Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dá para acreditar que existe algum genocídio contra homossexuais?

JULIO SEVERO
16 de março de 2011

Don Hank
Há alguma ameaça de que os gays nos países ocidentais logo sejam exterminados por bandos de homófobos perigosos?
Pergunta muito ridícula, né?
Não, os gays gozam privilégios especiais aqui no Ocidente. Em San Francisco eles têm liberdade de vagar pelados pelas ruas durante a parada do orgulho gay na Folsom Street, praticando reais atos sexuais em público sob a total vista de desafortunados espectadores, inclusive crianças, que tiveram o azar de topar com esse cenário. (Não vou dar os links das fotos dessa perversão, mas se você quiser confirmação, basta buscar no Google usando as palavras chaves: folsom street gay pride ou coisas semelhantes).
Entretanto, muitos governos ocidentais estão aflitos com a “condição horrível” dos gays, ao mesmo tempo em que cristãos no mundo inteiro estão perdendo o direito de dar testemunho sobre a cura e o poder redentor de Deus por meio de Jesus Cristo. A agenda desses tiranos que nos governam mediante furtivas manobras fabianas sem nosso consentimento é evidente para todos os que têm pelo menos metade de um cérebro: Eles estão ansiosos para acabar com a cultura cristã tradicional — aliás, qualquer cultura minimamente decente que inclua o casamento tradicional, a lei e a ordem.
Enquanto isso, os novos governos “democráticos” no Oriente Médio massacram suas populações cristãs, enquanto gozam apoio total de quase toda a classe dominante — essa oligarquia que maneja um poder cada vez mais ditatorial através dos grandes meios de comunicação, universidades, sistema “educacional” e a vasta maioria das classes profissionais, e nossa própria classe dominante finge se importar profundamente com a perseguição aos gays.
Logo depois que o governo americano invadiu o Iraque, as igrejas cristãs assírias começaram a ser queimadas e suas congregações perseguidas, assassinadas e dispersas. Muitos agora vivem na Suécia. O governo americano não disse nada, fingindo que o único inimigo era o “terrorismo”, não o fanatismo islâmico. Os cristãos coptas no Egito estão neste momento sofrendo destino semelhante, graças em grande parte à colaboração do Ocidente. As forças armadas do novo governo “democrático” egípcio apoiado por Obama e pelos líderes da Europa atacaram um monastério copta logo depois que Mubarak foi derrubado da presidência, baleando e matando vários monges. A Irmandade Muçulmana, apoiada por Barack Obama, está por trás da matança e perseguição. A imprensa ocidental está de boca totalmente fechada.
Mas os meios de comunicação e a oligarquia nos dizem que são os gays que estão sendo perseguidos e estão em necessidade extrema de nossa proteção. É mentira. Os gays não estão sofrendo nem mesmo a fração de um por cento da perseguição que os cristãos estão sofrendo no mundo inteiro. No entanto, eles são a nova classe protegida, e governos como o do Brasil estão correndo para ajudá-los como se eles tivessem sido vítimas de um tsunami, terremoto e desastre nuclear.
Na maioria dos países, ninguém ousa mencionar que o estilo de vida deles provoca doenças como a AIDS ou outras DSTs. Ninguém pode nem mesmo dar um conselho e assistência para ex-gays ou pessoas com atrações indesejadas de mesmo sexo. Meu amigo brasileiro Julio Severo foi forçado a deixar sua pátria porque aconselhava os homens a vencer a homossexualidade e viver vidas seguras, saudáveis e morais.
Ele estava lhes oferecendo valiosa assistência.
Mas a liderança de extrema esquerda do Brasil, começando com o ex-presidente Lula e agora continuando com Dilma Rousseff (que é mais venenosamente anticristã e é uma ex-terrorista envolvida no assassinato de várias pessoas, inclusive um americano), diz que é ilegal ajudar os homossexuais a vencerem seu estilo de vida.
Qualquer pessoa que está nesse estilo de vida está praticamente enjaulada, por lei, pelo resto da vida.
Qualquer homem que deseja abandonar o sexo anal, por motivos de segurança, fé ou moralidade, ou quaisquer que sejam as razões, é aconselhado a deixar o Brasil.
Não há espaço para a decência no Brasil, que vem passando por um perfeito bombardeio de malignidade ultra-marxista e não tem como sair desse rumo. O resto do Ocidente está seguindo a mesma tendência.
E a maioria dos americanos (e europeus) não está atenta à tragédia moral que está se revelando no Brasil.
É hora de despertarmos e procurarmos conhecer as pessoas que vivem no mesmo hemisfério que nós. É hora de aprendermos uma nova palavra no vocabulário: Não.
Não conosco. Não com meu país.

Mais detalhes sobre Julio:

Julio Severo provocou um “terremoto” quando alertou as igrejas e a sociedade do Brasil sobre a agenda gay e sobre a reversibilidade do imoral estilo de vida gay.
Ele é o autor do livro “O Movimento Homossexual”, publicado em 1998 pela Editora Betânia. Seu livro foi o primeiro livro em português a desmascarar as intenções do movimento gay.
Em 2007, quando ele ajudou a conscientizar o público sobre o PLC 122, o projeto de lei “anti-homofobia”, os ativistas gays começaram a ameaçar a Editora Betânia, que abandonou o livro sob essa pressão. Os ativistas também entraram com ações contra Severo. Desde então, o MPF vem tentando amordaçá-lo e bloquear seus artigos.
Provavelmente, eles nada podem fazer contra ele agora, pois ele está longe do Brasil. Mesmo assim, a maior organização gay do Brasil, que recebeu apoio de Hillary Clinton para ter credenciamento oficial na ONU em 2010, está buscando achar sua localização. Essa mesma organização, a ABGLT, também entrou com ação contra ele.
Blog Julio Severo:

Brasil fora de ranking mundial de universidades

BLOG DO NOBLAT
11.03.2011 | 02h15m

País foi o único dos Brics a não figurar em lista de cem instituições com melhor reputação

O Brasil não tem nenhuma instituição entre as cem universidades com melhor reputação no mundo, segundo ranking elaborado pela organização britânica Times Higher Education, referência na área.

A Universidade de São Paulo (USP) só aparece na 232 posição, e acabou representando todas as instituições da América do Sul. O país foi o único dos Brics — grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China — a não figurar entre as cem melhores do ranking, que colocou a Universidade de Harvard no topo, com pontuação máxima em todos os critérios.

O ranking foi feito com base numa pesquisa com mais de 13 mil professores de 131 países. O resultado reforça a posição dominante das instituições americanas — sete das dez primeiras da lista são dos Estados Unidos —, do Reino Unido e do Japão.

Entre os Brics, a Rússia aparece com a Universidade Lomonosov de Moscou (em 33). A China com as universidades Tsinghua (em 35), Hong Kong (em 42) e Pequim (em 43). O Instituto de Ciência da Índia está entre as dez últimas da lista.

A pesquisa pediu aos acadêmicos para destacar o que eles acreditavam ser o mais forte das universidades para o ensino e a pesquisa em seus próprios campos. Harvard obteve cem pontos.

As outras cinco melhores classificadas foram: Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, nos EUA); Universidade de Cambridge (Reino Unido); Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA); Universidade de Stanford (EUA) e Universidade de Oxford (Reino Unido).

