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quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A concepção russa de dominação da Europa

Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA
por Jeffrey Nyquist em 19 de agosto de 2008

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Resumo: Hoje a UE confronta a Rússia do mesmo modo que Neville Chamberlain confrontou Hitler em 1938; tendo sido lograda e trapaceada nas negociações de um cessar-fogo, não há outro resultado possível que não o da política de apaziguamento e concessões.

© 2008 MidiaSemMascara.org

A Blitzkrieg russa na Geórgia é mais do que uma campanha militar. Ela tem o objetivo de fortalecer a estratégia diplomática russa, que busca fazer da União Européia (UE) a principal representante do Ocidente em futuras negociações com a Rússia. Muito naturalmente, o Kremlin deseja escapar da lógica da política norte-americana e da OTAN, a qual é a de conter a Rússia dentro dos limites de suas fronteiras nacionais. Enquanto isso, a União Européia é um animal inteiramente diferente: sem dentes, utópico e pronto a agradar.

Os estrategistas do Kremlin acreditam que os Estados Unidos estão à beira de uma desarticulação incapacitante. De acordo com um artigo publicado em 29 de julho no Pravda, um diplomata russo não identificado revelou que “[A] administração russa acredita que os Estados Unidos poderão em breve sofrer uma séria crise política”. A seqüência começaria com um grave abalo financeiro, seguido de agitação política e, finalmente, a dissolução do poderio militar americano. Conforme alertou o diplomata russo, “Os Estados Unidos estão postados próximos ao limite de uma crise de larga escala quanto a sua própria existência”.

No mês passado, os embaixadores russos foram chamados de volta a Moscou. Em 15 de julho, o presidente Dmitry Medvedev falou a eles no Ministério do Exterior. “Eu gostaria de usar esta oportunidade para uma conversa franca e pragmática”, explicou Medvedev aos diplomatas reunidos. “A Rússia está de fato mais forte e capaz de assumir maiores responsabilidades na solução de problemas em escala regional e global”. Você sabe: a Guerra Fria não foi uma vitória americana. Medvedev fez lembrar a seus ouvintes que os russos tinham “sobrevivido à Guerra Fria”. E que agora, a Rússia está preparada para estabelecer “um novo equilíbrio”.

A fala de Medvedev foi presciente: “[O] hábito de recorrer à força está crescendo. Em tais circunstâncias, é importante manter reserva e avaliar as situações cuidadosamente”. Quando irrompem as guerras, é melhor saber pelo quê você está lutando; deste modo, Medvedev queria que seus embaixadores se familiarizassem com a linha do partido antes de voltar para as suas embaixadas. Em sua preleção, Medvedev disse que eles não deveriam se preocupar com confrontações ao estilo da Guerra Fria. “Eu estou convencido de que com o fim da Guerra Fria, as razões subjacentes para a maioria das políticas e da disciplina do bloco simplesmente desapareceram”. Em outras palavras, a OTAN está dividida. E a violação da soberania iugoslava pela OTAN em 1999 agora possibilitava uma devastadora resposta russa.

A história deveria ser lembrada, disse Medvedev. “Nós simplesmente não podemos aceitar as tentativas que têm tido lugar em determinados países para destacar a ‘missão civilizadora e libertadora’ dos fascistas e de seus cúmplices”. De forma oblíqua, ele estava se referindo aos patriotas anticomunistas na Geórgia, Ucrânia, Letônia, Estônia e Lituânia e ao modo como deram as boas vindas aos alemães em 1941.[*] E ele continuou: “Caracteristicamente, são aqueles estados que têm uma paixão por reescrever a história e as políticas interna e externa, os que, ao mesmo tempo, são os mais fanáticos defensores de atos ilegais, tal como o precedente do Kosovo... E esses mesmos estados são aqueles que se tornaram ultranacionalistas em suas políticas, acossando as minorias nacionais e negando direitos aos chamados ‘sem-estado’ em seus países”.

