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quarta-feira, 19 de agosto de 2009
A burguesia indefesa
segunda-feira, 28 de abril de 2008
A doutrina da mentira
Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA por Claudio Téllez em 14 de junho de 2004
Resumo: A perda de referenciais de moralidade através da propagação de uma idéia confusa de bem e de mal e o abandono do senso crítico por parte das sociedades embotadas com a propaganda esquerdista, constituem o terreno fértil no qual a desinformação se desenvolve.
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Após a leitura de livros como (SHULTZ; GODSON, 1987), (BITTMAN, 1987) ou (GOLYTSIN, 1983), podemos ser levados a pensar que o uso da desinformação como elemento estratégico em política internacional é um fenômeno pontual que ocorreu em determinadas épocas e lugares, motivado por fatores extrínsecos ou pelo reconhecimento de conveniências e oportunidades. Entretanto, a motivação para o uso da desinformação reside em fatores intrínsecos à doutrina marxista.
Para Karl Marx, a compreensão da realidade tem que levar à sua superação, já que as realidades históricas não passam de construções humanas que visam perpetuar uma relação de dominação de uma classe (burguesia) sobre a outra (proletariado). Partindo do pressuposto de que tudo é construção e nada é natural, a teoria marxista ataca criticamente a realidade ao mesmo tempo em que se coloca numa confortável posição de imunidade às críticas que possam ser formuladas a respeito dela (OLIVA, 2001).
Já o Marxismo-Leninismo, ou Marxismo Soviético, baseou-se nos trabalhos filosóficos de Marx. Entretanto, enfatizava o caráter revolucionário e transformador do Marxismo e abordava de outro modo o movimento comunista, por exemplo através da análise do imperialismo (LENIN, 1985), da possibilidade de termos revoluções em países não-industrializados, da participação dos camponeses nas ações revolucionárias e da organização do Partido Comunista como vanguarda da classe proletária.
Lênin foi o fundador do Partido Comunista da União Soviética. Ele estudou o Marxismo e o incorporou ao seu momento histórico, mantendo-se sempre fiel ao pressuposto de que as realidades históricas não passam de construções para manter a dominação de uma classe sobre a outra.
Para Lênin, a desinformação era mais do que uma tática militar de informação falseada, era um verdadeiro instrumento para a eficácia da engenharia social e política. Ele defendia que os comunistas deviam estar preparados para utilizarem as “armas envenenadas” da mentira e da calúnia. A difamação sistemática dos adversários políticos e o recurso a estratégias e ardis para a ocultação da verdade eram não somente válidos, mas essenciais para o sucesso revolucionário (LENIN, 1975).
Vários pensadores ocidentais entraram em desacordo com o materialismo histórico determinista e constituíram o que conhecemos por Marxismo Ocidental (MERQUIOR, 1987). Trata-se de um corpo de idéias, intervenções teóricas e análises históricas que denotam o pensamento marxista não-soviético. O Marxismo Ocidental abarca autores como Lukács, Althusser, Walter Benjamin, Jean-Paul Sartre, Antonio Gramsci, os representantes da Escola de Frankfurt e outros. Esses autores trabalham com a cultura e com as idéias, acreditando que a revolução está fadada ao fracasso se os aspectos culturais das sociedades não forem levados em consideração.
Dentre os marxistas ocidentais, podemos destacar Antonio Gramsci (1891 - 1937). Ele percebeu que a revolução feita de “cima para baixo” não conseguiria alcançar a superestrutura das sociedades, portanto a ênfase não deveria ser na violência revolucionária, mas na penetração ideológica, na manipulação das mentalidades através dos meios informativos e nas expressões artísticas e culturais. A difusão bem sucedida da ideologia socialista deveria partir da conquista do cultural.
Atualmente, constatamos um forte tendencionismo de cunho marxista nos meios informativos e um verdadeiro imperialismo ideológico de esquerda nos centros acadêmicos, onde verifica-se um intenso patrulhamento contra aqueles que não rezam a cartilha da hegemonia intelectual do “politicamente correto”.
