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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

URSS, a mãe do nazismo


Diário do Comércio, 11 de dezembro de 2008

Se você acha que comunistas, socialistas e marxistas acadêmicos são pessoas normais e respeitáveis, com as quais é possível um "diálogo democrático", por favor vá ao site http://www.sovietstory.com/about-the-film, ou diretamente a http://www.youtube.com/watch?v=xqGkj-6iF2I&feature=PlayList&p=26731056B15AF3E1&index=0&playnext=1 e veja o filme The Soviet Story, que o cientista político Edvins Snore escreveu e dirigiu baseado em documentos recém-desencavados dos arquivos soviéticos. Eis algumas coisinhas que você pode aprender com ele: 1. Toda a tecnologia genocida dos campos de concentração foi inventada pelos soviéticos. Os nazistas enviaram comissões a Moscou para estudá-la e copiar o modelo. 2. O governo da URSS assinou com os nazistas um tratado para o extermínio dos judeus e cumpriu sua parte no acordo, entre outras coisas enviando de volta à Gestapo os judeus que, iludidos pelas promessas do paraíso comunista, buscavam asilo no território soviético. 3. A ajuda soviética à máquina de guerra nazista foi muito maior do que se imaginava até agora. O nazismo jamais teria crescido às proporções de uma ameaça internacional sem as armas, a assistência técnica, os alimentos e o dinheiro que a URSS enviou a Hitler desde muito antes do Pacto Ribbentrop-Molotov de 1939. 4. Altos funcionários do governo soviético defendiam – e os remanescentes defendem ainda – a tese de que fortalecer o nazismo foi uma medida justa e necessária adotada por Stálin para combater o "fascismo judeu" (sic). 5. Nada disso foi um desvio acidental de idéias inocentes, mas a aplicação exata e rigorosa das doutrinas de Marx e Lenin que advogavam o genocídio como prática indispensável à vitória do socialismo.


Todo militante ou simpatizante comunista é cúmplice moral de genocídio, tem as mãos tão sujas quanto as de qualquer nazista, deve ser denunciado em público e excluído da convivência com pessoas decentes. A alegação de ignorância, com que ainda podem tentar se eximir de culpas, é tão aceitável da parte deles quanto o foi da parte dos réus de Nuremberg. É uma vergonha para a humanidade inteira que crimes desse porte não tenham jamais sido julgados, que seus perpetradores continuem posando no cenário internacional como honrados defensores dos direitos humanos, que partidos comunistas continuem atuando livremente, que as idéias marxistas continuem sendo ensinadas como tesouros do pensamento mundial e não como as aberrações psicóticas que indiscutivelmente são. É uma vergonha que intelectuais, empresários e políticos liberais, conservadores, protestantes, católicos e judeus vivam aos afagos com essa gente, às vezes até rebaixando-se ao ponto de fazer contribuições em dinheiro para suas organizações.


Seguem abaixo algumas considerações sobre esse fenômeno deprimente. A convenção vigente nas nações democráticas trata os porta-vozes das várias posições políticas como se fossem pessoas igualmente dignas e capacitadas, separadas tão-somente pelo conteúdo das suas respectivas convicções e propostas. Confiantes nessa norma de polidez e aceitando-a como tradução da realidade, os conservadores, liberais clássicos, social-democratas e similares caem no erro medonho de tentar um confronto com os revolucionários no campo do diálogo racional.


Todos os seus esforços persuasivos dirigem-se, então, no sentido de tentar modificar o "conteúdo" das crenças do interlocutor, mostrando-lhe, por exemplo, que o capitalismo é mais eficiente do que o socialismo, que a economia de mercado é indispensável à manutenção das liberdades individuais, ou mesmo entrando com eles em discussões morais e teológicas mais complexas. Tudo isso não apenas é uma formidável perda de tempo, mas é mesmo um empreendimento perigoso, que coloca o defensor da democracia numa posição extremamente fragilizada e vulnerável. A discussão democrática racional não somente é inviável com indivíduos afetados de mentalidade revolucionária, mas expõe o democrata a uma luta desigual, desonesta, impossível de vencer. O debate com a mentalidade revolucionária é o equivalente retórico da guerra assimétrica.


Trinta anos de estudos sobre a mentalidade revolucionária convenceram-me de que ela não é a adesão a este ou àquele corpo de convicções e propostas concretas, mas a aquisição de certos cacoetes lógico-formais incapacitantes que acabam por tornar impossível, para o indivíduo deles afetado, a percepção de certos setores básicos da experiência humana. A mentalidade revolucionária não é um conjunto de crenças, é um sistema de incapacidades adquiridas, que começam com um escotoma intelectual e culminam numa insensibilidade moral criminosa. É uma doença mental no sentido mais estrito e clínico do termo, correspondente àquilo que o psiquiatra Paul Sérieux descrevia como delírio de interpretação.


Numa discussão com o homem normal, o revolucionário está protegido pela sua própria incapacidade de compreendê-lo. Os antigos retóricos consideravam que o gênero mais difícil de discurso, chamado por isso mesmo genus admirabile, é aquele que se dirige ao interlocutor incapaz. Os melhores argumentos só podem funcionar ante a platéia que os compreenda; eles não têm o dom mágico de infundir capacidade no auditório, nem de curá-lo de um handicap adquirido.


Os sintomas mais graves e constantes da mentalidade revolucionária são, como já expliquei, a inversão do sentido do tempo (o futuro hipotético tomado como garantia da realidade presente), a inversão de sujeito e objeto (camuflar o agente, atribuindo a ação a quem a padece) e a inversão da responsabilidade moral (vivenciar os crimes e crueldades do movimento revolucionário como expressões máximas da virtude e da santidade). Esses traços permanecem constantes na mentalidade revolucionária ao longo de todas as mutações do conteúdo político do seu discurso, e é claro que qualquer alma humana na qual eles tenham se instalado como condutas cognitivas permanentes está gravemente enferma.


Tratá-la como se estivesse normal, admitindo a legitimidade da sua atitude e rejeitando tão-somente este ou aquele conteúdo das suas idéias, é conformar-se em representar um papel numa farsa psicótica da qual os dados da realidade estão excluídos a priori, já não constituindo uma autoridade a que se possa apelar no curso do debate.


Revolucionários são doentes mentais. Os exemplos de sua incapacidade para lidar com a realidade como pessoas maduras e normais são tantos e tão gigantescos que seu mostruário não tem mais fim. Cito um dentre milhares. O sentimento de estar constantemente exposto à violência e à perseguição por parte da "direita" é um dos elementos mais fortes que compõem a auto-imagem e o senso de unidade da militância esquerdista. No entanto, se somarmos todos os ataques sofridos pelos esquerdistas desde a "direita", eles são em número irrisório comparados aos que os esquerdistas sofreram dos regimes e governos que eles próprios criaram. Ninguém no mundo perseguiu, prendeu, torturou e matou tantos comunistas quanto Lenin, Stálin, Mao Tsé Tung, Pol Pot e Fidel Castro. A militância esquerdista sente-se permanentemente cercada de perigos, e nunca, nunca percebe que eles vêm dela própria e não de seus supostos "inimigos de classe". Esse traço é tão evidentemente paranóico que só ele, isolado, já bastaria para mostrar a inviabilidade do debate racional com essas pessoas.


O que separa o democrata do revolucionário não são crenças políticas. É um abismo intransponível, como aquele que isola num mundo à parte o psicótico clinicamente diagnosticado. O que pode nos manter na ilusão de que essas pessoas são normais é aquilo que assinalava o Dr. Paul Serieux: ao contrário dos demais quadros psicóticos, o delírio de interpretação não inclui distúrbios sensoriais. O revolucionário não vê coisas. Ao contrário, sua imaginação é empobrecida e amputada da realidade por um conjunto de esquemas ideais defensivos.


