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segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pela restauração intelectual do Brasil

Escrito por Olavo de Carvalho | Ter, 24 de Março de 2009 

Os artigos que aqui publiquei em 13 e 27 de fevereiro (A tragédia do estudante sério no Brasil e Se você ainda quer ser um estudante sério...) rendem até hoje cartas e perguntas que não posso responder uma a uma. Elas refletem não só o anseio inatendido de conhecimento por parte de tantos estudantes brasileiros, mas uma necessidade mais profunda e geral. Um país não pode sobreviver por muito tempo sem alguma vida intelectual na qual ele se enxergue e se reconheça como unidade histórica, cultural e espiritual. Isso falta totalmente no Brasil de hoje. As discussões públicas entre pessoas supostamente letradas perdem-se em fatos isolados, em tagarelice ideológica sem nenhum proveito ou na exteriorização fortuita de impressões grupais totalmente alienadas. Já não apreendem nem a nação como conjunto, nem muito menos a sua situação no mundo, na civilização, na História. O Brasil tornou-se invisível a si mesmo, e na treva geral crescem monstros. Talvez o mais feio deles seja justamente a esperança cretina de livrar-se de todos os outros a curto prazo, mediante ações práticas na esfera política, saltando sobre a necessidade prévia da restauração intelectual. Nenhum ser humano ou país está mais louco do que aquele que acredita poder resolver todos os seus problemas primeiro, para tornar-se inteligente depois. A inteligência não é o adorno do vitorioso, é o caminho da vitória. Não é a cereja do bolo, é a fórmula do bolo. Quando chegarão os brasileiros a compreender uma coisa tão óbvia? Quando chegarão a compreender que nem tudo pode ser resolvido com formulinhas prontas, com pragmatismos rotineiros, com improvisos imediatistas ou mesmo com técnicas da moda, por avançadas que sejam, se não há por trás delas uma inteligência bem formada, poderosa, capaz de transcendê-las infinitamente e por isso, só por isso, capaz de manejá-las com acerto? A sólida estupidez do petismo triunfante é a culminação de pelo menos cem anos de desprezo ao conhecimento. A aposta obsessivamente repetida no poder mágico da ignorância esperta levou finalmente ao resultado inevitável: a bancarrota cultural, moral e política.

Não há nada, nada mais urgente, neste país, do que criar uma geração de estudantes à altura das responsabilidades da inteligência. Ao dizer isso, estou consciente de pedir urgência para uma tarefa que, por sua natureza, é de longuíssimo prazo. A vida intelectual não se improvisa: ela resulta da confluência feliz de inumeráveis trajetos existenciais pessoais numa nova linguagem comum laboriosamente construída com materiais absorvidos, a duras penas, de tradições milenares. Quando a urgência imperiosa vem amarrada à demora invencível, o espírito humano é testado até o máximo da sua resistência. Nada mais difícil do que aliar a intensidade do esforço contínuo à longa espera de resultados incertos. Contra o desespero em tais circunstâncias, o único remédio está na fórmula de Goethe: “É urgente ter paciência.”

Aos leitores deste jornal, empresários na maioria, digo sem rodeios: a responsabilidade de vocês nisso é enorme. As universidades tornaram-se instrumentos do crime organizado, empenhados em tapar bocas, paralisar consciências, destruir talentos, perverter vocações, secar todas as fontes de uma restauração possível e, é claro, gastar dinheiro público. Custam caro e só servem para o mal. É preciso inventar o quanto antes novas formas de estruturação social da vida intelectual e torná-las economicamente viáveis. Só o empresariado pode tomar essa iniciativa. Só ele tem capacidade de organização e de aglutinação de recursos para isso. O sistema dos think tanks talvez funcione, se assimilado com a devida seriedade e adaptado eficazmente às condições brasileiras. Os modelos da Heritage Foundation, da Atlas Foundation, do Hudson Institute estão aí para ser estudados. Nos EUA eles tornaram-se centros irradiantes de energia positiva capaz de contrabalançar, e com freqüência vencer, o ativismo imbecilizante dos comissários-do-povo universitários.

***

Enquanto isso, posso sugerir, aos candidatos a membros de uma hipotética intelectualidade brasileira do futuro, algumas normas gerais que talvez os ajudem, na escuridão ambiente, a encontrar o caminho.

A formação da inteligência se dá em dois planos simultâneos: o propriamente intelectual, ou cognitivo, e o espiritual, ou inspiracional. O que você sabe depende de quem você quer ser; o modelo do que você pode ser depende do que você sabe. A ligação entre os dois planos é ignorada pelo ensino atual porque ele nem mesmo entende que existe uma dimensão espiritual, embora às vezes fale dela, até demais, confundindo-a com o simples culto religioso, com a moral ou com a psicologia.


***

No plano intelectual, o estudante deve esforçar-se para obter a mais alta qualificação possível, adotando como modelos da sua auto-educação as práticas melhores registradas historicamente: as da Academia platônica, do Liceu aristotélico, da universidade européia no século XIII (com seus ecos residuais na filosofia cristã moderna, por exemplo La Vie Intellectuelle de A. D. Sertillanges e Conseils sur la Vie Intellectuelle de Jean Guitton), da intelectualidade superior alemã no século XIX e austríaca no começo do século XX (tal como descrita, por exemplo, nos depoimentos de Eric Voegelin, Otto Maria Carpeaux e Marjorie Perloff) e, last not least, da tradição americana de liberal education (v., além do clássico How to Read a Book de Mortimer J. Adler, The Trivium, de Sister Miriam Joseph, Another Sort of Learning, de James V. Schall, e The House of Intellect, de Jacques Barzun).

O objetivo primeiro da educação superior é negativo e dissolvente: consiste em “desaculturar”, no sentido antropológico do termo: desfazer os laços que prendem o estudante à sua cultura de origem, às noções consagradas do “nosso tempo”, à ilusão corrente da superioridade do atual, e fazer dele um habitante de todos os tempos, de todas as culturas e civilizações. Não se pode chegar a nada sem um período de confusão e relativismo devido à ampliação ilimitada dos horizontes. Não basta saber o que pensaram Abrahão e Moisés, Confúcio e Lao-Tseu, Péricles e Sócrates, ou os monges da Era Patrística: é preciso um esforço para perceber o que eles perceberam, imaginar o que eles imaginaram, sentir o que eles sentiram. Não se preocupe em arbitrar, julgar e concluir. Em todas as idéias que resistiram ao tempo o bastante para chegar até nós há um fundo de verdade. Apegue-se a esse fundo e faça sua coleção de verdades, não se impressionando muito com as contradições aparentes ou reais. Aprenda a desejar e amar a verdade como quer que ela se apresente. Acostume-se a conviver com as contradições, já que você não terá tempo, nesta vida, para resolver senão um número insignificante delas.

