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segunda-feira, 16 de março de 2009

Peter Drucker, o outro Austríaco

MOVIMENTO ENDIREITAR
Escrito por Mark Skousen | Sex, 13 de Março de 2009

Peter F. Drucker nasceu em 19 de novembro de 1909, em Viena, Áustria - faleceu em 11 de novembro de 2005, em Claremont, Califórnia, EUA, é considerado por todos o pai da Gestão moderna. Publicou 39 livros e inúmeros artigos acadêmicos sobre como os seres humanos estão organizados em todos os setores da sociedade, nas empresas, órgãos governamentais e nas organizações sem fins lucrativos.

 

Peter Drucker, o outro Austríaco

Peter F. Drucker entrou uma vez na diretoria de uma grande empresa em crise e sem rodeios perguntou, "Senhores, qual é o seu negócio?" A maioria dos executivos pensou que era uma pergunta superficial, mas Drucker continuou pressionando. Ele repetiu a pergunta inúmeras vezes. “Qual é o seu negócio?" Levou-lhes uma hora para descobrir o que Drucker estava querendo dizer: eles tinham perdido a visão. Quando voltaram aos fundamentos, eles encontraram seu caminho de volta à rentabilidade - tudo porque Drucker fez uma pergunta “insignificante”.

Drucker é eclético, independente e imprevisível. Embora ele seja conhecido como o Sr. Gestão, ele é um lobo solitário, trabalha sem secretário, e não tem o apoio de qualquer organização. Ele é estranho. Nas palavras de um admirador, ele é um "iconoclasta -- o destruidor de ídolos, investigador das provas, reivindicador de evidências, uma pedra no sapato, consistente e pragmático comentador dos problemas enfrentados pela nossa sociedade." (1)

Quase todos no mundo empresarial estão familiarizados com Drucker, ou por seus livros ou por suas colunas no The Wall Street Journal. Ele é um nome familiar entre os MBAs, executivos empresariais e estudantes de administração. Drucker é o consultor de negócios mais procurado do mundo. Seu vitae é múltiplo: advogado, jornalista, teórico político, economista, romancista, futurista e filósofo extraordinário. Agora em seus oitenta anos, com 25 livros publicados, ele ainda está na ativa como escritor e consultor, embora ele não viaje tanto como antes.

Os estudantes de administração e executivos me falam freqüentemente que as idéias de Drucker tem um certo traço "Austríaco". Eles dizem que a sua ênfase no empreendedorismo, inovação e investimento de capital, bem como suas denúncias contra o “grande governo”, a excessiva tributação e a economia keynesiana, estão em harmonia com as idéias de Eugen von Bohm-Bawerk, Ludwig von Mises, Friedrich August von Hayek e a Escola Austríaca de Economia.

Então: Peter Drucker é um Austríaco secreto?

Raízes vienenses

Literalmente falando, Drucker é Austríaco. Ele nasceu em 1909 em Viena, durante o apogeu da Escola Austríaca. Mas ele era muito jovem para participar do famoso seminário de Ludwig von Mises. Quando se formou no ginásio em 1927, ele foi para a Universidade de Frankfurt, onde obteve seu Doutorado em Direito no início dos anos 1930. Mas as suas raízes permaneceram vienenses. Ele recusou uma oferta de trabalho do Ministério Nazista de Informação. Em vez disso, ele escreveu uma monografia de 32 páginas sobre Friedrich Julius Stahl, filósofo alemão século XIX. Há muito para aprender tanto sobre Drucker, como sobre Stahl neste documento. Stahl era paradoxal: judeu por nascimento, protestante por conversão e conservador oposto à monarquia absoluta. Evidentemente, o documento de Drucker foi proibido pelos Nazistas. Como Mises, Hayek e outros inimigos do estado nazista, Drucker emigrou para o Ocidente antes da guerra eclodir. Ele viajou para a Inglaterra em 1933 e para os Estados Unidos em 1937.

O Administrador dos administradores

Evidentemente, a pergunta se Drucker é um Austríaco não é uma questão sobre a sua terra natal. É uma pergunta sobre a sua teoria econômica. Se a pessoa limitar a questão a sua abordagem da administração, a resposta é claramente afirmativa: o estilo da administração de Drucker é completamente Austríaca. Tempo, expectativas, novas informações e potenciais mudanças nos processos de produção -- todos os focos Austríacos -- são constantemente enfatizados em suas obras e consultas. O gerente deve ser um empresário e não apenas um administrador. Inovação é essencial. Em 1985, ele escreveu um livro inteiro sobre o tema Inovação e Empreendedorismo.

Ele critica a administração por se ocupar no planejamento de curto prazo, o que ele rotula de "keynesianismo industrial". Planejamento de longo prazo é mais arriscado, diz Drucker, mas é essencial para a sobrevivência, principalmente para grandes corporações. Os proprietários e os gerentes devem ser orientados para o futuro, ele sublinha. “A visão do amanhã é a tarefa de hoje” (2). Os japoneses foram tão bem sucedidos, Drucker afirma, porque eles são orientados para o longo prazo.

