22/09/09
Por Ives Gandra Martins (*)
Não demonstre medo diante de seus inimigos. Seja bravo e justo e Deus o amará. Diga sempre a verdade, mesmo que isso o leve à morte. Proteja os mais fracos e seja correto. Assim, você estará em paz com Deus e contigo.
Queridos,
Segue um texto longo, longo mesmo. Mas peço que vocês leiam porque se trata da exposição de um método. Demonstro o modo como o oficialismo está tentando calar a imprensa. Com ele, também presto uma homenagem aos repórteres que honram a sua profissão.
*
Há um movimento organizado para desacreditar o jornalismo e intimidar os jornalistas, especialmente os repórteres. Não se trata de nenhuma teoria conspiratória, com personagens secretas a se mover nas sombras. Eu nunca lido com isso. Meus “fantasmas” sempre são de carne e osso. O comandante da operação é até bem conhecido. Chama-se Franklin Martins, ministro da Comunicação Social e responsável último tanto pela área de comunicação propriamente dita como pela distribuição da verba publicitária do governo e de estatais. A manifestação mais visível e virulenta dessa ação é o tal blog da Petrobras. Ele é o melhor exemplo do que pode ser descrito como um método.
Blogueiros a serviço do oficialismo se encarregam, depois, de tentar difamar na rede os veículos da grande imprensa. Muitos deles já passaram por jornais, TVs ou revistas importantes e usam esse passado como prova de autoridade. Seus eventuais leitores se esquecem de perguntar por que, afinal de contas, foram banidos da imprensa de primeira linha e terminam seus dias exercendo este triste papel. Mas não quero me deter nisso agora. Volto à questão do método, não sem antes fazer uma advertência.
Chegou a hora de a chamada grande imprensa se dar conta desse movimento de desmoralização e reagir. Até porque é evidente que as chances de o atual grupo que governa continuar no poder não são pequenas. Mais oito anos na mesma toada, e será abolida a saudável vigilância do poder exercida pela imprensa em qualquer país democrático do mundo. Nesta segunda-feira, uma reportagem pôde ser tomada como estudo de caso. Professores de jornalismo, se ainda os há, deveriam levá-lo para a sala de aula — os que não forem de esquerda, claro, se os houver. Adiante.
A Folha publicou ontem uma reportagem de Fernando Barros de Mello, um jovem repórter muito cuidadoso e cioso dos bons procedimentos da profissão. Leiam a íntegra do que foi publicado. É importante ir até o fim. Reparem quantas são as estranhezas nas quais vocês tropeçam. Volto depois.
A Petrobras pagou, de 2003 a junho deste ano, R$ 203,1 milhões a um grupo de empresas de terceirização de mão de obra de Santo André (Grande ABC) que já utilizou laranjas e tem uma dívida milionária cobrada pela União, entre débitos tributários e previdenciários.
As empresas possuem o mesmo nome -Protemp-, têm fundadores ou sócios em comum, apresentam o mesmo endereço e estão abrigadas no mesmo site da internet.
A própria Petrobras enviou à Folha, em um primeiro momento, os valores como se fossem repassados a uma só empresa. Só depois confirmou que eram três diferentes CNPJs.
Dos 27 contratos com a Petrobras desde 2005, 11 foram por dispensa de licitação e 16 pelo sistema de convite, em que a estatal escolhe as empresas que apresentam propostas.
Segundo a Petrobras, a Protemp é responsável por funcionários que fazem de análise de dados meteorológicos ou fiscalização de topografia até serviços de limpeza e comunicação. A empresa diz não ter contratos com outros órgãos públicos.
Dois CNPJs que receberam verbas da Petrobras estão na Lista de Dívida Ativa da União desde fevereiro de 2009 e não podem obter Certidão Negativa de Débitos, o que impede a contratação. Quem está na lista, diz a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, “não está parcelando, não tem uma decisão judicial favorável (mesmo que liminarmente) e nem efetuou um depósito como forma de garantia, antes de discutir a validade ou não do tributo”.