A educação universitária brasileira é toda ela anti-educação, já que visa somente a inculcar no aluno a mentalidade dominante da classe acadêmica atual (quando não o slogan partidário da semana), julgando o passado à luz do presente e nunca o presente à luz do passado. Isso é prender o estudante num provincianismo temporal -- ou cronocentrismo, como costumo chamá-lo -- ainda mais lesivo do que qualquer etnocentrismo geográfico, racial, religioso ou político. “Todas as épocas são iguais perante Deus”, ensinava Leopold von Ranke. A inteligência humana tende poderosamente à universalidade, mas só se aproxima dela vencendo as barreiras culturais do espaço e do tempo, uma por uma. Resista ao triunfalismo presunçoso da atualidade. Quando ler o que algum pensador de hoje acha de Platão, pergunte o que Platão acharia dele. Em noventa e nove por cento dos casos você verá que o suposto progresso do conhecimento veio amplamente neutralizado por um concomitante progresso da ignorância. Jean Fourastié, em Les Conditions de l’Esprit Scientifique, observava que, ao lado da história do saber, seria preciso escrever a história do esquecimento. Comece já.

Não digo isso genericamente. É de uma norma muito prática que estou falando. Quando ler os clássicos, use tudo, absolutamente tudo o que vier a aprender com eles como instrumento analítico para a compreensão do presente, incluída nisso a sua própria vida pessoal. Fora o conteúdo filosófico e sapiencial mais geral, há tesouros de sociologia, de psicologia e de ciência política em Confúcio, em Shânkara, em Platão, em Aristóteles, em Dante, em Sto. Tomás, em Shakespeare. Uma longa convivência com esses sábios lhe dará uma idéia do que seja a verdadeira autoridade intelectual, da qual seus professores na universidade são caricaturas grotescas. Não se deixe iludir por erros de detalhe que a ciência moderna se gaba de ter “superado”. Quase sempre a superação é ilusória e só serve para, logo adiante, ser superada por sua vez. Você lê nos manuais, por exemplo, que Galileu “superou” a física de Aristóteles. Durante quatro séculos essa bobagem foi repetida como verdade terminal. Só por volta de 1950 os estudiosos perceberam que a física de Aristóteles não era uma física, mas uma metodologia científica geral, bem mais sutil do que Galileu poderia jamais ter percebido, e muito bem adequada às necessidades da ciência mais recente. Os famosos erros assinalados por Galileu existiam, mas eram detalhes secundários que não afetavam de maneira alguma o conjunto da proposta.

Qualquer que seja a questão em estudo, busque atender a três condições: (1) a abrangência máxima da informação básica, (2) o conhecimento do status quaestionis (já explico) e (3) a variedade das perspectivas.

A abrangência da informação obtém-se trocando a absorção casual pela pesquisa sistemática das fontes. Uma lista bibliográfica o mais completa possível é o melhor começo em qualquer investigação. Se você souber somente os títulos e datas dos livros publicados sobre determinado assunto, já terá uma visão inicial bem apropriada do problema antes mesmo de ler o primeiro deles. Não se perca, porém, na multidão de trabalhos acadêmicos atuais, a maioria deles produzida só por exigência administrativa ou carreirismo. Comece com as obras mais antigas, e isso facilitará a seleção das mais recentes.

status quaestionis, “estado da questão” é a evolução dos debates sobre um determinado ponto desde a origem da discussão até hoje. O conhecimento do status quaestionis distingue o erudito profissional do palpiteiro amador. (Todos os professores universitários que conheço no Brasil, com exceções que não chegam a meia dúzia, são palpiteiros amadores. Esqueça-os. Aprenda três ou quatro línguas e só use o português para ler material universitário de Portugal, que é muito bom em todas as áreas. Se não puder sair do Brasil fisicamente, saia intelectualmente. O que há de valioso na nossa cultura passada assimila-se em dois anos no máximo, com exceção da obra de Mário Ferreira dos Santos, que leva uma vida inteira, mas que você pode carregar debaixo do braço na sua fuga para fora do país ou para dentro de si mesmo.)

A variedade das perspectivas consiste na habilidade de pensar um problema exatamente como o pensaram os diversos autores que trataram dele. Isso exige algo mais que leitura inteligente. Exige a capacidade de você se identificar imaginativamente com a visão de cada um enquanto a está estudando, sem se preocupar em julgá-la ou contestá-la, mas sabendo que mais cedo ou mais tarde ela será julgada e contestada automaticamente quando você passar à leitura de outros autores. Deixe que a discussão, na sua mente, vá se montando sozinha, aos poucos, com os vários materiais contraditórios que você colhe das leituras. No momento em que a acumulação de material chegar a abranger o campo inteiro do status quaestionis, você terá uma experiência intelectual maravilhosa: quando os vários ângulos pelos quais você enxerga um problema não refletem apenas a sua imaginação, mas tudo aquilo que de melhor e mais inteligente se escreveu a respeito ao longo dos tempos, as conclusões a que você chega já não são meras opiniões pessoais – elas já são conhecimento em sentido pleno. Isso não quer dizer que você descobriu “a verdade”, é claro, mas significa que se aproximou dela tanto quanto possível à parte mais dedicada e mais séria da humanidade. Seu horizonte já não será o da subjetividade individual, será o do conhecimento humano. Você talvez ainda seja um anão. Mas já estará sentado sobre os ombros de gigantes.

***

Para avançar no plano espiritual, o estudante deve estar aberto à realidade do transcendente e do infinito, tendo ante essa dimensão a atitude gnoseologicamente apropriada e psicologicamente obrigatória de admiração contemplativa, temor reverencial e confiança existencial.



Para muitas pessoas hoje em dia, sobretudo os ditos “intelectuais”, essa percepção é inacessível e até inconcebível. Não por coincidência, são as pessoas que mais opinam a respeito, umas teorizando a sua própria incapacidade sob a forma de tagarelice materialista, cientificista, agnóstica etc., outras tratando de disfarçá-la por meio de conversas estereotipadas sobre religião, estados místicos, esoterismo, alquimia etc. Essas duas modalidades de tergiversação podem requerer muito estudo, e vidas inteiras se gastam no seu cultivo. O estudante deve aprender a reconhecer ambas à distância e fugir delas mais que depressa.