Aqui temos uma óbvia referência à Geórgia, que estava prestes a ser invadida pelas divisões motorizadas e aerotransportadas russas. “Para nós, esta tarefa é particularmente importante, uma vez que em muitos casos estamos falando de abusos contra russos e populações de língua russa. E proteger e defender esses direitos é, obviamente, uma de nossas responsabilidades”. E então, Medvedev explicou a estratégia diplomática global russa: “Eu enfoquei esses aspectos porque hoje a Europa precisa de uma agenda positiva em vez de uma negativa”. Em outras palavras, a invasão da Geórgia não é um fim em si mesmo. O propósito real desta operação, conforme deu a entender o presidente russo, foi o de ressaltar a perigosa obsolescência da OTAN e as irrealistas expectativas da Europa com respeito à Rússia. Medvedev disse que os antigos tratados não manterão a paz, porque são injustos. A Rússia é uma grande potência e merece exercer influência maior. “Eu estou absolutamente convencido que isto requer uma nova abordagem”, explicou. “É por essa razão que propusemos concluir um novo tratado sobre segurança européia e começar este processo numa cúpula de âmbito europeu [ênfase da editoria]”.

A invasão da Geórgia está agora no centro das atenções. Tal como ressaltou Medvedev, “[H]á falhas na arquitetura da segurança européia...”. O acordo sobre Armas Convencionais na Europa (CFE) [que Putin rompeu em 2007] é injusto porque proíbe a Rússia de posicionar grandes concentrações de tanques na Europa. Esse tipo de coisa não dará certo, disse Medvedev. O que precisamos é de “um sistema de segurança verdadeiramente aberto e coletivo” (sic). De acordo com Medvedev, “Uma parceria estratégica entre a Rússia e a União Européia poderia atuar como a pedra angular de uma Grande Europa, sem linhas divisórias...

A fórmula é simples: evidenciar as fraquezas da OTAN, saudar a União Européia como mediadora e deplorar a tagarelice sem sentido de um impotente presidente americano. O Ocidente está fraco e chegou a hora de preparar a grande colheita. Os anos 1940 estão distantes, Tbilisi não é Berlim e George Bush não é Harry Truman. Uma nova era alvoreceu, na qual os americanos estão à margem. “Os Estados Unidos apóiam firmemente os esforços da França, atualmente na presidência rotativa da UE, no sentido de intermediar um acordo que dará um fim a este conflito”, disse o Presidente Bush.

Que declaração mais boba e estúpida. Quanta divisão a UE tem?

Hoje a UE confronta a Rússia do mesmo modo que Neville Chamberlain confrontou Hitler em 1938; tendo sido lograda e trapaceada nas negociações de um cessar-fogo, não há outro resultado possível que não o da política de apaziguamento [i.e., concessões]. Os russos insistem que suas tropas sejam aceitas como forças de paz na Geórgia. Os mediadores franceses concedem isso. E, portanto, a estipulada retirada das tropas combatentes é medida que não se aplica às tropas russas. Sob esse acordo de cessar-fogo, Moscou pode reivindicar – em sentido estritamente legal – que as tropas Russas possam permanecer na Geórgia indefinidamente. O Presidente Medvedev e o Primeiro Ministro Putin estão rindo dos franceses enquanto cumprem a lei internacional. Enquanto isso, a Geórgia ocupada está sendo saqueada e incendiada; navios georgianos estão sendo afundados e a capital, Tbilisi, estrangulada.

A OTAN nada fez, ainda que tenha prometido fazer da Geórgia um membro da aliança. A OTAN submete-se à União Européia. Bush também se submete e envia sua Secretária de Estado a Paris em vez de a Moscou. Enquanto quase toda a Europa exigia uma solução negociada, apenas a Polônia e os Países Bálticos (junto com a Suécia e a Dinamarca) condenavam em uníssono a agressão militar russa. Toda a Europa deveria ter condenado a Rússia com uma só voz. Toda a Europa deveria ter evitado “negociações”. Toda a Europa deveria ter exigido a imediata retirada das forças russas da Geórgia. Toda a Europa deveria ter iniciado a mobilização de tropas e aeronaves de combate para a defesa da Geórgia. Diante de uma mobilização européia, a Rússia teria recuado.