O Vaticano II: Uma história jamais escrita

IPCO
7, março, 2011


Transcrevemos abaixo interessante entrevista publicada pela Revista Catolicismo, sobre um tema que ajuda a explicar a crise moral da sociedade. Como pode interessar a muitos de nossos leitores, reproduzimos abaixo, com as devidas autorizações
“O Vaticano II: Uma história jamais escrita”

A respeito do livro com o título em epígrafe, o autor, Prof. Roberto de Mattei, vice-presidente do Centro Nacional de Pesquisas da Itália e catedrático da Universidade Européia de Roma, concedeu substanciosa entrevista exclusiva a Catolicismo. Na obra, ele descreve com cores vivas e minúcias densas de significado o confronto entre a ala progressista e a ala conservadora — com a vitória da primeira — bem como as profundas e graves conseqüências do Concílio Vaticano II para a vida da Igreja e da sociedade, que se projetam até os dias de hoje.
"Foram de muita utilidade as cartas de D. Helder e os relatórios do Dr. Murillo, que descrevem os contatos do Prof. Plinio e sua equipe no Concílio"
Catolicismo — Obrigado professor por conceder esta entrevista. Sabemos que o Sr. está muito ocupado devido à polêmica que surgiu com a publicação de seu último livro O Vaticano II: Uma história jamais escrita.
Prof. de Mattei — De fato, esse livro tem suscitado amplo debate, no qual intervieram apologetas de renome aqui na Itália, provavelmente pouco conhecidos no Brasil, como Francesco Agnoli, Mario Palmaro, Alessandro Gnocchi, Corrado Gnerre, os quais se têm expresso em favor das teses que sustento. Enquanto Alberto Melloni, o atual líder da progressista e muito conhecida Escola de Bolonha, assim como outros intelectuais moderados como Andrea Tornielli, o vaticanista do quotidiano “Il Giornale”, assumiram uma posição contrária. Aliás, antes mesmo da tradução de meu livro para outras línguas, ele já está alcançando repercussão em muitos outros países, devido à reprodução em sites e blogs católicos de artigos que se ocupam dele, como um recente post do conhecido vaticanista Sandro Magister.
Catolicismo — E o público brasileiro vai poder beneficiar-se de sua leitura?
Prof. de Mattei — Creio que sim. Mas vai depender das negociações de minha editora, a Lindau, de Torino, com casas editoras de língua portuguesa. Uma das vantagens para o editor em português consistirá em que parte da documentação já está no idioma português.
Catolicismo — Justamente, o Sr. Andrea Tornielli, em sua recensão, admirou-se pelo fato de que há toda uma história “brasileira” do Vaticano II.
Prof. de Mattei — A bibliografia sobre o Concílio Vaticano II é super-abundante. Mas uma das principais fontes, para entender tudo o que sucedeu a latere da assembléia conciliar, influindo sobre ela, são os testemunhos dos participantes e dos espectadores, em particular os diários, as correspondências, as memórias. Nesse sentido, foram para mim de muita utilidade as cartas de D. Helder Câmara, recentemente publicadas, assim como os relatórios do Dr. Murillo Maranhão Galliez, que descrevem os contatos que mantiveram o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e sua equipe de 14 colaboradores, na primeira fase do Concílio.
Tais contatos contribuíram possantemente para a constituição do Piccolo Comitato de Padres conciliares de orientação antiprogressista, que depois ampliou-se no Coetus Internationalis Patrum e teve grande importância nos debates. E, inegavelmente, as almas do Coetus foram D. Geraldo de Proença Sigaud e D. Antonio de Castro Mayer, enquanto D. Marcel Lefebvre assumiu apenas o papel de figura de proa.
“D. Helder exercia a função de “eminência parda” do que ele chamava o “sagrado complô”. Além disso, organizava reuniões com teólogos progressistas”
Catolicismo — Pode-se falar, então, de um embate entre D. Helder, de um lado, e de D. Sigaud e D. Mayer do outro?
Prof. de Mattei — Todos os historiadores concordam em que D. Helder — o qual, por sinal, nunca tomou a palavra na aula conciliar — foi um dos principais orquestadores da ala progressista. Porque foi ele que, graças a sua posição de vice-presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, conseguiu arrastar os bispos latino-americanos, em geral bastante conservadores, para uma aliança com as conferências episcopais progressistas da Europa central (França, Alemanha, Bélgica e Holanda).
D. Helder era muito chegado ao Cardeal Suenens, ao qual se referia em suas cartas com o nome-código de “padre Miguel”, e que ele considerava “o chefe mundial do progressismo”. Os dois encontravam-se todos os dias e dividiam o trabalho entre si: Suenens na aula conciliar (ele era um dos quatro Moderadores, além de membro da Comissão de coordenação) e D. Helder atuava nos corredores, onde exercia a função de “eminência parda” do que ele chamava o “sagrado complô”. Além disso, organizava conferências e reuniões na Domus Mariae, a casa religiosa onde residiam os bispos brasileiros, convidando teólogos progressistas como Hans Küng. O sacerdote belga altermundialista François Houtard (que, aliás, confessou recentemente ter abusado sexualmente de um sobrinho…) diz numa carta ao Pe. Oscar Beozzo (cujo livro sobre a Igreja do Brasil no Concílio traz informações preciosas) que a Domus Mariae acabou funcionando “como lugar de reunião e quartel geral” do Ecumênico, a articulação progressista de conferências episcopais dos cinco continentes para influenciar a marcha do Concílio.
Todos os historiadores concordam em que D. Helder foi um dos principais orquestadores da ala progressista durante o Concílio
Catolicismo — Então, o embate em que se empenharam bispos brasileiros, acabou envolvendo o conjunto dos Padres conciliares?
Prof. de Mattei — O Concílio não durou três meses, como havia calculado ingenuamente João XXIII, nem se desenvolveu na atmosfera de feliz consenso que ele imaginara, mas foi ocasião de entrechoques dramáticos. Se nos limitássemos a fazer uma história “oficial” dele, baseada no resultado das votações, dever-se-ia negar a existência de uma luta interna entre posições opostas, visto que os documentos conciliares foram aprovados por maiorias esmagadoras. Mas, na realidade, nenhum Concílio registrou mais tensões e conflitos entre grupos opostos do que o Vaticano II.
Sem negar essa evidência, os historiadores apresentam o Vaticano II como o choque entre uma “maioria” progressista e uma “minoria” conservadora, derrotada. Na realidade, o confronto foi entre duas minorias que, já em 1963, Mons. Gérard Philips — (professor de dogmática na Faculdade de Teologia da Universidade de Lovaina e secretário adjunto da Comissão teológica do Concílio — descrevia como duas “tendências” opostas da filosofia e teologia do século XX. Na opinião de Philips, uma estava mais preocupada em permanecer fiel aos enunciados tradicionais, e a outra mais atenta à difusão da mensagem evangélica junto ao homem contemporâneo. Para essa segunda tendência (cujos máximos expoentes — Chenu, Congar, de Lubac, etc. — tinham sido repetidamente censurados e condenados por Pio XII), o Concílio representava uma oportunidade extraordinária, porque a natureza dos debates permitia que ambas as posições se apresentassem num plano de paridade ideológica, cujo resultado ficava confiado às regras do jogo parlamentar.
Catolicismo — Mas, se o resultado das votações foi esmagadoramente favorável a essa tendência progressista, por que o Sr. afirma que o embate se deu entre duas minorias?