Em busca de uma nova ordem social

Foi a sua vida na América que inclinou o seu interesse para a gestão empresarial. Lá pelo fim dos anos 1930, Drucker começou a procurar por uma nova ordem social e industrial. Ele ficou desencantado com o capitalismo “desenfreado” da Grande Depressão. Mas o socialismo, o fascismo e o comunismo pareciam ainda piores alternativas aos males da sociedade. 

Ele finalmente encontrou a sua resposta na única "maneira livre e não-revolucionária" - a grande corporação. Ele estava entusiasmado com sua descoberta: um grande negócio poderia proporcionar uma alternativa muito superior ao socialismo e “grandes governos”. De acordo com Drucker, as grandes corporações deveriam ser os canais pelos quais seriam estabelecidas a estabilidade econômica e a justiça social. Apenas as grandes empresas podiam assumir responsabilidades sociais como a segurança do emprego, treinamento, oportunidades educacionais e outros benefícios sociais. Essa foi uma alternativa absolutamente crítica numa época em que a livre iniciativa estava na defensiva em todo o mundo. 

Depois da guerra, Drucker conseguiu um contrato de consultoria com a General Motors, que lhe deu uma oportunidade para desenvolver sua tese mais completamente.  Seu estudo exaustivo da GM culminou na publicação em 1946 de Concept of the Corporation (Conceito da Corporação). Drucker chegou a inabalável convicção de que a grande empresa deveria ser a "instituição social representativa" do período pós-guerra e que as grandes empresas americanas, como a GM, deveriam assumir a liderança na construção da sociedade industrial livre. 

Os executivos da General Motors ficaram ressentidos com o livro e ridicularizaram a idéia de que uma grande corporação deve assumir responsabilidades sociais. Mas a reputação de Drucker como um perito de administração cresceu, apesar do ombro frio da GM. Por volta de 1950, ele foi professor de administração na Universidade de Nova York, e em 1973, foi nomeado Clarke Professor de Ciências Sociais na Claremont Graduate School, na Califórnia.

Drucker afirma que uma empresa é mais do que uma entidade econômica. “Ainda mais importante do que a economia são as relações psicológicas, humanas e de poder que são efetuadas no trabalho e não fora dele. Essas são as relações entre trabalhadores, grupos de trabalho, tarefas, chefe imediato e de gestão.” (3) Os administradores da empresa têm um propósito moral e de responsabilidade social, além dos lucros de curto prazo. Drucker prevê a grande empresa como a instituição social, muito superior ao governo na provisão da aposentadoria, cuidados de saúde, educação, assistência às crianças e outros benefícios. Ele argumenta que o assistencialismo das empresas deve substituir o assistencialismo do governo. Drucker reconhece que essa atividade social poderia prejudicar o desempenho econômico, mas ele rejeita a exortação de Milton Friedman de que a única responsabilidade legítima da empresa é a de aumentar os seus lucros. Um governo letárgico criou um "vazio de responsabilidade e desempenho" que as grandes empresas precisam preencher. 

Uma dimensão moral 

As atitudes de Drucker em relação à gestão empresarial e governamental podem não ser de origem econômica, mas religiosa. "O único fundamento da liberdade é o conceito Cristão da natureza humana: imperfeito, fraco, pecador e pó destinado ao pó; mas o homem é imagem de Deus e responsável por suas ações". Ele apela a um retorno aos valores espirituais, "não para compensar o material, mas para torná-lo totalmente produtivo".

Mas até que ponto ele está disposto a levar esta idéia é uma questão aberta. Drucker tem sido criticado como um apologista de grandes empresas. E é verdade que ele tem sido relutante em discutir sobre as grandes empresas como um poder especial de lobby em busca de lucros. Drucker normalmente entende as empresas e o governo como adversários em vez de cooperadores. Em seu enorme volume,Management, seu capítulo sobre "Empresas e Governo" não menciona como uma grande empresa muitas vezes utiliza seus poderes para obter benefícios fiscais, subsídios, monopólio e as restrições à concorrência estrangeira. 
   
Paul Weaver, um antigo executivo da Ford, descreve a extensão do estatismo corporativo como segue:  "Desde o início elas [as grandes empresas] tem trabalhado agressivamente e imaginativamente neste sentido, e ao longo dos anos ganharam um deslumbrante conjunto de benefícios - tarifas , subsídios, monopólios oficiais, benefícios fiscais, imunidade contra certas ações prejudiciais, suporte do governo para pesquisas e desenvolvimento, programas gratuitos de formação de funcionários, e assim por diante, através de uma longa lista de indulgências e benefícios do Welfare State". (6) Infelizmente, o mestre é estranhamente silencioso sobre este problema crítico. 

Drucker como Economista

Drucker é muito mais do que um consultor e escritor de administração. Ele também é um comentarista sobre política, economia e cultura. Aqui Drucker é mais difícil de categorizar. 
   