A reportagem apurou que o primeiro débito previdenciário surgiu em 1999. Hoje, a União cobra dívida de R$ 16,99 milhões. A Protemp diz que os contratos foram feitos porque a empresa questiona débitos na Justiça e está parcelando a dívida. A Petrobras afirma que até o último contrato, de outubro de 2008, toda a documentação estava em ordem.
O grupo Protemp já prestava serviços à Petrobras antes de 2003, mas em volume menor: R$ 19,9 milhões entre 1995 e 2002, no governo Fernando Henrique Cardoso -crescimento de 920,3% em relação ao período da gestão Lula.
Laranjas
As empresas com o nome Protemp pertencem, já pertenceram ou foram fundadas pela empresária Sueli do Espírito Santo, sócia majoritária na Protemp SG Prestação de Serviços, aberta em 1998 em nome de Walter Fabri. À Folha Fabri, que trabalha na empresa até hoje, disse que nunca foi sócio. “Sempre fui funcionário.”
O endereço da sede foi alterado de uma sala em Santana do Parnaíba para o centro de Santo André em 2004. Em 2006, foi aberta a filial do Rio, a cem metros da sede Petrobras.
Na internet, a Protemp diz ter sido fundada em 1987. Na verdade, essa era a Protemp Serviços Empresariais, outra da lista de devedores e que recebeu verbas da Petrobras.
Criada por Sueli do Espírito Santo e Agostinho João Pinheiro (já morto), ela esteve em nome de duas moradoras da periferia de Santo André. Uma delas, Deolinda Malentachi (que também foi sócia de outra Protemp), morreu em novembro de 2007. Ela tinha uma participação majoritária na empresa, de R$ 296 mil. Mas não deixou bens. A documentação mostra que Deolinda deixou o negócio três dias antes de sua morte.
Já a Protemp Consultoria em RH está hoje em nome de ao menos uma laranja. Essa empresa, no entanto, não recebeu da Petrobras.
A Folha localizou, na periferia de Santo André, a aposentada Maria Aparecida da Costa, que aparece como sócia da Protemp Consultoria, mas diz ter sido colocada em uma confusão depois que ela perdeu seus documentos. “Pediram para eu assinar uns papéis”, afirmou.
Maria Aparecida afirmou que, agora, segue orientações de um advogado, que, segundo ela, a procurou há alguns meses. O advogado é Saulo de Lima, de Blumenau (SC). Ex-juiz, foi secretário na gestão do petista Dario Lima e defende o ex-prefeito em outro caso.
Voltei
Barros de Mello fez tudo certo. Ouviu as empresas, inclusive a Petrobras, consultou o cadastro de devedores, procurou os laranjas e falou com eles, evidenciou os procedimentos heterodoxos desses empreendedores. Tudo conforme tem de ser. E quem foi que entrou, então, na arena? O Blog da Petrobras — com os seus satélites fazendo o serviço sujo para tentar desqualificar jornal e jornalista. Publica o blog, sem economizar palavras:
Manchete da Folha está errada
Na matéria “Devedora da União recebe R$ 203 mi da Petrobras” (27/7, pág. A4), a Folha de São Paulo constrói uma tese, a partir de sua manchete, de que a Petrobras fez contratos com empresas devedoras da União. Na verdade, a Petrobras só tem relação comercial atualmente com a Protemp SG Prestação de Serviços, cujo último contrato foi assinado em outubro de 2008, mediante apresentação de todos os documentos exigidos pela legislação vigente.
Vamos ver…
Pra começo de conversa, a Folha de S. Paulo não construiu tese nenhuma. Cadê a tese? Desafio alguém da Petrobras a demonstrá-la. Reportou um fato. A Petrobras pagou mais de R$ 200 milhões a três CNPJs diferentes, todos de empresas com nome Protemp, e duas delas estão na lista de devedores da União. E estão!!! Mas atenção para isto: “Na verdade, a Petrobras só tem relação comercial atualmentecom a Protemp SG Prestação de Serviços, cujo último contrato foi assinado em outubro de 2008, mediante apresentação de todos os documentos exigidos pela legislação vigente.”
