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quinta-feira, 2 de abril de 2009

Verbetes de um dicionário

MOVIMENTO ENDIREITAR
Escrito por Roberto Campos Sex, 20 de Março de 2009 09:30

O ex-ministro, ex-embaixador, ex-senador e ex-deputado Roberto Campos, morto em outubro de 2001, foi membro da Academia Brasileira de Letras (leia aqui seu discurso de posse) e sem dúvida um homem de inteligência e erudição notáveis.  Foi talvez o político mais preparado que o Brasil já teve.  Apesar de sempre ter sido considerado um liberal, principalmente pelas esquerdas, Roberto Campos só foi se converter à Escola Austríaca no final de sua carreira política, ainda na década de 1980, quando passou a se declarar um discípulo de Mises e principalmente de Hayek, lamentando ter perdido grande parte de seu tempo lendo outros economistas.

Seu talento como frasista era algo que desconcertava e desnorteava seus rivais, que não obstante reconheciam, bem a contragosto, sua inteligência.

Eis alguns exemplos de sua mordacidade (frases ainda atualíssimas):


"O chamado 'neoliberalismo' econômico do Brasil é um ente de ficção só existente na cabeça de acadêmicos marxistas, demagogos políticos ou jornalistas desinformados. Masturbam-se com o perigo do inexistente..."

"Bom, todo mundo sabe que o dinheiro do governo é gasto para sustentar universidades ruins e grátis - duas indiscutíveis vantagens - para classes médias que podem pagar. Nada melhor. Garante comícios das UNEs da vida, ótima preparação para futuros políticos analfabetos!"

"Sou chamado a responder rotineiramente se 'haverá saída para o Brasil?'. Respondo dizendo que há três: Galeão, Cumbica e o liberalismo."

"O que certamente nunca houve no Brasil foi um choque liberal. O liberalismo econômico assim como o capitalismo não fracassaram na América Latina.  Apenas não deram o ar de sua graça."

"São três as raízes da nossa cultura: a cultura ibérica, que é a cultura do privilégio; a cultura africana, que é a cultura da magia; e a cultura indígena, que é a cultura da indolência. Com esses ingredientes, o desenvolvimento econômico é uma parada..."

"Nossas esquerdas não gostam dos pobres. Gostam mesmo é dos funcionários públicos. São estes que, gozando de estabilidade, fazem greves, votam no Lula, pagam contribuição para a CUT. Os pobres não fazem nada disso. São uns chatos..."

"Seria uma ressurreição satânica retirarmos Lula e Brizola - esse casamento do analfabetismo econômico com o obsoletismo ideológico - do lixo da história para o palco do poder."

"Os comunistas sempre souberam chacoalhar as árvores para apanhar no chão os frutos. O que não sabem é plantá-las..."

"O colapso do socialismo não foi mero acidente histórico, resultante da barbárie da União Soviética ou da perversão de carniceiros como Stalin e Mao Tsé-Tung. Era algo cientificamente previsível. Os aludidos cientistas sociais teriam certamente chegado a essa conclusão se, ao invés de treslerem a história, tivessem lido os grandes liberais austríacos."

"É enorme a brecha entre os objetivos idealizados na legislação de 1964 e as realidades de hoje. Concebido como um anjo Gabriel, o Bacen (Banco Central) virou um Frankenstein. Por isso, quando me perguntam se sou ou não a favor da 'independência' do Bacen, minha resposta é de tipo existencial: será que o monstro deve existir?"

"O imposto de renda convencional (progressivo em função da renda produzida) é uma safadeza socialista. Pune os cidadãos e empresas mais eficientes e produtivas em função de seu sucesso no mercado. Induz contribuintes a inventar meios de minimizar o confisco, gastanto energia na busca de paraísos fiscais ou artimanhas de sonegação. "

"A melhor maneira de promover a eficiência no uso de recursos é a concorrência interna e externa. Donde ser a oposição à abertura econômica e à globalização - em nome do combate ao neoliberalismo - uma secreção de cabeças suicidas. Ou talvez, o perfume de flores assassinas que mesmerizam mosquitos ideológicos."

"Com o atraso das reformas estruturais e das privatizações, o Brasil fica longe de realizar seu potencial. Poderia tornar-se um tigre e se comporta como uma anta... "

"Continuamos a ser a colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às 'autoridades' - a grande diferença, no fundo, é que antigamente a 'autoridade' era Lisboa. Hoje é Brasília."

"A brutalidade confiscatória do fisco é um fator sério de retardamento econômico. É francamente de causar indignação ver nédios representantes da burocracia oficial declamando que pagar impostos é 'cidadania'. Cidadania é exatamente o contrário: é controlar os gastos do governo."

"No Brasil, a res publica é cosa nostra." (Obs: "res publica" é uma frase latina que significa "coisa pública")

"Os dois monstros gêmeos, o comunismo e o nazismo, têm vocação genocida. Naquele, o genocídio de classe; neste, o genocídio de raça."

"Pessoas sérias raramente têm tempo e estômago para as futricas e brigas para ocupar o espaço corporativo. A OAB conseguiu a façanha de ser mencionada três vezes na 'Constituição besteirol' de 1988. É talvez o único caso no mundo em que um clube de profissionais conseguiu sacralização no texto constitucional... "

"Admitir o 'liberalismo explícito', num país de cultura dirigista, é coisa tão esquisita como praticar sexo explícito em público. Não dá cadeia, mas gera patrulhamento ideológico. A etiqueta de 'socialista' ou 'centro-esquerda' dá um ar de respeitabilidade a qualquer patife ou imbecil, animais abundantes na praça..."

"Como diz Hayek, o poder sindical é essencialmente o poder de privar alguém de trabalhar aos salários que estaria disposto a aceitar."

"O mercado é apenas o lugar em que as pessoas transacionam livremente entre si. Só isso. Mas não é pouco, porque no seu espaço a interação competitiva entre os agentes econômicos equivale a um plebiscito ininterrupto, que não só permite fazer uma apuração, a todos os momentos revista, das preferências dos indivíduos, como lhes dá uma medição quantitativa, tornando possível, por conseguinte, o cálculo racional."

"É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar - bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês. Trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola..."

"Há três maneiras de o homem conhecer a ruína: a mais rápida é pelo jogo; a mais agradável é com as mulheres; a mais segura é seguindo os conselhos de um economista."


