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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"Ditadura do relativismo mortifica a razão", diz Bento XVI

6 DE agosto 2009

Autor: Bíblia Católica Online | Postado em: Mundo

ROMA, quarta-feira, 5 de agosto de 2009 (ZENIT.org) - Ao apresentar hoje aos peregrinos a figura de São João Maria Vianney, Bento XVI destacou que o santo é mais que um simples exemplo da espiritualidade devocional do século XIX. Seu testemunho reveste-se de força profética, “que marca sua personalidade humana e sacerdotal de uma altíssima atualidade”.

O Papa explicou na audiência geral em Castel Gandolfo que, na França pós-revolucionária, período da atividade apostólica do Cura d’Ars, vivia-se “uma espécie de ‘ditadura do racionalismo’, empenhada em apagar a presença dos padres e da Igreja na sociedade”.

A “singular e fecunda criatividade pastoral” do Cura d’Ars estava pronta para demonstrar que o racionalismo, então imperante, estava na realidade “distante de satisfazer as necessidades autênticas do homem”.

Bento XVI assinalou que, após 150 anos da morte do santo francês, “os desafios da sociedade moderna não são menos exigentes, talvez até se tornaram mais complexos”.

“Se naquele tempo havia a ‘ditadura do racionalismo’, hoje se registra em muitos ambientes uma espécie de ‘ditadura do relativismo’”, disse.

Segundo o Papa, ambas lançam respostas inadequadas à justa procura do homem por usar de modo pleno a razão como elemento distintivo e constitutivo da própria identidade”.

“O racionalismo foi inadequado porque não levou em conta os limites humanos e aspirou a elevar apenas à razão a mistura de todas as coisas, transformando-as em uma ideia.”

Já o relativismo contemporâneo “mortifica a razão, porque de fato chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer nada com certeza além do campo científico positivo”.

“Hoje, como então, o homem, mendicante de significado e completude, sai em contínua busca das respostas exaustivas às questões de fundo que não cessam de se colocar”, disse o pontífice.

Diante desta “sede de verdade que arde no coração humano”, Bento XVI indicou que os sacerdotes busquem formar “genuínas comunidades cristãs”, capazes de abrir “a todos o caminho para Cristo”.

“O ensinamento que a este propósito continua a transmitir o Santo Cura d’Ars é que, na base de tal empenho pastoral, o sacerdote deve cultivar uma íntima união pessoal com Cristo, fazendo-a crescer dia após dia”, disse.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

As palavras do Papa

Fonte: MÍDIA SEM MÁSCARA
NIVALDO CORDEIRO | 09 JULHO 2009
ARTIGOS - RELIGIÃO

Penso que o Papa aqui caiu em uma armadilha política sem retorno. Engajou a Igreja de Cristo em um projeto suicida. Uma forma de governo mundial, qualquer que seja ela, só existirá em prejuízo da pessoa humana, apartando os poderes públicos dos indivíduos em carne e osso. A grande falácia é que a crise poderia ser superada por uma forma de governo assim. Ao contrário. A crise aconteceu precisamente porque os governos nacionais se agigantaram na ânsia fáustica e blasfema de abolir o risco existencial, contra a vontade expressa de Deus.


Li com tristeza a nova encíclica do Papa Bento XVI (Caritas in Veritate), por dois motivos principais. Primeiro, porque eu esperava uma palavra nova sobre os tremendos acontecimentos dos nossos tempos, e não falo apenas da crise econômica tão saliente que vivemos. E, segundo, pelas concessões que o Santo Padre fez às teses mais caras do esquerdismo mundial. Nunca esperei ver a assinatura do Cardeal Ratzinger em um documento que desse tanta ênfase ao politicamente correto e ao economicamente errado.

Certo, o Papa é o Vigário de Cristo, não o ministro da Economia nomeado por Deus na terra. Por isso mesmo um documento de valor teológico não deveria se esparramar de forma descuidada pela temática econômica, sociológica e política como está feito. Já no endereçamento aparece a palavra "desenvolvimento", que me levou a pensar que o Papa trataria do caráter espiritual do termo. O texto usou a palavra, isso sim, na expressão consagrada pela literatura econômica desenvolvimentista que grassou mundo a partir de meados do século passado. Esses autores foram verdadeiros engenheiros sociais que quiseram fazer do Estado a alavanca para incrementar o crescimento econômico artificial. Associado a esse desenvolvimentismo vemos, no texto, o uso de propostas como a reforma agrária, algo não apenas anacrônico em termos econômicos, visto que a economia agrícola é aquela que mais se tem beneficiado de economias de escala e de novas e sofisticadas tecnologias, para o bem de toda a humanidade. Bem sabemos que no Brasil essa proposta está associada a uma visão revolucionária, que tem como fim último destruir a ordem como está, pondo no seu lugar alguma forma de socialismo. Onde se prega a reforma agrária prega-se a violência da revolução social.