Ah, bom!!! Ter relações “atualmente” com apenas uma das três esquisitíssimas Protemps não anula as relações passadas com as outras. Ou anula? Os mais de R$ 200 milhões pagos, está claro, referem-se ao período de 2003 a esta data e dizem respeito a todas as empresas. Mas olhem que isso, na minha opinião, nem é o mais importante, embora estatais e governos não possam fazer negócios com devedores da União. A dívida é apenas um dos aspectos da reportagem da Folha. E os outros?
É razoável fazer negócios com empresas que têm tal histórico? Voltem lá ao subtítulo “laranjas”. Vejam como foram constituídas essas empresas. Olhem que maravilha:
“A Folha localizou, na periferia de Santo André, a aposentada Maria Aparecida da Costa, que aparece como sócia da Protemp Consultoria, mas diz ter sido colocada em uma confusão depois que ela perdeu seus documentos. “Pediram para eu assinar uns papéis”, afirmou.
Maria Aparecida afirmou que, agora, segue orientações de um advogado, que, segundo ela, a procurou há alguns meses. O advogado é Saulo de Lima, de Blumenau (SC). Ex-juiz, foi secretário na gestão do petista Dario Lima e defende o ex-prefeito em outro caso.”
Alguém precisa de mais explicações?
O método
Em que consiste o método de intimidação da reportagem? Em ignorar os problemas para os quais não há resposta e em submeter um aspecto ou outro do texto a torções, respondendo àquilo que não foi escrito. Recuperemos mais duas linhas da reposta da Petrobras: “O último contrato foi assinado em outubro de 2008, mediante apresentação de todos os documentos exigidos pela legislação vigente.” O “último” contrato está de acordo com a legislação vigente? E os outros? Barros de Mello, por acaso, referiu-se, em sua reportagem, ao “último contrato”? Mas a mágica do Blog da Petrobras para esconder débitos com a União vem agora.
A mágica
Leiam com atenção este outro trecho da resposta que está no Blog da Petrobras:
A Protemp SG Prestação de Serviços Limitada reiterou hoje, por meio de carta encaminhada à Petrobras, que não tem débito de nenhuma natureza, seja fiscal, previdenciário, com fornecedores ou empregados.
Notaram? Esse é o caso da Protemp SG Prestação de Serviços Limitada. Não se está falando das outras duas Protemps — NÃO POR ACASO, AQUELAS APONTADAS NA REPORTAGEM DA FOLHA. Elas vêm agora:
Durante a vigência dos contratos anteriores com as empresas Protemp SG Mão de Obra Temporária Ltda. e Protemp Sertviços Empresariais Ltda. também não existiam débitos junto ao INSS e FGTS e as certidões negativas foram apresentadas. Portanto, a Petrobras não celebra contratos com empresas devedoras da União.
Viram? Os débitos “não existiam durante a vigência dos contratos”, o que quer dizer que agora existem — como negar o que está na lista oficial? Então vamos ver se nós entendemos direito a situação. Há três Protemps. As três fazem praticamente a mesma coisa e têm uma mesma dona — depois de alguns “laranjas” terem passado por lá. Como duas das Protemps passaram a ter dívidas com a União (e não foi por falta de grana da Petrobras, né?), então há uma terceira Protemp, esta sem dívida. Entenderam ou preciso desenhar? Se esta vier a ter dívida também, faz-se uma quarta Protemp. Não será por falta de Protemp que essa gente vai ficar sem milhão.
E, assim, a Petrobras conclui, somando dois mais dois e encontrando cinco: “Portanto, a Petrobras não celebra contratos com empresas devedoras da União.” ERRADO! Celebra, sim. Celebrou com uma das Protemps, fazendo de conta que as outras, com as quais já havia trabalhado, não existiam.