Sua visão econômica está freqüentemente em linha com Mises e os Austríacos de hoje; outras vezes não. Ele freqüentemente rejeita noções que os Austríacos consideram essenciais. Ludwig von Mises e ele foram colegas na Universidade de Nova York na década de 1950, mas eles não tiveram muito contato. "Mises me considerava um renegado da verdadeira fé econômica", diz Drucker, e "com boa razão" (7). Drucker ficou desencantado com puro capitalismo laissez faire durante a Grande Depressão. Hoje, ele apóia uma abordagem a hamiltoniana para o governo - pequeno, mas poderoso. Ele acredita num grande presidente e num governo central que desempenham um papel importante na educação, desenvolvimento econômico e bem-estar. Além disso, ele rejeita o padrão-ouro e aprova um banco central. 
   
Ao mesmo tempo, porém, Drucker defende muitas posições que os economistas do mercado livre iriam aplaudir. 

A inflação é um "veneno social". O governo ficou maior, não mais forte, e agora só pode fazer efetivamente duas coisas – promover a guerra e inflar a moeda. O estado tornou-se um "monstro inchado". Ele continua: "Na verdade, o governo está doente -- e logo no momento em que precisamos de um governo forte, saudável e vigoroso." (8) Drucker defende a privatização dos serviços públicos como forma de reduzir a burocracia gigantesca. Na verdade, Drucker afirma que ele inventou o termo, denominando-o reprivatização em 1969 no seu livro The Age of Discontinuity. (9) A Previdência Social deve ser gradualmente substituída por planos de pensão privados. O imposto de renda corporativo, diz Drucker, é o "mais estúpido dos impostos" e deve ser abolido (mas substituído por um imposto sobre o valor acrescentado). O gasto com defesa é um "grave dreno" na economia civil, e deve ser cortado drasticamente. Os custos dos serviços públicos "gratuitos" são “inevitavelmente altos.” (10) Ecoando Hayek, Drucker afirma que nenhuma instituição pública pode operar de uma maneira eficiente porque "não é um negócio”. 
   
Drucker é amplamente otimista sobre o futuro. Ele fala com entusiasmo sobre uma crescente economia mundial e o colapso do comunismo. Corporações multinacionais, grandes e pequenas, são muito mais importantes do que a ajuda externa ou interna dos programas de despesas do estado, e irá liderar o caminho para um novo nirvana. Quanto mais as empresas tornarem-se "transnacionais", mais saudável a economia mundial será. 
   
Drucker é encorajado pelos acontecimentos nos países em desenvolvimento, especialmente os esforços no sentido de privatizar, desnacionalizar e abrir as economias nacionais ao capital estrangeiro. A pior mudança que um país em desenvolvimento pode fazer é adotar o marxismo. “O comunismo é mau (evil). Suas forças motrizes são os pecados mortais da inveja e ódio. Seu objetivo é a subjugar todas as metas e todos os valores ao poder; sua essência é a bestialidade; a negação de que o homem é alguma coisa exceto um animal, a negação de todas as éticas, do valor humano, da responsabilidade”. (11) Drucker desmascara o estilo soviético de planificação central, que só produziu o regresso. Ele conclui que as taxas de crescimento econômicas da União Soviética são em grande parte invenções da imaginação burocrática. 

A busca pela "Próxima Economia"

Drucker manifesta um desprezo pela profissão dos economistas, que, segundo ele, ainda é em grande parte de natureza Keynesiana. Os economistas estão muito preocupados com a teoria do equilíbrio de uma economia fechada e não no crescimento, inovação e produtividade de uma economia global. Drucker afirma que a economia contemporânea está onde a medicina ou a astronomia estavam no século XVII. "Não há alunos mais lentos do que os economistas. Não há maior obstáculo à aprendizagem do que ser prisioneiro de teorias totalmente inválidas, mas totalmente dogmáticas." (12) Ele culpa o Keynesianismo por uma prejudicial mitologia anti-popança, causando "baixos níveis de poupança em larga escala" entre as nações ocidentais, especialmente os Estados Unidos. Além disso, "Keynes é em grande medida responsável pelo extremo enfoque de curto prazo da política moderna, da economia moderna, e dos negócios modernos ... A economia de curto prazo, inteligente, brilhante – e a política de curto prazo, inteligente, brilhante – abriu falência."
   
O guru da gestão também está desanimado com as escolas populares de economia atuais, incluindo os monetaristas e a Nova Escola Clássica. Eles também ignoram o empreendedorismo, a incerteza e o desequilíbrio. Drucker apela para que "próxima economia" seja "microeconômica e centrada na oferta", não na procura agregada, e deverá enfatizar a produtividade e formação de capital. (13)
  
A economia contemporânea Austríaca parece muito com a visão de Drucker sobre a "próxima economia". É de certa forma surpreendente que as obras de Drucker não mencionem o trabalho dos Austríacos de hoje, como Murray Rothbard, Israel Kirzner e Roger Garrison. Quando eu perguntei a sua opinião sobre os Austríacos contemporâneos, ele me disse que não estava familiarizado com suas obras. Ele não tinha ouvido falar da grande obra de Kirzner, Competition and Entrepreneurship (Competição e Empreendedorismo), embora Kirzner e Drucker tenham lecionado na Universidade de Nova York na década de 1960. (14)

O economista favorito de Drucker é Joseph Schumpeter, o economista de Harvard, nascido na Áustria. Num artigo de 1956, Drucker defende a privatização dos serviços públicos como forma de reduzir a burocracia gigantesca. Na verdade, Drucker afirma que ele inventou o termo, chamando-lhe "reprivatização", em 1969.