A mentalidade revolucionária é uma incapacidade adquirida, é uma privação de autoconsciência e de percepção. Por isso mesmo, é inútil discutir o "conteúdo" das idéias revolucionárias. Elas estão erradas na própria base perceptiva que as origina. Discutir com esse tipo de doente é reforçar a ilusão psicótica de que ele é normal. Uma doença mental não pode ser curada por um "ataque lógico" aos delírios que a manifestam. Se o debate político nas democracias sempre acaba mais cedo ou mais tarde favorecendo as correntes revolucionárias é porque estas estão imunizadas por uma incapacidade estrutural de perceber a realidade e entram no ringue com a força inexorável de uma paixão cega. E não se pode confundir nem mesmo este fenômeno com o do simples fanatismo. Fanatismo é apenas apego exagerado a idéias que em si mesmas podem ser bastante razoáveis. Em geral, mesmo o mais louco dos revolucionários não é um fanático. É um sujeito que expressa com total serenidade os sintomas da sua deformidade, dando a impressão de normalidade e equilíbrio justamente quando está mais possuído pelo delírio psicótico.


Na peça de Pirandello, Henrique IV, um milionário louco se convence de que é o rei Henrique IV e força todos os seus empregados a vestir-se como membros da corte. No fim eles já não têm mais certeza de que são eles mesmos ou membros da corte de Henrique IV. É este o perigo a que os democratas se expõem quando aceitam discutir respeitosamente as idéias do revolucionário, em vez de denunciar a farsa estrutural da própria situação de debate. A loucura espalha-se como um vírus de computador. A maioria dos democratas que conheço é inteiramente indefesa em face da prepotência psicológica do discurso revolucionário. Daí a hesitação, a pusilanimidade, a debilidade crônica de suas respostas ao desafio revolucionário. Uma doença mental não pode ser "respeitada", aliás nem "desrespeitada". O respeito ou o desrespeito supõem um fundo de convivência normal, que justamente o delírio revolucionário torna impossível.


P. S. Sheila Figlarz, editora do jornal Visão Judaica, avisa que finalmente a devotada estudiosa Sonia Bloomfield terminou seu trabalho de traduzir para o português a página do Memorial do Holocausto. A versão já está no ar em 

http://www.ushmm.org/museum/exhibit/focus/portuguese/.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

As Raízes Socialistas do Nazismo

MOVIMENTO ENDIREITAR
Dom, 16 de Novembro de 2008 19:56 F. A. Hayek

Todas as forças antiliberais estão se unindo contra tudo que é liberal. (A. Moeller van den Bruck)

É um engano comum considerar o nacional-socialismo uma simples revolta contra a razão, um movimento irracional sem antecedentes intelectuais. Se assim fosse, constituiria um perigo bem menor. Nada mais longe da verdade, porém, ou mais ilusório. As doutrinas do nacional-socialismo representam o ponto culminante de uma longa evolução de idéias, da qual participaram pensadores cuja influência se fez sentir muito além das fronteiras da Alemanha. Seja qual for nossa opinião sobre as premissas em que se basearam, não podemos negar que os criadores da nova doutrina eram escritores de peso, que deixaram a marca de suas idéias em todo o pensamento europeu. O sistema se desenvolveu com coerência implacável. Uma vez aceitas as suas premissas, não se pode fugir à sua lógica. Trata-se simplesmente do coletivismo libertado de todos os vestígios de uma tradição individualista que pudessem impedir-lhe a realização.

Embora os pensadores alemães tenham liderado o processo, de modo algum se pode dizer que foram os únicos a trazer-lhe contribuições. Thomas Carlyle e Houston Stewart Chamberlain, Augusto Comte e Georges Sorel distinguiram-se tanto quanto os alemães no desenvolvimento da doutrina nacional-socialista. Dessa constante evolução dentro da Alemanha, fez há pouco uma excelente exposição R.D.Butler em seu estudo The roots of National Socialism (As raízes do nacional-socialismo). Mas, embora seja um tanto alarmante verificar, pela leitura da obra d Butler, a permanência dessa doutrina naquele país durante cento e cinqüenta anos, manifestando-se reiteradamente e sob forma invariável, é fácil exagerar a importância que tais idéias tinham na Alemanha antes de 1914. Constituíam apenas uma corrente de pensamento entre muitas, numa sociedade que, na época, apresentava, talvez, maior variedade de opiniões que qualquer outra. E eram, em geral, idéias aceitas apenas por uma pequena minoria e tão desprezadas pela maioria na Alemanha como nos demais países.

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Por que, então, essas idéias, sustentadas por uma minoria reacionária, vieram a conquistar o apoio da grande maioria do povo e de praticamente todos os jovens alemães? Não foram apenas a derrota, o sofrimento e a onda de nacionalismo que as conduziram ao sucesso. Tampouco, como muitos querem acreditar, foi o seu êxito ocasionado por uma reação do capitalismo contra o avanço do socialismo. Ao contrário, o apoio a essas idéias veio precisamente do lado socialista. Não foi, por certo, a burguesia, mas antes a ausência de uma burguesia forte, que favoreceu sua escalada ao poder.

As doutrinas pelas quais, na geração anterior, as lideranças alemãs tinham-se pautado não se opunham aos elementos socialistas do marxismo e sim aos elementos liberais que este continha – seu internacionalismo e sua democracia. Ao se evidenciar cada vez mais que esses elementos eram justamente os que constituíam um obstáculo à realização do socialismo, os socialistas da esquerda aproximaram-se cada vez mais dos da direita. Foi a união das forças anticapitalistas da esquerda e da direita, a fusão do socialismo radical e do socialismo conservador, que destruiu na Alemanha tudo quanto ali havia de liberal.

Foi estreita, desde o início, a relação entre o socialismo e o nacionalismo naquele país. É significativo que os mais ilustres precursores do nacional-socialismo – Fichte, Rodbertus e Lassalle – sejam reconhecidos, ao mesmo tempo, como fundadores do socialismo. Enquanto o socialismo teórico, em sua forma marxista, dirigia o movimento trabalhista alemão, o elemento autoritário e nacionalista recuou durante algum tempo para o segundo plano. Isso não durou muito, contudo. [1] De 1914 em diante, das fileiras do socialismo marxista foram surgindo doutrinadores que arrebanharam para o nacional-socialismo, não os conservadores e os reacionários, mas os trabalhadores e a juventude idealista. Foi só a partir daí que a corrente nacional-socialista se projetou, transformando-se em pouco tempo na doutrina hitlerista. A histeria de guerra de 1914 que, por causa da derrota alemã, nunca se extinguiu por completo, é o ponto inicial dos desdobramentos mais recentes que produziram o nacional-socialismo, e foi em grande parte à colaboração dos socialistas da velha escola que se deveu a sua ascensão durante esse período.

O primeiro, e sob certos aspectos o mais característico representante desse processo de mudança, é talvez o Prof. Werner Sombart, cuja obra famosa Händler und Helden (comerciantes e heróis) foi publicada em 1915. Sombart a princípio era marxista e ainda em 1909 podia afirmar com orgulho que dedicara a maior parte da sua existência a lutar pelas idéias de Karl Marx. Empenhara-se ao máximo em difundir na Alemanha idéias socialistas e formas variadas de aversão ao capitalismo; e, se ali o pensamento se impregnou de elementos marxistas como em nenhum outro país antes da revolução russa, isso se deveu em grande parte a Sombart. Em certa época, ele foi considerado o maior representante da perseguida intelectualidade socialista, ficando impossibilitado de ocupar uma cátedra universitária por causa das suas opiniões radicais. E mesmo depois da I Guerra Mundial, a influência exercida dentro e fora da Alemanha por sua obra de historiador, que continuava a apresentar uma abordagem marxista apesar de ele ter abandonado o marxismo na política, foi das mais amplas e fez-se notar de modo especial nos escritos de muitos planejadores ingleses e americanos.