Na Folha de hoje, há mais informações sobre a Protemp. Ela conta com 336 funcionários atuando na Petrobras, 183 deles só na área de comunicação. Mas a empresa não tem preconceitos. A exemplo das organizações de R. A. Brandão, é polivalente: atua também na área de limpeza, meteorologia e serviços médicos… Se a R. A. Brandão concorria com as Organizações Capivara, do Seu Creysson, esta deixa as Organizações Tabajara no chinelo.
Ah, sim: quase me esqueço de deixar uma vez mais registrado. Um dos funcionários que a Protemp tem na Petrobras é o ex-chefe do Gabinete Regional da Presidência da República em São Paulo e um dos mais próximos seguranças do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em campanhas políticas. Seu nome é José Carlos Espinoza, um dos aloprados do escândalo do dossiê. Ele está na área de comunicação, e sua função é fazer a interlocução com os movimentos sociais. Mais um pouco, vão contratar Freud Godoy para a área de psicologia.
Concluindo
O que a Petrobras fez com o texto de Fernando Barros de Mello, chamando de erro uma apuração impecável e submetendo a linguagem a pequenas malandragens para esconder a verdade nas suas dobras, tornou-se uma constante da área de comunicação do governo. Os tontons-maCUTs da Internet se encarregam do resto.
Essa prática tem de ser denunciada. É nefasta para o jornalismo, especialmente se as próprias redações começarem a duvidar da apuração de seus repórteres. Intimidados, estes tenderão a se limitar ao despacho burocrático para que seus respectivos nomes não passem a freqüentar o lixão da Internet.
Que os repórteres resistam; que não cedam à tropa de choque do oficialismo e aos prestadores de serviço a soldo. A reportagem de Fernando Barros de Mello segue intacta, e o Blog da Petrobras, em vez de contestá-la, endossou-a de forma vexaminosa para ela e virtuosa para ele.

Olavo de Carvalho
Aproximadamente um ano atrás, o Jornal do Brasil diminuiu arbitrariamente meu salário, de US$ 2.000,00 para US$ 400,00 por mês. O aviso veio como fato consumado, sem qualquer consulta prévia a esta desprezível criatura.
Abraço,
Olavo de Carvalho
“O Congresso não fará lei relativa ao estabelecimento de religião; ou que limite a liberdade de expressão ou de imprensa; ou o direito do povo de reunir-se pacificamente e de dirigir petições ao Governo para a reparação de seus agravos”. (PRIMEIRA EMENDA À CONSTITUIÇÃO DOS EUA)
Pouco depois da promulgação da Constituição os framers (“modeladores” da Constituição) se deram conta de que deveriam esmiuçar melhor os direitos dos cidadãos frente ao Governo e foram propostas dez emendas que levaram 810 dias para serem discutidas, votadas e referendadas, constituindo a Declaração de Direitos (Bill of Rights) [i]. O fato da liberdade de expressão e de imprensa ter sido dos primeiros assuntos discutidos mostra a importância que foi atribuída a elas na organização de um país livre: a busca da verdade, o progresso científico, o desenvolvimento cultural, o incremento da virtude entre o povo, a adesão dos funcionários governamentais aos princípios republicanos, o reforço da comunidade e uma ameaça a políticos demagógicos. A discussão que se seguiu foi a respeito do verdadeiro significado da liberdade de imprensa, principalmente em relação a um ponto crucial: haveria somente proibição de censura prévia e necessidade de registro de publicações, como na lei britânica, permitindo a punição após a publicação (como defendiam os Federalistas e Sir William Blackstone); ou proibiria também a punição pós-publicação, como defendiam os Republicanos e James Madison: “Esta idéia (britânica) jamais deverá ser admitida como uma idéia americana, pois uma lei que permita punir publicações a posteriori teria efeito similar a uma que prevê a censura prévia”. Os Federalistas defendiam que deveria haver limitações porque “…o Governo não pode estar seguro se forem permitidas calúnias falsas e maliciosas que diminuam a confiança e a afeição do povo”. Predominou, até 1937 (ver adiante), a posição dos Republicanos, de que mesmo discursos que criem “desprezo ou má reputação ou ódio (do governo) no meio do povo” devem ser tolerados porque a única maneira de determinar se este desprezo é justificado, é “pelo livre exame (das ações do Governo) e a conseqüente livre comunicação no meio do povo” [ii] [iii].