Em Modern Prophets: Schumpeter or Keynes? (Profetas Modernos: Schumpeter ou Keynes?) ele claramente apóia Schumpeter, predizendo que destes "dois maiores economistas deste século... é Schumpeter que amoldará o pensamento... em teoria econômica e política econômica para o resto deste século, se não para os próximos trinta ou cinqüenta anos" (15) Drucker gosta da ênfase de Schumpeter em desequilíbrio dinâmico e inovação por empresários que praticam a "destruição criativa". Em seu livro de 1985, Innovation and Entrepreneurship (Inovação e Empreendedorismo), ele enfatiza o impacto da mudança tecnológica, a inovação, o inesperado e novos conhecimentos sobre as empresas e a economia mundial. 
   
Mas, evidentemente, Schumpeter foi um “enfante terrible” ("criança terrível") e renegado da escola Austríaca como ela se desenvolveu na linha de Mises e Hayek. Neste sentido, Drucker se encaixa mais no modo Schumpeteriano, embora ele não compartilhasse o pessimismo de Schumpeter acerca do futuro do capitalismo. 
   
No fim das contas, Peter Drucker é ele mesmo. 
   
A mente de Drucker é como um diamante bruto, proporcionando flashs de idéias para todos os lados. Ele é capaz de analisar assuntos complexos de forma que seus leitores e clientes capturem sua visão, vendo a simplicidade essencial por detrás do caos aparente. 
   
Cedo ou tarde, todos os estudantes de administração descobrem Peter Drucker. Agora é a hora para os economistas e cientistas sociais descobrirem ele também.

 

Originalmente publicado em: http://www.mskousen.com/Books/Articles/austrian.html


Tradução e adaptação: Wellington Moraes.

Notas:

(1) Tony H. Bonaparte, Peter Drucker: Contributions to Business Enterprise (New
 York: NYU Press, 1970), p. 23.
 
(2) Peter F. Drucker, Preparing Tomorrow's Business Leaders Today (Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall, 1969), p. 290.

(3) Drucker, The Unseen Revolution (New York: Harper 6r Row, 1976), pp. 134-35, 168.

(4) Quoted in John J. Tarrant, Drucker: The Man Who invented the Corporate Society (Boston: Cahners Books, 1976), p. 30.

(5) Drucker, The Landmarks of Tomorrow, p. 264.

(6) Paul H. Weaver, The Suicidal Corporation: How Big Business Fails America (New York: Simon & Schuster, 1988), p. 18.

(7) See Drucker's autobiography, Adventures of a Bystander (New York: Harper k Row, 1979), p. 50. In an interview in 1991, Drucker told me that on the few occasions they met, Mises was always depressed. "He was one of the most miserable men I ever met."

(8) Peter F. Drucker, The Age of Discontinuity (New York: Harper k Row, 1969), p. 212

(9) ibid., p. 234.

(10) Drucker, The New Realities (New York: Harper & Row, 1989), p. 215.

(11) Drucker, The Landmarks of Tomorrow (New York: Harper & Row, 1959), p. 249.

(12) Drucker, The Frontiers of Management (New York: Harper & Row, 1986), p. 13. 13 Drucker, The Unseen Revolution, pp. 114-15.

(13) Drucker, Toward the Next Economics and Other Essays (New York: Harper k Row. 1981), pp.1-21.

(14) Israel M. Kirzner, Competition and Entrepreneurship (University of Chicago Press, 1973).

(15) The Frontiers of Management, p. 104.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O GRANDE TESTE

FAROL DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA - FDR
Ubiratan Iorio, Economista, Fundador do FDR

Com a eclosão dessa crise que não sai das manchetes em todo o mundo, o governo Lula vai, enfim, passar por seu primeiro teste verdadeiro, no que se refere ao desempenho da economia. E um teste, talvez, “como nunca se viu na história deste país”. Até que ponto, considerando a gravidade dos fatos externos e os perigos de que venham a afetar nossa economia, alguns comentaristas vão continuar afirmando categoricamente que os fundamentos da economia brasileira são “sólidos”? E até onde os homens de Brasília vão prosseguir declamando suas odes à pretensa “robustez” da atividade econômica? Por outro lado, até que nível de cegueira ideológica os críticos da economia de mercado vão chegar, ao atribuírem a crise à “falência do modelo neoliberal”?