Mas o Kremlin sabia, de antemão, que isso não iria acontecer. Não há nenhuma “confrontação militar” na Geórgia. Tal como disse o Presidente Medvedev, “Eu estou convencido de que com o fim da Guerra Fria... a disciplina do bloco simplesmente desapareceu”.

O presidente russo está certo.


© 2008 Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: MSM

Nota da Editoria MSM: Jeffrey Nyquist, autor deste artigo, publicado originalmente no dia 15/08, vem há anos alertando a respeito da estratégia russa, coordenada pelo Kremlin e sua figura de proa, Vladimir Putin. Para ele, não há surpresa alguma nas recentes ações russas e na inação européia ou na vacilação americana. No sábado, dia 16/08, o Wall Street Journal publicou um duro editorial intitulado “Fazendo Putin Pagar”. Todavia, o texto do editorial ainda aposta num endurecimento do discurso de Bush, em sanções econômicas [ver A Rússia invade a Geórgia] contra a Rússia, e numa reação ocidental iniciada nas últimas 48 horas. Mas o jornal coloca essa reação no condicional: “Se os líderes [ocidentais] mantiverem o curso, ainda podem transformar os parcos sucessos militares russos numa significativa derrota política”. É um “se” enorme; talvez grande demais.´

[*] NT: Em primeiro lugar, o cinismo da declaração de Medvedev é típico da propaganda da era soviética, pois de 1939 a 1941 havia o pacto de não-agressão Ribbentrop-Molotov, por meio do qual alemães e russos colaboraram intensamente, especialmente na destruição da Polônia. Em segundo lugar, todos aqueles ucranianos, bielo-russos, etc., que receberam os alemães como libertadores, sofreram triplamente: 1. Antes da guerra, sob a tirania de Stalin (é bom lembrar os expurgos, fuzilamentos em massa e da Grande Fome da Ucrânia nos anos 1930); 2. Com a reação insana dos invasores alemães, que fuzilaram dezenas de milhares daqueles que os recebiam como libertadores; 3. Com a terrivelmente selvagem vingança soviética, que resultou em mais centenas de milhares de mortos. Portanto, é absolutamente ridículo e atroz propugnar a idéia de que povos vivendo sob a vigilância constante de uma ditadura feroz, isolados do mundo, tenham podido imaginar que os alemães eram impulsionados por uma ideologia assassina quando eles mesmos já viviam sob outra ideologia cruel e igualmente assassina. O nazismo foi nefando, execrável, abominável, mas o comunismo o superou em muito em matéria de longevidade e crueldade planejada. Não obstante o fato de que não há qualquer justificativa ou desculpa concebível para os crimes nazistas, é forçoso ressaltar que para os comunistas sempre foi e ainda é muito conveniente deixar que as luzes e atenções focalizem apenas o nacional-socialismo, seu primo irmão, deixando de lado ou ocultando a longa e hedionda história dos crimes dos próprios comunistas em todo o mundo.

Jeffrey Nyquist é formado em sociologia política na Universidade da Califórnia e é expert em geopolítica. Escreve artigos semanais para o Financial Sense (http://www.financialsense.com/), é autor de The Origins of The Fourth World War e mantém um website: http://www.jrnyquist.com/



quarta-feira, 7 de maio de 2008

Ares de mudança, reflexões enviesadas

Por ARLINDO MONTENEGRO para o Cavaleiro do Templo em 07 de maio de 2008

Os Estados Unidos vão eleger um novo Presidente. O evento parece ter relevância menor na atualidade. Os países do mundo já não têm mais nenhum líder com autoridade moral. Não sentem mais necessidade de alinhar-se sob a proteção de qualquer império.

Alguns aspectos culturais, ideologias e crenças, são utilizados com freqüência cada vez maior, como ferramentas do poder: para justificar totalitarismos, conquistas territoriais, matança tanto quanto para influenciar comportamentos humanos. Os grupos de poder promovem e manipulam a luta de classes sociais e preconceitos diversos.