Em 1644 o poeta britânico John Milton (Paradise Lost), escrevendo contra a censura, instou seu país a ser ‘a grande casa da liberdade’ (the mansion house of liberty [iv]). Dizia ele: “Se os censores atacarem os livros porque não iriam proibir canções populares, conversas privadas ou até mesmo espetáculos de rua? (…) A principal marca de nosso caráter não está na proteção contra as palavras dos outros, mas em nossa responsabilidade por nossas opções”. (…) “A autoridade deve confiar que, sob a liberdade e a lei, a verdade (e a virtude) prevalecerão num livre enfrentamento com os erros e vícios”. A liberdade de expressão é parte essencial da dignidade humana, do progresso e da liberdade. “A Primeira Emenda garante aos indivíduos e aos grupos uma grande autonomia, não apenas para decidir suas mensagens, mas também de se expressar de forma criativa até mesmo em assuntos controversos”. [v]
* * *
Este preâmbulo foi necessário porque o que se chamava então de imprensa era o que hoje chamamos de mídia escrita (oriunda do inglês communications media, meios de comunicação), pois desde então o conceito de imprensa se ampliou para o rádio, o cinema, a televisão e, mais recentemente, a internet. A Suprema Corte tem tomado todos estes meios como expressões do original imprensa. Já liberdade de expressão é um termo mais vasto e abrangente, incluindo a livre discussão de idéias em público ou privado, os discursos de qualquer natureza, a divulgação de descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológicos, a livre circulação de idéias dentro das sociedades científicas e o direito de divulgá-las [vi].
A Suprema Corte vem dando preferência para a interpretação Republicana da Emenda e esta é a base do direito ao sigilo das fontes adotado por toda a mídia. Os Democratas nunca engoliram esta liberdade total. Desde o governo socialista de Franklin D. Roosevelt que as coisas começaram a mudar, pois era preciso impedir que o público soubesse das nomeações de altos dirigentes comunistas para cargos de relevância no seu governo, como Alger Hiss, agente soviético nomeado para funcionário do Departamento de Estado – Departamento entregue totalmente, na ocasião, ao Council on Foreign Relations (CFR) - e Presidente da Comissão que elaborou a carta da ONU.
A Seção 315 do Communications Act de 1937 obrigava as estações de rádio a oferecer ‘oportunidades iguais’ para todos os representantes de candidatos dentro de uma emissora, exceto nos noticiários, entrevistas e documentários. Desde o início da década de 40 a Federal Communications Commission (FCC) adotou a “Mayflower Doctrine” que proibia as emissoras de rádio de expressar as idéias do editor (editorializing). Ao longo da década houve um relaxamento, permitindo a editoração em casos em que outros pontos de vista fossem igualmente irradiados. Finalmente, em 1949, no governo do ex-Vice de Roosevelt, Harry S. Truman, foi adotada a Fairness Doctrine que estabelecia a obrigatoriedade de balanceamento de opiniões nos programas de rádio, a critério da FCC, para estimular a discussão de opiniões controversas sobre assunto de importância pública. Enquanto a Seção 315 era lei federal aprovada pelo Congresso, a Fairness Doctrine não passava de política interna do FCC, portanto não é lei federal, como muitos acreditam.
A pergunta que fica no ar é: por que só o rádio e, desde que existe, a TV a cabo? Os jornais apresentam claramente seus pontos de vista e apóiam candidatos e as grandes redes de TV também. A resposta é dupla. Em primeiro lugar é o rádio que é o meio de comunicação mais apreciado pelos americanos. O programa de Rush Limbaugh, por exemplo, atinge 40 milhões de ouvintes diariamente, número muito maior do que os grandes jornais e as redes de TV, exceto nos horários de pique e em finais de competições esportivas. Nos jornais nem todos lêem os editoriais e nas redes de TV o tempo é tão caro que torna impossível algum repórter ou mesmo um âncora se estender em grandes elucubrações. E se o fizesse o público mudaria de canal, pois o que se procura na TV não é profundidade e sim divertimento rápido e notícias idem.