Prof. de Mattei — No Concílio, criaram-se grupos, definidos pela mídia como uma direita, uma esquerda e um centro. O uso dessa terminologia, ainda que imprópria, não deve surpreender e pode ser aceito por comodidade. Um dos maiores historiadores dos Concílios, o teólogo alemão Karl Joseph von Hefele, relata que, no ano 325, no Concílio de Nicéia, os bispos de doutrina ortodoxa formavam, com Santo Atanásio e seus seguidores, a direita. Ario e seus partidários, que negavam a divindade de Cristo, representavam a esquerda; enquanto o centro-esquerda era ocupado por Eusébio de Nicomédia e o centro-direita por Eusébio de Cesaréia. A posição verdadeira e autenticamente católica não era o tal centro dos dois Eusébios, que formavam uma “terceira posição” entre a ortodoxia e a heresia; mas era a encarnada pela direita de Santo Atanásio, acusado por seus adversários de extremismo e fanatismo. Foi, então, Santo Atanásio — autor do Símbolo da Fé que ainda hoje professamos — quem traçou a História da Igreja nos séculos futuros.
Catolicismo — E o Sr. afirma que sucedeu algo similar no Vaticano II?
Prof. de Mattei — No interior da aula conciliar, entre as duas minorias, a conservadora e a progressista, oscilava, como acontece sempre, a massa daqueles que resistiam em tomar partido. Qual era a posição desse centro majoritário? Não é possível saber pelos discursos na aula conciliar, nem pelas apresentações nas comissões, porque apenas uma minoria usou da palavra. Mas pode-se conhecer pelas sugestões e propostas de tema de discussão que, na preparação do Concílio, o episcopado mundial, os superiores religiosos e as universidades católicas enviaram ao Vaticano, em resposta a uma consulta proposta por João XXIII.
A maioria das respostas não pede uma mudança radical, mas sim novas definições doutrinárias — a definição do dogma de Mediação Universal de Maria ou da Realeza de Cristo, por exemplo — e a condenação dos erros doutrinários que grassavam entre os fiéis (notadamente do comunismo).
Pode-se fazer uma analogia entre os vota (nome latino dessas sugestões) dos Padres conciliares e os famosos cahiers de doléances redigidos na França, com vistas aos Estados Gerais de 1789. Antes da Revolução Francesa, nenhum cahier de doléances propunha subverter as bases do Antigo Regime, mas apenas uma moderada reforma das instituições, a supressão de alguns impostos, etc. Mas, de modo inesperado, os Estados Gerais desfecharam na queda da monarquia.
Analogamente, o Concílio não atendeu aos pedidos que emergiam dos vota, mas secundou as reivindicações da minoria progressista que, desde o começo, conseguiu colocar-se à testa da assembléia e orientar suas decisões.
“Os historiadores apresentam o CV II como o choque entre “maioria” progressista e “minoria” conservadora. Mas foi o confronto foi entre duas minorias”
Alguns momentos do Concílio apresentaram analogias com lances ocorridos nos Estados Gerais, e suas consequências durante a Revolução Francesa
Catolicismo — E como conseguiram essa liderança?
Prof. de Mattei — Também aqui repete-se o que aconteceu na Revolução Francesa: os dias decisivos foram os primeiros, nos quais a legalidade foi quebrada. Em Versalhes, isso aconteceu no dia 17 de junho de 1789, quando os Estados Gerais transformaram-se em Assembléia Constituinte. Em Roma, o dia decisivo foi o 13 de outubro de 1962, apenas dois dias após a inauguração, quando, a pedido do Cardeal Liénart, a eleição dos membros das comissões conciliares foi suspensa, para que as conferências episcopais apresentassem os candidatos. A partir desse momento, elas entraram como grupos organizados na dinâmica conciliar.
Mas, detrás das conferências episcopais havia outros grupos organizados de bispos e teólogos, como o tal Ecumênico já mencionado, que formaram um partido abertamente anti-romano, porque via na Cúria pontifícia e na teologia ensinada nas universidades romanas os inimigos a serem abatidos.
A rede de relações desse setor progressista, que pré-existia ao Concílio, era forte, ramificada, e incluia, além das cúpulas das conferências episcopais, algumas ordens religiosas de “vanguarda” e grupos linguísticos. Incluía sobretudo laboratórios ideológicos, como os de Cuernavaca, no México, de Bolonha, na Itália, e de Lovaina, na Bélgica.
Catolicismo — Mas, do lado conservador, não havia algo parecido?
Prof. de Mattei — Nem um pouco! Os bispos e teólogos fiéis a Roma reagiram muito tardiamente e sem a habilidade estratégica de seus adversários. Segundo uma pesquisadora americana, Melissa Wilde, a minoria progressista prevaleceu graças a sua melhor estratégia e organização.
Catolicismo — Mas o que estava em jogo era atrair para seu lado a maioria centrista…
Prof. de Mattei — Segundo essa mesma pesquisadora, o clima que caracterizou as primeiras fases do debate conciliar foi uma “efervescência coletiva”. Trata-se de uma expressão cunhada pelo sociólogo Durkheim para caraterizar o estado das pessoas quando crêem ter sido transportadas para um mundo completamente diverso daquele que elas têm diante dos olhos. É um estado eufórico de “entusiasmo religioso” bem conhecido dos historiadores. As cartas de Dom Helder oferecem um exemplo típico desse clima de auto-exaltação que é atribuído, de modo simplista, à ação do “Espírito Santo”. Foi já na primeira sessão que o “espírito do Concílio” passou a ser uma das principais motivações dos Padres conciliares e a base de grande número de propostas.
Catolicismo — Houve algum episódio particular que tivesse sido marcado por esse ambiente de euforia revolucionária?
Prof. de Mattei — Sim. Por exemplo, na sessão de 30 de outubro de 1962, durante o debate sobre a Liturgia, tomou a palavra o Cardeal Ottaviani, que era detestado pelos progressistas por ser o prefeito do Santo Ofício e, como tal, o responsável pela condenação dos escritos de alguns corifeus da Nova Teologia. No calor de seu discurso, ele passou dos dez minutos regulamentares e o cardeal Alfrink, que presidia a sessão, tocou a campainha; Ottaviani, que era idoso e um pouco surdo, continuou a falar. Alfrink deu, então, ordem para cortar abruptamente o microfone. Parte da assembléia aplaudiu calorosamente a humilhação infligida a um dos principais colaboradores do Papa João XXIII! Dom Helder viu aflorar, nesse aplauso, o “espírito do Concílio”…
Capa da obra do Prof. de Mattei
Outro caso ocorreu durante a fase que os progressistas denominaram “a semana preta”, na terceira sessão, em 1964. O ambiente estava acalorado, porque Paulo VI havia imposto uma “Nota Explicativa Prévia” ao texto sobre a colegialidade, que limitava o alcance do mesmo, e tinha irritado profundamente os progressistas, que desejavam transformar a Igreja numa espécie de república parlamentar. Dois dias depois da leitura dessa “Nota Prévia”, foi anunciado que, a pedido dos conservadores e para respeitar o regulamento, o esquema sobre a liberdade religiosa, que tinha sofrido muitas modificações, não iria ser votado senão na sessão do ano seguinte. Desencadeou-se, então, uma reação furiosa. Na basílica de São Pedro muitos Padres conciliares abandonaram seus lugares para reunir-se e discutir em pequenos conciliábulos. O correspondente do diário parisiense “Le Monde”, Henri Fesquet, escreveu que se ouvia bispos exclamar: “Fomos traídos!” Um americano, referindo-se aos conservadores (ou talvez aos Moderadores!), deixou escapar um dos piores insultos da língua inglesa: “Bastardos!” Os jornais aludiram à “revolta” dos bispos americanos. Pouco depois, na mesma “congregação” (assim eram chamadas as sessões plenárias diárias, na basílica), tomou a palavra Dom De Smedt, um progressista notório, que era o relator do esquema sobre a liberdade religiosa. Quando afirmou que “a Igreja deve ser livre dos poderes políticos” — propunha, na realidade, uma renúncia ao ideal de Cristandade — ouviu-se um aplauso frenético. Dois Moderadores, na mesa da presidência, uniram-se aos aplausos! O ambiente no fim da sessão assemelhava-se à conclusão de um comício político.