Na situação de bons colonizados, podemos observar o que ocorre na União Européia: a dupla cidadania e o livre trânsito, a migração e a falta de empregos, criam pontos de tensão e estabelecem regras de direito internacional que atingem outros continentes. A Inglaterra, cuja influência tem peso de ouro nas decisões daquele continente comunitario, pra não dizer do mundo que, antes da globalização da economia, se costumava chamar de ocidental e até de cristão. Na ilha da rainha o trabalhismo perde terreno.

Os americanos saíram do Vietnã, o feminismo e os panteras negras que lutavam por mais direitos civis se dispersaram sem maiores divergências. Os hippies que esperavam salvar o mundo através das drogas e comportamentos sexuais que apelidaram de “amor livre”, derivaram para outras experiências e atualmente se dedicam ao onguismo internacional. O país que era exemplar e líder virou alvo do terrorismo e consome quinquilharias produzidas na China, antes inimiga numero 1.

O declínio da influencia e liderança exclusiva dividida entre os EUA, conhecidos como defensores do capitalismo (sistema econômico que só viceja em ambientes democráticos de direito) e a detonada União Soviética, defensora do socialismo marxista, (sistema econômico que brotou no ambiente da ditadura de estado totalitário e militarizado) e inaugurou o caminho europeu da terceira via: uma experiência que unia alhos com bugalhos a que apelidaram liberalismo esquerdista.

Os carinhas ingleses, americanos, holandeses e outros, que decidem o que fazer com mundo e seus habitantes, estão que nem barata tonta, sem saber que discurso, que arranjos, que novas mentiras e mágicas utilizar para dar resposta aos gritos da globalização: queremos os direitos que vocês nos têm negado! Direito à vida: estudar, morar, comer, opinar, namorar, procriar, agradecer a Deus do jeito que o concebo e até trabalhar ou vagabundar.

Nos países do hemisfério sul como em alguns países da Ásia com organização social e econômica deficiente e em diversos estágios de civilização, as ditaduras, as ideologias e as crenças liberais importadas da Europa mobilizam cada vez menos adeptos para a morte. Onde se experimenta uma liberdade relativa, a gente sobrevive alheia aos macro movimentos da usura nas negociatas globalizadas.

A maioria se ocupa da sobrevivência, com parca educação, com pouca informação.

As ex potências mundiais circulam pelo planeta buscando mão de obra barata, fontes de abastecimento de matérias primas e alimentos e trabalham para colocar ordem em seus próprios territórios. Mantêm suas posições a peso de ouro nos organismos internacionais, sem que nenhum tenha apresentado uma orientação firme para lidar com as conexões entre os povos e suas necessidades: desde os que ainda vivem nas cavernas até os que lidam com alta tecnologia. Todos continuam acenando com o velho discurso multilateral das utopias distantes da realidade.

As soluções oferecidas pelo FMI, OMC, OTAN, Bancos e Bolsas, Banco Mundial, originárias de Washington, Londres ou Paris, estão longe de satisfazer as necessidades crescentes e exigências dos novos blocos de influência regional que se fortalecem na Ásia, na África, nas Américas. São indicadas para um mundo que não acredita mais na boa vontade dos poderosos, para países cujos políticos não tem vontade nem poder de realizá-las. Um mundo que se mobiliza para criar o Fundos Monetários, Bancos de Fomento e Exércitos dissuasórios locais.

As pessoas lidam com múltiplas exigências evidenciadas pelas perdas de autoridade da família, instituições e pessoas notáveis. O que era aceito como crença incontestável – autoridade paterna, união da família, número de filhos, dependência da mulher – é contestado. O consumismo globalizado estimula derivativos que destroçam a estrutura emocional tradicional.

Na Europa sente-se o declínio do liberalismo esquerdista. Até entre os jovens observam-se tendências ao conservadorismo. E os grupos ditos de direita na política parecem fortalecer-se a cada dia. Alguns valores tradicionais parecem emergir porque a “revolução da educação” dos governantes de esquerda não surtiu o efeito desejado e o desemprego da população jovem já chega a quase 20%, enquanto outros 20% não conseguem ficar na escola até concluir o 2do. Grau.

