, desconheceu que é sabedoria imemorial que esse é um dos caminhos pelo qual o Criador “conversa” com a criatura. Seu materialismo, seu desprezo ao religioso, seu repúdio ao judaísmo e às religiões em geral mostram a mais viva contradição que um homem de gênio poderia enfrentar. Deve ter sofrido muito, pois o abismo em que viveu deve ter sido insuportável. Ele fez o diagnóstico, apontou a falha essencial, soube retornar nos próprios passos da humanidade em busca do caminho. Mas, infelizmente, ficou prisioneiro dos preconceitos do seu tempo, que ajudou a combater, em paradoxo formidável.

Hoje é um dia especial. Que Deus o tenha.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".