Catolicismo — Num tal clima de exaltação era, de fato, mais fácil para a minoria progressista extremada obter da maioria mole tudo o que desejava.
Prof. de Mattei — Não, o jogo era mais subtil. As reivindicações da ala “jacobina” (para exprimir-me em termos da Revolução Francesa) foram rejeitadas pela oposição da minoria conservadora que, aos poucos, foi-se organizando. Os documentos não corresponderam às expectativas dos progressistas mais audazes e foi graças a compromissos obtidos in extremis que é possível ao Papa hoje dizer que os documentos devem ser lidos à luz da Tradição.
Mas a imagem que o mundo formava da Igreja mudou radicalmente. Quando, no dia 12 de outubro de 1963, D. Franić, bispo croata de Split, propôs que, no esquema De Ecclesia, ao novo título de Igreja “peregrina” fosse acrescentada a denominação tradicional de “militante”, sua proposta foi rejeitada. A imagem que a Igreja deveria oferecer de si mesma ao mundo não era aquela da luta, da condenação, da controvérsia, mas do diálogo, da paz, da colaboração ecumênica e fraterna com todos os homens. A minoria progressista conseguiu não tanto mudar a doutrina da Igreja, mas substituir a imagem sacral e hierárquica da Esposa de Cristo pela imagem de uma assembléia democrática, aberta às novidades e inserida na História.
“A minoria progressista conseguiu não tanto mudar a doutrina da Igreja, mas substituir sua imagem hierárquica pela imagem de uma assembléia democrática”
Catolicismo — Mas a Igreja, de fato, está inserida na História…
Prof. de Mattei — Não há dúvida. Mas de uma maneira inteiramente diferente daquela que os Padres conciliares progressistas a entendiam, num clima psicológico de otimismo, e mesmo de euforia, que vigorava no início dos anos 60.
Três ícones brilhavam então no firmamento internacional, encarnando esse clima de otimismo; Nikita Krushev, primeiro ministro da União Soviética; Ângelo Roncalli que, desde 1958, era o Papa João XXIII; e desde 1961 John F. Kennedy, primeiro presidente católico dos Estados Unidos.
Em abril desse mesmo ano, o astronauta soviético Gagarin realizou o primeiro vôo no espaço, sugerindo a abertura de nova época de triunfo da ciência. Embora já em agosto de 1961, tivesse sido iniciada a construção do Muro de Berlim…
A influência que o comunismo exercia sobre o mundo, mais do que política e militar, era cultural e psicológica. O marxismo dominava nos ambientes acadêmicos e na mídia, os quais veiculavam conceitos típicos dessa filosofia materialista e evolucionista, como “senso da História”, “curso dos tempos”, “libertação e repressão”. Tratava-se de uma visão dialética, que se exprimia nas novas “palavras-talismã” (a expressão, por sinal, é de Plinio Corrêa de Oliveira) lançadas pela propaganda comunista: diálogo,“coexistência pacífica”, “desenvolvimento” e “emancipação” dos povos. A ideologia subjacente era a do progresso, entendido como marcha irreversível e ascensional da humanidade para atingir uma “felicidade” social apresentada como a transposição do paraíso celeste para a Terra.
O cardeal húngaro Josef Mindszenty, preferiu ser excluído, desprezado, perseguido, do que renunciar à proclamação da verdade, ao combate às falsas doutrinas como era o caso da doutrina comunista
Catolicismo — E qual era a posição da Igreja nesse contexto?
Prof. de Mattei — No curso de sua história, a Igreja havia se dirigido ao mundo com a linguagem dos confessores destemidos, dos doutores inflexíveis, dos mártires intransigentes no testemunho da fé, das virgens imaculadas na sua fidelidade ao desponsório com Cristo. Esses homens e mulheres haviam preferido ser excluídos, desprezados, perseguidos, condenados à morte, do que renunciar à proclamação da verdade, ao combate às falsas doutrinas. Era a via indicada por confessores da fé como o Cardeal Stepinac, eliminado pelos comunistas croatas nas vésperas do Concílio, e o cardeal húngaro Josef Mindszenty, exilado desde 1956 na embaixada americana em Budapest.
Mas a cultura progressista que acabo de descrever exercia seu fascínio sobre alguns homens da Igreja, convictos de que era necessário mudar a atitude de confronto com o mundo: renunciar aos anátemas e à condenação dos erros para colher o que o mundo apresentava de positivo. Era a tese defendida por Frei Yves Congar, dominicano francês, depois nomeado cardeal, que exerceu grande influência no Concílio. Ele afirmava que não existiam “germes ativos nos quais não haja também micróbios”; ou seja, erros nos quais não haja verdades. E como matar os micróbios significaria matar também os germes vivos, seria necessário, segundo ele, deixar prosperar uns e outros. A condenação dos erros por parte da Igreja, desde as heresias medievais até o Modernismo, havia extinguido os aspectos positivos neles presentes e teria sido melhor deixá-los viver e difundir-se. Congar propunha, então, mudar a Igreja internamente, por meio de “uma reforma sem cisma”. “Não é preciso fazer uma outra Igreja”, explicava, “é necessário fazer uma Igreja diferente”. Tal plano de modificar a Igreja a partir de seu interior era o antigo sonho, irrealizado, dos modernistas.
Entre os que acolhiam as teses de Congar havia um grupo de Padres conciliares da Europa central, entre os quais se destacava o Primaz da Bélgica, o jovem cardeal Léo-Joseph Suenens. Seis meses antes do início do Concílio, João XXIII pediu-lhe para preparar uma nota sobre o rumo que o Concílio deveria seguir. Suenens reuniu então um grupo de cardeais, no próprio Colégio Belga de Roma, a fim de discutir um plano e uma estratégia para o próximo Concílio. Participaram da reunião, entre outros, três prelados que iriam desempenhar papel decisivo: o cardeal Döpfner, arcebispo de Munique, o cardeal Liénart, arcebispo de Lille, e o cardeal Montini, arcebispo de Milão e futuro Papa Paulo VI. No documento que foi redigido com base nessa reunião, o cardeal Suenens lançava a palavra de ordem do “Concílio pastoral”, que foi adotada como linha estratégica por João XXIII.
“Historiador não é hagiógrafo. É do ponto de vista histórico que eu exponho juízos sobre Pio XII, João XXIII, Paulo VI e isso não deveria escandalizar ninguém”
Catolicismo — O Sr. não fica constrangido de criticar uma linha assumida por dois Papas?
Prof. de Mattei — O historiador não é um hagiógrafo. O grande historiador dos Papas, Ludwig von Pastor, não poupou respeitosas críticas aos numerosos pontificados por ele examinados. É do ponto de vista histórico que eu exponho juízos sobre Pio XII, João XXIII, Paulo VI e isso não deveria escandalizar ninguém.
Catolicismo — Mas o Sr. foi acusado, em algumas recensões, de ter saído de seu campo de estudo, a História, e não distinguir os textos do Concílio de seu contexto histórico, fundindo textos e contexto num único evento. Tal como faz a escola progressista de Bolonha para favorecer a interpretação dos textos segundo a “hermenêutica da ruptura”.
Prof. de Mattei — Somente um leitor apressado e tendencioso pode lançar-me tal acusação, porque afirmo precisamente o contrário. Jamais neguei a distinção lógica entre texto e contexto. A impossibilidade de separá-los não significa impossibilidade de distingui-los. Nego a tese da escola de Bolonha, segundo a qual os textos são absorvidos no contexto, ou seja, no evento e no “espírito do Concílio”. Os textos têm autonomia, importância e dignidade próprias, e devem ser avaliados, enquanto textos, no plano teológico. Reivindico competência no plano histórico e é sob esse aspecto que estudo um contexto, que necessariamente inclui a elaboração dos textos. É no plano histórico e não teológico, no qual não tenho competência, que julgo o Concílio como uma Revolução na Igreja e, sob muitos aspectos, um evento desastroso.