Em seu livro sobre a guerra, esse velho socialista saudou a “guerra alemã”, que considerava o inevitável conflito entre a civilização comercial da Inglaterra e a cultura heróica da Alemanha. Não tem limites o seu desprezo pelas idéias “mercantis” do povo inglês, que havia perdido todo o instinto guerreiro. Nada é mais desprezível aos seus olhos do que a busca generalizada da felicidade individual; e o que ele define como a máxima suprema da moral inglesa, “sê justo para que vivas bem e possas prolongar os teus dias sobre a terra”, é em sua opinião “a mais infame das máximas jamais formuladas por um espírito mercantil”. Ressalta a “concepção germânica do Estado”, formulada por Fitche, Lassale e Rodbertus, segundo a qual o Estado não é fundado ou formado por indivíduos; tampouco constitui um agregado de indivíduos ou tem por finalidade servir a qualquer interesse individual. É um Volksgemeinschaft (comunidade do povo) em que os indivíduos não têm direitos, mas apenas deveres. Para Sombart, as reivindicações individuais são sempre decorrência do espírito mercantil. “As idéias de 1789” – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – são concepções características de sociedade baseadas no comércio, sem outra finalidade que a de garantir certas vantagens ao indivíduo.

Segundo ele, todos os verdadeiros ideais alemães de uma vida heróica estavam, antes de 1914, ameaçados de desaparecer por causa do avanço contínuo do pensamento mercantil inglês, do conforto inglês, do esporte inglês. Não só o povo inglês se tornara inteiramente corrupto, e cada membro dos sindicatos acabara “mergulhado no conforto”, como também havia começado a contagiar os outros povos. Só a guerra viera lembrar aos alemães que eles eram na realidade um povo de guerreiros, um povo no seio do qual todas as atividades, e em particular as econômicas, estavam subordinadas a objetivos militares. Sombart sabia que os outros povos desprezavam os alemães porque para estes a guerra era sagrada – mas regozijava-se com isso. Considerar a guerra algo desumano e insensato é um produto da mentalidade mercantil. Há uma vida superior à vida individual – a vida do povo e do Estado – e a finalidade do indivíduo é sacrificar-se por essa vida superior. A guerra é, para Sombart, a consumação da perspectiva heróica da vida e a guerra contra a Inglaterra representa a luta contra o ideal oposto, o ideal mercantil da liberdade individual e do conforto inglês que, para ele, encontra sua expressão mais desprezível nos aparelhos de barbear encontrados nas trincheiras inglesas.

Se as críticas violentas de Sombart pareceram, na época, excessivas mesmo a muitos alemães, outro professor alemão veio a formular idéias mais ou menos idênticas, sob uma forma mais moderada e erudita, e por isso mesmo mais eficaz. O Prof. Johann Plenge era tão grande autoridade em Marx quanto Sombart. Seu livro Marx und Hegel assinala o início do moderno renascimento hegeliano entre os pensadores marxistas e não há dúvidas quanto ao caráter genuinamente socialista das convicções que lhe serviram de ponto de partida. Entre suas numerosas publicações durante a guerra, a mais importante é um livrinho muito discutido na época, e que tem o significativo título 1789 e 1914: os anos simbólicos na história do espírito político. É consagrado ao conflito entre as “Idéias de 1789”, o ideal da liberdade, e as “Idéias de 1914”, o ideal da organização.

A organização é para ele a essência do socialismo, como o é para todos os socialistas cuja doutrina deriva de uma aplicação ingênua dos ideais científicos aos problemas da sociedade. Constituiu, como ele acentua com razão, a raiz do movimento socialista quando este nasceu na França, no início do século XIX. Marx e o marxismo traíram essa idéia básica do socialismo com sua adesão fanática e utópica à idéia abstrata de liberdade. Somente agora a idéia de organização estava voltando a assumir o seu legítimo papel nos demais países, como o atesta a obra de H.G.Wells (cujo Future in América exerceu profunda influência sobre Plenge, que considera Wells uma das maiores figuras do socialismo moderno), mas em especial na Alemanha, onde ela é melhor compreendida e está mais plenamente realizada. A guerra entre a Inglaterra e a Alemanha é, portanto, na realidade, um conflito entre dois princípios opostos. A “Guerra Econômica Mundial” é a terceira grande fase da luta espiritual na história moderna. Tem a mesma importância que a Reforma e a revolução burguesa liberal. É a luta pela vitória das novas forças nascidas do progresso da vida econômica do século XIX: o socialismo e a organização.

Porque, na esfera das idéias, a Alemanha era o mais convicto expoente de todos os sonhos socialistas, e na esfera da realidade, o poderoso arquiteto do sistema econômico mais altamente organizado. Em nós vive o século XX. Seja qual for o fim a guerra, somos um povo exemplar. Nossas idéias determinarão os objetivos da vida humana. A História assiste atualmente a um colossal espetáculo: conosco, um novo e grande ideal de vida avança rumo à vitória, enquanto ao mesmo tempo, na Inglaterra, um dos princípios históricos mundiais entra em colapso final. A economia de guerra criada na Alemanha de 1914 é o primeiro passo na construção de uma sociedade socialista e seu espírito é a primeira manifestação ativa, e não apenas reivindicatória, de um espírito socialista. As necessidades da guerra firmaram a concepção socialista na vida econômica alemã, e assim a defesa da nossa nação criou para a humanidade a idéia de 1914, a idéia da organização alemã, a comunidade do povo (Volksgemeinschaft) nacional-socialista.

Sem que nos apercebêssemos disso, toda a nossa vida política, no Estado e na economia, alçou-se a um plano superior. O Estado e a vida econômica constituem uma nova unidade. O senso de responsabilidade econômica que caracteriza o trabalho do servidor público impregna toda a atividade privada. A nova constituição corporativa da vida econômica alemã [que o Prof. Plenge admite não estar ainda madura nem completa, é a mais alta forma de vida do Estado que já se conheceu na terra. No início, o Prof. Plenge ainda esperava conciliar os ideais de liberdade e de organização, embora em grande parte mediante a submissão completa, porém voluntária, do indivíduo ao todo. Mas esses vestígios de idéias liberais logo desaparecem das suas obras. Por volta de 1918, consumara-se na sua mente a união entre o socialismo e a inexorável política de poder. Pouco antes do fim da guerra, dirigia ele esta exortação aos seus compatriotas no periódico socialista Die Glocke:

Já é tempo de reconhecermos que o socialismo deve ser uma política de poder, porque resume-se em organização. O socialismo deve conquistar o poder, nunca destruí-lo às cegas. E a questão mais importante e crítica para o socialismo em tempo de guerra entre nações não pode deixar de ser está: qual desses povos é preeminentemente chamado ao poder por ser o líder exemplar na organização dos povos? E prenunciava todas as idéias que acabariam por justificar a Nova Ordem de Hitler:

Do ponto de vista do socialismo, que consiste em organização, acaso o direito absoluto de autodeterminação dos povos não equivale ao direito de anarquia econômica individualista? Estaremos dispostos a conceder inteira autodeterminação ao indivíduo na vida econômica? O socialismo coerente só pode conceder ao povo o direito de incorporação de acordo com a distribuição real de forças historicamente determinadas. 