Em seu livro 'Guia Para os Perplexos', lançado em 1988, Campos apresenta um miniglossário, elaborado por ele próprio, para ajudar o brasileiro a entender alguns termos até então freqüentes na mídia.  A seguir vão alguns verbetes.  Fica a cargo do leitor concluir se de lá pra cá houve mudanças e quão profunda elas foram.

Com a palavra, Bob Fields.

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Estou de partida para a China, na esperança de trazer um estoque de vacinas "Deng Xiaoping" para combater as epidemias de "Tupiniccocus pallidus", "Bureauccocus Planaltinus" e "Papyrococcus cartorialos ac physiologicus Brasiliensis", que grassam em Brasília.  Afinal de contas, se o líder chinês - que, há pouco mais de um decênio, durante a Revolução Cultural, foi exposto à execração pública, obrigado a carregar estrume na cabeça nas ruas de Beijing, com um cartaz que dizia "traidor capitalista" - conseguiu sacudir a multimilenar burocracia chinesa, deve ser possível descartorializar nossa burocracia, esclerosada há apenas 164 anos.

Mas antes de partir, ocorreu-me que poderia dar uma contribuição ao esclarecimento das massas, se lhes facilitasse a compreensão da "novilíngua" da Nova República.  Por isso preparei alguns verbetes de dicionário. 

(Obs: o trabalho lexicográfico abaixo não tem a pretensão de se equiparar aos feitos de Caldas Aulete ou do Aurélio. De volta da China, munido de paciência chinesa, procurarei converter esses verbetes despretensiosos num verdadeiro "Dicionário".  Para "esclarecimento das massas", naturalmente.  Mas também para ganhar direitos autorais, pois ninguém é de ferro e tenho de pagar as novas alíquotas do pacote fiscal. De leve.)

 

SECA, s.f. - Acidente climático, caracterizado pela falta de chuvas, que produz inflação de preços agrícolas.  O antônimo é "Cheia" ou "Enchente", caracterizada pela abundância de chuvas, que também produz alta de preços agrícolas.


ESPECULADOR, s.m. - Agente econômico que só compra na baixa para vender na alta.  Entra em hibernação quando não há expansão monetária, porque então inexistem altas.


PROGRESSISTA, adj. também usado como s.m. e s.f. - Denominação aplicada aos que reclamam mudanças urgentes.  Não se preocupam com o endereço da mudança e muito menos com os métodos e veículos para fazê-la.  O importante é manter o Governo metendo o bedelho na economia, em postura dinâmica.  Os setores "progressistas" mais de vanguarda entendem por "progresso" o "regresso" à situação pré-1964.


ESQUERDISTA, adj. também usado como s.m. e s.f. - Denominação aplicada aos que não estão no centro, nem na direita, nem no alto.  Habitualmente estão a Leste.  Desejam distribuir a propriedade alheia e gostam de votar impostos porém não de pagá-los.  De um modo geral, acham que a sociedade deve distribuir mais do que produz, desde que as esquerdas (quer dizer, eles mesmos) se encarreguem da distribuição.  Donde o provérbio: "muitos dos interessados na distribuição do bolo querem sobretudo o controle da faca".  A tradução latina de homem de esquerda é "homo sinistrae".


PACTO SOCIAL - Expressão usada para denominar um entendimento no qual os assalariados consentem em menores salários, os empresários em menores lucros, possibilitando ao Governo continuar abiscoitando a maior parte do bolo.


CATOLICISMO DE ESQUERDA - Por pudicícia, este dicionarista se abstém de qualquer definição, recorrendo ao verbete do escritor Leon Bloy, uma das glórias do pensamento católico francês: "Catholicisme de gauche n'est que protestantisme de merde".


NEGOCIAÇÃO DURA - Expressão usada em relação à dívida externa. Indica disposição para pagar "spreads" mais altos e ter prazos mais curtos, em troca do direito de xingar os banqueiros e dizer "não" ao FMI.  Permite evitar auditorias externas, habilitando o país a manter um "Caixa Dois".  A vantagem principal é emitir papel moeda e aumentar o déficit público sem dar satisfação a ninguém.


INFORMÁTICA, s.f. - Aliança entre militares, esquerdistas e empresários antidarwnianos.  Estes acreditam que deve sobreviver não o mais apto e sim o mais protegido da concorrência alheia. Deprecam às autoridades que o mercado seja reservado para o menor número possível (idealmente apenas três empresários, como no caso da micro eletrônica).  Artifício usado para induzir a "maioria" - centenas de milhares de usuários - a se subordinar aos interesses de uma "minoria" - poucas dezenas - de industriais do setor.  Também usado para garantir privilégios aos que copiaram antes dos outros. Serve freqüentemente para que os filhos e netos de imigrantes (Dytz, Suaer, Brizida, Fregni, etc.) documentem seu caráter "genuinamente nacional" vetando qualquer associação com empresas dos países ancestrais.  Segundo essa seita, produzir no país só é bom se o produtor tiver certificado de batismo local, sendo, em caso contrário, preferível importar.


PRIVATIZAÇÃO, s.f. - Política segundo a qual o governo guarda o que é relevante e vende o que é irrelevante.  Para dificultar a venda, usa-se o critério do investimento histórico corrigido, ou do valor patrimonial contábil, sem referência à rentabilidade avaliada pelo mercado.


PACOTE FISCAL - Conjunto de medidas para extrair dinheiro do setor privado a fim de financiar o déficit público, cuja dimensão é sagrada.  Após essa extração, os contribuintes sentir-se-ão estimulados a fazer novos investimentos, e os que estavam na economia subterrânea reconhecerão as vantagens patrióticas de pagar impostos.


COMBATE A INFLAÇÃO - Expressão que denota o engajamento do Governo na "guerra à carestia". Mais precisamente, é o combate à alta de preços provocada por acidentes climáticos, ou pelos atravessadores e especuladores, não devendo ser confundido com o combate à inflação propriamente dita, resultante da expansão monetária.  A expressão abrange várias modalidades de ação. Na chamada variante "corpo-a-corpo", o Ministro da Fazenda e altas autoridades inspecionam pessoalmente a diariamente os preços da cebola e do chuchu.  Na variante "estatística" o índice de preços é encurtado ou alongado durante o mês, introduzindo-se, quando oportuno, um "fator de acidentalidade".  Na variante "estrutural", os preços do petróleo e tarifas de utilidades públicas são acelerados ou repassados em função do preço do feijão.