Caso pertença a alguma confissão religiosa, o estudante deve tomar seus ensinamentos como mistérios simbólicos cujo conteúdo não é fácil de discernir e cujo influxo vivificante pode secar pela adesão prematura a interpretações dogmáticas e receituários morais prontos. A religião não é uma doutrina para ser “acreditada” ou uma tábua de mandamentos morais exteriores como um código civil. Ela é um conjunto de acontecimentos de ordem histórico-espiritual cuja notícia nos chega pelas escrituras sagradas e pela tradição. Esses acontecimentos podem, em parte, ser confirmados historicamente, mas não podem ser historicamente compreendidos, pois prosseguem até hoje e seu sentido só se elucida nesse prosseguimento, na medida em que você toma ciência de que eles o envolvem pessoalmente. Você pode participar deles através dos ritos, da prece, da fé e sobretudo dos milagres. A fé não significa adesão a uma doutrina, mas confiança numa Pessoa em cuja humanidade transparece, de maneira ao mesmo tempo auto-evidente e misteriosa, a presença do transcendente e do infinito. Milagres acontecem o tempo todo, mas a maioria das pessoas é estúpida, distraída ou fechada demais para percebê-los (leiam James Rutz, Megashif). Mesmo a experiência reiterada das preces atendidas, carregada do inevitável desconforto cognitivo da desproporção entre a causa aparente e o efeito real, pode ser neutralizada ex post facto por meio de racionalizações de um puerilismo atroz, que muitos chamam de “ciência”. Mas talvez pior do que a falta de experiência, ou do que a experiência neutralizada, é a substituição da experiência objetiva do milagre por um sucedâneo psíquico – uma emoção, um subjetivo não-sei-quê -- a que alguns dão o nome pomposo de “meu encontro com Jesus”, “minha fé” ou coisa assim, sem entender que com isso sobrepõem os seus estados de alma à realidade suprema do próprio Deus. Deus se manifesta nos fatos do mundo, da natureza, da história, e no curso objetivo da vida de cada um, não fazendo afagos na alma de quem quer que seja. Por incrível que pareça, são esses afagos o máximo que alguns esperam encontrar na religião, enquanto outros, ateus ou até sacerdotes, acreditam piamente que ela consiste nisso na melhor das hipóteses e tiram daí conseqüências que lhes parecem muito científicas, como fez o clássico da cretinice antropológica americana, Edward Sapir, ao definir a religião como busca da “paz de espírito”, que se também pode alcançar com um comprimido de Valium. O estudante tem de aprender a fugir dessas vulgaridades, mesmo ao preço de colocar entre parênteses toda a questão “religiosa” até melhor entendimento.


Publicado originalmente em www.olavodecarvalho.org

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Caro sen. Dodd: Educação não é uma resposta para todos os problemas

BLOG DO ANGUETH
Dennis Prager | Sábado, Novembro 17, 2007

No debate entre os candidatos presidenciais democratas na última semana, eles foram instados a comentar questões sobre educação. Este foi o comentário do senador de Connecticut, Chris Dodd:

“Sempre me fazem esta pergunta. ‘Qual é a questão mais importante de todas’. Eu sempre respondo que é a educação, porque ela é a resposta para qualquer outro problema com o qual nos confrontamos hoje.”

Nem é preciso dizer que nenhum outro candidato contra-argumentou, e é provável que a maioria dos senadores, todos os democratas e muitos republicanos, concordaria com esse sentimento.

Mas o sentimento não está somente errado, ele é destrutivo.

Há, claro, ligações entre educação e sucesso profissional, entre educação e a habilidade de ler e escrever. E obviamente precisamos de pessoas bem educadas para sermos capazes de competir com outros países. Mas, pelo menos há algumas poucas gerações no Ocidente, não há nenhuma ligação entre educação superior e decência humana.

Ponto final.

Esse é um dos muitos mitos em que crêem as pessoas instruídas da sociedade ocidental (que as pessoas nascem boas é outro mito). Mas não há uma única sombra de evidência para apoiar tal afirmação.

De fato, os registros dos últimos cem anos – a respeito da ligação entre a educação superior e a bondade – mostram uma conexão inversa. Em termos simples, os portadores de diploma universitário na sociedade ocidental têm maior probabilidade de possuir horríveis valores morais e de apoiar crueldades em massa do que os menos educados.

Os dois grandes males do século XX – o fascismo e o comunismo – foram freqüentemente liderados por indivíduos instruídos. E o comunismo foi apoiado, no Ocidente, quase exclusivamente por intelectuais. Você quase tinha de ser intelectual para apoiar os assassinos em massa Lênin, Stalin e Mao.

Peça a qualquer pessoa instruída para identificar o nível educacional dos assassinos nazistas que conceberam os einsatzgruppen, as unidades assassinas móveis que massacravam judeus e dissidentes antinazistas antes da invenção das câmaras de gás. Uma aposta segura é a de que grande parte responderia que a maioria dos membros dos einsatzgruppen era de baixo nível educacional. De fato, contudo, dos quatro einsatzgruppen enviados à Rússia, por exemplo, “Três dos quatro comandantes tinham um doutorado, e o quarto tinha um duplo Ph.D.” (HolocaustResearchProject.org). Dentre esses assassinos em massa “se incluíam muitos oficiais de alta patente, intelectuais e advogados. Otto Ohlendorf, que comandou o Einsatzgruppe D, tinha graus acadêmicos de três universidades e um doutorado em jurisprudência” ("The Einsatzgruppen Reports," Holocaust Library, 1989).

Segundo o Prof. Michael Mann – cujo livro, “Facistas”, publicado pela Cambridge University Press em 2004, foi declarado pela American Historical Reviewde longe o melhor estudo comparativo dos fascismos entre-guerras” – “todos os movimentos fascistas no período entre-guerras atraíram desproporcionalmente os instruídos, ‘os estudantes secundaristas e universitários e o estrato mais altamente educado da classe média’.”

Se muitos graduam nas universidades ocidentais com bons valores morais, isso é a despeito, raramente por causa, da educação universitária.

Mesmo assim, apesar da evidência do fracasso moral da educação superior, muitos esquerdistas negam a ligação entre valores imorais e educação superior e continuam a perpetuar o mito da educação como a solução dos problemas sociais.

Eles assim o fazem por várias razões.

Primeiramente, a universidade é para o esquerdista secular o que a igreja é para o cristão ou a yeshiva (academia Talmúdica) é para o religioso judeu – um lugar sagrado e o epicentro de seus valores.

Em segundo lugar, é por meio do controle da educação superior (e da mídia) que os valores esquerdistas são mais efetivamente comunicados à próxima geração. Mesmo a mídia tem uma maior diversidade ideológica do que as universidades ocidentais, que transmitem quase exclusivamente a visão de mundo esquerdista.