Certos analistas e certos políticos parecem desconhecer o final da famosa assertiva atribuída a Abraham Lincoln – mas cujo verdadeiro autor é Phineas Barnum, (1810-1891), mais conhecido como dono de um dos primeiros circos -, de que não se pode enganar a todos durante todo o tempo. Pois tudo sugere que acreditam piamente - e com ar doutoral – que podem... E, por isso, insistem no erro de atribuir a crise financeira às propaladas “falhas dos mercados”, principalmente dos financeiros, que são vistos como puros “cassinos”. Se o diagnóstico é este, nada mais natural que o remédio recomendado seja aumentar o grau de intervencionismo dos governos nas economias, mediante um aperto na regulação e operações de salvamento de instituições que apostaram de forma errada, atraídas pelo canto de sereia do Fed. Parece que a velha bobagem de que “os mercados não funcionam” e que, portanto, o Estado precisa neles intervir vem ganhando novas forças, como que ressuscitando as teses intervencionistas keynesianas que dominaram o mundo desde a crise de 1929 até o final dos anos 70. O verdadeiro fanatismo da mídia torcedora do candidato - vazio de conteúdo - Barack Obama e a recente concessão – política - do Nobel de Economia a Paul Krugman, um economista bem preparado tecnicamente, mas que há muitos anos transformou-se em mero globetrotter do keynesianismo, comprovam que as mentiras do intervencionismo vêm readquirindo ares de verdade.

Diagnoses erradas levam, certamente, a terapias incorretas! O problema não está – contrariamente ao que muitos analistas sugerem – na “ausência” dos governos, está nos seus excessos! É como disse o ex-presidente Ronald Reagan: “o governo não é a solução; ele é o problema”... Por quê?

A crise dos dias atuais começou nos anos 90, quando o governo dos Estados Unidos adotou, de um lado, políticas fiscais fortemente expansionistas, em parte explicadas pelas guerras no Oriente Médio e, de outro, através do Fed, políticas monetárias irresponsavelmente frouxas, que chegaram ao ponto de manter por mais de um ano a taxa de juros nominal em 1%, o que, descontada a inflação, significa a imposição, por parte do próprio Estado, de uma taxa de juros negativa. Em outras palavras, duas orgias, uma fiscal e a outra monetária, de fazer Baco corar de vergonha...

O intervencionismo irresponsável do governo americano chegou ao ponto de criar duas empresas semi-públicas, a Fannie Mae e a Freddie Mac, para bancar a longa noitada, especialmente no mercado de construção de imóveis e sua contrapartida financeira, o de hipotecas. Todos os americanos que desejassem uma casa própria teriam empréstimos fartos a juros praticamente nulos e, ainda por cima, em caso de problemas, sabiam que o governo garantiria os empréstimos com aquelas duas empresas, que foram finalmente estatizadas em setembro deste ano, logo após a quebra da Lehman Brothers. Parece até que estamos falando de certos governos latino-americanos, mas era assim que soava a trombeta do governo de Tio Sam.

Ora, quem conhece a velha Escola Austríaca de Economia reconhece perfeitamente a natureza dos mercados, que nada mais são do que processos de tentativas e erros, materializados em uma infinidade de procedimentos de descobertas; sabe que os mercados são instituições coordenadoras das aspirações de seus participantes, que estes últimos agem sempre formulando suas expectativas considerando o seu conhecimento (que sempre é incompleto, em mutação e disperso); e sabe, além de tudo disso, que os agentes econômicos reagem sempre a incentivos que atuam sobre suas expectativas. Por isso, não pode deixar de concluir que a crise era inteiramente previsível, pelo menos, desde a segunda metade dos anos 90.

Se o governo incentivar você, caro leitor, a criar codornas, mediante muitas facilidades, você será tentado a transformar-se em um criador de codornas e não, por exemplo, em um fabricante de guarda-chuvas; da mesma forma, se ele estimula a compra de casas, com uma abundante oferta de crédito mais do que barato – e, adicionalmente, garante os riscos de quem emprestar o dinheiro para tal propósito -, você será induzido a comprar uma, abrindo mão de bens e serviços que poderia adquirir ao longo do tempo de duração da hipoteca. E provavelmente, influenciado pelo grande incentivo, o fará mesmo se a hipoteca estiver acima da sua capacidade de pagamento. Os mercados – como, de resto, as ações humanas - são como os antigos exércitos: se o sonido da trombeta das autoridades é de ataque, eles partem para a ofensiva; se é de defesa, eles recuam. Sempre foi e sempre será assim.

Em suma, os mercados funcionam sempre, só que estão longe de serem “perfeitos” como estudamos nos livros convencionais de microeconomia. Ocorre que os governos – e isto não está nesses livros – também estão longe da perfeição! Isto é fácil de entender, já que ambos os processos - o de mercado e o político - são regidos pelo princípio da ação humana ao longo do tempo real (bergsoniano) sob condições de incerteza e uma das características do ser humano ao agir é a imperfeição, explicada pelo caráter parcial do conhecimento, que leva a erros de avaliação.

A culpa, então, não é “dos mercados”, é da própria condição humana, que está presente tanto nos mercados quanto nos governos, pois ambos são formados por indivíduos com defeitos e virtudes, interesses e desejos de ganhos, sejam financeiros ou políticos!

Assim, os incríveis erros do Fed representavam um convite, impresso em papel couché, para a festa do crédito artificial: “Venha, senhor mutuário, há crédito superabundante a juros mais do que convidativos! Compareça, senhor banqueiro, porque, em caso de inadimplência, o Estado cobrirá as suas perdas! Bebida e comida à vontade e quase que de graça”!