Os ideais expressos por Plenge com tanta clareza gozavam de especial aceitação em certos círculos de cientistas e engenheiros alemães, onde talvez se tenham originado. Como o exigem agora com tanta veemência os seus colegas ingleses e norte-americanos, da vida. Entre aqueles cientistas, destacava-se o famoso químico Wilhelm Ostwald, que conquistou certa celebridade por seus pronunciamentos sobre a questão. Ostwald teria declarado publicamente:

A Alemanha quer organizar a Europa, que até hoje carece de organização. Vou explicar-lhes agora o grande segredo da Alemanha: nós, ou talvez a raça alemã, descobrimos a importância da organização. Enquanto os outros povos ainda vivem sob o regime do individualismo, nós já atingimos o regime da organização. 

Idéias muito semelhantes a estas eram correntes nos escritórios do ditador alemão das matérias-primas, Walter Rathenau, que teria ficado horrorizado se percebesse as conseqüências de suas concepções econômicas totalitárias, mas que, no entanto, merece lugar de destaque numa história mais completa da evolução do pensamento nazista. Com suas obras, Rathenau provavelmente moldou, mais que qualquer outro, as idéias econômicas da geração que cresceu na Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos subseqüentes. Alguns dos seus colaboradores mais íntimos formariam mais tarde a espinha dorsal da administração do Plano Qüinqüenal do Goering. Muito semelhantes eram também os ensinamentos de um outro ex-marxista, Friedrich Naumann, cuja obra Mitteleuropa foi talvez o livro da época da guerra que maior circulação alcançou na Alemanha[2]. Caberia, porém, a um ativo político socialista, pertencente à ala esquerda do partido social-democrata no Reichstag, desenvolver essas idéias da maneira mais completa e dar-lhes ampla divulgação. Paul Lensch, em livros anteriores, já descrevera a guerra como “a fuga da burguesia inglesa ante o avanço do socialismo”, ressaltando quão diferentes eram o ideal socialista de liberdade e a concepção inglesa. Mas somente em seu terceiro livro sobre a guerra, Três anos de Revolução Mundial (de todos o de maior sucesso), suas idéias características, sob a influência de Plenge, alcançariam pleno desenvolvimento[3]. Lensch baseia-se num relato histórico interessante, e sob muitos aspectos exato, de como o sistema protecionista adotado por Bismarck tornara possível na Alemanha uma evolução no sentido da concentração industrial e da cartelização que, segundo a sua ótica marxista, representava um estágio superior do desenvolvimento industrial.

Como conseqüência da decisão de Bismarck em 1879, a Alemanha assumiu um papel revolucionário, isto é, o papel de um Estado que ocupava em relação ao resto do mundo a posição de representante de um sistema econômico superior e mais avançado. Tendo compreendido isso, deveríamos perceber que na presente revolução mundial a Alemanha representa o lado revolucionário e sua grande antagonista, a Inglaterra, o lado contra-revolucionário. Isso prova quão pouco importa a constituição de um país, seja ela liberal e republicana ou monárquica e autocrática, para que esse país seja considerado liberal ou não, do ponto de visto do desenvolvimento histórico. Ou, em termos mais claros, nossa concepção de liberalismo, democracia, etc., deriva da filosofia do individualismo inglês, segundo a qual um Estado com um governo fraco é um Estado liberal, e toda restrição à liberdade do indivíduo é encarada como um produto da autocracia e do militarismo. Na Alemanha, “designada pela história” para representar essa forma superior de vida econômica,  a luta pelo socialismo foi sobremodo simplificada, pois nesse país todos os requisitos do socialismo já se achavam estabelecidos. Portanto, era necessariamente de vital interesse para qualquer partido socialista que a Alemanha triunfasse sobre os seus inimigos, para poder assim cumprir sua missão histórica de revolucionar o mundo. É por isso que a guerra da Entente contra a Alemanha se assemelhava a uma tentativa da pequena burguesia da época pré-capitalista de impedir sua própria decadência. A organização do capital (continua Lensch) iniciada inconscientemente antes da guerra, e prosseguindo de modo consciente no decorrer desta, continuará a desenvolver-se de forma sistemática depois da guerra – isso, não pelo desejo de desenvolver a técnica de organização, e tampouco porque o socialismo tenha sido reconhecido como um princípio superior de desenvolvimento econômico. As classes que constituem hoje, na prática, as pioneiras do socialismo, são, na teoria, as suas inimigas confessas, ou, em todo caso, o eram até há bem pouco. O socialismo está próximo, e, de certo modo, já chegou, visto que não podemos mais viver sem ele. 

Os únicos que ainda se opõem a essas tendências são os liberais. Essa classe de indivíduos, que inconscientemente raciocina segundo padrões ingleses, abrange toda a burguesia alemã de formação acadêmica. Seus conceitos políticos de “liberdade” e “direitos civis”, de constitucionalismo e parlamentarismo, derivam da concepção individualista do mundo, de que o liberalismo inglês é uma encarnação clássica, e que foi adotada pelos representantes da burguesia alemã no período que vai de 1850 a 1880. Mas esses padrões são antiquados e decadentes, exatamente com o antiquado liberalismo inglês, destruído por esta guerra. O que cumpre fazer agora é eliminar essas idéias políticas que herdamos e contribuir para o desenvolvimento de uma nova concepção do Estado e da sociedade. Também nessa esfera, o socialismo deve fazer uma oposição consciente e resoluta ao individualismo. A esse respeito, é surpreendente que, na chamada Alemanha “reacionária”, as classes trabalhadoras tenham conseguido conquistar uma posição muito mais sólida e poderosa na vida do Estado do que na Inglaterra ou na França. 

Lensch prossegue com uma consideração bastante correta e digna de ponderação:

Os social-democratas, com o auxílio desse sufrágio (universal), ocuparam todos os postos que podiam obter no Reichstag, no Parlamento, nos Conselhos Municipais, na Justiça do Trabalho, nos institutos de previdência social, e assim por diante. Desse modo, penetraram fundo no organismo do Estado. Mas o preço disso foi que o Estado, por suas vez, passou a exercer grande influência sobre as classes trabalhadoras. Sem dúvida, como resultado do árduo esforço desenvolvido pelos socialistas durante cinqüenta anos, o Estado já não é o mesmo de 1867, quando foi implantado o sufrágio universal; mas, por sua vez, a social-democracia já não é a mesma daquela época. O Estado passou por um processo de socialização e a social-democracia sofreu um processo de estatização. 

Plenge e Lensch forneceram as idéias que nortearam os doutrinadores imediatos do nacional-socialismo, em especial Oswald Spengler e A. Moeller Van den Bruck, para mencionarmos apenas os dois nomes mais conhecidos. [4] Até que ponto o primeiro pode ser considerado um socialista? As opiniões podem divergir, mas torna-se agora evidente que no seu opúsculo sobre Prussianismo e socialismo, publicado em 1920, ele apenas expressou idéias amplamente defendidas pelos socialistas alemães. Alguns argumentos por ele utilizados bastarão para comprová-lo. “O velho espírito prussiano e a convicção socialista, que hoje se odeiam com um ódio de irmãos, equivalem à mesma coisa.” Os representantes da civilização ocidental na Alemanha, os liberais alemães, são “o exército inglês invisível que, após a batalha de Iena, Napoleão deixou atrás de si em solo alemão.” Para Spengler, homens como Hardenberg, Humboldt e todos os demais reformadores liberais eram “ingleses”. Mas esse espírito “inglês” será eliminado pela revolução alemã iniciada em 1914:

As três últimas nações do Ocidente aspiraram a três formas de existência, representadas pelas famosas divisas: Liberdade, Igualdade, Comunidade. Elas aparecem nas formas políticas do parlamentarismo liberal, da democracia social e do socialismo autoritário [5]. (...) Segundo o instinto alemão, ou, mais corretamente, prussiano, o poder pertence ao todo. (...) A cada um é atribuída uma posição: ou se comanda, ou se obedece. Este é, desde o século XVIII, o socialismo autoritário, essencialmente antiliberal e antidemocrático, pelos padrões do liberalismo inglês e da democracia francesa. (...) Há na Alemanha muitos contrastes detestados e malvistos, mas só o liberalismo é desprezível no território alemão. 