A perda de referenciais de moralidade através da propagação de uma idéia confusa de bem e de mal e o abandono do senso crítico por parte das sociedades embotadas com a propaganda esquerdista (baseada em um arcabouço teórico que nega toda a possibilidade de conhecermos a realidade) constituem o terreno fértil no qual a desinformação se desenvolve e se reproduz com quase total liberdade de ação. É assim que a doutrina da mentira é engolida pelas multidões, que aplaudem satisfeitas enquanto chafurdam no engano socialista.
Desde as origens com Marx, passando pelo Marxismo-Leninismo revolucionário e culminando com os marxistas ocidentais e teóricos críticos do século XX, as técnicas de propaganda velada, de manipulação de idéias e de influência da opinião pública têm estado presentes nas diretrizes socialistas. Sabemos que a desinformação foi utilizada sistematicamente pelos soviéticos durante o período da Guerra Fria (1945 – 1989), mas essa prática tem um embasamento doutrinário substancial que não podemos ignorar.
Referências:
BITTMAN, Ladislav. El KGB y la desinformación soviética: panorámica desde el interior. Barcelona: Juventud, 1987. 332 p.
GOLITSYN, Anatoliy. New lies for old: the communist strategy of deception and disinformation. New York: Dood, Mead & Co., 1983. 412 p.
LENIN, Vladimir Ilyich. Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento. Lisboa: Estampa, 1975. 261 p. (Biblioteca do Socialismo Científico)
LENIN, Vladimir Ilyich. O imperialismo: fase superior do capitalismo. 3a. ed. São Paulo: Global, 1985. 127 p. (Coleção Bases, 23)
MERQUIOR, José Guilherme. O marxismo ocidental. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. 323 p.
OLIVA, Alberto. À espera da ciência: um mundo de fatos pré-interpretados. Episteme, Porto Alegre, n. 13, p. 17 – 43, jul./dez. 2001.
SHULTZ, Richard; GODSON, Roy. Desinformação: medidas ativas na estratégia soviética. Rio de Janeiro: Nordica, 1987. 188 p.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
A Burguesia do Estado
Por Roberto Campos em São Paulo, Domingo, 23 de Maio de 1999
O Brasil é particularmente sujeito a ilusões irresistíveis. Citemos algumas.
A primeira é a que se pode melhorar o padrão de vida pela decretação do salário mínimo. A questão é que, se ele for realista, o mercado o praticará independentemente de lei. Se sobreestimado, será anulado pela inflação ou pelo desemprego, ou podado na economia informal.
A segunda é atribuir importância "estratégica" ao monopólio estatal do petróleo. Mas como nenhum dos países ricos (e militarmente fortes) do G7 tem monopólios estatais, segue-se que estes são desnecessários quer para a riqueza quer para a segurança. Trata-se de cacoete de país subdesenvolvido.
A terceira é que o Brasil tem empresas "públicas" que visam a maximizar o bem-estar da nação, sem o egoísmo das empresas privadas. A verdade é que a empresa pública brasileira é um mito. Ela só seria "pública" se o povo tivesse participação significativa em sua gestão ou se trouxesse ao Tesouro Nacional apetitosos dividendos para financiar o social. Nada disso acontece. As estatais são reservas de caça de políticos e tecnocratas, que formam uma nova classe: a "burguesia do Estado".
No Brasil, mesmo as chamadas "jóias da coroa" já foram de há muito privatizadas pelos seus funcionários, que se apropriaram do grosso dos recursos, deixando apenas migalhas para o Tesouro. É o que transparece do quadro abaixo:
Como se pode verificar, as contribuições da Petrossauro para o seu fundo de pensões, na média do quadriênio 1995/1998, foram 4,7% maiores que os dividendos pagos ao Tesouro.
Este pobretão, que representa 163 milhões de brasileiros, auferiu a "excitante" rentabilidade média de 1,4% ao ano! É como se a viúva fosse explorada por um gigolô!
O Banco do Brasil é ainda pior. As contribuições para os funcionários são 6,95 vezes o rendimento do Tesouro, e a rentabilidade média do capital empatado foi de 1,03% ao ano.