Para meu grande espanto foi usado no texto a expressão "justiça social", esse pleonasmo que está na boca de todos os partidos de esquerda do mundo. Não creio que Sua Santidade ignore isso. Por que o fez? Não faço idéia. Sei que a burocracia da Igreja, especialmente aquela fortalecida pelo Concílio Vaticano II, inoculou no texto esse vírus trágico da verborragia dos militantes políticos que fazem do Foro Social Mundial sua caixa de ressonância.

Eu queria ouvir uma palavra sobre a crise econômica mundial, uma análise justa e factual do que se passa. E a crise mundial é, sobretudo, a crise nos EUA. Por exemplo, a bancarrota da General Motors Corporation, fato de majoritária importância. Qual a grande lição a se tirar daqui? Que uma empresa capitalista não pode ficar sem um dono controlador ou mesmo uma família de controladores. A família é ela mesma a célula principal da economia, é o elemento estruturador da ordem. A GM naufragou porque seus novos donos são os sindicalistas que lhe impuseram condições de remuneração e benefícios incompatíveis com a economia de mercado, mostrando o quão nefastos podem vir a ser os sindicatos de trabalhadores, que desconectam os direitos das obrigações e ignoram que o consumidor não está disposto a pagar privilégios de ninguém, nem mesmo de sindicalistas. Essa lição deveria ter alertado o Papa que, no entanto, faz o seu oposto no texto, dando endosso incondicional da Igreja para que os sindicatos ampliem e prevaleçam na sua lógica tradicional. A primeira grande lição da crise é que a economia deve ser vista pelo ângulo dos consumidores, e não dos produtores, sejam os acionistas, os executivos ou os empregados e seus representantes sindicalistas.

Da mesma forma, essa crise mostrou que as organizações do chamado Terceiro Setor são uma fraude, uma enganação que só servem mesmo para a difusão de valores contrários à fé cristã. Não há caminho econômico alternativo ao capitalismo, ao império da propriedade privada e das relações do livre mercado. Essa crise chegou para colocar um ponto final na aventura dos engenheiros sociais que quiseram criar uma sociedade artificialmente "justa", à custa da prática da injustiça com aqueles que produzem valor. Justiça particularizada é a injustiça ela mesma.

Mas o que verdadeiramente me deixou insatisfeito foi a exortação a uma temível forma de governo mundial patrocinada pela ONU. Nas suas palavras: "Perante o crescimento incessante da interdependência mundial, sente-se imenso - mesmo no meio de uma recessão igualmente mundial - a urgência de uma reforma quer da Organização das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações". De igual modo sente-se a urgência de encontrar formas inovadoras para actuar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns. Isto revela-se necessário precisamente no âmbito de um ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos. Para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII."

Penso que o Papa aqui caiu em uma armadilha política sem retorno. Engajou a Igreja de Cristo em um projeto suicida. Uma forma de governo mundial, qualquer que seja ela, só existirá em prejuízo da pessoa humana, apartando os poderes públicos dos indivíduos em carne e osso. A grande falácia é que a crise poderia ser superada por uma forma de governo assim. Ao contrário. A crise aconteceu precisamente porque os governos nacionais se agigantaram na ânsia fáustica e blasfema de abolir o risco existencial, contra a vontade expressa de Deus. Nenhum governo tem esse poder, menos ainda uma governo mundial, e o Homem precisa ganhar o pão de cada dia com o suor de seu próprio rosto. Os governos atuais, nos quatros cantos da terra, nada mais fazem do que pilhar seus povos em grande escala, conforme podemos medir pelo tamanho da carga tributária que tem sido cobrada, gerando privilégios nauseantes para os detentores do poder político e seus associados, em prejuízo dos pagadores de impostos. Não há aqui qualquer caridade, qualquer coisa que remeta a Deus. Há mesmo é o reino da injustiça.

A experiência da União Européia, tão próxima ao Vaticano, ensina-nos o significado de um governo central que se sobrepõe a outros. Criou-se uma burocracia cara e parasita sobreposta às burocracias nacionais, pouco acrescentando de bem-estar na vida das pessoas, mas obrigando a uma significativa elevação de custos. Uma experiência dessas, levada à escala mundial, será o primeiro passo para a instalação de uma ditadura mundial, um colosso que só pode emergir em prejuízo dos valores cristãos, da própria liberdade que é da essência do cristianismo. Estamos aqui diante da realização inusitada da Terceira Tentação de Cristo. Ora, o próprio Cristo a rejeitou e sabia por que o fazia: o monstro Estatal tem sido, desde sempre o instrumento para a ação nefasta dos inimigos do Povo de Deus.