CONTROLE DE PREÇOS - Artifício anti-inflacionário tentando sem êxito desde o Código de Hamurabi (2000 anos a.C.).  Foi objeto do famoso Edito de Diocleciano no ano 301 da era cristã, cujo único resultado foi a escassez de óleo, pão e sal nas províncias.  Como as damas balzaquianas, de vida airada, o tabelamento de preços rejuvenesce à medida que se esquecem as experiências passadas.  É a teoria dos que não têm teoria.

(02.02.86)

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Em longas viagens de trem pelo interior da China, a dois mil quilômetros de Beijing, tive tempo de adicionar alguns verbetes à minha ansiosamente esperada obra "Enciclopédia da Ignorância". Recebi propostas de vários editores, sendo que a mais atraente sugeria um nome para o "magnum opus"; - "Bagunçologia". Eis os novos verbetes que interessarão aos segmentos mais esclarecidos da sociedade.


LIVRE EMPRESA - Expressão que denota o direito de proibir o ingresso de outras empresas.


LIVRE INICIATIVA - Expressão que denota o direito de provar os outros da iniciativa.


CONGELAMENTO DE PREÇOS - Conjunto de medidas destinadas a transmitir ao mercado os sinais errados - aumentar a procura e diminuir a oferta - com o propósito patriótico de desorientar os especuladores. Na forma mais branda, o burocrata se arroga das funções do mercado e os preços são "cipados".  Na versão mais radical, os preços são "congelados", o que significa o triunfo definitivo do burocrata sobre o mercado, coisa plenamente justificável à luz da melhor informação, maior sensibilidade social e superior velocidade de reação, características das entidades governamentais.  Isso faz emergir uma nova classe sociológica, dotada do poder de vida e morte sobre as empresas - a dos "tabuladores" - que se sobrepõe à tetralogia medieval dos "oradores", "bellatores", "mercatores" e "fabricatores".  O Professor Antonius, em sua mui consultada obra "Imitatio Delphini ad usum Novae Reipublicae" relata experiências pessoais de interferência no mercado, todas desapontadoras. Assim se expressa: "Vix aut nunquam rígidadisciplina pretiorum prodest. Hoc discimus abhinc multos anos ab Codici Hammurabi ax Diocletiani Edicto" (O congelamento de preços quase nunca adianta, conforme aprendemos com o Código de Hamurabi e o Edito de Diocleciano).  Idêntica preocupação é revelada pelo Professor Paulinus, em sua obra "De effectis plethorae numismaticae" (Dos efeitos da expansão monetária), que assim doutrina: "Nisi sublata causa quae est pletora numismatica nin tollitur effectus, scilicet inflatio pretiorum" (A não ser que se extirpe a causa, que é a expansão monetária, não se remove o efeito, que é a inflação de preços).  Outros autores de nomeada, entretanto, atribuem a alta de preços a causas diferentes, como a seca (siccitas), a interferência do Fundo Monetário Internacional (intromisio Panethnici Nmismatici Thesauri) ou à indexação de preços (vinculum ad preteritum pretium).


USUÁRIO, s. e adj. m. e f. - Consumidor brasileiro, misto de otário e cobaia. USUÁRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL: designa aquele que tem o direito de contratar um seguro privado depois de ter contribuído para a Previdência Pública, dada a indisponibilidade de serviços desta última.  USUÁRIO DA INFORMÁTICA: aquele que tem o direito legal de pagar três vezes mais pela cópia que pelo original.  USUÁRIO DE PETRÓLEO: aquele que paga preços internos crescentes quando os preços internacionais são decrescentes.  USUÁRIO FERROVIÁRIO: aquele que tem o direito a atrasos e sacudidelas para chegar ao trabalho, e também ao desvio e avaria de mercadorias.


REFORMA MINISTERIAL - Versão vernacular da expressão francesa "plus ça change, plus c'est la même chose".  É de boa etiqueta que, por ocasião da reforma, os novos ministros elogiem seus antecessores conquanto acentuem, no discurso de posse, que têm um programa muito melhor.  No fundo, imitando um velho ministro francês, o que pensam mesmo é que "tous nos predecesseurs sont des idiots, tous nos successeurs sont des intrigants" (todos os nossos antecessores são idiotas, todos os nossos sucessores são intrigantes).  MINISTERIÁVEL (também usado na forma gerundial MINISTRANDO) é aquele que acha que a situação do governo se deteriorou tão satisfatoriamente que a Pátria em breve exigirá seus serviços.  A ocasião das reformas ministeriais provoca uma proliferação de uma espécie de répteis, os "puxa-sacos".  O fenômeno era conhecido desde a época dos romanos sob o nome "titillatio testiculorum" (puxação de saco).  O Professor Freudius em sua obra "De peccatis occultis" aponta como evidência história uma inscrição queixosa encontrada sob as lavas de Pompéia: "Quandocumque mutantur proconsules arduus est veriter labor testiculos titillandi" (Quando mudam as lideranças é árduo o trabalho dos puxa-sacos).  Afirma outrossim que essa prática existia também entre os gregos, pois segundo a lenda e a tradição, uma das principais razões porque o grande Arconte Solon, promulgadas as leis, retirou-se para um navio e velejou no Egeu durante dez anos, foi precisamente livrar-se do "elchtichos orchios" (puxa-saquismo).


NACIONALISMO, s.m. - Atitude que freqüentemente denota um misto de complexo de inferioridade e mania de grandeza.  A expressão comporta várias modalidades.  NACIONALISMO AUTÊNTICO: o daqueles que, não tendo realizações objetivas a exibir, usam o nacionalismo como uma espécie de diploma dado pelas Faculdades de Demagogia.  NACIONALISMO DE FANCARIA: o daqueles que usam o nacionalismo para obter privilégios do Governo, para prejudicar adversários políticos ou para se proteger da concorrência estrangeira.  NACIONALISMO DE FINS: o daqueles que acreditam que o desenvolvimento nacional é um fim para qual devam ser mobilizados quaisquer capitais disponíveis - nacionais e estrangeiros.  NACIONALISMO DE MEIOS: o daqueles que, dispondo de salário e renda adequados, acham que é melhor um desenvolvimento lento, puramente interno, ainda que os pobres tenham de sofrer por mais tempo.  São conhecidas variadas definições de nacionalismo, por mestres eminentes.  Segundo Einstein "é como um sarampo, essa doença infantil da humanidade".  Segundo Vargas Llosa é "a cultura dos incultos, uma medíocre revolta geográfica contra a história".  Segundo Gilberto Amado é a "forma zangada do patriotismo".  Para Mussolini era uma espécie de "ódio sagrado".  Segundo Albert Schweizer "é um patriotismo que perdeu sua nobreza", ao passo que o patriotismo, segundo o Dr. Johnson, é o "último refúgio dos velhacos".  Para Jorge Luiz Borges "o nacionalismo é um campo minado onde só se toleram afirmações".


