Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.
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quinta-feira, 19 de março de 2009

Exumação do Padre Pio de Pietrelcina

WIKIPEDIA


Padre Pio nasceu no pequeno comune de Pietrelcina, muito próximo à cidade de Benevento, em 25 de maio de 1887, um dos sete filhos de Grazio Forgione e Maria Giuseppa De Nunzio. Foi batizado no dia seguinte.


Ainda criança era muito assíduo com as coisas de Deus, tendo uma inigualável admiração por Nossa Senhora e o seu Filho Jesus, que os via constantemente devido a tanta familiaridade. Ainda pequenino havia se tornado amigo do seu anjo da Guarda a quem recorria muitas vezes para auxiliá-lo no seu trajeto nos caminhos do Evangelho. Conta a história que ele recomendava muitas vezes as pessoas a recorrerem ao seu anjo da guarda estreitando assim a intimidade dos fiés para com aquele que viria a ser o primeiro sacerdote da história da igreja a receber os estigmas do Cristo do Calvário.


Com quinze anos de idade entrou no noviciado em Morcone adotando o nome de "frei Pio"; concluído o ano de noviciado, formulou os votos simples em 1904; em 1907 formulou a profissão dos votos solenes. Freqüentou estudos clássicos e filosofia. Foi ordenado padre em 10 de agosto de 1910 no Duomo de Benevento.


Aos casos mais urgentes e complicados o frade de Pitrelcina dizia: "Estes só Nossa Senhora", tamanha era a sua confiança na sua maezinha do céu a quem ele tanto amava e queria obter suas virtudes.


Percebendo que a sua missão era de acolher em si o sofrimento do povo, recebe como confirmação do Cristo os sinais da Paixão em seu próprio corpo. Estava aí marcado em si mesmo a sua missão. Deus o queria para aliviar o sofrimento do seu povo. Entregando-se inteiramente ao Ministério da Confissão, buscava por este sacramento aliviar os sofrimentos atrozes do coração de seus fiés e libertá-los das garras do Demônio que era conhecido por ele como "barba azul". Torturado, tentado e testado muitas vezes por este, sabia muito da sua astúcia no seu afã em desviar os filhos de Deus do caminho da fé.

Percebendo que não somente deveria aliviar o sofrimento espiritual, recebeu de Deus a inspiração de Construir um grande hospital, o tão conhecido "Casa Alívio do Sofrimento", que viria a ser o referência em toda aEuropa. Mesmo com o seu ministério sacerdotal vitimado por calúnias injustificáveis, não se arrefeceu o coração para com a Igreja por quem tinha grande apreço e admiração. Sabia muito bem distinguir de onde provinham as calúnias, sendo estas vindas por parte de alguns da Igreja, e não da Igreja mãe e mestra a quem ele tanto amava.


A pedido do Santo Padre, devido aos horrores provocados pela Segunda Guerra Mundial, cria os grupos de Oração, verdadeiras células catalizadoras do amor e da paz de Deus para serem dispenseiros de tais virtudes no mundo que sofria e angustiáva-se no vale tenebroso de lágrimas e sofrimentos.


Na ocasião do aniversário de 50 anos dos grupos de oração celebra-se uma Missa nesta intenção. Seria esta Missa o caminho do seu Calvário definitivo, onde entregaria a alma e o corpo ao seu grande apaixonado; a última vez que os seus filhos espirituais veriam o padre a quem tanto amavam. Era madrugada do dia 23 de setembro de 1968, no seu quarto conventual com o terço entre os dedos repetindo o nome de Jesus e Maria, descansa em paz aquele que tinha abraçado a cruz do Cristo, fazendo desta a ponte de ligação entre a terra e o céu. Morte suave de quem havia completado a missão, de quem agora retornaria ao seio do Pai em quem tanto confiou. Hoje são muitas as pessoas que se juntaram a fileira dos seus devotos e filhos espirituais em vários grupos de oração que se espalharam pelo mundo. É o próprio padre Pio que diz: "Ficarei na porta do Paraíso até o último dos meus filhos entrar".










segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ORTEGA E O CRISTIANISMO

NIVALDO CORDEIRO
11/10/2008

Em 1933, Ortega y Gasset apresentou um curso em doze lições, depois publicado em 1942 sob o título EM TORNO A GALILEO, trazendo o sugestivo subtítulo: “Esquema de las crisis”. Se houve crise no mundo, ela estava a ocorrer naquele ano da graça de 1933. E crise maior viria, pois naquele fatídico ano consumou-se a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. A tragédia varreria a Europa e Ortega não tinha como saber o quanto ele se tornou profeta daqueles tempos. A palavra crise descrevia adequadamente o que se passava diante dos seus olhos, a crise da rebelião das massas.