A estrutura da nação inglesa baseia-se na distinção entre ricos e pobres; a da nação prussiana, na distinção entre comando e obediência. O significado da distinção de classes é, pois, fundamentalmente diverso nos dois países. 

Após apontar a diferença essencial entre o sistema competitivo inglês e o sistema prussiano de “administração econômica”, e tendo mostrado (numa repetição propositada dos conceitos de Lensch) que depois de Bismarck a organização deliberada da atividade econômica assumira progressivamente formas cada vez mais socialistas, Spengler prossegue:

Na Prússia existia um verdadeiro Estado, na mais ambiciosa acepção da palavra. Rigorosamente falando, lá não podia haver indivíduos. Todos os que viviam dentro do sistema, que funcionava com uma precisão de mecanismo de relógio, eram, de certo modo, uma peça desse sistema. A direção dos negócios públicos não podia, portanto, achar-se nas mãos de particulares, como pressupõe o parlamentarismo. Era um Amt (seção, departamento), e o político responsável por ela era um servidor público, um servidor todo. 

A “idéia prussiana” exige que cada um se torne um funcionário do Estado e que todos os salários e remunerações sejam fixados por este. Em especial, a administração de toda propriedade se converte numa função assalariada. O Estado do futuro será umBeamtenstaat. Mas, a questão decisiva, não só para a Alemanha, como para o mundo inteiro e que a Alemanha deve resolver para o mundo, é a seguinte: deverá a economia no futuro dirigir o Estado, ou o Estado dirigir a economia? Em face dessa questão, prussianismo e socialismo se identificam. Prussianismo e socialismo combatem a Inglaterra entre nós. 

Não tardaria muito, e o expoente máximo do nacional-socialismo, Moeller van den Bruck, proclamaria a Primeira Guerra Mundial; uma guerra entre o liberalismo e o socialismo: “Nós perdemos a guerra contra o Ocidente. O socialismo perdeu-a para o liberalismo” [6]. Como para Spengler, o liberalismo é, pois, o arquiinimigo. Moeller van den Bruck vangloria-se de que nãohá hoje liberais na Alemanha: há jovens revolucionários e jovens conservadores. Mas quem desejaria ser liberal? (...) O liberalismo é uma filosofia de vida à qual a juventude alemã volta hoje as costas com nojo, cólera e um desprezo especial, pois não há nada mais exótico, mais repugnante e mais contrário à sua filosofia. A juventude alemã dos nossos dias reconhece no liberalismo o arquiinimigo. 

O Terceiro Reich de Moeller van den Bruck propunha-se dar aos alemães um socialismo adaptado à sua índole e não maculado pelas idéias liberais do Ocidente. E assim o fez. Esses escritores não constituíam em absoluto um fenômeno isolado. Já em 1922, um observador imparcial falava de um “fenômeno peculiar e, à primeira vista, surpreendente” que então se verificava na Alemanha. De acordo com essa opinião, a luta contra a ordem capitalista é uma continuação da guerra contra a Entente, com as armas do espírito e da organização econômica; é o caminho que conduz ao socialismo na prática, a volta do povo alemão às suas melhores e mais nobres tradições. [7]

A luta contra todas as formas desse liberalismo que derrotara a Alemanha foi a idéia comum que uniu numa frente única socialistas e conservadores. A princípio, foi sobretudo no Movimento da Juventude Alemã, quase inteiramente socialista em suas inspiração e perspectiva, que essas idéias foram mais prontamente aceitas e que se completou a fusão do socialismo com o nacionalismo. No fim da década de 20, e até a ascensão de Hitler ao poder, formou-se em torno da revista Die Tat, dirigida por Ferdinand Fried, um grupo de jovens que se tornou o expoente dessa tradição na esfera intelectual. A obra Ende des Kapitalismus (o fim do capitalismo), de Fried, é talvez o produto mais característico desse grupo de Edennazis (elite nazista), como eram conhecidos na Alemanha, e tem um aspecto sobremodo inquietante devido a sua semelhança com grande parte da literatura que vemos na Inglaterra de hoje, onde se pode observar a mesma aproximação entre socialistas de esquerda e de direita, e quase o mesmo desprezo por tudo quanto é liberal na acepção clássica. “Socialismo Conservador” (e, em outros círculos, “socialismo religioso”) foi o slogan sob o qual muitos escritores prepararam o clima que iria propiciar o sucesso do nacional-socialismo. E o “socialismo conservador” é hoje a orientação dominante entre nós. A guerra contra as potências do Ocidente – “com as armas do espírito e da organização econômica” – já não estaria quase vencida, antes de a verdadeira guerra começar?

(O texto que você acabou de ler é um trecho do livro O Caminho da Servidão de Friedrich A. Hayek. Para fazer o download do livro [Arquivo PDF]: clique aqui! ) 

NOTAS

1 - E só se verificou em parte. Em 1892, um dos líderes do partido socialdemocrata, August Bebel, declarava a Bismarck: "o Chanceler Imperial pode ficar certo de que a social-democracia alemã é uma espécie de escola preparatória para o militarismo"!

2 - Um bom sumário das idéias de Naumann, tão características da fusão alemã de socialismo e imperialismo quanto as demais que citamos no texto, se encontra em R. D. Butler, The Roots of National Socialism, 1941, p. 203-9.

3 - Lensch, p. Three Years of World Revolution, prefácio de J. E. M., Londres, 1918. A tradução inglesa dessa obra foi publicada, ainda durante a última guerra, por algum espirito previdente.

4 - O mesmo se aplica a muitos outros líderes intelectuais da geração que produziu o nazismo, tais como Othmar Spann, Hans Freyer, Carl Schmitt e Ernst Jünger. Com respeito a estes, consulte-se o interessante estudo de Aurel Kolnai, The War Against lhe West {A guerra contra o Ocidente, 1938), o qual, todavia, limita-se ao período de pós-guerra, quando esses ideais já tinham sido adotados pelos nacionalistas, apresentando o defeito de não mencionar os socialistas que os haviam criado.

5 - Essa fórmula spengleriana encontra eco numa afirmação muito citada de Carl Schmitt, o maior especialista do nazismo em direito constitucional, de acordo com o qual a evolução do governo desenvolve-se em "três fases dialéticas: do Estado absoluto dos séculos XVII e XVIII, passando pelo Estado neutro do século XIX liberal, ao Estado totalitário, em que Estado c sociedade se identificam" (Schmitt, Carl, Der Hüter der Verfassung. [Tübingen, 1931]. p. 79).

6 - Bruck, A. Moeller van den. Sozialismus und Aussenpolitik, 1933, p. 87, 90 e 100. Os artigos reproduzidos nesse livro, em particular o que trata de "Lenin e Keynes", discutindo de modo mais exaustivo a questão de que tratamos, foram publicados pela primeira vez entre 1919 e 1923.

7 - Pribram, K. "Deutscher Nationalismus und Deutscher Sozialismus", em Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, v. 49, 1922, p. 298-9. O autor menciona, como outros exemplos, o filósofo Max Scheler, o qual pregava "a missão socialista da Alemanha no mundo", e o marxista K. Korsch, que escreve dentro do espírito da nova Volksgemeinschaft; ambos, segundo ele, seguem a mesma linha de argumentação.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Irmãos siameses

Sex, 02 de Maio de 2008 09:24 João Luiz Mauad

Dia desses, tive o desprazer de assistir a trechos da propaganda gratuita do PCdoB na TV. No papel principal, atuava a bela deputada gaúcha Manuela D’Ávila. Abjurava o capitalismo, o neoliberalismo, a globalização e cantava loas ao modelo socialista – o único, segundo ela, capaz de promover a justiça social, o fim das desigualdades e blablablá. Nenhuma menção, evidentemente, aos inumeráveis crimes, atrocidades e mazelas econômicas que seu venerado sistema de organização social produziu mundo afora, durante todo o século XX.