TERMOESTÁTICA - Conjunto de leis científicas que regem a conversão da aceleração em inércia e comprovam a originalidade do comportamento da economia brasileira.  A primeira lei de termoestática - a lei inercial - assim se expressa: "Se atacados vigorosamente por sintomas de inflação, não é necessário atacar as causas, porque aqueles são dinâmicos, e esta, inercial".  A segunda lei da termoestática, a "lei de preservação do déficit" é assim formulada: "Os gastos governamentais são irredutíveis porque toda a ação para reduzi-los produz uma reação política, imediata e mais do que proporcional, em sentido contrário".  A terceira lei da termoestática, também chamada "lei do endividamento" tem formulação mais complexa: "Uma vez transposto o segmento exponencial da curva de endividamento e atingido o limite assimptótico, o poder do grande devedor se equipara ao do grande credor, pois ambos detêm o poder de levar o outro à falência.  Nessa hipótese, os encargos da dívida variarão na razão inversa da masculinidade da negociação e menos que proporcionalmente à intensidade da lamentação".


(06.04.86)

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Prosseguindo na tarefa de esclarecimento das massas, facilitando-lhes a compreensão da "novilíngua" da Nova República, adicionei alguns verbetes ao meu "dicionário do surrealismo" brasileiro.


ASSEMBLÉIA CONSTITUINTE - Grupo de políticos que discutem as prioridades da reforma da "estrutura", quando o urgente é remendar a "conjuntura".  Numa sábia divisão de funções, tratam de desenhar o futuro, enquanto o Poder Executivo se encarrega de desorganizar o presente.  Entre suas várias correntes, se incluem os "xiitas", que querem destruir o capitalismo (melhor dito, o mercantilismo, pois o Brasil ainda não chegou à era capitalista), sem saber como implantar o socialismo.  Alguns poucos são verdadeiros "liberais", pois acreditam que a democracia política é inseparável da liberdade econômica, traduzida esta na economia de mercado.  Há também os "centristas", que gostam da liberdade política mas admitem que burocratas imperfeitos corrijam as imperfeições do mercado e que se criem cartórios econômicos, desde que sejam participantes dos benefícios.  Todos os grupos são contra a cassação dos direitos políticos individuais, mas aceitam a cassação do direito econômico de produzir, sob a forma de monopólios estatais ou reservas de mercado.


FUNARONOMICS - Nova ciência econômica que, segundo o Professor Afonso Celso Pastore, não obedece às leis da lógica de Karl Popper, pois, quando falsificada pelos fatos, mudam-se os fatos.  Sua implementação é feita por medidas de "centralismo democrático", isto é, decretos-leis.  Sua tese central é a do voluntarismo, isto é, as coisas acontecem não por decisões voluntárias dos agentes econômicos, mas pela aceitação patriótica, por parte deles, das intenções, desejos e caprichos dos "Funaro Boys", que são "apparatchicks" modernos, instalados no Planalto.


MORATÓRIA SOBERANA - Declaração de insolvência, em nome da independência, como resultado da incompetência.  Segundo alguns, deve ser levada "às últimas conseqüências", isto é, o aprofundamento da recessão interna, o embargo de navios e aviões brasileiros no exterior, a ruptura com o sistema financeiro internacional, ou seja, a transformação do país de uma "Belindia" numa "Albanindia".


ESQUERDISMO - Doutrina de grupamentos políticos especializados em distribuir propriedade alheia e propor uma adequada repartição do bolo, desde que mantenha o controle da faca.


PEFELISTA - Falso liberal, isto é, aquele que acredita simultaneamente em liberdade política e intervencionismo econômico.


PMDEBISTA - Assim designam os membros do maior partido político do ocidente.  O partido é contra o desemprego e também contra os investidores estrangeiros, que criam os empregos.  Reclama contra o endividamento excessivo, mas quer que os bancos estrangeiros se comprometam a fornecer "dinheiro novo", com a condição de não termos que pagar o "antigo".  Contem grupos presidencialistas, parlamentaristas e imediatistas ("Diretas Já"), mas a linha predominante é a "falimentarista", a qual propõe a falência do país como tema central da ideologia partidária.  É a favor dos tabelamentos de juros, sem se dar conta de que os juros são ditados pelo Banco Central e pelos bancos estaduais ao levantarem dinheiro para cobrir os déficits.  É contra os déficits orçamentais, desde que não se cortem despesas e que a tributação não atinja a classe média.  Deseja a preservação do salário real, por decisão governamental (mesmo através de decretos-leis), esquecidos de que o governo só pode prescrever salários nominais, os quais, se irrealistas, resultam no salário zero do desemprego.  Está em perfeita sintonia com o "povo", entendido por "povo" aquela parte da sociedade que não sabe o que quer.


OPÇÃO PELOS POBRES - Expressão que, quando usada pela Igreja, significa aumentar o número de pobres pelo dificultamento das praxes anticoncepcionais usadas pelos ricos. Quando empregada pelo Governo, significa uma forma de populismo, com as seguintes conseqüências: (1) congelam-se os preços para ajudar os pobres, mas isso desencoraja investimentos, diminuindo-se o emprego para os pobres, ou provoca escassez, prejudicando os pobres que não podem pagar ágio; (2) subvencionam-se indiscriminadamente, para pobres e ricos, alguns produtos essenciais, como o trigo, com o resultado de que o nordestino, que come farinha, paga impostos ou sofre alta de outros preços, para pagar a "macarronada" do paulista; (3) cria-se uma "indústria de distribuição", de sorte que os maiores beneficiários da distribuição são os burocratas que se encarregam de fazê-la.