Em segundo, porque tanto o cinema de Hollywood quanto o teatro da Broadway encontram-se firmemente em mãos esquerdistas desde o magistral trabalho com a intelectualidade americana feito por Willi Münzenberg na década de 30 [vii]. Os grandes jornais e as redes de TV seguiram o mesmo caminho. Estando de acordo com o “progressivismo” do Partido Democrata não é necessária uma Fair-ness, pois tudo é fair (leal, justo, honrado). A onipotência e a onisciência das esquerdas, claramente psicóticas, torna suas opiniões sempre justas e corretas por falarem em nome de um delirante mundo futuro brilhante e glorioso. Mas não o rádio e as estações de TV a cabo, locais ou regionais, que, por atingir os grotões bluegrass (regiões de caipiras, onde imperam as tradições) os conservadores têm mais sucesso. Aí não é fair que eles expressem suas opiniões ‘retrógradas’.
Inúmeros jornalistas protestaram por considerá-la uma violação da Primeira Emenda e dos direitos de livre manifestação e liberdade de imprensa, e defendiam que os repórteres é que deviam decidir por si mesmos sobre o ‘balanceamento’. Ao contrário da tão magnânima intenção da Doutrina, ao invés de estímulo ocorreu uma maior inibição por medo de censura – o efeito assustador (chilling effect): para evitar a obrigatoriedade de andar em busca de pontos de vista opostos, a maioria dos jornalistas simplesmente evitava cobrir qualquer item controverso. Deve-se notar aqui a clarividência de James Madison: expor a punições é igual à censura prévia.
Com a desregulamentação do governo Reagan o novo Presidente do FCC, Mark Fowler, elaborou o Fairness Report em que se evidenciava que ela estava tendo o efeito contrário por causa do chilling effect. Declarou extinta a Doutrina e finalmente, em 1987, várias Cortes declararam que a doutrina não era lei e, portanto, não poderia ter força de lei. Mas os Democratas voltaram ao ataque: na primavera de 87 ambas as Casas do Congresso aprovaram a doutrina como lei, obrigando a FCC a torná-la obrigatória, mas Reagan vetou a lei e não houve votos suficientes para derrubar o veto (2/3 dos votos de ambas as Casas). O mesmo voltou a ocorrer no governo Bush com igual resultado. No entanto a fairness permanece como pano de fundo e membros do Congresso – a maioria expressiva de Democratas – continuam a ameaçar torná-la lei.
* * *
Agora, com os Democratas controlando a Presidência e ambas as Casas do Congresso a Speaker (equivale a Presidente) da Casa dos Representantes, Nancy Pelosi, e o líder da maioria Reid, já disseram que querem trazer de volta a Fairness para impedir os talk shows conservadores de criticarem seu partido. Obama tem interesses primordiais em aprová-la pois, tal como Roosevelt, tem muito a esconder: sua verdadeira nacionalidade, seus aliados passados e presentes e seus planos de insurreição social através dos ‘organizadores de comunidades’ da ACORN (www.acorn.org/) e outras organizações. Mas ele é mais esperto do que Pelosi e sabe que exumar agora a doutrina seria visto como um ataque frontal à Primeira Emenda e despertaria a fúria dos ouvintes de Limbaugh, Hannity, Glenn Beck – que já foi avisado que será retirado do ar caso seja aprovada - e muitos outros, além de milhares de processos. O que Obama tem em mente é um ataque indireto à liberdade de imprensa. De fato, em junho ele declarou (http://www.humanevents.com/article.php?id=29566) que se opunha a trazer de volta a doutrina e sim apoiava a abertura das transmissões radiofônicas e das modernas comunicações aos mais diversos pontos de vista. À primeira vista uma abertura, não parece? Mas não é!