No caso da Eletrossauro, a situação é "aparentemente" menos chocante. A rentabilidade média anual para o Tesouro foi de 4,67%, e as contribuições para os fundos de pensão não alcançaram a quarta parte dos dividendos do erário. Aparentemente, porque existe um enorme passivo previdenciário não provisionado correntemente.
O déficit atuarial dos fundos de pensão (excesso de benefício sobre receitas realizáveis) é estimado em R$ 1,2 bilhão, no caso de Furnas; R$ 300 milhões na Chesf e R$ 200 milhões na Eletronorte.
Essa responsabilidade atuarial terá que ser de alguma forma absorvida no caso da privatização, podendo traduzir-se numa substancial redução do preço de venda. Note-se que a Petrossauro já reconheceu uma dívida de R$ 5.991.700 para com a Petros, a ser provisionada em parcelas anuais.
Esses "passivos previdenciários" são um dos grandes obstáculos à privatização dessas empresas e explicam também sua feroz resistência ao programa de desestatização e sua engenhosidade na exploração da indústria das "liminares judiciais".
Nos países da antiga órbita soviética, a burocracia partidária – a "nomenklatura" - formou uma "nova classe" causticamente descrita pelo dissidente iugoslavo Milovan Djilas, a qual recebia recompensas não à base da eficiência produtiva e sim da fidelidade aos dogmas marxistas.
Nos países da América Latina, onde as burocracias estatais cresceram desmesuradamente, na época em que se acreditava no planejamento central e no dirigismo desenvolvimentista, surgiu também uma nova classe, a dos "burgueses do Estado". Os contribuintes, cujos impostos financiam as estatais, passaram a ser os novos "proletários".
A liderança dessa burguesia é exercida no Brasil pela CUT, que é cada vez menos um sindicato de operários e cada vez mais um sindicato de funcionários. Essa corporação sindical, cujo braço político é o PT, tem sido inquestionavelmente eficiente na defesa desses burgueses, aduzindo
imaginosamente toda a sorte de argumentos contra a desestatização: soberania ou segurança nacional, missão social, patriotismo, filantropia, desenvolvimentismo... "et caterva".
O único argumento ponderável é o receio de substituição de monopólios públicos por monopólios privados. Claramente, o ideal é um regime competitivo, como o que se está estabelecendo nas telecomunicações e no setor de geração de energia elétrica.
Mas é importante notar que o monopólio privado é muito menos nocivo que o monopólio público, simplesmente porque é muito mais "contestável": as concessões podem ser fiscalizadas ou canceladas pelas autoridades regulatórias, as empresas podem ser processadas por perdas e danos e correm o risco da falência, e a reclamação popular é muito mais eficaz porque as empresas não podem se abrigar sob o manto da intocabilidade patriótica, como o fazia a Petrossauro.
A crua realidade é que não faz o menor sentido para o governo continuar cativo dessa burguesia. Há um enorme déficit fiscal, que tem de ser financiado pela rolagem da dívida a juros altos, que oprimem o setor privado e os consumidores.
A reforma da estrutura fiscal, ainda em gestação, deveria conter o "fluxo" da dívida, mas precisa ser completada pela privatização, cuja receita deveria ser aplicada na redução do "estoque" da dívida pública. Que o alívio pode ser expressivo, prova-o uma aritmética grosseira.
Mesmo se as ações de controle do Tesouro na Petrossauro fossem vendidas pelo valor contábil, sem ágio, aplicando a receita no cancelamento de dívidas, as economias para o Tesouro (ao custo atual de rolagem de 23,5% ao ano) seriam de 17 vezes os dividendos médios recebidos no último quadriênio. No caso do Banco do Brasil seriam de 23 vezes, e no da Eletrossauro, 5,03 vezes (exclusive o passivo previdenciário).
Manter estatais com baixíssima rentabilidade, enquanto o setor privado é sangrado por impostos e juros altos, não é um comportamento racional. É uma aberração freudiana, vizinha do masoquismo. E explica por que nossos estatólatras desenvolvimentistas não entendem nada de desenvolvimento.
Roberto Campos, 82, economista e diplomata, foi senador pelo PDS-MT, deputado federal pelo PPB-RJ e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).
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