RECURSOS NATURAIS - Cadáveres geológicos, sob forma mineral, que só se transformam em riqueza se houver investimentos e mercado.  Para exemplificar a diferença entre "recurso" e "riqueza", basta lembrar que o Brasil tem "recursos" e não tem "riqueza" e o Japão tem "riqueza" mas não tem "recursos".


(05.04.87)

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Continuo hoje meu esforço lexicográfico, na esperança de acumular credenciais literárias para ingressar na Academia Brasileira de Letras, sem conchavos humilhantes, e graças ao voto democrático, secreto e esclarecido de meus pares. Eis os novos verbetes:


CAMELO - Cavalo desenhado por um comitê de economistas. Há uma subespécie, o dromedário, que é um cavalo desenhado por um grupo de trabalho de economistas da UNICAMP e da PUC, também conhecidos pelo cognome de "país do cruzado".


BURGUÊS DE ESQUERDA - Homem rico, latifundiário ou industrial, que deseja conciliar opulência com popularidade. Adora promover medidas para que o Estado distribua a renda dos outros, preservando a sua através de incentivos fiscais.  Uma variedade particularmente daninha é o genrocrata, isto é, o pobre que casa com mulher rica.  Acha que sendo seu patrimônio imerecido, também o deve ser o dos que o adquiriram no eito e não no leito.  Defendem a justiça social e a opção pelos pobres, mas não abrem mão de seus direitos mínimos - "whisky" legítimo e videocassete contrabandeado.   No máximo aceitam a reforma agrária nas terras dos cunhados e concunhados.   Geralmente não recolhem o INPS e o FGTS, mas não tem objeção à expansão da atividades assistenciais do Estado, em favor primordialmente dos burocratas e, secundariamente, dos pobres.  Dizem-se "nacionalistas" e também "socialistas", esquecendo-se de que as duas palavras juntas configuram o nacional-socialismo, partido muito popular na Alemanha até o fim da II Guerra Mundial.


FIDELCOCCUS - Retrovírus que está grassando no planalto brasiliense, cuja síndrome mais séria é a retrogradação mental até a década de sessenta, quando os socialistas europeus consideravam a revolução uma aventura excitante. O vírus já atacou este ano (1986) três Ministros de Estados brasileiros, que demandaram Havana, presumivelmente para tratamento do vírus pelo próprio Fidel, de acordo com a tradição da medicina homeopática - "similia similibus curantur".  O último infectado, o Ministro da Justiça, inquieto com as constantes rebeliões nos presídios brasileiros, se dedicou a investigar como Fidel Castro logra manter a ordem e a disciplina nas 200 prisões cubanas (inclusive La Cabaña e Boniato).  Estima-se existirem 10 a 15 mil presos políticos, alguns com penas já cumpridas de 20 a 25 anos, por inconformismo com os princípios revolucionários, sem que se tenha notícia de depredações e motins, o que comprova o avanço tecnológico de Cuba nas artes de repressão político-ideológica.  Recomenda-se particularmente aos poetas e literatos que evitem contaminação pelo Fidelcoccus, pois Fidel tem especial predileção por torturar portas como Armando Valladares e Herbert Padilha.  Agora que se redige a Constituinte brasileira, seria bom estudarmos o art. 52 da Constinuição cubana, que garante liberdade de expressão e pensamento, desde que na conformidade dos ideais comunistas.


FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL - Hospital financeiro, também chamado de "bode expiatório", a que recorrem países "drogados" (habitualmente em estado pré-comatoso), que exigem financiamento para continuarem vivendo acima de suas posses.  Recebe vários tipos de viciados.  Os países "estatizantes", por exemplo, que gastam tanto com a máquina do Estado, que a receita mal dá para pagar os funcionários, pouco restando para investimento ou pagamento das dívidas estatais.  Os "nacionalizantes", que rejeitam os investidores estrangeiros dispostos a correr riscos, e mendigam dos banqueiros, que não querem correr riscos.  Os "autistas", que querem a reserva de seu próprio mercado e a abertura dos mercados alheios e que decidem unilateralmente a taxa de crescimento que o mundo tem a obrigação de lhes financiar.  O FMI comete a obscenidade insuportável de recomendar aos países que "ponham sua casa em ordem", isto é, que mantenham seu consumo e investimento nem nível compatível com sua poupança interna mais capitais voluntários do exterior.  Sua arma mais repugnante é a "auditoria" trimestral, que viola a soberania dos governos, obrigando-os a uma vergonhosa mensuração do déficit do setor público e do grau de desperdício dos tributos próprios e dos empréstimos alheios. Essas práticas configuram o que se convenciona chamar de "receita recessiva" do FMI.  A experiência revela que só há uma coisa pior que a recessão com o FMI.  É a recessão sem o FMI.


NEGOCIAÇÃO SOBERANA - Modalidade de negociação em que o devedor prega um sermão unilateral ao credor sobre suas necessidades de crescimento e a responsabilidade do sistema financeiro internacional de prover os recursos necessários.  É baseada em duas teorias - a da "responsabilidade mútua" e a da "imprevisão".  Conforme a teoria da "responsabilidade mútua", o banqueiro, proprietário da loja de bebidas, é co-responsável pelos porres da clientela.  Isso porque expõe os clientes a uma tentação irresistível e, segundo os jesuítas, cair numa tentação irresistível não é pecado.  Conforme a teoria da imprevisão, os contratos somente são válidos "rebus sic statibus", de modo que os juros flutuantes só são devidos e cobráveis se os juros não flutuarem.  Com sua doutrina de negociação soberana, o PMDB já logrou uma substancial vitória: os credores admitiram que não pleitearão o pagamento da dívida "nem com o sangue nem com a fome do povo", pois só querem pagamento através de exportações, aceitando inclusive excedentes de que o Brasil não necessite.  Há três princípios fundamentais na negociação soberana: (1) o devedor não deve submeter-se à malsã curiosidade dos credores quanto aos seus programas de recuperação de solvência, pois se trata de matéria de soberania interna; (2) só é lícito discutir os encargos da dívida, porém não o principal, por ser óbvio que a amortização do principal seria danosa aos próprios credores, que ficariam desempregados se os devedores liquidassem seus mútuos; (3) só se deve discutir dívidas de governo a governo, ainda que os contratos sejam com credores privados.  A teoria da negociação soberana foi desenvolvida e tecnicamente aperfeiçoada pelos economistas do Ministério da Fazenda, com respaldo popular do PMDB.  A fim de assegurar adequado suprimento de negociadores, funcionários do Itamarati estão sendo treinados na teoria da negociação soberana, também chamada de "tecnologia da confrontação".