Enquanto ouvia aquela jovem mulher gritar o indefectível festival de clichês e jargões, minha mente viajava pelo passado, numa torrente de memórias e pensamentos dispersos. Lembrei-me então, com saudade, do brilhante escritor francês Jean-François Revel, que num de seus últimos livros – A Grande Parada – traçou o mais completo paralelo que conheço entre os dois modelos totalitários que mais produziram cadáveres e mutilações em toda a história, e explicou por que, enquanto o nazismo segue sendo, com inteira justiça, demonizado por todos os homens de bem, o comunismo, que comprovadamente produziu muito mais vítimas, permanece idolatrado por uma multidão de ignorantes, ingênuos e outros tantos hipócritas.

Revel demonstrou, num trabalho magnífico de pesquisa histórica e jornalística, temperado por sua verve direta e implacável, como o revisionismo comunista encontra-se disseminado na literatura, na história, na mídia e na política, especialmente depois da queda do muro de Berlim.  Além disso, mostrou de forma cruel como os próceres da esquerda – sejam filósofos, políticos, historiadores, jornalistas e intelectuais em geral – agem para criar um sem-número de teorias escapatórias para as atrocidades comunistas, a grande maioria delas propondo-se a tentar desvincular os indeléveis crimes do passado – e do presente – daquilo que apelidaram de “ideal socialista”.

Em sua magnífica obra, Revel desmonta cada um dos inúmeros sofismas e falácias da esquerda, além de demonstrar cabalmente que, malgrado a retórica rebuscada dos seus ideólogos, a realidade é que “nenhuma das justificativas apresentadas, desde 1917, a favor do comunismo, resistiu à sua aplicação; nenhum dos objetivos que ele se propunha atingir foi atingido; nem a liberdade, nem a prosperidade, nem a igualdade, nem a justiça, nem a paz”. E, no entanto, essa erva daninha talvez nunca tenha sido tão ferozmente protegida, por tantos implacáveis defensores, como após o naufrágio soviético.

“Se alguém quiser estudar um sistema mental que funcione inteiramente dissociado dos fatos e elimine imediatamente qualquer informação que contrarie sua visão de mundo”, escreve Revel, “deve estudar a mente dos comunistas. São laboratórios insuperáveis”. Alguns podem até reconhecer a existência de uns poucos fatos abomináveis, mas sempre enfatizando que tais fatos não guardam qualquer relação com a essência do comunismo. Seriam, no máximo, uma perversão do sistema, mas jamais uma decorrência dele.

A repressão em campos de concentração ou em cárceres diversos, os processos sumários e fraudulentos, os expurgos assassinos, as ondas de fome provocadas por programas estupidamente planejados e pavorosamente executados acompanharam todos os regimes socialistas, sem exceção, ao longo da história. “Seria fortuita esta associação?” – questiona o velho Revel. “Será que a verdadeira essência do comunismo reside no que jamais foi, ou nunca produziu? Que sistema é esse, que dizem ser o melhor, porém dotado dessa propriedade sobrenatural de nunca conseguir colocar em prática senão o contrário do que prega? Que linda cerejeira será essa, na qual, por um acaso incompreensível, só brotam cogumelos venenosos?

É inútil tentar descobrir qual dos regimes totalitários do século XX foi o mais bárbaro, porque ambos impuseram a tirania, o pensamento unificado e deixaram como herança uma montanha de cadáveres. O parentesco do comunismo com o nazismo é, para a esquerda em geral, um tema sempre delicado e, como qualquer tabu, sabiamente escamoteado. Por exemplo, quando um ideólogo marxista, como Stalin, se comporta como um carrasco nazista, a explicação é simples: a culpa é do personagem e de seu caráter perverso, nunca do sistema. Stalin seria então um verdadeiro nazista, apenas fantasiado de comunista.

Para que se tenha uma idéia de como pode ser dramática a inversão de valores produzida pelos sofistas da esquerda, quase sempre valendo-se da verborragia “politicamente correta”, basta lembrar que, aos olhos da maioria do público mundo afora, os grandes vilões da atualidade, estigmatizados e vitimados pelos mais sórdidos preconceitos, somos justamente nós, os malvados anticomunistas – alguns raros e teimosos abnegados, que ainda insistem na luta para desmascarar os verdugos da liberdade e fulminar seus sórdidos subterfúgios. 

Enquanto isso, do outro lado, os anjinhos comunistas desfilam sua utopia pelos palanques, pelas salas de aula, pelas redações dos jornais e pelos púlpitos das igrejas sem que quase ninguém veja aí qualquer problema. Não importa que o comunismo, com seu amontoado de trapaças ideológicas, continue matando pessoas no Tibete, na Coréia do Norte, na China ou em Cuba.  Não importa tampouco que ele continue sendo uma importantíssima ferramenta nas mãos de tiranos, sempre dispostos a instalar regimes de opressão em nome da defesa dos oprimidos – como ocorre amiúde em diversos países latino-americanos.

Embora seja indelével a identidade e a afinidade, em essência, entre o comunismo e o nazismo, existe uma diferença importante a distinguir nos dois modelos. Como muito bem lembrado por Revel, “Hitler desde sempre demonstrou sua hostilidade à democracia, à liberdade de expressão e de cultura, ao pluralismo político e sindical. Além disso, nunca escondeu sua ideologia racista e (...) anti-semita. Por conseguinte, partidários e adversários do nazismo situavam-se, desde o começo, de um lado ou de outro de uma linha divisória traçada nitidamente”. Em resumo, não houve decepções com o nazismo, já que seu líder cumpriu fielmente o que prometera.

Já o comunismo é diferente, “pois emprega a dissimulação ideológica, veiculada pela utopia. Promete a abundância e provoca miséria; promete a liberdade, mas impõe a servidão; promete a igualdade e leva à mais desigual das sociedades – com a nomenklatura, classe privilegiada a tal ponto como jamais se conheceu, nem mesmo nas comunidades feudais. Ele promete ainda respeito à vida humana, mas realiza execuções em massa; promete o acesso de todos à cultura, mas leva ao embrutecimento generalizado; promete o “novo homem”, mas o fossiliza”.

O nazismo, portanto, abriu o jogo desde o início. Já o comunismo é insidioso e sempre se escondeu atrás da utopia. “Isso lhe permite satisfazer o apetite pela dominação e pela servidão sob o disfarce da generosidade e do amor à liberdade, perpetrar a desigualdade sob o manto do igualitarismo. O totalitarismo mais eficaz, portanto”, fulmina Jean-François, “... não foi aquele que fez o Mal em nome do Mal, mas o que faz o Mal em nome do Bem”.

***

Após a publicação, em 1997, de O Livro Negro do Comunismo, um trabalho histórico científico que expôs de forma insofismável os crimes do totalitarismo comunista, a defesa da esquerda foi muito pouco centrada na materialidade desses crimes, desde então dificilmente impugnáveis.  “Que fez ela, então? Invocou, sobretudo, a pureza de motivos que havia determinado a sua perpetração. A mesma velha história! Desde os primeiros instantes da revolução bolchevique, tivemos que engolir, ad nauseum, essa insípida poção”, resume Revel.

O nazismo e o comunismo cometeram atrocidades comparáveis, tanto por sua extensão quanto por seus pretextos ideológicos.

Isso não foi, entretanto, resultado de uma “coincidência fortuita de comportamentos aberrantes”. 