E Ortega tomou o tema a partir de um aniversario bem significativo. Em 1633 Galileu, diante do Santo Ofício, em Roma, teve, nas palavras mordazes do filósofo, que “abjurar da física”. Aquele julgamento terá sido o último grande e desesperado esforço da Igreja Católica para contornar o incontornável, a ascensão destrutiva da modernidade, vale dizer, do Mal. A retratação de Galileu não fez a roda do tempo voltar atrás, mas serviu como divisor de águas. Desde então fé e razão puseram entre si um abismo, que ainda não foi transposto. Não obstante os esforços de santos homens como João Paulo II e Bento XVI, autores de maravilhosas e esclarecedoras encíclicas sobre o tema. (Sim, a Igreja Católica, como sempre, e tirando esses episódios lamentáveis como o de Galileu, sempre ensinou que fé e razão andam juntas e seus clérigos mais das vezes foram grandes cientistas, como Copérnico e Kepler). Os cientistas seculares de hoje é que se fecharam na sua redoma hermética, impenetrável às coisas sagradas. Senhoritos satisfeitos.

Ortega ponderou, numa nota de rodapé: “Ello me hubiera permitido celebrar con algún decoro ese tricentenario de la deplorable escena que sería un error interpretar simplemente como una lucha entre la fe y la razón, y menos aún entre la Iglesia y el Siglo”.


Em artigo anterior eu mostrei que a obra do Ortega é agnóstica, embora seus grandes insights tenham raiz cristã. Por exemplo, quando ele enfaticamente defende o “direito à continuidade” está, nada mais nada menos, que defendendo o direito à Tradição cristã. Seu erro maior foi, contraditoriamente, desprezar a raiz judaico-cristã do Ocidente, por isso não logrou ir além do diagnóstico da rebelião das massas e da ausência dos egrégios orientando as gentes. Não é possível fazer o chamamento dos homens à responsabilidade e à Tradição sem restaurar as virtudes cristãs e seus princípios. Os egrégios sempre foram os homens de fé e seu sumiço coincidiu com a epidemia do ateísmo.

Ortega era também um filho do Iluminismo e do kantismo. Arguto observador da história e da filosofia, ele precisava explicar para si mesmo as catástrofes que previa e que testemunhava, desde que se tornou escritor, no início da década de 10. Viu o despedaçamento da Espanha e da Europa, do mundo, em desespero atroz, sem nada poder fazer. Viu a emergência das massas estúpidas, que passaram a mandar no mundo, exatamente como neste instante agora mandam no mundo. A humanidade estava sem rumo, como está sem rumo neste momento. As manchetes dos jornais do dia não permitem nenhuma margem a dúvida de que estamos em uma esquina muito perigosa da história, tal e qual há um século.

A crise econômica, que surpreendeu a todos e atordoou toda a gente Urbe et Orbi, é a face mais branda e inicial de suas manifestações, apenas o prolegômeno do que virá, como Ortega bem o viu em 1933. A bem da verdade, a crise econômica nem saiu do ovo de serpente onde foi aninhada. Só mirou seu gélido olhar para a luz do dia. Quando emergir inteira poderemos ter uma catástrofe de proporções desconhecidas na história da humanidade, uma crise como nunca houve, uma crise que até agora só havia existido na mente doentia de Nietzsche.

Por isso ler Ortega é ter um mapa do caminho, um roteiro dos acontecimentos que assomam (e assombram) no horizonte. Dediquei os últimos anos da minha vida a estudar a obra do filósofo, bem como a de Strauss e a de Voegelin, outros profetas do século XX. Fui invadido pelo sentimento de déjà vu, que me angustiou e tirou o sono muitas vezes. Bem se diga que a repetição é apenas aparente: desde os anos trinta a humanidade ficou mais hermética, mais poderosa, mais insensata, mais atéia. Mais arrogante. Temos agora todos os meios para dizimar a civilização, meios que Ortega nem desconfiava à época. Quem tem o gatilho do apocalipse é gente moralmente inferior, que aprendeu da vida o desvalor, que não tem o sentido da existência, que ignora a transcendência.