Nenhuma economia cresce o que os governos desejam, elas crescem simplesmente o que podem crescer. E o tempo, ao mostrar os erros, é o inexorável e truculento “segurança” que, em plena festa, acaba expulsando os convidados que aceitaram participar. Em maio/junho de 2006, houve um impacto setorial da alta de juros sobre as empresas de construção residencial; em janeiro/fevereiro de 2007, sobre as empresas de financiamento imobiliário (inadimplência das hipotecas); em julho/agosto de 2007, a crise se transmitiu aos títulos lastreados nesses empréstimos; no início de 2008, houve contaminação nos mercados de crédito, apesar da reação dos bancos centrais abrindo o crédito. E, a partir de setembro último, todos sabem a história: colapso da Lehman Brothers, estatização das duas empresas (Fannie Mae e Freddie Mac), intervenção em uma das maiores seguradoras privadas (AIG); as intervenções do Fed já não são suficientes e o governo recorre aos contribuintes; o Tesouro anuncia um plano de US$ 700 bilhões para comprar ativos podres, mantendo a taxa de juros abaixo da inflação corrente (!), a União Européia decide comprar ações de bancos privados, o governo americano decide fazer o mesmo; pânico nas bolsas de valores em todo o mundo e perigo de alastramento da crise para os países emergentes.

Aconteceram ganhos privados extraordinários durante a expansão, sob a batuta do Fed e, agora, o Tesouro e o Fed regem a socialização das perdas, sob a ameaça de pânico. É a apresentação da conta da orgia do crédito, que teria que ser cobrada mais cedo ou mais tarde e que desembocará, inescapavelmente, na estagflação, ou seja, em mais desemprego e mais inflação, porque esta é a única e natural forma de saldá-la, que medidas intervencionistas por parte de governos e bancos centrais apenas conseguirão adiar por alguns meses.

Tudo isto está muito bem explicado desde o início dos anos trinta pela chamada Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, do inigualável Friedrich Hayek. Uma visão correta, porém, infelizmente, absolutamente desconhecida por 999 em cada 1000 economistas. Convido o leitor a ler explicações mais aprofundadas desse ponto de vista em http://www.auburn.edu/~garriro/tam.htm, em que o professor da Universidade de Auburn, Roger Garrison, um dos economistas “austríacos” modernos mais competentes, refuta, uma a uma, em arquivos powerpoints, as falácias dos comentaristas e economistas intervencionistas que, ao que tudo sugere, estão querendo decretar a “falência” dos mercados e a “ressureição” do Estado intervencionista. Em outras palavras, estão receitando cachaça para curar o alcoolismo...

Não é que os governos devam permanecer impassíveis diante do que vem acontecendo: já que o circo está pegando fogo, cabe aos “bombeiros” – os bancos centrais – apagarem o incêndio, o que o nosso BACEN vem fazendo ao usar as reservas internacionais para evitar que o dólar estoure e ao reduzir o compulsório para prover liquidez ao sistema. São medidas que, mesmo não atacando as raízes da crise, pelo menos servirão no curto prazo para mitigar os seus danos. É necessário, sim, apagar as labaredas do incêndio.

Mas não é suficiente. É preciso eliminar todos os seus focos, o que nos leva a recomendar o estabelecimento de metas de zeragem das necessidades de financiamento do setor público (déficit nominal). Isto, sem dúvida, extravasa a simples macroeconomia dos livros-textos e nos conduz à política. E dificilmente o governo Lula, caracterizado, desde 2003, por uma autoridade monetária ortodoxa e coerente e por autoridades fiscais heterodoxas e incoerentes, vai dar-se conta dessa necessidade premente!

Se a evidente ausência de coordenação entre o que o Banco Central e o que os “aloprados” que determinam os gastos públicos vêm fazendo desde que o ex-torneiro mecânico assumiu a presidência conseguiu disfarçar-se enquanto a economia mundial navegava em águas calmas, agora, com a procela insopitável que exacerba os oceanos, vai tornar-se visível e patente. A orgia aqui foi diferente da que o governo norte-americano promoveu, foi pela metade, patrocinada pela equipe política do governo, enquanto a equipe do Banco Central sempre mostrou preocupação com os seus efeitos futuros. Mas, com o furacão, ou o governo petista – que simplesmente copiou a política monetária e cambial do segundo mandato do governo anterior – percebe a importância da redução de seus gastos para que a taxa de juros possa cair e, dada a maior liquidez, a inflação não ressuscite, ou teremos a pior de todas as combinações em termos de doenças da economia, a estagflação.

Por isso, o governo Lula vai passar por seu primeiro grande teste e, infelizmente, tudo me leva a crer em sua reprovação. Se o governo de Fernando Henrique, que tinha alguma noção de que o Estado não deve permanecer inchado e que contava na Fazenda com uma figura respeitável como Pedro Malan, encontrou muitos problemas com as sucessivas crises do México, da Ásia e da Rússia, o governo do “maior presidente da história deste país”, que não tem o menor pudor em gastar para fins políticos o que recolhe dos contribuintes e não tem, definitivamente, alguém da estatura de Malan cuidando do Tesouro, encontrará enormes dificuldades para evitar que a crise – que não é localizada como as anteriores, mas mundial – contamine nossa economia.