Em nosso continente, disputado por todas as influências dos poderosos do hemisfério Norte, continuamos, como bons colonizados, convivendo, abestalhados, com as oligarquias ultrapassadas que se autodenominam de esquerda ou direita. Continuamos como papagaios, repetindo teses e termos sem saber o que significam. Atitudes que mantêm as amarras da ignorância e preconceitos.

Convivemos com autocracia violenta e grotesca do Hugo Chavez e seus seguidores dependentes do petróleo. Convivemos com as guerrilhas da Colômbia e seus amigos narcotraficantes espalhando terror nas metrópoles. Convivemos com frágeis reformas de esquerda, direita, centro ou posição nenhuma, que tentam usar a globalização e débeis mecanismos democráticos para alimentar o discurso de superação das desigualdades.

Se o Brasil, sob qualquer partido no governo, assumisse posições claras sobre as deficiências e entraves da política continental; se adotasse com força a defesa do território; se mandasse as Farc, Chavez e seus confusos seguidores catar coquinhos (com bom humor!); se pudesse controlar as ongs; se mandasse às favas (ou pra cadeia) os corruptos em todos os níveis; se investisse em educação e implantação de tecnologias baratas (existentes e engavetadas) em todos os setores da produção; se os governantes fossem afetados por um surto de honestidade; se engavetassem a burocracia e os excessivos controles que gravam a produção e investimentos produtivos; se abrissem mão do paternalismo; se... se... se mostrasse a cara mais competente – certamente a democracia seria fortalecida.

Chavez está bem armado, mas já não conta com a aprovação e lealdade incondicional dos ingênuos que o elegeram. Cuba está copiando os chineses e vietnamitas a contragosto de Chavez. A globalização da economia, os movimentos da China e da Rússia, os novos blocos de influência setorizados, mudam a face do planeta. Quem continuar na espera paternalista neste continente, vai perder a esperança. Pior, vai contribuir para índices crescentes de violência.

EUA, Inglaterra, Rússia e China, ocuparão o cume dos poderosos por muito tempo e não existe nenhum rival à vista para desafiar o controle da economia global. A Europa vai estar ocupada em re-arrumar-se. Nós vamos persistir repetindo erros históricos sem poder influir nos modelos globais de comércio. O fundamentalismo do Oriente e os israelenses vão continuar defendendo suas crenças. Os comerciantes de armas e drogas pelo mundo afora vão multiplicar seus lucros.

Quem vai acreditar em liderança moral? Quem vai acreditar na boa vontade dos que concentram a economia e distribuem a esmola? Quem vai desafiar o poder da Inglaterra e seus banqueiros associados agindo em todo o planeta?

Os banqueiros e empresários onde quer que seja, buscam maiores lucros. Ideologias, estados nacionais, misticismos, xenofobia, preconceitos, luta de classes, ignorância, guerras, ajudam mas criam instabilidades que reduzem os lucros. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Competência e fé em Deus, fazem bem.

Arlindo Montenegro é apicultor.

Travessia perigosa

Do portal do OLAVO DE CARVALHO
Por Olavo de Carvalho em 05 de maio de 2008

Em seu livro America and the World Revolution (Oxford University Press 1962), transcrição de conferências pronunciadas na Universidade da Pennsylvania na primavera de 1961 (tradução brasileira pela Zahar, 1963), Arnold Toynbee escreveu:

“Se queremos evitar o suicídio em massa, precisamos ter o nosso Estado mundial rapidamente, e isto provavelmente significa que precisaremos instaurá-lo numa forma não democrática, para começar.”