Catolicismo — No que, então, sua análise difere daquela da escola progressista de Bolonha?
Prof. de Mattei — É que Giuseppe Alberigo e seus discípulos (que, por sinal, fizeram uma coleção monumental de documentos originais e tiveram a gentileza de facilitar-me plenamente o acesso) inverteram o método de interpretação do Magistério da Igreja, assumindo como ponto de referência não a Tradição, mas o próprio Concílio. A escola de Bolonha faz a leitura da Tradição à luz do Concílio, atribuindo, portanto, a este uma infalibilidade que nenhum de seus textos, per se, possui. Assim — segundo essa escola — é preciso procurar a infalibilidade do Concílio no próprio evento conciliar, no seu espírito, no carisma impalpável que anima os textos, não traduzidos em fórmulas definitórias, que estão ausentes.
“É no plano histórico e não teológico que julgo o Concílio Vaticano II como uma Revolução na Igreja e, sob muitos aspectos, um evento desastroso”
Catolicismo — Donde, então, a afirmação de Bento XVI de que o Concílio Vaticano II deve ser interpretado em continuidade com o Magistério tradicional?
Prof. de Mattei — Não há dúvida. Mas essa afirmação do Papa pressupõe, de fato, a existência, nos documentos conciliares, de passagens dúbias ou ambíguas, que necessitam uma interpretação. Diante dessa realidade, ou se sustenta, como faz Mons. Gherardini, que as doutrinas do Concílio incompatíveis com as definições dogmáticas anteriores não são nem infalíveis nem irreformáveis, e portanto não vinculantes, ou então atribui-se ao Concílio uma autoridade tal, que anula os 20 concílios anteriores, abrogando e substituindo todos eles.
Catolicismo — No atual debate em torno da hermenêutica do Vaticano II, qual é então o papel do historiador?
Prof. de Mattei — A pesquisa histórica é complementar da pesquisa teológica, e isso não deveria incomodar ninguém. Seria preciso, por acaso, renunciar a escrever a história do Concílio Vaticano II em nome da “hermenêutica da continuidade”? Ou permitir que ela seja escrita exclusivamente pela escola de Bolonha, que tem oferecido contribuições cientificamente valiosas, mas ideologicamente tendenciosas? E se elementos de descontinuidade emergissem no campo histórico, por que ter receio de trazê-los à luz do dia? Como negar a existência de uma descontinuidade, senão nos conteúdos, pelo menos na nova linguagem do Concílio Vaticano II? O inexplicável silêncio sobre o comunismo, por parte de um Concílio que pretendia ocupar-se das principais questões do mundo contemporâneo, por exemplo, é um fato clamoroso e catastrófico que, a um historiador, simplesmente não é lícito ignorar!
Catolicismo — Seu livro foi também criticado por estabelecer uma continuidade entre o Concílio e o pós-Concílio.
Prof. de Mattei — O Concílio não pode ser apresentado como um evento que nasce e morre no espaço de três anos, como se não tivesse tido raízes profundas e conseqüências igualmente profundas na vida da Igreja e da sociedade! Já no dia seguinte do seu término, o horizonte da Igreja nublou-se pela queda das certezas dogmáticas, pelo avanço do relativismo de uma nova moral permissiva, pela anarquia no campo disciplinar, pelo abandono do sacerdócio por parte de dezenas de milhares de padres e pelo afastamento da prática religiosa de milhões de fiéis. E o que dizer da retirada dos altares de crucifixos, estátuas de santos, etc. das igrejas? Mas, sobretudo, da queda vertiginosa das vocações sacerdotais e religiosas? Nos institutos religiosos masculinos, nos 40 anos, de 1965 a 2005, a queda chegou a um terço! Como negar a existência de uma profunda crise na Igreja pós-Conciliar, muitas vezes admitidas por Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI? Ora, todo grande acontecimento supõe uma causa proporcionada. É inimaginável ser o Vaticano II estranho à crise do pós-Concílio e que uma má “recepção” dos textos possa ser considerada uma causa proporcionada para explicar tudo o que aconteceu? Pode-se separar a Revolução pós-conciliar do Concílio?
Catolicismo — De acordo. Em tese é assim, mas como provar que foi isso que se deu na prática?
Prof. de Mattei — Para isso basta recordar um só episódio da “crise pós-conciliar”: quando, em 1968, Paulo VI promulgou a encíclica Humanae Vitae, um dos líderes da contestação foi o Cardeal Suenens. Quem era o Cardeal Suenens? Era o prelado a quem o próprio Paulo VI havia concedido um privilégio sem precedentes, apresentando-o à multidão, a seu lado, na janela do Palácio Apostólico, poucos dias depois de sua eleição. Era o jovem cardeal de Bruxelas que tinha aconselhado João XXIII a imprimir um caráter pastoral ao Concílio. Era o homem que, desde seu início, havia selado um pacto com D. Helder Câmara. Era o homem escolhido para guiar os quatro Moderadores do Concílio. Era o homem que, já durante o Concílio, tinha levantado o problema do controle da natalidade, pronunciando em plena basílica de São Pedro, em tom veemente, as palavras: “Não repitamos o processo de Galileo!” Ninguém mais do que ele desempenhara no Concílio o papel de protagonista.
O Cardeal Suenens, rebelde em relação a Paulo VI e à Igreja em 1968, era, por acaso, uma pessoa diferente daquele que, três anos antes, havia entoado o canto da vitória, após o encerramento do Concílio? Havia, por acaso, mudado de mentalidade, havia distorcido os documentos do Concílio, havia mal interpretado seu espírito? Suenens não precisava forçar ou distorcer os documentos conciliares, porque Suenens — como Frings, Alfrink, Bea e tantos outros — era o Concílio!
A pretensão de separar o Concílio do pós-Concílio é tão insustentável quanto pretender separar os textos conciliares do contexto pastoral no qual foram escritos. Nenhum historiador sério — e acrescento, nenhuma pessoa de bom senso — poderia aceitar esta separação artificial, que nasce de um preconceito e não da avaliação serena e objetiva dos fatos.
Ainda hoje vivemos as conseqüências da “Revolução conciliar”. Por que esconder isso? A Igreja “não deve temer a verdade”, como afirmou Leão XIII ao abrir o Arquivo Secreto do Vaticano aos pesquisadores.
Plinio Corrêa de Oliveira diante da Basílica de São Pedro, por ocasião do Concílio
“Tive que consultar muitas fontes e, entre elas, o Catolicismo, que é uma das melhores para estudar as correntes católicas conservadoras latino-americanas”
Catolicismo — Muito obrigado pelo tempo que nos concedeu e por sua sinceridade, professor. Desejaria dizer algo mais aos leitores de nossa revista?
Prof. de Mattei — Para escrever o livro, tive que consultar todas as fontes disponíveis, e entre elas, o Catolicismo, que é uma das melhores fontes para estudar as correntes católicas conservadoras latino-americanas. Sua leitura tornou-se-me fácil e agradável, porque o italiano é próximo do português e, ainda jovem, aprendi seu belo idioma para poder ler no original as obras de Plinio Corrêa de Oliveira; e, mais tarde, para conversar com ele. Posso aqui confidenciar que Dr. Plinio está um pouco na origem de meu último livro. Porque, numa dessas saudosas conversas, ele explicou-me que, em sua estadia durante a primeira sessão do Concílio, havia notado que, na Itália em geral e em Roma em particular, existia um filão do clero que era piedoso e autenticamente conservador, mas que sentia medo de exprimir-se. E que meu papel contra-revolucionário devia ser levantar-lhe o ânimo com boas publicações e dizer a ele: “Ousai, monsenhores, ousai!”
Espero que, do Céu, ele esteja intercedendo junto a Nossa Senhora a fim de que esse trabalho contribua para uma autêntica restauração da Igreja, em favor da qual ele tanto lutou!