Mark Rudd (www.markrudd.com/Homepage/Who%20is%20Mark%20Rudd.htm), ex-terrorista da organização Weather Underground (http://en.wikipedia.org/wiki/Weatherman_(organization)) e um dos fortes apoios de Obama, afirma (http://www.aim.org/aim-column/is-obama-following-the-leninist-line/) que ele ‘finge ir para a direita e se move para a esquerda’. Outro ex-terrorista da WU, Jeff Jone (www.democracynow.org/2004/12/3/growing_up_in_the_weather_underground), declarou que os compromissos de Obama com o centro são apenas cortinas de fumaça para cooptar centristas, mas ele continua sendo o Comandante-em-chefe, sugere olhar detidamente para o segundo escalão, totalmente de esquerdistas e acrescenta: ‘Até Lenin ficaria impressionado!’
É claro que Obama não pode se sentir seguro “se forem permitidas calúnias falsas e maliciosas que diminuam a confiança e a afeição do povo”, pois esta ‘afeição’ é baseada exclusivamente em falsidades e imposturas e no desconhecimento de suas ligações com grupos terroristas e criminosos de Illinois. Três dias depois das eleições o Vice-Presidente para Estudos de Governabilidade da Brookings Institution (www.brookings.edu/), Darrell West, mandou para Obama o primeiro de 12 memorandos a serem enviados nas próximas semanas, instando-o a restaurar a Fairness Doctrine para ‘restaurar a ética jornalística e cumprir com a função da mídia de educar o povo’.
A grande novidade que será encaminhada ao Congresso chama-se localismo.
Localismo, Diversidade, e Propriedade dos meios de comunicação
A interpretação progressivista [viii] dada ao localismo exige que as emissoras sirvam aos interesses das comunidades locais para manterem suas licenças de transmissão. Ocorre que muitas emissoras possuem várias estações em cidades diferentes e/ou promovem programas nacionais, o que permite que os talk-shows conservadores tenham uma audiência nacional. Se fizermos o que Jeff Jones recomendou e ficarmos atentos ao segundo escalão, veremos que o escolhido por Obama para chefiar esta área e a equipe de transição é John Podesta, Presidente e CEO do Center for American Progress (CAP) (www.americanprogress.org/), o todo poderoso Chief of Staff de Clinton de outubro de 1998 a janeiro de 2001, quando dirigia e gerenciava a política interna e todas as operações diárias da Casa Branca. O Relatório Podesta recomenda maior responsabilidade sobre as licenças de transmissão e multas às emissoras que transmitem vozes conservadoras consideradas fora das necessidades ‘locais’. A receita gerada pelas multas seria revertida para financiar transmissões esquerdistas (liberals). Mas os esquerdistas já possuem vários órgãos de divulgação e os conservadores só têm os programas de rádio. Localismo não passa de um disfarce para silenciar a voz dos conservadores.
Além disto, o think tank de Podesta exige ‘diversidade de propriedade’, de forma a transferir a propriedade dos meios de comunicação a minorias esquerdistas do tipo Al Sharpton ou Jesse Jackson. Não passa de mais uma arma contra os conservadores que ‘não refletiriam a diversidade das comunidades às quais servem’ e, portanto, devem ser substituídas por vozes das supostas ‘minorias’, totalmente controladas pela esquerda. Isto é, roubo puro de propriedade!, nada mais característico dos esquerdopatas.
Jim Boulet, Jr., o dirigente da organização English First (http://www.englishfirst.org/) que inclui o projeto Keep Rush on the Air (www.keeprushontheair.com), vem advertindo há meses sobre a transformação do localismo do FCC. Boulett declarou à Human Events (www.humanevents.com/) o seguinte:
Em setembro de 2007 Obama fez uma declaração pró-localismo a uma audiência do FCC na sede do Operation Push do Reverendo Jesse Jackson (http://www.encyclopedia.chicagohistory.org/pages/934.html). Um mês depois Obama insistia junto ao Presidente do FCC Martin: “A Comissão falhou quanto às metas de diversidade nos meios de comunicação e de promover o localismo”. O CAP, dirigido por John Podesta produziu um relatório The Structural Imbalance of Political Talk Radio (http://www.americanprogress.org/issues/2007/06/talk_radio.html) com a conclusão de que “a ausência de localismo levou a uma maioria de talk-shows conservadores” e instou um “incremento de responsabilidade de maior localismo sobre as licenças de rádio”.