PAÍSES CAPITALISTAS - Países cujo progresso é deixado às forças do mercado, impessoais e injustas, e cujo maior problema é impedir o ingresso de imigrantes.


REPÚBLICA POPULAR DEMOCRÁTICA - Pleonasmo usado pelos países comunistas para significar que a democracia fica com a NOMENKLATURA, e a obediência, com o povo.


(19.04.87)


Adendo: Se o inquestionável brilho e erudição lexicográfica acima revelados não me credenciarem para a Academia Brasileira de Letras, é porque não há justiça social nesse país.

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Verbetes disponibilizados pelo site Breves Notas.


Artigo publicado originalmente no Instituto Ludwig von Mises Brasil.

segunda-feira, 2 de março de 2009

As armadilhas da semântica

Por e-mail (sic)

Aos que se interessarem, adendo explicativo ao final do texto de R.Campos.

M.

 

*Roberto de Oliveira Campos

(27/02/2000)

 

George Orwell, o escritor inglês que nos deu algumas das obras que melhor iluminaram o ambiente dos difíceis anos que duraram da Depressão à queda do Muro de Berlim, entre elas as duas terríveis sátiras 1984 e Animal Farm, foi antes de mais nada um homem de excepcional integridade. Firme nas suas convicções de esquerda, foi voluntário contra os franquistas, na Guerra Civil espanhola. Ferido em combate (numa campanha admiravelmente contada em Homenagem à Catalunha), enfrentou com coragem os comunistas, quando estes, na tentativa de assumirem o controle do movimento, traíram seus outros camaradas de esquerda. Foi depois objeto de um patrulhamento feroz que tentou transformá-lo numa "não-pessoa". Morreu em 1950 aos 47 anos.

 

Águas políticas passadas, talvez. A União Soviética, a ex-formidável pátria do socialismo, não existe mais, esfarelada em repúblicas conflituosas. Para felicidade do gênero humano, não se realizaram as sombrias previsões orwellianas de 1984 - uma sociedade hipertotalitária, metida em guerras intermináveis, impondo ao povo um brutal controle do pensamento e da expressão -, o "novopensar" (newthink) e a "duplafala" (doublespeak). A televisão não se tornou um instrumento de massificação ideológica em favor do Big Brother, sendo ao contrário um instrumento de denúncia, que dificulta o ocultamento de selvagerias ditatoriais.

 

As previsões de Orwell não se realizaram ao pé da letra. Mas os verdadeiros escritores têm o dom de entrever formas da realidade que escapam facilmente aos olhos da multidão. Porque alguma coisa do "novopensar" e do "duplofalar" se encontra em nosso quotidiano. Raramente as mensagens que a humanidade troca entre si são meramente descritivas. Em geral, atingem-nos mais pelas associações de idéias e sentidos. Não haveria poesia, nem literatura, nem mesmo prece, sem adjetivos, metáforas e toda a ilimitada teia de ligações que vão se estabelecendo entre as palavras, ao longo do tempo. Mas o que faz prece ou poesia pode fazer também intriga e malefício. Questão de intenção e de dose.

 

Parece que mesmo línguas robustas, como o inglês, vêm perdendo a velha simplicidade por conta da "duplafala". Nos Estados Unidos, parece praga. Não há muito, uma companhia que estava mandando embora 500 empregados esclareceu: "Não caracterizamos isto como dispensa de pessoal; estamos gerenciando nossos recursos administrativos". Há consultores que trabalham especialmente no ramo de mandar gente embora, e apresentam seus serviços como "consultoria para terminação e colocação externa", ou "engenharia de reemprego". No Canadá, um acidente de helicóptero foi higienizado como "desvio de um vôo normal". E os advogados do famoso jogador de futebol americano, O. J. Simpson, o tal que teria matado a mulher (em quem dava surras) e o amante dela, pintaram essa relação como mera "discórdia marital". E consta que na Universidade da Califórnia, em Berkeley, a turma de educação física passou a chamar-se de "departamento de biodinâmica humana". Exemplos inesgotáveis, alguns engraçados, outros ridículos. Mas embaçam a percepção da realidade, embora hoje não tão sinistros como no auge dos totalitarismos.


Uma ilustração recente tem pegado por aí muita gente distraída. Temos ouvido muito a expressão "excluídos", para designar grupos de pessoas de baixa renda, ou supostamente marginalizadas. Há palavras apropriadas para as situações concretas: "pobre", "analfabeto", "doente", "desempregado", "drogado", por exemplo, designam situações em que determinadas pessoas objetivamente se encontram num dado momento. No resto da sociedade, espíritos decentes certamente sentirão um dever de solidariedade, e sem dúvida pensarão no que possa ser feito para mudar esse estado de coisas.

A exclusão, no entanto, supre uma ação deliberada contra o excluído, no caso, essa gente pobre, desempregada etc. Portanto, subentende que alguém impeça à força que ela tenha acesso a bens que todos desejam. O "excludente" passa a ser indiciado como "culpado" por essa situação penosa. Essa generalização é safada, porque sub-repticiamente legitima todas as demandas de supostos "excluídos", às custas dos demais. Houve políticas deliberadas (e criminosas) de exclusão, como a nazista, contra os não-arianos, e a comunista, contra os não-proletários.

 

Mas há formas de "exclusão" legítimas, e até indispensáveis à existência do indivíduo e da espécie. Os países costumam fechar suas fronteiras para não serem atropelados por massas de imigrantes deslocados de outras paragens. O abuso da palavra "excluído" é particularmente freqüente nas conferências internacionais. Muitos países se queixam de "excluídos" pela globalização, pela revolução tecnológica ou pelo liberal-capitalismo. Ao mesmo tempo praticam um nacionalismo excludente, que hostiliza capitais estrangeiros, supridores de poupança e tecnologia. Ou se impõem auto-mutilação tecnológica como o Brasil, com sua política de nacionalismo informático. Para não falar de países recipientes de ajuda externa, que gastam dinheiro em armamentos ou guerras tribais.