Um globalismo cristianizado?

Fonte: MÍDIA SEM MÁSCARA
OLAVO DE CARVALHO | 11 JULHO 2009
ARTIGOS - RELIGIÃO

A rejeição categórica do diagnóstico econômico e das soluções propostas pelo Papa Bento XVI deve, portanto, vir junto com o apoio mais decidido aos valores gerais que ele proclama. E a melhor maneira de fazer isto é mostrar que esses valores vão no sentido precisamente oposto ao dos remédios que ele propõe.


pope_easterEm qualquer texto doutrinário que vise a influenciar de algum modo a vida política, é preciso distinguir três níveis: (1) os princípios morais e políticos gerais proclamados ou implícitos; (2) a análise da situação concreta, e (3) as ações sugeridas ou apoiadas. No primeiro nível, a encíclica Caritas in Veritateproclama a necessidade de fundar toda política social na caridade, e esta na verdade: "Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade é a luz que dá sentido e valor à caridade." No segundo nível, oferece um diagnóstico totalmente falso das causas da presente crise econômica. No terceiro, sugere como remédio aos males da economia atual a intensificação e ampliação das mesmas causas que os determinaram. Por mais que eu respeite a pessoa do Papa e a santidade do seu ofício, não posso ver aí verdade nenhuma, nem portanto caridade, exceto se por esta palavra entendermos as boas intenções ineficazes que a própria Encíclica condena.

Desde logo, Bento XVI apresenta como causa fundamental dos problemas atuais a desregulamentação da economia e a redução das redes de segurança social, que trazem "grave perigo para os direitos dos trabalhadores, os direitos fundamentais do homem e a solidariedade atuada nas formas tradicionais do Estado social." Precisamente ao contrário, a ampliação desmesurada da previdência social - quase sempre forçada por meio dos mesmos argumentos agora usados por S. Santidade - foi que causou a falência do sistema bancário e, portanto, dos Estados que nele se apóiam. É verdade que "os sistemas de segurança social podem perder a capacidade de desempenhar a sua função", mas não porque o mercado foi desregulamentado e sim porque lhes falta dinheiro para atender às exigências crescentes de ONGs ativistas, "movimentos sociais" e organismos internacionais, inclusive em favor da imigração ilegal. Quando Bento XVI oferece como solução para a crise econômica o aumento do poder regulador desses organismos, ele esquece que esse poder já veio crescendo, nas últimas décadas, ao ponto de impor a muitos países obrigações sociais que sua economia não suporta.

Por outro lado, é claro que muito do falatório liberal em favor da "abertura dos mercados" não veio de nenhum amor sincero ao liberalismo econômico, mas como expediente maquiavélico para debilitar os Estados nacionais e transferir sua soberania a organismos globais controladores, de modo que tanto as vantagens quanto as desvantagens daquela abertura concorressem igualmente para o acréscimo do poder da elite globalista.

Os beatos de sempre vão assegurar-nos, é claro, que a nova Encíclica não é um manifesto de apoio ao governo global. O texto mesmo dá-lhes o desmentido formal: "Para sanar as economias atingidas pela crise, ... urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial" investida de "poder efetivo". Como modelo dessa autoridade, S. Santidade sugere... o Estatuto das Nações Unidas! Publicada com poucos dias de antecedência da nova reunião dos líderes do G-8, que já proclamam a necessidade de adotar em escala mundial uma política de "estímulos" como a implantada pelo presidente Barack Obama nos EUA, qual outro efeito real pode ter essa Encíclica senão o de um incentivo legitimador a que esses indivíduos façam precisamente o que querem fazer? Se, enquanto isso, o desemprego que Obama prometia eliminar cresce a olhos vistos, levando o próprio vice-presidente Joe Biden a confessar que a política alegadamente salvadora se baseou numa interpretação errada da economia, isso não impede Sua Santidade de endossar como certa essa mesma interpretação errada e de sugerir que a solução fracassada seja ampliada em escala mundial.