Em terceiro lugar, a educação secular esquerdista é o melhor antídoto ao sistema de valores judaico-cristão, coisa que a esquerda mais teme.

E há uma quarta razão que faria um senador democrata, em particular, dizer que a educação é a “resposta para todos os problemas”. Os sindicatos de professores e a Associação Nacional de Educação doam grandes somas ao Partido Democrata.

Há, claro, uma forma de educação que pode, realmente, resolver a maioria dos problemas sociais: educação moral. Ela consistiria no ensino aos jovens do que é bom e do que é mal, de como desenvolver a integridade pessoal e de como foram as vidas dos melhores indivíduos da História.

Mas pouco ou nada disso é feito, hoje, nas escolas. “Bom” e “mal” são termos raramente usados, e são usualmente desprezados como “maniqueístas”. Integridade pessoal é essencialmente definida como assumir posições esquerdistas em questões sociais tais como aquecimento global, casamento entre pessoas de mesmo sexo e redistribuição de renda. E os melhores americanos – aqueles que construíram as fundações de nossa liberdade – têm sido difamados como vilões, proprietários de escravos e racistas.

Então, senador Dodd, a educação como a que presentemente existe, não é uma resposta para todos os problemas da sociedade. De fato, ela é, tanto ou mais, a fonte de muitos deles.

Publicado por Townhall.com


domingo, 25 de janeiro de 2009

O ópio dos intelectuais - Raymond Aron

MOVIMENTO ENDIREITAR
Escrito por Nivaldo Cordeiro  
Sex, 16 de Janeiro de 2009 08:00

"O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos". Raymond Aron

“Se a tolerância nasce da dúvida, que nos ensinem a duvidar dos modelos e utopias, a recusar as profecias da salvação, os arautos de catástrofes”. Raymond Aron

Por que comentar um livro escrito em 1954, de caráter aparentemente conjuntural? Por que resenhar um livro esgotado e para o qual não deverá aparecer editor interessado na sua publicação no Brasil? Por que discutir um texto que coloca como tema o Império Soviético, já morto e enterrado? Por que se debruçar sobre uma problemática que já deveria ter sido esquecida nas dobras do tempo? Afinal, por que discutir o conceito de ideologia? Digo-lhe, caro leitor: porque o livro fala de nós, do nosso momento, da nossa necessidade mais premente. É uma luz para aqueles que se encontram encurralados, prisioneiros de alma diante das mentiras sistemáticas dos escribas e fariseus.

Falo do livro “O Ópio dos Intelectuais” de Raymond Aron (1905-1983), que é uma das obras seminais do século XX, cuja primeira edição francesa foi publicada em 1955. Roberto Campos (1917-2001), que prefaciou a edição brasileira publicada pela Editora Universidade de Brasília em 1980, sublinhava que vinte e cinco anos depois de sua publicação original a obra ainda mantinha a sua atualidade, a mesma que percebo nesse instante. Campos também assinala que a obra foi um ato de coragem, pois “o marxismo era então a grande religião dos intelectuais”. Poderíamos dizer diferente hoje em nosso país? Certamente que não, em face do pleno domínio que os intelectuais marxistas têm na universidade, na mídia, na burocracia estatal, na classe política e – é de pasmar! – no próprio meio empresarial. Conservadores e liberais aqui são como restos que se ocultam nas frestas e apenas graças à Internet os seus poucos remanescentes conseguem agora se comunicar. Os últimos pleitos para a Presidência da República não passaram de duelos entre diferentes facções marxistas, o que mostra o grau de domínio que essa ideologia conseguiu no Brasil.

O livro é um contundente libelo de um combatente pela liberdade.

O livro é dividido e três partes, precedido de longa e substantiva Introdução, a saber: a primeira trata dos mitos políticos, a segunda da idolatria da história e a terceira da alienação dos intelectuais. Não é fácil de ser lido para aqueles que não tenham um conhecimento mais aprofundado do marxismo e das obras dos seus ícones dos anos cinqüenta, como Jean-Paul Sartre (1905-1980), Herbert Marcuse (1898-1979), Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), Arthur Koestler (1905-1983) e outras estrelas que dominavam o meio intelectual mundial, na mídia e nas universidades. Só eles eram lidos. A razão liberal foi deixada de lado. O próprio Aron, como Milton Friedman (1912-2006) nos EUA e seus pares mundo a fora, eram vistos como excêntricos que davam as costas á “verdadeira ciência”.

Mesmo Aron deixou-se trair – Ó ironia! – ao confessar, no prefácio que escreveu ao livro em 1954, que era “pessoalmente, keynesiano com saudade do liberalismo...”. Mais para o final da vida certamente não teria escrito com candidez essa frase, ele, o grande denunciador das ideologias esquerdistas. Foi uma vítima delas também, mas quem escapou desse destino? A mentira ideológica emerge em todos os lugares e é pegajosa como a graxa usada pelos mecânicos.

É por isso que nutro uma admiração muito especial por Milton Friedman e demais economistas liberais desse período, que resistiram bravamente ao assalto dos falsos economistas que, por traz de equações e sofisticados tratados, outra coisa não fizeram que não a exaltação do Leviatã e do coletivismo. Entre nós, exalto a figura quase quixotesca de nosso ilustre Embaixador José Osvaldo de Meira Penna, que nunca se dobrou aos modismos dos tempos.

Para Aron, o marxismo tornou-se a ideologia por excelência, pois “as sociedades ocidentais não têm o equivalente ao marxismo-leninismo, seja como base para o regime, seja como fundamento de uma síntese, ou pseudo-síntese, intelectual”. O autor entendia por ideologia “uma concepção mais ou menos sistemática da realidade política e histórica de mistura de fatos e valores”.

Aqui temos ainda um outro efeito da perspectiva histórica, que teria ajudado Aron a ver que o marxismo-leninismo e suas derivações, bem como os socialistas em geral, nos final do século XX, fortaleceram-se como nunca em praticamente todo o Ocidente. Não tinha equivalente porque era a mesmíssima ideologia que aqui era dominante. O regime soviético caiu de podre, mas os crentes na ideologia prosperaram em todos os países. O Brasil é a prova mais sólida dessa excrescência histórica que se mantém firme, apesar de tudo, apesar de ter sido desmascarada, apesar de se demonstrar economicamente inviável, apesar de atentar contra as liberdades democráticas e a própria existência do indivíduo enquanto tal, a instância moral da humanidade.