 

Essa confusão semântica atrapalha a compreensão do desenvolvimento econômico. Antes do processo de acumulação que é a civilização, os bandos dos nossos primitivos tataravós viviam em "equilíbrio" com a natureza - quer dizer, em média, pouco mais de 10 anos, chegando a em torno de 20 ao tempo de Roma, e só alcançando 40 nas sociedades industrializadas, no final do século passado. Fome, frio, doença, eram a regra geral. E permanente guerra de pilhagem entre tribos e clãs. A escassez universal era a regra que gerava a violência.

 

A aquisição da racionalidade tem sido um longo esforço humano de "inclusão" ao longo de milênios. A globalização é um fenômeno de "inclusão" e não o contrário. Pelo menos usar as palavras sem deformar a mensagem está nas nossas mãos. E é parte da solução.


*Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planejamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. Sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington, e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra.

 

Entendo que a sistemática indução às confusões semânticas é um dos ítens mais eficazes da guerra psicológica que o comunismo deflagra há décadas contra as civilizações do Ocidente.


O constante uso pelos meios de comunicação de expressões como "excluído", "justiça social", "movimento social", "direito à igualdade" e similares da arma conhecida como "cartilha politicamente correta", sem concomitantes definições de seu conteúdo em significado, têm o intuito de - pelo uso de automatismo de associação de idéias ( excluido = vítima; justiça = o Bem; social = antítese do individual egocentrado; igualdade = desejável; direito = indiscutível; etc.. ) fazer aceitar como racional, verdadeiro e justo, algo que não o é.


A costumeira designação de 'excluido' a um criminoso, por jornalistas, sociólogos, psicólogos... a priori aceitos como autoridades, impõem uma dissonância cognitiva (choque entre conceitos, opiniões, crenças ), sempre desconfortável psicologicamente. Nesta situação, nossa tendência é escapar ao desconforto pela exclusão de uma das cognições e aceitação plena daquela mantida pela 'autoridade'.


Se isso é conseguido a contento, tem-se uma porta aberta para a inteira ideologia que oferece uma gestalt, um quadro de referência em que tal cognição tem um sentido, recuperando-se a reconfortante - e ilusória - sensação de inteireza. 


Ou, nos mais inteligentes, que não conseguem engolir que um assassino é apenas "uma pobre vítima da sociedade maldosa", mantém-se a condição confusional agudamente desconfortável. Neste caso a defesa restante é o usual esquecimento, o jogar tal conflito para fora da atenção consciente buscando minimizar-se o sofrimento. Esta defesa, geralmente automática e inconsciente, deixa como resíduos inevitáveis a sensação de inferioridade intelectual, de ser-se incapaz de discernir a verdade por si mesmo.


Esta, meu amigo, é a melhor maneira já encontrada de tornar alguém impotente, embotando na origem o humano dom de definir o próprio comportamento pela apreensão da realidade, via percepção clara e pensamento racional. Bem curtinho: chuta-se o indivíduo para a condição de alienado - não sei, não quero saber, não me diz respeito, não tenho nada com isso... é o Cavalo, em Animal Farm, que só trabalha e deixa o pensar a cargo dos comissários. E as atuais e degradantes condições intelectuais do brasileiro médio não são mera coincidência, mas resultado concreto de décadas de esforço destrutivo, via mídias, escolas e igrejas aparelhadas por comunistas.


Uma idéia aceita por todas as ciências é que a Vida na Terra se hierarquiza em crescentes níveis de complexidade, estando o Homem em seu ponto mais alto.


Um ego individualizado, estruturando-se sobre a consciência de ser-no-mundo, é a capacidade distintiva, exclusiva da humanidade. Só o Homem dela desfruta, excluída da natureza de qualquer outro animal. Mesmo aqueles superiores, em que encontramos inegáveis traços de consciência, têm-na difusa, não centrada em um ego com historicidade e características únicas - INDIVIDUALIZADAS.


Atente: o ápice evolucionário se distingue por INDIVIDUALIDADE CONSCIENTE. Se entendermos esta realidade como um propósito - ainda que meramente incidental, na acepção de resultante por simples automatismo da valência de Leis Naturais ainda desconhecidas - ser-nos-á impositivo aceitar que a Natureza visa metas que passam por ampliação crescente do senso de individualidade e da consciência. Se o fluir em acordo com as Leis Maiores é um absoluto condicionante para o crescimento e felicidade - e o é! - então o melhor conselho jamais dado ao Homem estava no frontão do Templo de Delfos: CONHECE (amplie a consciência sobre) A TI MESMO (seu ego individualizado). 


Enquanto 'filosofia', o ESQUERDISMO - em qualquer de suas faces - induz sempre e deliberadamente à anulação do valor do indivíduo ( o que importa é o social, onde o indivíduo se dissolve ) e se opõe ativamente à ampliação das consciências (p.ex. a 'duplafala'), ao tempo em que - comprovadamente! - alimenta e estimula o que de pior e mais baixo possa existir na natureza humana, por desdobramentos de corrupção caracterológica decorrentes da ânsia por poder - antítese da opção pelo amor. 


SEMPRE.


Por se pautar como via reativa - revolucionária - em absoluto contrário ao fluxo de crescimento natural do Homem, configura-se claramente como INIMIGO DA HUMANIDADE. E que toda esta destrutividade odienta, onipresente onde quer que dominem, seja induzida por homens - que, em última instância, serram o galho em que se sentam - é a mais cabal comprovação que o esquerdoso é, antes de mais nada e em sua essência, um estúpido, criminoso anti-humanidade.


Hoje, dominam por contágio corruptor, todas as instâncias de nossa pátria, com uma única - e para eles, apavorante e intragável - exceção:


- nossas Forças Armadas, guardiãs das derradeiras reservas morais da nação.

M.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A Burguesia do Estado

Do portal PENSADORES BRASILEIROS
Por Roberto Campos em São Paulo, Domingo, 23 de Maio de 1999

O Brasil é particularmente sujeito a ilusões irresistíveis. Citemos algumas.

A primeira é a que se pode melhorar o padrão de vida pela decretação do salário mínimo. A questão é que, se ele for realista, o mercado o praticará independentemente de lei. Se sobreestimado, será anulado pela inflação ou pelo desemprego, ou podado na economia informal.

A segunda é atribuir importância "estratégica" ao monopólio estatal do petróleo. Mas como nenhum dos países ricos (e militarmente fortes) do G7 tem monopólios estatais, segue-se que estes são desnecessários quer para a riqueza quer para a segurança. Trata-se de cacoete de país subdesenvolvido.