Não era uma profecia, era uma proposta. Ou melhor, era a reafirmação de uma proposta que já vinha sendo trabalhada nos altos escalões do establishment anglo-americano pelo menos desde 1928, quando Herbert George Wells publicou a primeira versão popular do plano, sob o título altamente sugestivo The Open Conspiracy. Alguns historiadores fazem o projeto remontar a finais do século XIX e apontam sua presença já entre as causas da I Guerra Mundial, mas nós não precisamos ir tão longe. Os melhores estudos sobre a vida e obra de Wells (W. Warren Wagar, H. G. Wells and the World State , Yale University Press, 1961; Michael Foot, The History of Mr. Wells , Washington DC, Counterpoint, 1995) não deixam dúvidas quanto ao papel desempenhado pelo autor de A Guerra dos Mundos na transformação de uma idéia geral num projeto político viável. Tal como Wells, Toynbee não foi apenas um intelectual, mas um ativista, colaborador íntimo do governo britânico e dos círculos globalistas. Sua obra monumental A Study of History (1939-1961) fornece a visão unificada do desenvolvimento histórico mundial, indispensável à preparação do terreno para o advento do governo mundial.

O estado mais recente de implementação dos planos traçados por esses visionários pode ser avaliado pelos seguintes parágrafos publicados no Taipei Times de 21 de fevereiro de 2006 (v. State sovereignty must be altered in globalized era) , aos quais nenhum comentarista político brasileiro prestou muita atenção embora seu autor fosse nada menos que Richard Haas, presidente do CFR, Council on Foreign Relations , o mais poderoso think-tank dos EUA e praticamente uma ante-sala da Presidência americana:

“Na era da globalização… os Estados têm de estar preparados para ceder algumas parcelas da sua soberania aos órgãos mundiais... Isso já está acontecendo no comércio...

“Alguns governos estão preparados para desistir de elementos de soberania para enfrentar a ameaça da mudança global do clima. Por um desses acordos, o protocolo de Kyoto, que vigora até 2012, os signatários concordam em eliminar certas emissões específicas. O que é preciso agora é uma ampliação do acordo, pela qual um número maior de governos, incluindo o dos EUA, da China e da Índia, aceitem limites às emissões e adotem padrões comuns por reconhecer que seria pior se nenhum país o fizesse.

“A globalização, portanto, implica não somente que a soberania está se tornando mais fraca na realidade, mas que ela deve mesmo se tornar mais fraca... A soberania já não é um refúgio.”

Observações:

1. O apelo sucessivo aos exemplos do comércio e da “mudança global do clima” mostra que o plano do Estado mundial tanto pode se legitimar como resposta unificada a problemas de escala internacional, quanto pode espalhar ele próprio uma onda alarmista em torno de problemas inexistentes para se legitimar por meios postiços e fraudulentos. Em 2006 o slogan “aquecimento global” ainda podia parecer um aviso de amigo. Decorridos dois anos, não só milhares de cientistas contestam abertamente esse dogma, mas até crianças de escola estão aptas a desbancar a lenda imposta ao mundo pela campanha bilionária em que brilha como supremo garoto-propaganda o ex-vice-presidente americano Al Gore (v. “Al Gore's global warming debunked – by kids!”).

2. Os procedimentos usados para impor as reformas globalizantes contornam as vias democráticas normais por meio de decisões tomadas em discretas comissões tecno-científicas e administrativas cuja atividade o público mal pode compreender (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/030524globo.htm ). A rapidez mesma das mudanças torna impossível ao cidadão comum perceber o sentido dos acontecimentos. A “opinião pública”, que em geral já não passa mesmo de um conjunto de impressões vagas sem grande conexão com a realidade, torna-se então um mero instrumento para a implantação de mutações que ela própria não pode nem entender nem influenciar. O programa de Toynbee surge aí realizado da maneira mais clara: o Estado mundial não suprime a democracia, mas a engole. Ela continua existindo, mas como órgão de um corpo superior que a abrange e controla sem que ela tenha disso a menor idéia.