A obstinação dos altos círculos católicos na idolatria do "controle global" não vem de hoje. Como o próprio Bento XVI reconhece, "depois da queda dos sistemas econômicos e políticos dos países comunistas da Europa Oriental,... na seqüência dos acontecimentos do ano 1989, o Pontífice (João Paulo II) pediu que o fim dos 'blocos' fosse seguido por uma nova planificação global do desenvolvimento, não só em tais países, mas também no Ocidente." Ou seja, do fracasso total do maior experimento de economia planificada já tentado neste mundo, João Paulo II concluía que era preciso mais planificação ainda, e de dimensões globais.

Não se trata, aqui, de fazer a apologia abstrata da liberdade de mercado. É verdade que a modéstia na intervenção estatal coincide universalmente com a prosperidade (o Índice de Liberdade Econômica do Hudson Institute prova isso ano após ano), mas, como já tenho explicado dezenas de vezes, em geral essa liberdade vem hoje articulada a um projeto político que só a expande em escala local para melhor estrangulá-la no plano mundial. Nenhuma referência a essa maliciosa articulação de estratégias se vê na encíclica de Bento XVI. Reconhecendo embora o poder criativo do livre mercado, o Papa não só faz a apologia do maior controle burocrático, mas sugere que dele participem as entidades da "sociedade civil", como se não tivesse sido justamente a pressão dessas entidades - quase sempre apoiadas num discurso enganosamente cristão e subsidiadas pela elite globalista - que levou à destruição do sistema bancário.

Se, em aparente compensação, Bento XVI exorta os planificadores globais a orientar suas ações num sentido cristão, ele não fornece nem a mais mínima sugestão prática de como realizar essa cristianização do globalismo. A proclamação dos valores cristãos paira no céu da generalidades abstratas, enquanto, no plano da ação prática, só o que se sugere é a ampliação dos controles globais. Sem conexão com as medidas efetivas sugeridas, o apelo à verdade e à caridade funciona, nesse documento, tão-somente como um adorno retórico, embelezando um programa político que não tem com ele a menor conexão lógica e que oferece, como solução do mal, a ampliação das causas que o geraram. Os líderes do G-8 estão livres para brandir a encíclica Caritas in Veritate como um poderoso argumento em favor de políticas que já haviam escolhido de antemão.

Para piorar formidavelmente as coisas, é público e notório que o poder globalista em expansão, longe de se inspirar no que quer que seja de genuinamente cristão, tem como um de seus objetivos professos - intimamente associado às suas políticas econômicas -- a implantação de uma religião universal biônica, na qual a Igreja Católica, expurgada de seus elementos tradicionalistas, se integre como um instrumento dócil da maior farsa espiritual já tentada no universo (v. documentação cabal em Lee Penn, False Dawn. The United Religions Initiative, Globalism and the Quest for a One-World Religion, Hillsdale, NY, Sophia Perennis, 2004). Ao longo do texto, Bento XVI esperneia, aqui e ali, contra o relativismo e a descristianização, como se estes males viessem do ar e não do mesmo establishment globalista cujo poder ele procura expandir.

O dilema em que esse documento coloca os católicos é temível: deverão eles, por obediência ao Papa, colaborar com o fortalecimento do mesmo poder global que os estrangula e vai tornando inviável o exercício público da sua fé, ou, ao contrário, devem voltar-se contra o Sumo Pontífice, aprofundar ainda mais a divisão na Igreja e dar munição à campanha mundial anticatólica? Qualquer das duas alternativas é inaceitável. Enquanto os conservadores e cristãos não aprenderem que não é possível fazer face ao inimigo simplesmente "tomando posição" contra ou a favor disto ou daquilo, não haverá esperança para a humanidade senão a de adaptar-se servilmente a controles globais cada vez mais opressivos e anticristãos. A estratégia do inimigo não é linear: ela é dialética. Ela articula forças contrárias, fazendo-as trabalhar pelo sucesso da síntese global. O que é preciso não é combater propostas isoladas - favorecendo na esfera cultural o que se abomina na da política, ou cedendo na economia aquilo que se pretende defender na esfera cultural -, mas compreender a lógica total do "sistema do Anticristo" e oferecer-lhe resistência integral, tão articulada quanto a estratégia de que ele se serve.