A terceira é que o Brasil tem empresas "públicas" que visam a maximizar o bem-estar da nação, sem o egoísmo das empresas privadas. A verdade é que a empresa pública brasileira é um mito. Ela só seria "pública" se o povo tivesse participação significativa em sua gestão ou se trouxesse ao Tesouro Nacional apetitosos dividendos para financiar o social. Nada disso acontece. As estatais são reservas de caça de políticos e tecnocratas, que formam uma nova classe: a "burguesia do Estado".

No Brasil, mesmo as chamadas "jóias da coroa" já foram de há muito privatizadas pelos seus funcionários, que se apropriaram do grosso dos recursos, deixando apenas migalhas para o Tesouro. É o que transparece do quadro abaixo:

Como se pode verificar, as contribuições da Petrossauro para o seu fundo de pensões, na média do quadriênio 1995/1998, foram 4,7% maiores que os dividendos pagos ao Tesouro.

Este pobretão, que representa 163 milhões de brasileiros, auferiu a "excitante" rentabilidade média de 1,4% ao ano! É como se a viúva fosse explorada por um gigolô!

O Banco do Brasil é ainda pior. As contribuições para os funcionários são 6,95 vezes o rendimento do Tesouro, e a rentabilidade média do capital empatado foi de 1,03% ao ano.

No caso da Eletrossauro, a situação é "aparentemente" menos chocante. A rentabilidade média anual para o Tesouro foi de 4,67%, e as contribuições para os fundos de pensão não alcançaram a quarta parte dos dividendos do erário. Aparentemente, porque existe um enorme passivo previdenciário não provisionado correntemente.

O déficit atuarial dos fundos de pensão (excesso de benefício sobre receitas realizáveis) é estimado em R$ 1,2 bilhão, no caso de Furnas; R$ 300 milhões na Chesf e R$ 200 milhões na Eletronorte.

Essa responsabilidade atuarial terá que ser de alguma forma absorvida no caso da privatização, podendo traduzir-se numa substancial redução do preço de venda. Note-se que a Petrossauro já reconheceu uma dívida de R$ 5.991.700 para com a Petros, a ser provisionada em parcelas anuais.

Esses "passivos previdenciários" são um dos grandes obstáculos à privatização dessas empresas e explicam também sua feroz resistência ao programa de desestatização e sua engenhosidade na exploração da indústria das "liminares judiciais".

Nos países da antiga órbita soviética, a burocracia partidária – a "nomenklatura" - formou uma "nova classe" causticamente descrita pelo dissidente iugoslavo Milovan Djilas, a qual recebia recompensas não à base da eficiência produtiva e sim da fidelidade aos dogmas marxistas.

Nos países da América Latina, onde as burocracias estatais cresceram desmesuradamente, na época em que se acreditava no planejamento central e no dirigismo desenvolvimentista, surgiu também uma nova classe, a dos "burgueses do Estado". Os contribuintes, cujos impostos financiam as estatais, passaram a ser os novos "proletários".

A liderança dessa burguesia é exercida no Brasil pela CUT, que é cada vez menos um sindicato de operários e cada vez mais um sindicato de funcionários. Essa corporação sindical, cujo braço político é o PT, tem sido inquestionavelmente eficiente na defesa desses burgueses, aduzindo
imaginosamente toda a sorte de argumentos contra a desestatização: soberania ou segurança nacional, missão social, patriotismo, filantropia, desenvolvimentismo... "et caterva".

O único argumento ponderável é o receio de substituição de monopólios públicos por monopólios privados. Claramente, o ideal é um regime competitivo, como o que se está estabelecendo nas telecomunicações e no setor de geração de energia elétrica.

Mas é importante notar que o monopólio privado é muito menos nocivo que o monopólio público, simplesmente porque é muito mais "contestável": as concessões podem ser fiscalizadas ou canceladas pelas autoridades regulatórias, as empresas podem ser processadas por perdas e danos e correm o risco da falência, e a reclamação popular é muito mais eficaz porque as empresas não podem se abrigar sob o manto da intocabilidade patriótica, como o fazia a Petrossauro.

A crua realidade é que não faz o menor sentido para o governo continuar cativo dessa burguesia. Há um enorme déficit fiscal, que tem de ser financiado pela rolagem da dívida a juros altos, que oprimem o setor privado e os consumidores.

A reforma da estrutura fiscal, ainda em gestação, deveria conter o "fluxo" da dívida, mas precisa ser completada pela privatização, cuja receita deveria ser aplicada na redução do "estoque" da dívida pública. Que o alívio pode ser expressivo, prova-o uma aritmética grosseira.

Mesmo se as ações de controle do Tesouro na Petrossauro fossem vendidas pelo valor contábil, sem ágio, aplicando a receita no cancelamento de dívidas, as economias para o Tesouro (ao custo atual de rolagem de 23,5% ao ano) seriam de 17 vezes os dividendos médios recebidos no último quadriênio. No caso do Banco do Brasil seriam de 23 vezes, e no da Eletrossauro, 5,03 vezes (exclusive o passivo previdenciário).

Manter estatais com baixíssima rentabilidade, enquanto o setor privado é sangrado por impostos e juros altos, não é um comportamento racional. É uma aberração freudiana, vizinha do masoquismo. E explica por que nossos estatólatras desenvolvimentistas não entendem nada de desenvolvimento.

Roberto Campos, 82, economista e diplomata, foi senador pelo PDS-MT, deputado federal pelo PPB-RJ e ministro do Planejamento (governo Castello Branco). É autor de "A Lanterna na Popa" (Ed. Topbooks, 1994).

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Nova enquete no ar

Peguei um texto do grande Roberto Campos que no vídeo abaixo desmonta um cretino bem conhecido, nosso sinistro-ministro Top-Top, que até hoje não nos disse o que foi fazer em Cuba quando se AUTO-EXILOU lá (foi ajudar Fidel a matar cubanos contrários ao ditador assassino?) e adaptei nesta nova enquete.



Para quem esqueceu quem é este AUTO-EXILADO "CUBANO"...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Ministro obsceno do Lula tentou...

... mas do outro lado tinha um tal de ROBERTO CAMPOS... Aí não dá, né?!? Covardia. Vejam como caiu a máscara e depois do golpe ficou caladinho o "s"inistro Top Top.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".