Ocorreu, muito pelo contrário, porque ambos comungavam os mesmos princípios e idéias fundamentais, sedimentados por convicções pétreas, e – mais importante! – empregavam o mesmo modus operandi. É emblemático o fato – aliás, inconteste – de que tanto uma ideologia quanto a outra sempre defenderam – e nunca esconderam isso – a tese de que os fins justificam quaisquer meios.

O socialismo, segundo Revel, “não é mais ou menos de esquerda do que o nazismo”. A característica fundamental de ambos “é que seus dirigentes, convencidos de serem detentores da verdade absoluta e de comandarem o curso da história, sentem-se no direito de destruir os dissidentes, reais ou potenciais, as raças, categorias profissionais ou culturais, que lhes parecem entravar (...) a consecução de seus supremos desígnios”.

Por isso, prossegue Revel, “tentar distinguir entre os dois regimes totalitários, atribuir-lhes diferentes méritos em função do afastamento de suas superestruturas ideológicas, em vez de constatar a identidade de seus comportamentos reais é bem estranho, principalmente vindo da parte dos socialistas, que deveriam ter lido Marx um pouco melhor. 

Não se pode julgar, dizia ele, uma sociedade pela ideologia que lhe serve de pretexto, assim como não se julga uma pessoa pela opinião que ela tem de si mesma”.

“O próprio Adolf Hitler foi um dos primeiros a saber captar as afinidades entre o comunismo e o nacional-socialismo. Ele certamente não ignorava que uma estratégia política é julgada por seus atos e métodos e não pelos adornos de oratória ou pelos ‘pompons’ filosóficos que a cercam. Ele declara a Hermann Rauschning, que o relata em Hitler me disse, livro lançado ainda em 1939:

Aprendi muito com o marxismo e não pretendo escondê-lo (...). O que despertou interesse nos marxistas e me forneceu ensinamentos foram seus métodos. (...) 

Todo o nacional-socialismo está lá contido. 

Veja bem: os grêmios operários de ginástica, as células empreendedoras, os desfiles monumentais, os folhetos de propaganda redigidos em linguagem de fácil compreensão pelas massas. Esses novos métodos da luta política foram praticamente todos inventados pelos marxistas. 

Eu só precisei me apoderar deles e desenvolvê-los para conseguir assim os instrumentos de que necessitávamos....

Pode ser um tanto surpreendente para alguns – principalmente em virtude da habilidade com que a intelligentsia esquerdista contorce e escamoteia os fatos históricos – encontrarmos a mesma linha filosófica em Karl Marx e Adolf Hitler, contra quem, a propósito, é chocante a ingratidão dos atuais pensadores socialistas. Num livro de entrevistas de Otto Wagener, também citado por Revel, Hitler é incisivo:

Agora que terminou a era do individualismo, nossa tarefa é encontrar o caminho que leva ao socialismo sem revolução. Marx e Lênin enxergaram perfeitamente o objetivo, mas escolheram o caminho errado”.

Se o Führer comungava com Marx a opinião sobre a necessidade de mutilar o individualismo, não é menos emblemática a convergência de ambos acerca do anti-semitismo. Num ensaio muito pouco conhecido – Sobre a Questão Judaica –, mas que Hitler certamente leu com toda atenção, a ponto de tê-lo praticamente plagiado em algumas passagens, Karl Marx desfere contra os judeus uma torrente de insultos coléricos, como estes:

Qual é a origem profana do judaísmo? A necessidade prática, a cupidez. Qual é o culto profano do judeu? O comércio. Quem é o seu Deus? O dinheiro.

Além disso, para o profeta, o comunismo seria “a organização social que faria desaparecer as condições para o comércio e tornaria o judeu inviável”. Vemos aí, claramente, a origem do ódio incontido – tanto de nazistas quanto de comunistas – ao povo judeu. Ódio este que, diga-se de passagem, perdura até os dias de hoje.

Judeu ou não, entretanto, é nitidamente o indivíduo, seja na ideologia nazista ou comunista, quem deve ser aniquilado. 

Aniquilação essa que, como ensina Revel, “é a própria aniquilação do ser humano, que nunca existiu de outra forma, que não individualmente”.

Muito embora o parentesco entre essas duas sórdidas ideologias seja incontestável sob muitos aspectos, além da ululante semelhança entre suas estruturas de poder e seus aparatos repressivos, permanece latente a recusa sistemática de qualquer paralelo entre elas. Segundo Jean-François, essa recusa peremptória, aliada à execração diária de um nazismo dito de direita, “serve de anteparo protetor contra um exame mais apurado do comunismo”. Ou ainda, nas palavras de Alain Besançon, citado por Revel: “a hipermnésia do nazismo desvia a atenção da amnésia do comunismo”.

Fonte: www.midiasemmascara.org

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Mentira temível

Do portal do OLAVO DE CARVALHO
8 de agosto de 2008

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O protesto do governo russo contra a equiparação moral de nazismo e comunismo condensa uma das falsificações históricas mais temíveis de todos os tempos. Temível pelas dimensões da mentira que engloba e duplamente temível pela credulidade fácil com que é acolhida, em geral, pelos não-comunistas e mesmo anticomunistas.

Até John Earl Haynes, o grande historiador do anticomunismo americano, subscreve esse erro: “Ao contrário do nazismo, que explicitamente colocava a guerra e a violência no cerne da sua ideologia, o comunismo brotou de raízes idealísticas.

Nada, nos documentos históricos, justifica essa afirmativa.

Séculos antes do surgimento do nazismo e do fascismo, o comunismo já espalhava o terror e o morticínio pela Europa, atingindo um ápice de violência na França de 1793. A concepção mesma de genocídio – liquidação integral de povos, raças e nações – é de origem comunista, e sua expressão mais clara já estava nos escritos de Marx e Engels meio século antes do nascimento de Hitler e Mussolini.

O idealismo romantizado está na periferia e não no cerne da doutrina comunista: os líderes e mentores sempre riram dele, deixando-o para a multidão dos “idiotas úteis”.

É significativo que Marx, Engels, Lênin, Stalin, Mao ou Che Guevara tenham dedicado pouquíssimas linhas à descrição da futura sociedade comunista e das suas supostas belezas, preferindo preencher volumes inteiros com a expressão enfática do seu ódio não somente aos burgueses e aristocratas, mas a milênios de cultura intelectual e moral, explicados pejorativamente como mera camuflagem ideológica do interesse financeiro e do desejo de poder.

Entre os não-comunistas, a atribuição usual de motivos idealísticos ao comunismo não nasce de nenhum sinal objetivo que possam identificar nas obras dos próceres comunistas, mas simplesmente da projeção reversa da retórica de acusação e denúncia que nelas borbulha como num caldeirão de ódio.

A reação espontânea do leitor ingênuo ante essas obras é imaginar que tanta repulsa ao mal só pode nascer de um profundo amor ao bem. Mas é próprio do mal odiar-se a si mesmo, e simplesmente não é possível que a redução de todos os valores morais, religiosos, artísticos e intelectuais da humanidade à condição de camuflagens ideológicas de impulsos mais baixos seja inspirada no amor ao bem.

O olhar de suspicácia feroz que Marx e seus continuadores lançam sobre as mais elevadas criações dos séculos passados denota antes a malícia satânica que procura ver o mal em tudo para assim parecer mais suportável na comparação. Para aceitar como verdade a lenda do idealismo comunista, teríamos de inverter todos os padrões de julgamento moral, admitindo que os mártires que se deixaram matar na arena romana agiram por interesses vis, ao passo que os assassinos de cristãos na URSS e na China agiram por pura bondade.