Escrevendo diante dos acontecimento de 1968, quando fez o texto introdutório (afinal, aquelas arruaças não passaram disso: arruaças planejadas pelos comunistas, em luta conta os EUA e sua campanha no Vietnã), Aron afirmou:


“Não existem, propriamente, novos sistemas ideológicos: o trotskismo e o freudismo-marxismo de Frankfurt remontam, o primeiro, ao princípio da década de 1930, à formação de uma seita marxista-leninista no exílio, que acusa a Igreja estabelecida de infidelidade; o segundo, à década de 1920, à conjunção de Hegel, Marx e Freud, à unidade fictícia das duas revoluções – sexual e político-social. Os revolucionários que promoveram revoluções verdadeiras – Cromwell, Robespierre, Lênin – tinham idéias morais bem diferentes: puros, ou puritanos, não incluíam a liberação dos instintos em seu conceito de liberdade. Mao ao que parece, também prega o domínio dos instintos, não sua liberação. Pode ser que o freudismo-marxismo, adaptado à índole cubana, tenha encontrado no Caribe a sua pátria de eleição”.

Mal sabia ele o quanto Cuba iria durar sob a tirania comunista. O estilo de Aron é assim, direto, irônico, implacável. Lê-lo é um deleito.

I

“Longe do marxismo ser a ciência da infelicidade operária e o comunismo a filosofia imanente do proletariado, o marxismo é uma filosofia de intelectuais que seduziu frações do proletariado e o comunismo faz uso dessa pseudociência para atingir seu fim próprio, a tomada do poder”. (Raymond Aron)

Continuando a resenha do livro “O Ópio dos Intelectuais” não pode nos escapar o trocadilho que ele fez no título com a famosa frase de Karl Marx (1818-1883), de que “a religião é o ópio do povo”. Aron não o fez por acaso: para ele o marxismo assumiu uma forma de religião secular, abraçada pela “intelectuária” do mundo.

Aqui pretendo fazer um comentário sobre a primeira parte do livro, que trata dos três mitos políticos, a saber: o da esquerda, o da revolução e o do proletariado.

Aron começa fazendo a distinção dos conceitos políticos “direita” e “esquerda”, sem o que não é possível distinguir a questão ideológica. É uma tarefa relevante e difícil mesmo hoje, é de se imaginar o quanto foi em meados dos anos cinqüenta. São denominações genéricas que não comportam unidade, mas são úteis para discernir o espectro político. Se a esquerda é uma “saco de gatos”, a direita deve ser desdobrada em pelo menos dois grandes blocos, os conservadores e os liberais. E estes, mais das vezes, especialmente no contexto europeu e norte-americano, são também confundidos com elementos de esquerda.

A direita sempre se apresenta como partidária da tradição e da ordem, enquanto que “a esquerda apresenta-se como anti-capitalista e combina, numa síntese difusa, a propriedade pública dos instrumentos de produção, a hostilidade contra a concentração de poder econômico batizados de trustes e a desconfiança para com os mecanismos de mercado”. Aron foi um dos pioneiros em mostrar que o nazismo se alinhava à esquerda, e não à direita, como fazia crer a propaganda comunista depois da invasão da União Soviética por Adolf Hitler (1889-1945).

O que Aron sublinha é que as tiranias que desacreditam no mercado, na livre empresa, nas liberdades individuais, colocando em seu lugar o dirigismo estatal e o regime de partido único – o comunismo assim como o nazismo – são o que se pode chamar de esquerda, a forma antagônica de organização da sociedade capitalista como a conhecemos.

O autor é extremamente contundente ao demonstrar que a estatização (como diríamos hoje) dos meios de produção nem estabelece a igualdade política e nem de rendimentos. “A hierarquia técnico-burocrática, na qual os trabalhadores são integrados, não fica modificada por uma mudança do estatuto de propriedade”, afirma, com razão. A hierarquia é mantida, porque essa é a condição humana. Da mesma forma, a distribuição de renda: “O limite da igualização das rendas é traçado pela gravidade da matéria social, o egoísmo humano, mas também por exigências coletivas e morais não menos legítimas do que o protesto contra a desigualdade". Aron tem profunda consciência, qual um liberal clássico, dos limites impostos pela chamada natureza humana, que não pode ser abolida e nem modificada pelos engenheiros sociais.

À certa altura, Aron se pergunta, olhando a França, "mas onde estão os capitalistas a fustigar”? A pergunta é muito pertinente para o Brasil de hoje, em vista do inusitado fato político que se registra de maciça adesão de muitos membros da direita tradicional aos representantes do marxismo. Até usineiros de cana-de-açúcar de Pernambuco, conservadores tradicionais, andaram declarando votos em Lula para a presidência da República.

Passando a analisar o mito da revolução, Aron afirma que “não se pode considerar inseparáveis a violência e os valores da esquerda: o inverso estaria mais próximo da verdade”. Tomando esse mote, talvez caiba aqui uma conclusão, a de que a ação política da esquerda no poder, ainda que a ele chegue de forma pacífica, sempre descambará para a violência revolucionária, seja porque essa ação contraria fatos básicos da condição humana (propriedade privada e liberdade), seja porque seus métodos de progresso baseados no planejamento central impõem a lógica do trabalho compulsório. Só é possível conseguir uma ordem assim pela força.

Aron, enquanto agudo e irônico observador da História, afirma:

“Os regimes vitimados por levantes populares ou golpes de Estado não demonstram pela sua queda vícios morais – são muitas vezes mais humanos do que os vencedores – e sim erros políticos... A revolução do tipo marxista não aconteceu porque seu próprio conceito era mítico: nem o desenvolvimento das forças produtivas nem o amadurecimento da classe operária prepararam a derrubada do capitalismo pelos trabalhadores conscientes de sua missão. As revoluções que invocam o proletariado, como todas as revoluções do passado, assinalam a substituição violenta de uma elite por outra. Não apresentam caráter algum que permita saudá-las como o fim da pré-história”.

Não escapa a Aron a conexão entre o conceito de revolução e o de revolta, o primeiro tirando partido do prestígio do segundo. Revoltados são aqueles que dizem não à modernidade, sejam ateus como Friedrich Nietzsche (1844-1900), sejam homens de fé como Georges Bernanos (1888-1948). Eles “têm horror à baixeza, à vulgaridade espalhadas pelas práticas eleitorais e parlamentares... Revoltados e niilistas censuram o mundo moderno: uns por ser o que quer ser, outros por não ser fiel a si mesmo”.