Importa aqui tentar mostrar como Ortega via o cristianismo, pois daí deriva seu erro capital. O ponto é relativamente simples: o filósofo espanhol via no cristianismo uma mera manifestação cultural, histórica, igual às demais que apareceram. Ortega não conseguiu entender que Cristo era a confirmação dos profetas e que São Paulo e Moisés não eram radicais alucinados enquanto homens porque o quiseram. Gente igual àqueles radicais em política que pululam nos tempos de crise. Não cabe o paralelo. Homens como Moisés e São Paulo radicalizaram porque tiveram a experiência mais radical de todas, de *ver* Deus. Radicalíssima experiência, da qual não se pode sair sem ter de cumprir a missão dada. No fundo insubornável de seu ser esses homens descobriram a verdade e foram pregá-la ao mundo.

Ao equiparar essa experiência com outras, Ortega se enganou. Cabe perguntar: qual é o Deus de Ortega? Em alguns momentos fica claro que é o mesmo Deus de Aristóteles, aquele que cria as circunstâncias. (Veja-se a seguinte passagem: “En todas sus dimensiones, pues, es nuestra existencia un enfronte perenne de dos elementos heterogéneos -el hombre y su antagonista, ese «otro» que no es el hombre y lo rodea, lo envuelve y aprisiona, llámesele circunstancia o mundo o Dios o como se quiera”.) Deus identificado erroneamente como natureza, e não como realidade transcendental, o próprio Bem que se deu a conhecer e se preocupa com a sua criatura.

Ao fazer isso, vemos como Ortega é um apogeu do Iluminismo, pois o homem, em sua obra, se equipara a Deus, age por si e cria a sua própria realidade a despeito do Criador. O agnosticismo aqui se metamorfoseia em gnose: o homem salvando-se a si mesmo. Vai além Ortega, ao dizer que o homem precisa salvar as circunstâncias para salvar-se. Salvar o Criador! É a mais alta manifestação de arrogância espiritual que um filósofo poderia imaginar. E, quando fala do social, dessa segunda natureza que não vem de Deus e nem do homem enquanto tal, Ortega identifica uma terceira dimensão que não tem criador. Se autor há do fato social é o próprio homem. A criatura aqui fica maior que o Criador. Deus nada é no universo de Ortega, exceto a circunstância biofísica. Um perfeito absurdo.

Por isso ele não pôde compreender nem Moisés e nem São Paulo, aqueles radicais que outra coisa não poderiam ser, pois que contemplaram a realidade mais radical, a raiz de todas as coisas.

Então o filósofo persegue uma miragem falsamente explicadora das crises, a sua teoria das gerações. Perde-se em infinitas contas para dar um nexo aos câmbios históricos. E não consegue ver a única constante explicativa, a de que periodicamente a humanidade rebela-se contra Deus, desde o Antigo Testamento. Moisés sobe à montanha e seu povo passa a fazer bezerros de ouro, a adorar Baal, o deus desse mundo, o Estado. Ele, Moisés, que teve a missão específica de libertar seu povo do Egito, outra maneira metafórica de dizer: libertar seu povo do Estado. Canaã é a utopia da sociedade perfeita, sem Estado. A cada geração é preciso um Moisés para libertar novamente o povo de Baal.

A encantadora prosa de Ortega, revelando seu poderoso intelecto, por vezes ofusca a compreensão de suas deficiências filosóficas. E esta aqui, sobre as manifestações de Deus na história, é a mais notável. Por isso Ortega pôde ver a crise em sua inteireza, pôde fazer o diagnóstico correto, mas não pôde dar a receita para a sua superação. Debalde maldisse a ausência dos egrégios. Para fazê-lo teria que ter-se feito cristão. Só beijou a cruz ao morrer. Era tarde demais.

domingo, 12 de outubro de 2008

Juros: Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises e Santa Catarina de Sena

BLOG DO ANGUETH
Domingo, Outubro 05, 2008

A Igreja Católica, como todos sabem, sempre condenou a usura (cobrança de altos juros, agiotagem). Atualmente, a Igreja não proíbe o empréstimo a juros, se estes forem estipulados em valores razoáveis. No entanto, a cobrança de juros razoáveis, apesar de não atentar contra a justiça, pode atentar contra o que a caridade aconselha. E como todos sabem, a caridade é uma virtude teologal, enquanto a justiça é uma virtude cardeal.

Mas, não só a Igreja, mas “os velhos pagãos gregos, os judeus do Antigo Testamento e os grandes mestres cristãos da Idade Média. (...) Todas essas pessoas nos recomendavam unanimemente que não emprestássemos dinheiro a juros; no entanto, emprestar dinheiro a juros – aquilo a que damos o nome de ‘investimento’ – é a própria base de todo o nosso sistema econômico. (...) Três grandes civilizações [grega, romana e medieval] estiveram de acordo – ou pelo menos assim parece, à primeira vista -- em condenar precisamente aquilo em que baseamos toda a nossa vida econômica.” (C.S.Lewis, Mero Cristianismo)

A resposta a essa observação de Lewis é mais ou menos a seguinte: “Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo. Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado.” (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho)

Parece-me que é exatamente pelo que Olavo de Carvalho observa que a Igreja evolui de uma posição de condenação dos juros para a condenação da usura.