As pedras viram pães: o milagre keynesiano

INSTITUTO LUDWIG VON MISES BRASIL
por Ludwig von Mises, terça-feira, 21 de outubro de 2008

[Ensaio original de março de 1948]

A característica típica de todos os autores socialistas é a idéia de que há uma abundância plena dos meios, e que a substituição do capitalismo pelo socialismo tornaria possível prover a todos "de acordo com suas necessidades". Já outros autores querem criar esse paraíso através de uma reforma do sistema monetário e creditício. De acordo com eles, sempre está faltando mais dinheiro e mais crédito. Eles consideram que a taxa de juros é um fenômeno criado artificialmente pela escassez dos "meios de pagamento", escassez essa também criada propositalmente pelo homem.

Em centenas, até mesmo milhares, de livros e panfletos eles calorosamente culpam os economistas "ortodoxos" por sua relutância em admitir que doutrinas inflacionistas e expansionistas são sólidas. Todos os malefícios, eles repetem insistentemente, são causados tanto por ensinamentos errôneos da "obscura ciência" que é a economia, como pelo "monopólio do crédito" desfrutado pelos banqueiros e usurários. Libertar o dinheiro dos grilhões do "restricionismo", criar dinheiro livremente (o Freigeld, na terminologia de Silvio Gesell) e garantir crédito barato ou até mesmo gratuito: esse é o principal ponto da plataforma política deles.

Tais idéias têm apelo para a massa desinformada. E elas são muito populares para aqueles governos comprometidos com uma política de aumentar a quantidade de dinheiro em circulação e a quantidade de depósitos à vista sacados por meio de cheques. Entretanto, os governos inflacionistas e seus partidos ainda não estavam prontos para admitir abertamente seu apoio aos dogmas dos inflacionistas. Conquanto vários países tenham embarcado em políticas inflacionistas e de dinheiro fácil, os defensores literários do inflacionismo ainda eram menosprezados como "excêntricos". Suas doutrinas não eram ensinadas nas universidades.

John Maynard Keynes, falecido conselheiro econômico do Governo Britânico, tornou-se o novo profeta do inflacionismo. A "Revolução Keynesiana" consistiu no fato de ele ter abertamente defendido as doutrinas de Silvio Gesell. Como o precursor dos gesellianos britânicos, Lord Keynes também adotou o jargão peculiarmente messiânico da literatura inflacionista e o introduziu em documentos oficiais. De acordo com o Paper of the British Experts, de 8 de abril de 1943, a expansão do crédito opera o "milagre . . . de transformar uma pedra em pão". O autor desse documento era, é claro, Keynes. A Grã-Bretanha realmente viajou um longo caminho desde as concepções que Hume e Mill faziam do que seriam milagres até essa declaração.

II

Keynes debutou na cena política em 1920, com seu livro As conseqüências econômicas da paz. Ele tentou provar que as somas exigidas para reparações eram demasiado excessivas em relação ao que a Alemanha poderia de fato pagar e "transferir". O sucesso do seu livro foi devastador. A máquina de propaganda dos nacionalistas alemães, já bem entrincheirada em cada país, dedicou-se arduamente a apresentar Keynes como o mais conspícuo economista do mundo, bem como o estadista mais sábio da Grã-Bretanha.

Entretanto seria um erro culpar Keynes pela política externa suicida que a Grã-Bretanha adotou no período entre guerras. Outras forças, principalmente a adoção da doutrina marxista do imperialismo e do "capitalismo belicoso", foram de importância incomparavelmente maior durante o período do Apaziguamento. À exceção de um pequeno número de homens perspicazes, todos os bretões apoiaram a política que acabou tornando possível aos nazistas começarem a Segunda Guerra Mundial.

Um economista francês muito talentoso, Etienne Mantoux, analisou minuciosamente esse famoso livro de Keynes. O resultado desse cuidadoso e escrupuloso estudo foi devastador tanto para Keynes o economista e estatístico, bem como para Keynes o estadista. Os amigos de Keynes ficaram perplexos, tentando encontrar qualquer contestação substancial. O único argumento que seu amigo e biógrafo, o professor E. A. G. Robinson, conseguiu promover foi que essa poderosa acusação sobre a posição de Keynes veio "como se poderia esperar, de um francês". (Economic Journal, Vol. LVII, p. 23.) Como se os efeitos desastrosos do Apaziguamento e do derrotismo não tivessem afetado também a Grã-Bretanha!

Etienne Mantoux, filho do famoso historiador Paul Mantoux, era o mais ilustre dos jovens economistas franceses. Ele já havia feito contribuições valiosas para a teoria econômica - dentre elas uma crítica aguçada da Teoria Geral de Keynes, publicada em 1937 na Revue d'Economic Politique - antes de começar seu livro The Carthaginian Peace or the Economic Consequences of Mr. Keynes (Oxford University Press, 1946). Ele não viveu para ver seu livro publicado. Como oficial das forças armadas francesas, foi morto na ativa durante os últimos dias da guerra. Sua morte prematura foi um duro golpe para a França, que hoje está urgentemente necessitada de economistas sólidos e corajosos.

III

Seria também um erro culpar Keynes pelas falhas e erros das políticas econômicas e financeiras da Grã-Bretanha contemporânea. Quando ele começou a escrever, a Grã-Bretanha já havia abandonado o princípio do laissez-faire. Essa realização se deve a homens como Thomas Carlyle e John Ruskin, e, principalmente, aos fabianos[1]. Aqueles nascidos a partir da década de 1880 se tornaram meros imitadores da elite universitária e dos socialistas chiques do final do período vitoriano. Eles não eram críticos do sistema vigente, como seus predecessores o foram, mas, ao contrário, apologistas das políticas do governo e de grupos de interesse, políticas cuja inadequação, futilidade e perniciosidade se tornaram mais e mais evidente.

O professor Seymour E. Harris publicou um corpulento volume de ensaios feitos por vários acadêmicos e autores burocráticos. Esses ensaios tratam das doutrinas desenvolvidas por Keynes em sua obra A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, publicada em 1936. O título do volume é The New Economics, Keynes' Influence on Theory and Public Policy (Alfred A. Knopf, Nova York, 1947). Se o keynesianismo faz jus à denominação de "nova economia", ou se é apenas uma repetição das já refutadas falácias mercantilistas e dos silogismos de inúmeros autores que querem tornar todos mais ricos através da emissão de papel-moeda de curso forçado, não é o que importa. O que importa para uma doutrina é que ela seja sólida; ela não tem de ser necessariamente nova.

A coisa mais notável sobre esse simpósio é que ele nem sequer tenta refutar as embasadas objeções levantadas contra Keynes por economistas sérios. O editor parece incapaz de conceber que um homem honesto e não corrupto possa discordar de Keynes. Da maneira como ele vê, qualquer oposição a Keynes advém de "interesses obscuros de acadêmicos da velha teoria" e da "influência preponderante da imprensa, do rádio, dos financistas e da pesquisa subsidiada". Aos seus olhos, os não-keynesianos são apenas um bando de bajuladores subornados, indignos de atenção. O professor Harris adota assim os métodos dos marxistas e dos nazistas, que preferiam difamar seus críticos e questionar seus motivos ao invés de refutar suas teses.

Algumas poucas contribuições foram escritas em uma linguagem honrada e se mostram reservadas, até mesmo críticas, em sua apreciação pelas façanhas de Keynes. Mas as outras contribuições são simplesmente irrupções ardorosamente entusiásticas. Assim, o professor Paul E. Samuelson nos diz que "ter nascido como economista antes de 1936 foi uma bênção, sim. Mas ter nascido muito antes disso, não!". E então ele cita (o poeta inglês William) Wordsworth:

"Era sublime estar vivo naquela aurora, mas ser jovem era o próprio paraíso!"

("Bliss was it in that dawn to be alive, but to be young was very heaven!")