Está mais do que na hora de nossos comentaristas abandonarem a afirmativa tola de que “nossos fundamentos são sólidos”! Não senhor, eles não são, porque os superávits fiscais que vêm sendo obtidos são fundamentados em taxas de crescimento da arrecadação e não em taxas de queda dos gastos! O Estado precisa – e acho que escrevo isto pela milésima vez! - cortar gastos e diminuir a carga tributária, precisa encolher e restringir a sua atuação às áreas em que é essencial e que vem deixando de lado há bastante tempo. Só assim teremos bons fundamentos e, o que é mais importante, só assim nossa economia terá liberadas a energia criativa e o empreendedorismo, as verdadeiras fontes do crescimento auto-sustentado.

www.ubirataniorio.org

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

O SABER DOS ECONOMISTAS “AUSTRÍACOS”

Ubiratan Iorio

Artigo do Mês - Ano VII – Nº 79 – Outubro de 2008

O mundo financeiro está em pânico e, como sempre acontece nas crises, os palpiteiros dão plantão em jornais, programas de TV, blogs e outros canais de comunicação. Com as altas proporções da crise financeira americana, que já se espraia pelo mundo, não poderia ser diferente. As galinhas neokeynesianas e as maritacas socialistas descem de seus poleiros e ninhos para anunciar – pela milésima vez – o “fim do capitalismo”, o fracasso do mercado e a derrocada do “Império”, receitando, como sempre, mais intervencionismo do Estado na economia, ou seja, açúcar para portadores de diabete e cachaça para alcoólatras...

Seus barulhentos cacarejos e grasnidos, além de incomodarem nossos ouvidos, são, também como sempre, verdadeiras antologias de erros de avaliação e de confusão entre causas e efeitos.

A crise de hoje começou ontem, ou seja, quando o Fed manteve, por anos a fio, a taxa de juros artificialmente baixa, pensando que assim estaria, de acordo com o establishment acadêmico, estimulando a atividade econômica e perpetuando o crescimento sustentado da economia. Como é difícil lutar contra o establishment! Pois os sujeitos não aprendem com os erros do passado e se julgam os donos da verdade “científica”...

Ludwig Von Mises, em sua “Teoria da Moeda e do Crédito”, de 1912, já alertava que a prática de taxas de juros abaixo da que equilibraria a oferta e a demanda de fundos para empréstimos estimularia a economia durante algum tempo, mas provocaria inflação e desemprego no futuroHayek, no início dos anos 30, já vivendo em Londres, publicou “Prices and Production”, em que refinava a teoria misesiana, dando origem ao que ficou conhecido como a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, aperfeiçoada depois por outros expoentes da Escola Austríaca, mas desconhecida por 999 entre 1000 economistas, cuja formação passou a ser exclusivamente macroeconômica, por influência das idéias expostas na Teoria Geral de Keynes, de 1936 e, a partir dos anos 50, por seus seguidores, bem como até por defensores do mercado, como Milton Friedman, os economistas da Escola de Chicago e Robert Lucas e os novos clássicos

A causa principal, a meu ver, do esquecimento a que foi relegada a Escola Austríaca foram suas recomendações para eliminar o que ficou conhecido como a Grande Depressão dos anos 30: os governos deveriam abster-se de intervir na economia, deixando funcionar o sistema de preços livremente e o mercado reavaliar os valores dos recursos! Sim, isto significaria falências de bancos e de muitas empresas, mas falências fazem parte do jogo, a não ser que os contribuintes sejam convocados compulsoriamente a sustá-las, como o governo americano, mais uma vez, pretende fazer neste momento. É o processo, inevitável, de ajustamento, em que os maus investimentos feitos no passado, baseados em expansão monetária travestida de pseudo-poupança, precisam ser eliminados. Mas isto é impopular hoje, como era impopular nos anos 30, o que levou Roosevelt a adotar as recomendações intervencionistas de Keynes, muito mais palatáveis sob o ponto de vista político.

Assim, firmou-se a idéia de que os governos deveriam controlar a demanda “agregada”, com base no “princípio da demanda efetiva” de Keynes e as corretas teses austríacas lançadas na gaveta do esquecimento, algo que nem a concessão, em 1974, do Nobel de Economia a Hayek conseguiu mudar. Desde os anos 30, praticamente todos os economistas são “keynesianos”, mesmo os monetaristas e os novos clássicos, que prezam a economia de mercado e nada têm de socialistas... Uma lástima, de conseqüências desastrosas não apenas para a academia, mas para a humanidade!