Por fim, Aron fecha essa parte do livro analisando o mito do proletariado, que juntamente com o de esquerda e de revolução, dão o eixo explicativo do que move a alma dos intelectuais: são a sua crença e o seu engano. O autor aqui é mais cáustico do que nunca, mostrando as falácias dos que advogam o elemento operário como o libertador da humanidade. “O proletariado, no sentido preciso da massa operária criada pela grande indústria, não recebeu de ninguém – a não ser de um intelectual, originário da Alemanha e refugiado na Grã-Bretanha no meio do século passado (XIX) – a missão de ‘converter a história’, mas no século XX representa menos a classe imensa das vítimas do que a coorte dos trabalhadores que os managers organizam e que os demagogos cercam”.

Ler essas páginas é colocar a nu diante dos olhos o besteirol que anima a classe política esquerdista. Basta olhar os programas eleitorais, naturalmente obrigatórios, para que nos deparemos com cada uma das falácias a sustentar suas falsas promessas. O resumo delas é que todas as misérias humanas podem ser resolvidas por e através do Estado. A História ensina que é exatamente o contrário: onde a livre empresa deixou de existir e o mercado foi substituído pelo planejamento central, o que se conseguiu, além do sacrifício da liberdade, foi a miséria econômica e o horror político.

II

“Quem pretende formular um veredicto definitivo é um charlatão. Ou a História é um tribunal supremo e só pronunciará a sentença sem recurso no último dia. Ou a consciência (ou Deus) julga a História, e o futuro não tem mais autoridade do que o presente”. (Raymond Aron)

A segunda parte do livro o “Ópio dos Intelectuais” trata do tema da idolatria da História. A primeira coisa que Aron nota é que os partidos revolucionários se comportam como se fossem uma igreja e os seus membro tornam-se uma congregação de fé. Os congressos desses partidos são apropriadamente chamados por ele de “congressos-concílios”. O marxismo é uma forma laicizada de religião e tal como o Papa, arroga-se o princípio da infalibilidade.

A esse caráter religioso (na verdade, corrompido), Aron atribui a natureza dos processo contra os dissidentes políticos onde os comunistas chegaram a poder. Comparáveis à Inquisição, revelam a ortodoxia, ao salientar as heresias, afirma. É comovente a descrição que ele faz dos expurgos dos Partidos Comunistas, das farsas que eram os processos e os julgamentos. Não sem alguma piedade, Aron afirma que nessa religião sem alma, os oponentes tornam-se efetivamente piores do que criminosos.

Em uma sucessão de curtos e densos capítulos, Aron discorre sobre o pretenso sentido que teria a História, sua pluralidade de significações, as supostas unidades históricas, o suposto Fim da História e a História tratada com fanatismo. É deprimente ver como as pessoas, tomadas pela ilusão ideológica, se deixam levar pelas teses mais mirabolantes.

Na seqüência, o autor demole a ilusão de uma suposta necessidade histórica, seu determinismo, suas previsões e ridiculariza a sua suposta dialética. Nas suas palavras: A pretensa dialética da história social resulta de uma metamorfose da realidade em idéia. Endurece-se cada regime, atribui-se a ele um princípio único, opõe-se o princípio do capitalismo ao do feudalismo ou do socialismo. Afinal, fala-se como se os regimes fossem contraditórios e como se a passagem de um para o outro fosse comparável à passagem de uma tese a uma antítese. Comete-se um duplo erro. Os regimes são diferentes e não contraditórios e as chamadas formas intermediárias são mais freqüentes e duráveis do que as formas puras. Aron é implacável nas suas conclusões.

É interessante como o autor nota que os cristãos são muito sensíveis à mensagem marxista. Mal sabia ele à época que uma suposta teologia da libertação seria fundada, na qual a mensagem de Cristo foi substituída sumariamente pela mensagem revolucionária. A Igreja Católica no Brasil está hoje majoritariamente contaminada por esse câncer intelectual. Uma ligeira conversa com algum sacerdote engajado na “causa” revela que não são mais cristãos, usam o nome da religião em vão. O marxismo, em sua essência, é radicalmente contra os valores cristãos, contra a ética cristã, contra a sua mensagem. O Cristianismo exalta o triunfo, a dignidade e a responsabilidade do ser individual. O marxismo é o contrário: exalta o coletivo, torna os valores morais relativos e propõe a salvação coletiva pela economia nesse Mundo, em substituição à salvação individual, no Além.

Um cristão, por definição, não pode ser marxista, sendo a recíproca verdadeira.

Nas páginas finais dessa parte do livro, Aron lembra: “‘History is again on move’, esta fórmula de Arnold Toynbee (1889-1975), dificilmente traduzível, atende a um sentimento forte e estranho que cada um de nós experimentou em dado momento de sua vida. Eu o experimentei na primavera de 1930, quando, ao visitar a Alemanha, assisti aos primeiros êxitos do nacional-socialismo. Tudo estava novamente em questão: a estrutura dos Estados e o equilíbrio das forças no mundo: a imprevisibilidade do futuro pareceu-me tão evidente quanto a possibilidade de manter o ‘status quo’”. Ler essa citação me remeteu diretamente à minhas angústias mais íntimas. É o mesmo sentimento de que estou tomado ao ver os acontecimento políticos que de desenrolam no Brasil na atualidade. A Internet anunciou antes das eleições de 2002 uma aceleração na depreciação do real frente ao dólar. A eleição de um militante revolucionário para a Presidência da República em 2002 e sua reeleição em 2006 me faz tomado de sentimentos de apreensão, que o mercado financeiro só confirma. Os augúrios são os piores possíveis.

São os mesmos, homens da mesma raça, em 1917 em Moscou, em 1933 em Berlim e em 2002 e em 2006 em Brasília. Homens com uma caricatura de consciência histórica são capazes de qualquer coisa para chegar ao poder e para exercê-lo de forma implacável e tirânica. Será que a destruição aqui será na mesma ordem de grandeza registrada no passado? Quem viver, verá.