3. Se outros fatos que tenho citado em meus artigos não o comprovassem abundantemente, o caso do Protocolo de Kyoto basta para mostrar uma coisa óbvia que muitos dos nossos nacionalistas relutam em entender: que nem os centros de comando do poder globalista se encontram no governo americano, nem os interesses do Estado global se identificam no mais mínimo que seja com os do bom e velho “imperialismo ianque”. Da Califórnia à Nova Inglaterra, da Flórida ao Oregon, ninguém ignora que curvar-se à ampliação do Protocolo de Kyoto é destruir na base a economia americana, reduzindo os EUA à condição de potência de segunda classe. Nem escapa à atenção geral o fato de que outros projetos globalistas propugnados pelo CFR, como o Tratado da Lei do Mar ou a dissolução das Fronteiras com o México e o Canadá, completariam essa destruição e fariam da nação americana um capítulo encerrado da História. Curiosamente, o mais lúcido intelectual de esquerda no mundo, Antonio Negri, já explicou e repetiu mil vezes que “Império” e “Estados Unidos” não são a mesma coisa, que o Império global em formação é supranacional não somente nos objetivos mas na sua própria constituição interna (não que Negri tenha descoberto pioneiramente alguma coisa: com pequenas diferenças, o essencial da sua concepção do Império, publicada em 2000 pela Harvard University Press sob o título Empire , já estava todo no meu livro O Jardim das Aflições , de 1996). Mas o fato de que nem mesmo a palavra de um esquerdista ilustre baste para desfazer a confusão de globalismo e americanismo já mostra que muito do nacionalismo brasileiro é antes uma forma de atavismo doentio do que um patriotismo inteligente. A linguagem cotidiana da política reflete isso: embora o único Império que existe no mundo seja aquele a que se refere Negri, no Brasil usa-se o termo “Império” como sinônimo de “Estados Unidos”, seguindo nisso a retórica comunista de Fidel Castro (v. o artigo dele “Nuestro espiritu de sarificio y el chantaje del Imperio”, de 25 de abril). Com isso, o grande e verdadeiro Império, do qual a esquerda latino-americana é um dos principais instrumentos, fica a salvo da hostilidade pública, voltada contra uma nação em particular, a qual por ironia – mas não por coincidência – é justamente aquela que maiores obstáculos oferece às pretensões imperiais.

4. O esquema globalista apoiado pelo CFR não é o único que existe. Há um globalismo russo-chinês, consolidado no Pacto de Solidariedade de Shangai (v. http://www.olavodecarvalho.org/semana/060130dc.htm ), que atua principalmente por duas vias: o financiamento ao terrorismo e o domínio de nações inteiras por intermédio da mais formidável máquina de corrupção que já existiu no mundo. E há o globalismo islâmico, que se expande através da imigração usada como arma de guerra cultural, numa eficientíssima estratégia de ocupação por dentro. As relações entre esses três esquemas de dominação são extremamente complexas e sutis. O Pacto de Shangai, por exemplo, apresenta-se como reação de esquerda ao “globalismo imperialista”, mas na verdade não se opõe a ele de maneira alguma, e sim apenas aos EUA, ajudando portanto o globalismo a minar a resistência americana (o cacoete lingüístico brasileiro acima mencionado é amostra local desse fenômeno). O esquema islâmico e o russo-chinês podem, até certo ponto, ser vistos como concorrentes entre si, mas aí também uma rede de atenuações e ambigüidades torna proibitiva toda simplificação esquemática.

5. Nenhum país pode “enfrentar” o globalismo avassalador, mas cada um tem a obrigação de se integrar nele da maneira mais proveitosa para o seu povo, sem nada ceder dos seus interesses vitais. Para isso, no entanto, é preciso uma elite intelectual altamente preparada, capaz de orientar-se nos meandros da mais vasta e complexa mutação histórica de todos os tempos. No Brasil essa elite não existe de maneira alguma, e a presunção de que as nossas instituições de ensino “superior” possam prepará-la é tão ridícula que nem merece discussão. Nos cursos que não foram reduzidos à condição de escolinhas de militantes, predomina o praticismo econômico mais rasteiro ou então o formalismo acadêmico que só sabe raciocinar em termos de instituições e doutrinas, sem ir jamais às questões fundamentais. Que eu saiba, o único brasileiro que está preocupado em formar essa elite sou eu mesmo, mas, como os senhores não ignoram, só posso trabalhar em escala miúda, proporcional aos meus recursos, isto é, à falta de recursos. O Brasil parece destinado a atravessar esta grande e perigosa época sem compreender para onde vai nem saber quem o leva.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".