O escolhido para a equipe de transição para o FCC é Henry Rivera, Presidente do Minority Media Telecommunications Council (www.mmtconline.org/) que defende que as rádios não devem visar ao lucro, mas servir às comunidades, principalmente os interesses de grupos minoritários através de organizações que não visam lucro. As emissoras que não conseguirem aplacar os ‘líderes comunitários locais’ (os ‘organizadores comunitários’ de Obama, única atividade ‘profissional’ conhecida do próprio) poderão ter suas licenças revogadas automaticamente.
Curiosidade: qual foi a primeira organização que usou o localismo desta modalidade? Nada menos do que a altamente politizada The United Church of Christ (www.ucc.org/) do Reverendo Jeremiah Wright que já roubou a licença de uma emissora sulista que não ‘preenchia as condições de defesa dos direitos civis’.
Sou testemunha visual e auditiva de que essas afirmações ‘localistas’ são falsas. No lounge do aeroporto de San Francisco, que já freqüentei algumas vezes, existiam 4 aparelhos de TV transmitindo em inglês, espanhol, chinês e japonês. Nas rádios do Texas e do Arizona, que muito escutei andando de carro, tem programas totalmente em espanhol voltados para a comunidade mexicana. Existem em vários estados programas de rádio em árabe, russo e outros idiomas não identificáveis.
O que vem por aí com a eleição deste impostor é a estatização total dos meios de comunicação através da qual suas imposturas ficarão definitivamente enterradas sob um monturo fedorento de mentiras esquerdistas; e 211 anos depois colocarão uma pá de cal sobre o mais importante documento a favor da liberdade de todos os tempos: a Constituição Americana. Que se juntará à estatização dos meios de produção, conforme o discurso do Senador Ron Paul (ver vídeo aqui publicado). Como venho denunciando há anos, é mais um passo no sentido do suicídio da águia!
Notas:
[i] Não confundir com a Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU, uma empulhação comunista. Em breve comentarei a diferença entre ela e o direito anglo-saxônico.
[ii] As informações sobre a Constituição e as discussões subseqüentes estão baseadas em The Heritage Guide to the Constitution, Edwin Meese III, Ed., Regnery, Washington DC, 2005 e The Constitution and what it Means Today, Edward S. Corwin, Princeton, 1978 (1920).
[iii] As diferenças entre as leis britânica e americana estão bem evidenciadas no artigo a ser publicado de Rachel Ehrenfeld Rocking the free speech boat sobre o processo movido contra ela pelo bilionário saudita Khalid bin Mahfouz na Inglaterra.
[iv] A expressão Mansion House tem também significado simbólico de poder, pois é a denominação da residência oficial dos Prefeitos de Londres, Dublin e York.
[v] The Fire Guide to Free Speech on Campus, David A. French, Greg Lukianoff & Harvey A. Silvergate, Foundation for Indicidual Rights in Education (FIRE), 2005
[vi] Uma das táticas para coibir a livre circulação de idéias muito comum nas universidades e sociedades científicas é a pressão para manter as discussões “dentro da comunidade” (o famoso ‘roupa suja se lava em casa’), impedindo o público de tomar conhecimento das divergências que eventualmente poderiam lhe interessar diretamente, como no caso das sociedades médicas e psicológicas. Nos últimos tempos o próprio conceito de ética foi distorcido para voltar-se mais para a relação entre colegas do que desses com o público diretamente afetado. Voltarei a este assunto em outro artigo.
[vii] Ver meu O Eixo do Mal Latino-Americano e a Nova Ordem Mundial. Também para o CFR.
[viii] O termo progressivismo é preferível a progressista, pois o último é propositadamente confundível com os defensores do progresso real, seja tecnológico, científico, cognitivo, etc., enquanto o primeiro é a progressão rumo ao comunismo.