III

“O comunismo é uma versão aviltada da mensagem cristã. Dela retém a ambição de conquistar a natureza, de melhorar a sorte dos humildes, mas sacrifica o que foi e continua sendo a alma da aventura definitiva: a liberdade de pesquisa, a liberdade de controvérsia, a liberdade de crítica e de voto do cidadão. Submete o desenvolvimento da economia a um planejamento rigoroso e a edificação socialista a uma ortodoxia de Estado”. (Raymond Aron)

A terceira e última parte do livro “O Ópio dos Intelectuais” traz uma exaustiva demonstração da alienação dos intelectuais, com farta demonstração por diversos países. Mas o mais notável é a ênfase que o autor dá ao caráter religioso que assumiu as diversas seitas marxistas – socialistas e comunistas – que se tornaram uma forma de religião secular (Cavaleiro do Templo: o homem precisa entender que ser dócil frente ao transcendente é parte de sua natureza. O homem percebe que é pequeno e que existe algo por trás "da cortina do teatro". Se ele foge disto, foge de sua natureza e se transforma não em um bichinho dócil mas em um monstro horrendo. Ao eliminar a religiosidade, elimina-se a natureza humana ou parte essencial da mesma. Quem deliberadamente faz isto quer apenas uma coisa: tornar-se ele mesmo o transcendente. Não há portanto nada de errado nas revoluções endeusarem seus mentores. É apenas a natureza humana. Ou dos humanos transformados em monstros. E quem legitima esta metamorfose: os “intelequituais”, os intelectuais com mentes leprosas.)

Aron desmistifica a idéia de que os intelectuais sejam essencialmente revolucionários. Eles o foram em momentos específicos. Lembra Aron que “os letrados chineses defenderam e ilustraram a doutrina, mais moral do que religiosa, que lhes dava o primeiro lugar e consagrava a hierarquia. O reis ou os príncipes, os heróis coroados ou mercadores enriquecidos sempre encontraram poetas (que não eram necessariamente ruins) para cantar a sua glória. Nem em Atenas, nem em Paris, nem no século V antes da nossa era, nem no décimo nono século após Jesus Cristo, o escritor ou o filósofo inclinaram-se espontaneamente para o partido do povo, da liberdade e do progresso. Os admiradores de Esparta que se encontravam no interior dos muros de Atenas eram numerosos, como também aqueles do Terceiro Reich nos salões ou nos cafés da Rive Gouche de Paris”.

E, com grande agudeza psicológica, Aron intui o porquê dos intelectuais contemporâneos tenderem para o ativismo e a ação revolucionária: “A conjunção de peritos [profissões técnicas] decepcionados e letrados irritados põe as próprias sociedades industriais do Ocidente em perigo. Uns que procuram eficácia e outros que perseguem uma idéia unem-se contra um regime culpado por não inspirar nem o orgulho do poder coletivo, nem a satisfação íntima de participar de uma grande obra”.

O que Aron não sabia à época é que foi colocada em marcha a mais formidável indústria de mentiras por parte dos revolucionários, dispostos a qualquer coisa para fazer triunfar as suas idéias impraticáveis, muitas vezes em sacrifício dos próprios revolucionários. Nos expurgos, eles mesmo que arderiam nas fogueiras. A cegueira ideológica chegou a tal estágio que o sentido de realidade desapareceria. Aqui não é possível deixar de lembrar a maléfica obra de Antonio Gramsci (1891-1937) e a engenharia de comunicação política traçada desde os tempos de Vladimir Lênin (1870-1924), com o propósito exclusive de produzir a mentira política. A ordem era confundir, subverter a moral cristã, solapar os valores mais essenciais da tradição ocidental.

É na alma desses homens que talvez resida a resposta para essa atitude tão insensata e destrutiva. Não creio que o mero impulso em direção ao poder possa explicar o fato, embora reconheça que o mesmo possa estar na origem de sua força dinâmica. Tampouco creio que explique isso algum eventual “pulsão de morte” de corte freudiano. Aron, ainda uma vez, foi genial ao perceber o paralelo com o fenômeno religioso. É, para mim, a tomada da alma desses homens pelo íncubo obsediante, em transe demoníaco, fazendo das massas um súcubo passivo e sugestionável. É na psicologia de Carl Gustav Jung (1875-1961) que se terá as categorias necessárias para uma correta análise dessa hipnose de massas.

Forças transcendentais estão na verdade em disputa pela alma coletiva e de cada um. É o duelo eterno das forças do Bem e do Mal. A manifestação no mundo político é apenas um reflexo menor desse duelo maior. E não há dúvida de que as idéias coletivistas assumem o lado negativo, são a própria expressão do Anti-Cristo.

Aron nota que o cristão nunca poderá ser um autêntico comunista, do mesmo modo que o comunista não pode crer em Deus ou no Cristo, porque a religião secular, animada por um ateísmo fundamental, declara que o destino do homem cumpre-se todo inteiro nesta terra. O cristão progressista esconde de si mesmo essa incompatibilidade.

Em e-mail recebido de José Stelle, que reside no EUA, ele me relatou que entrevistou Aron para a revista “Visão”em 1982, quando da sua vinda ao Brasil para o lançamento do livro. Respondendo à pergunta sobre a diferença entre um liberal e um socialista, Aron declarou: O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicadas. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência – ou seja, sua ignorância e arrogância – aos seus concidadãos. Resumiu tudo.

Para concluir, quero aqui indicar a resenha de Roger Kimball (“Raymond Aron & the power of ideas”), publicada no site www.newcriteriom.com, que pode ser de grande utilidade aos pesquisadores e interessados na obra do autor.


Fonte: http://www.nivaldocordeiro.net/

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Johnson e Os Intelectuais

Nivaldo Cordeiro  - Sábado, 25 de Outubro de 2008 13:00

Acabei de reler o livro Os Intelectuais, de Paul Johnson (Rio de Janeiro, Imago, 1990), depois de muitos anos. Se algum dia voltar à cátedra, não tenho dúvida de que, em qualquer programa de curso que venha a dar, esse livro encabeçará a lista de leituras obrigatórias. Com a sua prosa sóbria e elegante, Johnson faz um retrato de cada um dos principais intelectuais, desde Rousseau. Se um aluno iniciante nos cursos superiores ler esse livro com atenção, ficará vacinado contra a sedução socialista e comunista que é a tônica em nossas universidades.

O traço peculiar a todos os chamados engenheiros da alma humana (definição acertada de Stalin para os intelectuais) é a mistura de mau-caratismo e a incongruência daqueles que possuem uma vida torta quererem consertar o mundo. De todos os autores estudados no livro, os capítulos que considero absolutamente relevantes são aqueles dedicados a 

Marx e a Rousseau. O estudo da vida desses dois monstros morais vai mostrar onde se assenta a origem das suas taras sociais, que sustentam as idéias totalitárias. São os arquétipos de todos os sociopatas.