A rejeição categórica do diagnóstico econômico e das soluções propostas pelo Papa Bento XVI deve, portanto, vir junto com o apoio mais decidido aos valores gerais que ele proclama. E a melhor maneira de fazer isto é mostrar que esses valores vão no sentido precisamente oposto ao dos remédios que ele propõe.

domingo, 1 de junho de 2008

Ainda Bento 16 e Karl Marx

Do blog do REINALDO AZEVEDO
Segunda-feira, Abril 09, 2007

Quando gente que respeito discorda de mim, aí cito com prazer. O meu também caro Olavo de Carvalho escreveu o que segue para o Diário do Comércio sobre a referência que Bento 16 fez a Karl Marx (volto em seguida):

Se você é católico, não se sinta obrigado a dizer amém à declaração do Papa de que Karl Marx "forneceu uma imagem clara do homem vitimado por bandidos". Não é uma sentença doutrinal ex cathedra , é apenas uma opinião individual que todo católico tem o direito e até o dever de contestar. Não adianta nada o meu caro Reinaldo Azevedo tentar atenuar o sentido da frase, dizendo que ela não é propriamente um elogio a Karl Marx. A declaração não impressiona pelo que insinua a favor de Karl Marx, mas pelo que diz claramente contra os capitalistas: são bandidos. Assim os descreveu Karl Marx, e o Papa considera essa descrição uma "imagem clara". E o mais bonito é que a ela o ex-cardeal Ratzinger não tem a objetar senão que Karl Marx, limitando-se à esfera material, não foi ao fundo espiritual do problema. Portanto, na perspectiva papal, não basta denunciar o mal econômico da exploração da mais valia: é preciso sondar as dimensões espirituais dessa abominação. Que eu saiba, esse é o programa da Teologia da Libertação: adornar a estupidez marxista com pretextos espirituais colhidos da religião cristã. Cabe recordar que, no trato disciplinar com os Boffs e Gutierres, Ratzinger sempre se limitou às reprimendas paternais sem o mínimo efeito prático, ao mesmo tempo que, para os católicos tradicionais, reservava a mais grave das punições: a excomunhão. Não espanta que um Pedro Casaldáliga não lhe tenha respeito nenhum e lhe passe pitos em público. A ninguém os comunistas desprezam mais do que a seus colaboradores discretos no seio da "direita". Nossos direitistas deveriam aprender com o exemplo: quanto mais você se faz de bonzinho, mais a esquerda lhe cospe em cima.

Voltei
Comecemos pelo corolário. Olavo sabe que concordamos sobre a inutilidade de ser manso com as esquerdas. Quanto ao mais, observo que me limitei a contestar que a referência do papa a Marx se tratasse de um elogio. O próprio Olavo admite que não era, o que não quer dizer que Bento 16 não esteja equivocado. E isso eu também sustentei no meu post original, lembrando, inclusive, que há uma dimensão historicamente anticapitalita na Igreja — ou antiliberal, o que lamento. Discordo de que haja uma conexão entre isso que chamo de "anticapitalismo" católico e a Teologia da Libertação, que não se distingue de marxismo vagabundo. Acho que são orientações com origens intelectuais distintas. De todo modo, saúdo Olavo e sua clareza de sempre, a exemplo do que se lê em trechos do mesmo artigo, conforme segue:

“(...) Desde logo, só a economia capitalista pode gerar prosperidade, mas o sucesso dessa economia depende diretamente da conduta da classe capitalista. (...) Se ela própria insiste em se tornar dependente do Estado, por interesses imediatistas e pela relutância covarde em se expor plenamente aos riscos da livre concorrência, ela condena o capitalismo brasileiro à atrofia perpétua. Não tem sentido um sujeito prosternar-se ante a autoridade governamental e depois reclamar que ela o oprime com sobrecarga de impostos e de exigências burocráticas. Se você quer independência, tem de agir com independência. No Brasil os ricos gritam "Enxuguem o Estado!", mas querem continuar nadando na piscina das verbas oficiais. Assim não dá.
Mas os efeitos da subserviência capitalista ao Estado vão muito além da esfera econômica. O exemplo da classe rica se propaga por toda a população e a corrompe, fazendo de cada cidadão um virtual pedinte de dinheiro público. O brasileiro não sonha em enriquecer com trabalho, poupança e investimento, mas em chegar o mais rápido possível à aposentadoria. E ele não pensa assim por ser preguiçoso, mas porque sua poupança é comida pelos impostos e a única forma de investimento que resta ao seu alcance são as contribuições previdenciárias. O Brasil não é uma potência capitalista porque preferiu ser antes um imenso Instituto de Previdência. Os efeitos psicológicos dessa situação são devastadores: se o objetivo da vida é a aposentadoria, o trabalho não é o caminho da prosperidade e da auto-realização, mas uma incomodidade temporária que deve ser removida o mais rápido possível. Então o desleixo e a incompetência tornam-se não apenas direitos, mas até deveres: como o trabalho não tem nenhuma outra finalidade senão ser abolido o quanto antes, o trabalhador esforçado é visto como um vaidoso pedante ou como um puxa-saco do patrão.”

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".