Nos raros instantes em que algum dos teóricos comunistas se permite contemplar imaginativamente as supostas virtudes da sociedade futura, ele o faz em termos tão exagerados e caricaturais que só se podem explicar como acessos de auto-excitação histérica sem qualquer conexão com o fundo substantivo das suas teorias. Ninguém pode reprimir um sorriso de ironia quando Trotski diz que na sociedade comunista cada varredor de rua será um novo Leonardo da Vinci. Como projeto de sociedade, isso é uma piada –

o comunismo inteiro é uma piada. Ele só é sério enquanto empreendimento de ódio e destruição.

Ademais, o protesto russo suprime, propositadamente, dois dados históricos fundamentais:

(1) O fascismo nasceu como simples dissidência interna do movimento socialista e não como reação externa. Sua origem está, comprovadamente, na decepção dos socialistas europeus com a adesão do proletariado das várias nações ao apelo patriótico da propaganda belicista na guerra de 1914. Fundados na idéia de que a solidariedade econômica de classe era um laço mais profundo e mais sólido do que as identidades nacionais – alegadamente invenções artificiosas da burguesia para camuflar seus interesses econômicos –, Lênin e seus companheiros de partido acreditavam que, na eventualidade de uma guerra européia, os proletários convocados às trincheiras se levantariam em massa contra seus respectivos governos e transformariam a guerra num levante geral socialista. Isso foi exatamente o contrário do que aconteceu. Por toda parte o proletariado aderiu entusiasticamente ao apelo do nacionalismo belicoso, ao qual não permaneceram imunes nem mesmo alguns dos mais destacados líderes socialistas da França e da Alemanha. Ao término da guerra, era natural que o mito leninista da solidariedade de classe fosse submetido a análises críticas dissolventes e que o conceito de “nação” fosse revalorizado como símbolo unificador da luta socialista. Daí a grande divisão do movimento revolucionário: uma parte manteve-se fiel à bandeira internacionalista, obrigando-se a complexas ginásticas mentais para conciliá-la com o nacionalismo soviético, enquanto a outra parte preferiu simplesmente criar uma nova fórmula de luta revolucionária – o socialismo nacionalista, ou nacional-socialismo.

Não deixa de ser significativo que, na origem do "socialismo alemão" – como na década de 30 era universalmente chamado –, a dose maior de contribuições financeiras para o partido de Hitler viesse justamente da militância proletária (v. James Pool “Who Financed Hitler: The Secret Funding of Hitler's Rise to Power, 1919-1933”, New York, Simon & Schuster, 1997). Para uma agremiação que mais tarde os comunistas alegariam ser puro instrumento de classe da burguesia, isso teria sido um começo bem paradoxal, se essa explicação oficial soviética da origem do nazismo não fosse, como de fato foi e é, apenas um engodo publicitário para camuflar ex post facto a responsabilidade de Stalin pelo fortalecimento do regime nazista na Alemanha.

2) Desde a década de 20, o governo soviético, persuadido de que o nacionalismo alemão era um instrumento útil para a quebra da ordem burguesa na Europa, tratou de fomentar em segredo a criação de um exército alemão em território russo, boicotando a proibição imposta pelo tratado de Versailles. Sem essa colaboração, que se intensificou após a subida de Hitler ao poder, teria sido absolutamente impossível à Alemanha transformar-se numa potência militar capaz de abalar o equilíbrio mundial. Parte da militância comunista sentiu-se muito decepcionada com Stalin quando da assinatura do famoso tratado Ribentropp-Molotov, que em 1939 fez da União Soviética e da Alemanha parceiros no brutal ataque imperialista à Polônia. Mas o tratado só surgiu como novidade escandalosa porque ninguém, fora dos altos círculos soviéticos, sabia do apoio militar já velho de mais de uma década, sem o qual o nazismo jamais teria chegado a constituir uma ameaça para o mundo. Denunciar o nazismo em palavras e fomentá-lo mediante ações decisivas foi a política soviética constante desde a ascensão de Hitler – política que só foi interrompida quando o ditador alemão, contrariando todas as expectativas de Stalin, atacou a União Soviética em 1941. Tanto do ponto de vista ideológico quanto do ponto de vista militar, o fascismo e o nazismo são ramos do movimento socialista. (Deixo de enfatizar, por óbvia demais, a origem comum de ambos os regimes no evolucionismo e no "culto da ciência". Quem deseje saber mais sobre isto, leia o livro de Richard Overy, “The Dictators. Hitler’s Germany, Stalin’s Russia” New York, Norton, 2004.)

Mas ainda resta um ponto a considerar. Se o comunismo se revelou uniformemente cruel e genocida em todos os países por onde se espalhou, o mesmo não se pode dizer do fascismo. A China comunista logo superou a própria URSS em furor genocida voltado contra a sua própria população, mas nenhum regime fascista fora da Alemanha jamais se comparou, nem mesmo de longe, à brutalidade nazista. Na maior parte das nações onde imperou, o fascismo tendeu antes a um autoritarismo brando, que não só limitava o uso da violência aos seus inimigos armados mais perigosos, mas tolerava a coexistência com poderes hostis e concorrentes. Na própria Itália de Mussolini o governo fascista aceitou a concorrência da monarquia e da Igreja – o que já basta, na análise muito pertinente de Hannah Arendt, para excluí-lo da categoria de "totalitarismo". Na América Latina, nenhuma ditadura militar – "fascista" ou não – jamais alcançou o recorde de cem mil vítimas que, segundo os últimos cálculos, resultou da ditadura comunista em Cuba.

Comparado a Fidel Castro, Pinochet é o menino-passarinho.

Em outras áreas do Terceiro Mundo, nenhum regime alegadamente fascista fez nada de parecido com os horrores do comunismo no Vietnam e no Cambodja. O nazismo é uma variante especificamente alemã do fascismo, e essa variante se distinguiu das outras pela dose anormal de violência e crueldade que desejou e realizou. Em matéria de periculosidade, o comunismo está para o fascismo assim como a Máfia está para um estuprador de esquina. Mas não podemos esquecer aquilo que diz Sto. Tomas de Aquino: a diferença entre o ódio e o medo é uma questão de proporção – quando o agressor é mais fraco, você o odeia; quando é mais forte, você o teme. É fácil odiar o fascismo simplesmente porque ele sempre foi mais fraco do que o comunismo e sobretudo porque, como força política organizada, está morto e enterrado. O fascismo jamais teve a seu serviço uma polícia secreta das dimensões da KGB, com seus 500 mil funcionários, orçamento secreto ilimitado e pelo menos cinco milhões de agentes informais por todo o mundo. Mesmo em matéria de publicidade, as mentiras de Goebbels eram truques de criança em comparação com as técnicas requintadas de Willi Münzenberg e com a poderosa indústria de desinformatzia ainda em plena atividade no mundo. Se, no fim da II Guerra, a pressão geral das nações vencedoras colocou duas dúzias de réus no Tribunal de Nuremberg e inaugurou a perseguição implacável a criminosos de guerra nazistas, que dura até hoje, o fim da União Soviética foi seguido de esforços gerais para evitar que qualquer acusação, por mínima que fosse, recaísse sobre os líderes comunistas responsáveis por um genocídio cinco vezes maior que o nazista. No Cambodja, o único país que teve a coragem de esboçar uma investigação judicial contra os ex-governantes comunistas, a ONU fez de tudo para boicotar essa iniciativa, que até hoje se arrasta entre mil entraves burocráticos, aguardando que a morte por velhice livre os culpados da punição judicial.

O fascismo atrai ódio porque é uma relíquia macabra do passado. O comunismo está vivo e sua periculosidade não diminuiu nem um pouco.

O temor que inspira transmuta-se facilmente em afetação de reverência exatamente pelos mesmos motivos com que o entourage de Stalin fingia amá-lo para não ter de confessar o terror que ele lhe inspirava.




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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".