Os tempos em que vivemos no Brasil de hoje convidam especialmente a uma leitura como essa. Tempos de grandes perigos. Johnson escreveu, no capítulo final:

“A agora chegamos ao ponto central da vida intelectual: a atitude em relação à violência. Essa é a cerca na qual a maior parte dos intelectuais, sendo ou não pacifistas, esbarram, caindo na inconsistência – ou melhor, numa absoluta incoerência. Eles a rejeitam em teoria, como de fato a lógica os leva a fazer já que se trata da antítese dos métodos racionais de resolver problemas. Porém, na prática, eles se vêem, de tempos em tempos, a favor dela – o que poderia ser chamado de Síndrome do Assassinato Necessário – ou aprovando seu uso por aqueles com quem eles simpatizam. Outros intelectuais, diante da violência praticada por aqueles que eles desejam defender, simplesmente transferiam a responsabilidade moral, por meio de uma argumentação ingênua, para os outros, a quem desejavam combater”.

Não é mera coincidência o que acontece com a classe letrada do Brasil com relação a pelo menos três temas explosivos: a guerrilha do MST, o apoio à Cuba de Fidel Castro (veja-se as recentes declarações do embaixador de Lula naquela ilha) e as relações com os EUA, em especial à sua política de combate ao terrorismo. Aplica-se o que Johnson escreveu ipsis verbis.

A existência imunda desses feiticeiros que hipnotizaram as elites não pode ser ignorada, pois as suas vida mostram o que de fato foram, monstros morais. Johnson foi muito feliz ao resumir:

“Tinha-se uma perversidade especial – com a qual qualquer um que estude as carreiras dos intelectuais se torna desanimadoramente familiarizado – para se chegar a essa conclusão... Com efeito, por várias razões, o planejamento social foi a principal fraude e a maior desgraça da época moderna. No século XX, por causa dele morreram muitos milhões de pessoas inocentes, na Rússia soviética, na Alemanha nazista, na China comunista e em outros lugares. Porém, trata-se da última coisa que as democracias ocidentais, com todas as suas falhas, jamais adotam. Pelo contrário. O planejamento social é uma criação dos intelectuais milenaristas, que acreditam poderem remodelar o universo à luz de sua razão auto-suficiente. Esse planejamento é um direito inato da tradição totalitária. Teve como pioneiro Rousseau, foi sistematizado por Marx e institucionalizado por Lênin. Os sucessores de Lênin administraram, por mais de setenta anos, a mais longa experiência de planejamento social da história...”

Mais não precisa ser citado. Johnson vai direto ao ponto. 

O livro é um convite ao despertar, em meio ao sono trágico em que está mergulhado toda a nossa classe pensante.

Publicado originalmente em http://www.nivaldocordeiro.net

sábado, 28 de junho de 2008

"Os" intelectuais e seu modelo

Do portal do OLAVO DE CARVALHO
Por Olavo de Carvalho, 26 de junho de 2008

O filósofo francês Jean-Yves Béziau dizia que o pensamento universitário no Brasil é a imitação subdesenvolvida de um modelo degenerado. Recentemente, o modelo e sua imitação voltaram a exibir-se nas páginas do noticiário, o único lugar onde podem experimentar, por momentos, uma deliciosa sensação de existência. Em Paris, informa-nos a Folha, “o encontro dos filósofos Alain Badiou e Slavoj Zizek, em 16 de maio passado, foi um show de inteligência e bom humor”. É um equívoco. Dois ídolos da esquerda que se reúnem para afirmar que “o fracasso do socialismo real não invalida o comunismo” constituem, mais propriamente, um espetáculo de mendacidade e humor negro.

Desde logo, a escolha das palavras é um eufemismo cínico. Fracasso é brochar na noite de núpcias. Matar cem milhões de civis é uma exibição de força e de capacidade organizativa como jamais se viu no mundo.

O comunismo não fracassou: apenas mostrou a que veio. Marx, Engels e Lênin sempre afirmaram que o regime comunista se imporia pelo genocídio. Ninguém pode acusá-lo de ter falhado nisso.

Não satisfeitos com o truque idiota, Badiou e Zizek, ao proclamar que "é preciso reabilitar o comunismo", deixaram claro, para alívio geral, que não se referiam àquela coisa medonha que foi o estalinismo. Mas, esperem aí, quem matou cem milhões não foi o estalinismo, a variante russa do comunismo. O estalinismo matou vinte milhões. Os outros oitenta foram assassinados pelo comunismo em geral, principalmente na sua versão maoísta, à qual o próprio Badiou ainda exibe alguma fidelidade residual. Clamar contra “o estalinismo” é a fraude metonímica com que os saudosistas do maoísmo tentam se limpar da cumplicidade com horrores que ultrapassaram a imaginação do próprio Stalin.

Zizek, por seu lado, repele o nivelamento moral de nazismo e comunismo, afirmando que o primeiro matava coletivamente, ao passo que o segundo tentava ao menos formalizar alguma acusação, como nos famosos Processos de Moscou. A comparação revela aquela mistura de ignorância e má-fé sem a qual ninguém pode se tornar um respeitado intelectual de esquerda. Os acusados dos Processos de Moscou eram líderes eminentes do Partido, julgados por traição. Altos funcionários do governo alemão sob acusação similar eram também julgados por tribunais militares ou civis. A massa dos assassinados pelo comunismo não teve o privilégio de nenhum processo judicial. Foram condenados em bloco, por pertencer a grupos sociais indesejáveis, exatamente como os judeus na Alemanha. Nos dois casos, o processo individualizado, que nas democracias é o mais elementar dos direitos humanos, torna-se uma prerrogativa da nomenklatura, enquanto o zé-povinho vai para o matadouro em filas anônimas, sem saber de que é acusado. A simetria é perfeita, mas, para Zizek, invisível.

Na mesma semana em que a Folha se deleita ante essas exibições de deformidade mental, um grupo de quarenta intelectuais esquerdistas, os mesmos de sempre – autodenominados “os” intelectuais, para dar a entender que fora do seu círculo não há vida inteligente (como se lá dentro houvesse alguma) –, reuniu-se com o presidente da República e, extasiado, recebeu dele duas garantias reconfortantes:

1º. Contrariando o que dissera à agência Reuters (“nunca fui esquerdista”), Lula afirmou que sempre foi de esquerda e é ainda.

2º. Desmentindo a fantasia bushista de um Lula pró-americano, o nosso presidente está cada vez mais afinado e convergente com Hugo Chávez.

Os senhores podem imaginar a satisfação quase erótica com que essas informações foram recebidas por “os intelectuais”. Pena que Zizek e Badiou não estivessem lá.

De passagem, observo: O que caracteriza o sr. Lula não é que ele tenha duas caras -- é que elas permaneçam sempre higienicamente separadas, sem que ninguém, exceto eu, busque decifrar a unidade secreta por trás de um personagem que é homenageado simultaneamente em Davos pela sua conversão ao capitalismo e no Foro de São Paulo por sua fidelidade ao comunismo.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".