Descendo das alturas imponentes do Parnassus para o prosaico vale das ciências quantitativas, o professor Samuelson nos fornece informações exatas sobre a suscetibilidade de economistas ao evangelho keynesiano de 1936. Aqueles com menos de 35 anos compreenderam totalmente seu significado após algum tempo; aqueles além dos 50 se mostraram bem imunes, enquanto os economistas do grupo do meio se mostraram divididos. Após nos servir uma versão requentada da giovanezza de Mussolini, ele oferece mais daqueles desgastados slogans do fascismo, como, por exemplo, o keynesianismo ser a "onda do futuro". Entretanto, a respeito desse ponto, um outro contribuidor, o sr. Paul M. Sweezy, discorda. Aos seus olhos, Keynes, corrompido que estava pelas "falhas do pensamento burguês", ainda não é o salvador da humanidade, mas apenas o precursor cuja missão histórica é preparar a mente britânica para a aceitação do marxismo puro e tornar a Grã-Bretanha ideologicamente madura para o socialismo completo.

IV

Ao recorrer ao método das insinuações, tentando criar suspeitas sobre seus adversários ao referir-se a eles em termos ambíguos, e que permitem várias interpretações, as vivandeiras de Lord Keynes estão imitando os mesmos procedimentos de seu ídolo. Pois o método de Keynes, que muitas pessoas veneravelmente consideram "genialidade de estilo" e "maestria de linguagem" eram, na verdade, vulgares truques de retórica.

Ricardo, disse Keynes, "conquistou a Inglaterra tão completamente quanto a Inquisição conquistou a Espanha". Isso é mais malicioso do que qualquer outra comparação imaginável. A Inquisição, auxiliada por verdugos e condestáveis armados, sobrepujou os espanhóis, colocando-os em completa submissão. Já as teorias de Ricardo foram aceitas como corretas pelos intelectuais britânicos sem que houvesse qualquer pressão ou compulsão exercida em favor delas. Mas ao comparar duas coisas totalmente diferentes, Keynes indiretamente sugere que houve algo vergonhoso no sucesso dos ensinamentos de Ricardo, e que aqueles que desaprovam tais ensinamentos são heróis nobres e corajosos defensores da liberdade, assim como o foram aqueles que lutaram contra os horrores da Inquisição.

O mais famoso insight de Keynes foi aquele que diz que: "Duas pirâmides, duas missas para os mortos, são duas vezes melhores do que apenas uma; mas o mesmo não é válido para duas ferrovias entre Londres e York." É óbvio que esse gracejo, digno de alguma peça de Oscar Wilde ou Bernard Shaw, não prova de maneira alguma a tese de que cavar buracos no chão e usar a poupança para pagar pelo serviço "irá aumentar o estoque nacional real de bens e serviços úteis". Porém, o truque coloca o adversário numa embaraçosa posição: ou ele deixa um pretenso argumento sem qualquer resposta ou emprega as ferramentas da lógica e do raciocínio discursivo contra essa sutileza sagaz.

Outro exemplo da técnica de Keynes pode ser visto em sua maliciosa descrição sobre a Conferência da Paz em Paris. Keynes discordou das idéias de [Georges] Clemenceau. Por isso, ele tentou ridicularizar seu adversário discorrendo detalhadamente sobre sua aparência e vestuário, que pelo jeito não se adequavam ao padrão determinado pelos estilistas de Londres. É difícil descobrir alguma conexão entre o problema das reparações alemãs e o fato de que as botas de Clemenceau "eram de couro preto e grosso, muito boas, mas de um estilo rural, e eram, curiosamente, atadas na frente por uma fivela ao invés de laços". Após 15 milhões de humanos terem sido mortos na guerra, os estadistas mais proeminentes do mundo foram reunidos para dar à humanidade uma nova ordem internacional e uma paz duradoura . . . e o especialista em finanças do Império Britânico estava entretido pelo estilo rústico do calçado utilizado pelo Primeiro Ministro Francês.

Catorze anos depois houve uma outra conferência internacional. Desta vez Keynes não era um conselheiro subordinado, como em 1919, mas uma das figuras principais. Em relação a essa Conferência Econômica Mundial de Londres, em 1933, o professor Robinson observou: "Muitos economistas de todo o mundo irão se lembrar . . . da apresentação de 1933 em Covent Garden, em honra aos Representantes da Conferência Econômica Mundial, que em muito deveu sua concepção e organização a Maynard Keynes".

Aqueles economistas que não faziam parte dos quadros de qualquer um dos lamentavelmente ineptos governos de 1933, e que portanto não eram Representantes e não estiveram presentes à encantadora noite de balé, irão se lembrar da Conferência de Londres por outras razões. Ela marcou a mais espetacular falha, na história dos assuntos internacionais, das políticas neo-mercantilistas que Keynes apoiava. Comparada a esse fiasco de 1933, a Conferência de Paris em 1919 parece ter sido um grande sucesso. Mas Keynes pelo menos não publicou qualquer comentário sarcástico a respeito dos casacos, das botas e das luvas dos Representantes de 1933.

V

Conquanto Keynes tenha considerado "o peculiar e indevidamente negligenciado profeta Silvio Gesell" como um precursor, seus ensinamentos divergiam consideravelmente daqueles de Gesell. O que Keynes tomou emprestado tanto de Gesell como da miríade de outros pró-inflacionistas não foi o conteúdo de suas doutrinas, mas suas conclusões práticas e as táticas que utilizavam para solapar o prestígio de seus oponentes. Esses estratagemas são:

1. Todos os adversários, isto é, todos aqueles que não consideram a expansão do crédito como uma panacéia, devem ser universalmente amontoados e rotulados de ortodoxos. Fica subentendido que não há qualquer diferença entre eles.

2. Assume-se que a evolução da ciência econômica culminou em Alfred Marshall e terminou ali. As revelações da moderna economia subjetivista devem ser desconsideradas.

3. Todo o esforço dos economistas, de David Hume até a atualidade, para esclarecer os resultados advindos de mudanças na quantidade de dinheiro e dos substitutos monetários deve ser simplesmente ignorado. Keynes nunca assumiu a impossível tarefa de refutar esses ensinamentos através do processo de argumentação e dedução lógica.

Em relação a tudo isso, os colaboradores do simpósio adotam a técnica de seu mestre. Suas críticas se destinam a um corpo de doutrinas criadas por suas próprias ilusões, e que não têm qualquer semelhança com as teorias expostas por economistas sérios. Eles ignoram silenciosamente tudo o que esses economistas já disseram sobre o inevitável resultado de uma expansão creditícia. Parece que eles nunca ouviram nada a respeito da teoria monetária dos ciclos econômicos.

Para uma avaliação correta do sucesso com que a Teoria Geral de Keynes foi acolhida nos círculos acadêmicos, é preciso considerar as condições prevalecentes nos cursos de economia das universidades durante o período entre guerras.

Dentre os homens que ocuparam as cátedras de economia nas décadas recentes, poucos eram de fato economistas genuínos, isto é, homens totalmente versados nas teorias desenvolvidas pela moderna economia subjetivista. No geral, as idéias dos velhos economistas clássicos, bem como aquelas dos economistas modernos, eram caricaturadas nos livros-textos e nas salas de aula; chamavam-nas de antiquadas, ortodoxas, reacionárias, burguesas ou economia de Wall Street. Os professores se vangloriavam de ter refutado de uma vez por todas as abstratas doutrinas da Escola de Manchester e o laissez-faire.

O antagonismo entre as duas escolas de pensamento tinha seu foco prático no tratamento dado ao problema dos sindicatos. Aqueles economistas menosprezados como ortodoxos ensinavam que um aumento permanente nos salários de todas as pessoas ansiosas por um salário só seria possível se houvesse um aumento na cota do capital investido per capita e, consequentemente, um aumento na produtividade da mão-de-obra. Se - por um decreto do governo ou por pressão sindical - o salário mínimo for fixado a um nível maior do que aquele que seria determinado por um mercado livre e desimpedido, o desemprego resultará como um permanente fenômeno de massa.