A história da crise de hoje não difere, em sua essência, daquela da Grande Depressão e foi plantada pelas políticas do Fed de manter as taxas de juros artificialmente baixas. Ora, juros baixos tornam viáveis projetos de longo prazo, cujos valores presentes são mais beneficiados do que os dos projetos de curto prazo. A construção civil, claramente, está no primeiro grupo. Assim, foi um negócio não natural, estimulado pelo governo americano. Mas, além dessa tentativa de aceleração forçada da prosperidade, as autoridades americanas imbuíram-se da idéia errada de que, se qualquer pessoa desejasse um empréstimo para comprar uma casa, o governo teria a obrigação de concedê-lo, mesmo que indiretamente, idéia que operacionalizou criando a Freddie Mac e a Fannie Mae, empresas com status jurídico cinzento, já que eram geridas privadamente e tinham capital aberto, mas sempre foram protegidas pelo Estado, com o intuito de subsidiar os empréstimos. E o mercado – que, nessas horas, não falha – antecipou corretamente que tais empresas seriam socorridas pelo Estado em caso de dificuldades. Com medidas desse tipo – taxas de juros abaixo da inflação corrente e subsídios camuflados a hipotecas – qualquer economista conhecedor da tradição “austríaca” poderia detectar, há anos, que surgiriam graves problemas futuros.

E o futuro chegou! Em meados de 2006, as empresas de construção civil sentiram os efeitos da alta da taxa de juros ocorrida e também prevista pela teoria, decorrente do cabo-de-guerra ou disputa pelo crédito, como previram, por exemplo, entre inúmeros outros, os seguintes artigos, todos encontrados em http://www.mises.org/ : Who Made the Fannie and Freddie Threat?, de Frank Shostak, de 5 de março de 2004; Freddie Mac: A Mercantilist Enterprise, de Paul Cleveland, de 14 de março de 2005; Fannie Mae: Another New Deal Monstrosity, de Karen De Coster, de 2 de julho de 2007 e How Fannie and Freddie Made Me a Grump Economist, de Christopher Westley, de 21 de julho de 2008.

No início de 2007, as empresas de financiamento imobiliário sofreram os impactos da política irresponsável do Fed, com a inadimplência das hipotecas. Em meados de 2007, a crise se transmitiu aos títulos lastreados naqueles empréstimos e, no início de 2008, a contaminação atingiu os mercados de crédito, mesmo com a reação keynesiana dos principais bancos centrais, expandindo o crédito. Neste mês de setembro, houve o colapso da centenária Lehman Brothers, a estatização da Fannie e da Freddie, a intervenção em uma das maiores seguradoras privadas (AIG) e, no momento em que escrevo estas linhas, o governo americano acaba de promover a maior intervenção já realizada em um banco naquele país, ao vender partes do Washington Mutual, cujas perdas são estimadas em cerca de US$ 30 bilhões, ao JP Morgan, que pagará US$ 1,9 bilhão por ativos do WM. Em maio último, o JP já comprara o Bear Stearns...

Em suma, o circo está pegando fogo e só há duas maneiras de tentar apagá-lo: a primeira seria deixar que o mercado o fizesse por si próprio, com as perdas, quebras e falências daí decorrentes, mas que teria o efeito de acabar com o incêndio e eliminar todas as suas causas. Exatamente o que Hayek propôs nos anos 30, mas que foi descartado pelos governos dos Estados Unidos e da Inglaterra, que preferiram apostar no pretenso remédio de Keynes.

A segunda é, naturalmente, a que o governo – ah, os governos! – de Bush preferiu, estimulado adicionalmente pelo fato de ser 2008 um ano de eleições: recorrer aos contribuintes e anunciar um plano de cerca de US$ 1 trilhão, mantendo a taxa de juros abaixo da inflação observada, já que as intervenções do Fed já não se mostram suficientes sequer para tentar reverter o irreversível, que é o ajuste de contas cobrado pelo processo de mercado. A história se repete. O cacarejar das galinhas keynesianas, o grasnar das maritacas anti-mercado e o elemento político, novamente, prevalecem sobre a racionalidade do processo de mercado.

Houve, como em qualquer período de expansão econômica, extraordinários ganhos privados, sob a batuta do Maestro Fed. Agora, na fase de contração, o regente Tesouro tenta reger atabalhoadamente a dodecafonia da socialização das perdas, diante da ameaça de pânico. Isto significará futuros aumentos de impostos para todos os americanos, os que ganharam no passado e os que nada têm a ver com o pato, além de um avanço no intervencionismo estatal na economia que, até o início do século passado, sempre foi citada como exemplo de uma economia realmente de mercado. E, pior, não apagará definitivamente o incêndio: muito pelo contrário, criará novos focos futuros.

Mas não me venham com a bobagem de atribuir a triste situação atual aos mercados ou ao capitalismo, porque ela foi provocada pelo governo! Qualquer estudante iniciado na Teoria Austríaca da Moeda e dos Ciclos Econômicos sabe disso. Mas, infelizmente, há poucos desses estudantes espalhados pelo mundo, pois nosso establishment acadêmico, desde os anos 30, vem preferindo modelar os alunos para irem a um supermercado e comprarem um quilo ou dois de PIB... É a tirania da macroeconomia, uma construção imaginária que, simplesmente, não existe no mundo real, em que não existe PIB, mas milhões de produtos, nem tampouco “a” taxa de juros, mas centenas delas, uma para cada tipo de operação e prazo.

O saber dos economistas austríacos precisa ser resgatado. Ele não curará todos os problemas, mas melhorará consideravelmente a maneira de encarar a economia do mundo real. E, conseqüentemente, melhorará a nossa vida.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".