Praticamente todos os professores das universidades da moda atacaram severamente essa teoria. Da maneira como esses pretensos doutrinários "não-ortodoxos" interpretaram a história econômica dos últimos duzentos anos, o aumento sem precedentes havido nos salários reais e no padrão de vida foi causado pelo sindicalismo e pelas legislações trabalhistas dos governos. O sindicalismo era, na opinião deles, algo totalmente benéfico para os interesses reais de todos os assalariados e de toda a nação. Apenas aqueles apologistas ímprobos dos notoriamente injustos interesses dos insensíveis exploradores poderiam achar qualquer erro nos violentos atos sindicais, diziam eles. A principal preocupação de um governo popular, afirmavam, deveria ser encorajar os sindicatos o máximo possível e dar a eles toda a assistência necessária para que possam combater as conspirações dos empregadores e determinar os salários em níveis cada vez mais altos.

Mas tão logo os governos e as legislaturas investiram os sindicatos com todos os poderes de que precisavam para impor seu salário mínimo, as conseqüências surgidas foram aquelas que os economistas "ortodoxos" tinham previsto; o desemprego de uma parte considerável da mão-de-obra potencial foi prolongado ano após ano.

Os doutrinários "não-ortodoxos" ficaram perplexos. O único argumento que eles tinham apresentado contra a teoria "ortodoxa" era o apelo à sua própria interpretação falaciosa da experiência. Mas agora os eventos haviam se desenvolvido exatamente da maneira prevista pela "escola abstrata". Assim, iniciou-se uma confusão entre os "não-ortodoxos".

Foi nesse momento que Keynes publicou a sua Teoria Geral. Que alívio para os "progressistas" confusos! Agora, finalmente, eles tinham algo para opor à visão "ortodoxa". A causa do desemprego não eram as políticas trabalhistas inadequadas, mas as deficiências do sistema monetário e de crédito. Nada mais de ficar preocupado com a insuficiência de poupança e com a acumulação de capital, tampouco com os déficits governamentais. Pelo contrário. A única maneira de acabar com o desemprego era aumentar a "demanda efetiva" através do gasto público financiado pela expansão do crédito e pela inflação.

As políticas recomendadas pela Teoria Geral eram exatamente aquelas que os "monetários excêntricos" haviam defendido há muito tempo, e que a maioria dos governos havia aplicado durante a depressão de 1929 e nos anos seguintes. Algumas pessoas acreditam que as escritas anteriores de Keynes tiveram um papel importante no processo de converter os governos mais poderosos do mundo às doutrinas de gastança imprudente, expansão creditícia e inflação. Essa é uma questão secundária que ainda pode permanecer indeterminada. Mas é inegável o fato de que os governos e as pessoas não esperaram a Teoria Geral surgir para embarcarem nessas políticas keynesianas - ou, mais acuradamente, políticas gesellianas.

VI

A Teoria Geral de Keynes, lançada em 1936, não inaugurou uma nova era de políticas econômicas; antes, ela marcou o fim de um período. As políticas que Keynes recomendava na época já estavam muito perto de gerar suas inevitáveis conseqüências, o que tornaria sua continuação impossível. Mesmo o mais fanático keynesiano não ousaria dizer que a atual aflição da Inglaterra é efeito de um excesso de poupança e de uma escassez de gastos. A essência das tão glorificadas políticas econômicas "progressivas" das últimas décadas era expropriar partes cada vez maiores das rendas mais altas e empregar os fundos assim adquiridos no financiamento do gasto público e em subsídios para membros dos mais poderosos grupos de interesse. Aos olhos dos "não-ortodoxos", todo tipo de política keynesiana, por mais evidente que fosse sua inaptidão, era justificável como meio de trazer mais igualdade. Mas agora esse processo chegou ao fim. Com a atual carga tributária e os métodos aplicados no controle de preços, lucros e taxas de juros, o sistema se liquidou a si próprio. Mesmo o confisco de cada centavo ganho acima de 1.000 libras por ano não irá propiciar qualquer aumento perceptível nas receitas públicas da Grã-Bretanha. Os mais fanáticos fabianos não têm como negar que os fundos doravante recolhidos para o gasto público terão de ser retirados daquelas mesmas pessoas que supostamente devem se beneficiar dele. A Grã-Bretanha atingiu o limite tanto do expansionismo monetário como da gastança pública.

As condições atuais dos EUA não são essencialmente diferentes. A receita keynesiana de fazer os salários decolarem não mais funciona. A expansão do crédito, na escala sem precedentes orquestrada pelo New Deal, mascarou por um curto tempo as conseqüências negativas das políticas trabalhistas inadequadas. Durante esse intervalo de tempo, o governo e os líderes sindicais se vangloriaram dos "ganhos sociais" que garantiram ao "homem comum". Mas agora as conseqüências inevitáveis do aumento na quantidade de dinheiro e depósitos à vista se tornaram visíveis; os preços não param de subir. O que está ocorrendo hoje nos EUA é o fracasso final do keynesianismo.

Não há dúvidas de que o público americano está se afastando dos slogans e das idéias keynesianas. O prestígio delas está definhando. Há apenas alguns anos os políticos estavam ingenuamente discutindo o tamanho da renda nacional em dólares, sem levar em conta as mudanças que a inflação provocada pelo governo havia trazido ao poder de compra do dólar. Demagogos especificavam o nível para o qual queriam levar a renda nacional (em termos de dólares). Hoje, essa forma de argumento deixou de ser popular. Finalmente o "homem comum" aprendeu que aumentar a quantidade de dólares não torna o país mais rico. O professor Harris ainda louva a administração Roosevelt por ter elevado nominalmente a renda. Mas tal consistência keynesiana é encontrada atualmente apenas nas salas de aula.

Ainda há professores que dizem a seus alunos que "uma economia não pode se erguer por seus próprios meios" e que "devemos gastar até chegar à prosperidade".[2] Mas o milagre keynesiano não consegue se materializar; as pedras não viram pães. Os elogios dos autores versados que ajudaram na produção do presente volume meramente confirmam a declaração introdutória do editor, que diz que "Keynes era capaz de despertar em seus discípulos um fervor quase religioso por sua economia, o que poderia ser aproveitado de maneira até mesmo afetiva na disseminação da nova economia." E o professor Harris vai além, e diz que "Keynes de fato tinha a Revelação".

Não faz sentido argumentar com pessoas que são guiadas por "um fervor quase religioso" e que acreditam que seu mestre "tinha a Revelação". Uma das tarefas da economia é analisar cuidadosamente cada um dos planos inflacionistas, tanto os de Keynes e Gesell como os de seus inumeráveis predecessores, de John Law até C. H. Douglas. Entretanto, ninguém deve esperar que qualquer argumento lógico ou qualquer experiência possa sequer sacudir o fervor quase religioso daqueles que acreditam na salvação através da gastança e da expansão creditícia.

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[1] "Fabianos" é o nome dado àqueles que seguiam os princípios e políticas socialistas da Fabian Society (Sociedade Fabiana), fundada em 1884 com o objetivo de introduzir o socialismo na Grã-Bretanha de forma lenta e sagaz. A sociedade ganhou esse nome em homenagem ao general romano Quintus Fabius Maximus (morto em 203 a.C), um homem que evitava qualquer confrontação aberta e decisiva; ao invés disso, ele preferia fatigar seus oponentes com táticas procrastinadoras e cansativas, manobras enganadoras e assédios contínuos. Dentre os fabianos proeminentes estavam Sidney e Beatrice Webb (1859-1947, 1858-1943), Bernard Shaw (1856-1950) e Harold J. Laski (1893-1950)

[2] Cf. Lorie Tarshis, The Elements of Economics, New York 1947, p. 565.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".