Um detalhe interessante da história econômica se relaciona com a evolução do entendimento do homem do que sejam os juros. Tem-se como certo de que foi von Mises, aluno de Böhm-Bawerk, que nos explicou o que era de fato os juros, a que esse preço da economia se relacionava: quem cobra juros vende tempo: “o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência” (Capitalismo e Cristianismo, Olavo de Carvalho). Ou seja, supostamente ninguém antes de von Mises tinha “sacado” o verdadeiro significado dos juros, o que dá ao economista austríaco um confortável lugar no panteão dos pioneiros.

Bem eu descobri (não, não devo ter sido pioneiro nisso!) recentemente que, se não estou completamente enganado, a idéia do fator tempo no significado dos juros já era velha de pelo menos 6 séculos quando von Mises a “redescobriu”. Santa Catarina de Sena, em O Diálogo (14.2), descreve Deus lhe dizendo o seguinte: “Outros pecados ficam nos bens materiais, como nos avarentos e gananciosos. Estes fazem como as toupeiras, que se alimentam de terra até à morte. Só que estes pecadores, ao chegar o dia da morte, já não têm mais cura. Gananciosos, eles negociam o tempo, são usurários, cruéis, ladrões. Sua memória se esquece dos meus benefícios. Em caso contrário, deixariam de ser cruéis consigo mesmos e com os outros. De si mesmos teriam pena, praticando as virtudes; dos outros, pelo serviço da caridade. (...) Ele [o pecador] mata a alma, torna-a escrava dos bens materiais, negligente em observar os meus mandamentos. O ganancioso-avarento não ama ninguém, a não ser por interesse próprio.” [Negritos meus - Angueth]

Aí está, em pleno século XIV, a santa, e doutora da Igreja, dizendo que os gananciosos (usurários) “negociam o tempo”, adiantando assim, é o que me parece, o grande achado do economista austríaco.

Mas Deus adianta ainda mais. O que O preocupa não é a eficiência econômica, da qual a cobrança de juros (altos ou baixos) é uma parte importante, “base de nossa vida econômica”, como nos lembra Lewis. Deus quer salvar as almas que ele criou. Ele parece pensar que a ganância (mesmo que promovendo a eficiência econômica) depõe contra a salvação das almas: “o pecador [usurário] mata a alma”. Já dizia São Paulo, muito antes de Santa Catarina, que muitas coisas nos são possíveis, mas apenas algumas recomendáveis. Parece ser este o caso.

Talvez seja interessante ler o que a Enciclopédia Católica nos diz dos juros e da usura.

Capitalismo e Cristianismo

Olavo de Carvalho

A pedidos, e com notável atraso, reproduzo aqui este artigo que, com título editorial modificado, saiu na revista República de dezembro de 1998. - O. de C.


Uma tolice notável que circula de boca em boca contra os males do capitalismo é a identificação do capitalista moderno com o usurário medieval, que enriquecia com o empobrecimento alheio.

Lugar-comum da retórica socialista, essa ideiazinha foi no entanto criação autêntica daquela entidade que, para o guru supremo Antonio "Comunista" Gramsci, era a inimiga número um da revolução proletária: a Igreja Católica.

Desde o século XVIII, e com freqüência obsessivamente crescente ao longo do século XIX, isto é, em plena Revolução Industrial, os papas não cessam de verberar o liberalismo econômico como um regime fundado no egoísmo de poucos que ganham com a miséria de muitos.

Mas que os ricos se tornem mais ricos à custa de empobrecer os pobres é coisa que só é possível no quadro de uma economia estática, onde uma quantidade mais ou menos fixa de bens e serviços tem de ser dividida como um bolo de aniversário que, uma vez saído do forno, não cresce mais. Numa tribo de índios pescadores do Alto Xingu, a "concentração do capital" eqüivaleria a um índio tomar para si a maior parte dos peixes, seja na intenção de consumi-los, seja na de emprestá-los a juros, um peixe em troca de dois ou três. Nessas condições, quanto menos peixes sobrassem para os outros cidadãos da taba, mais estes pobres infelizes ficariam devendo ao maldito capitalista índio — o homem de tanga que deixa os outros na tanga.

Foi com base numa analogia desse tipo que no século XIII Sto. Tomás, com razão, condenou os juros como uma tentativa de ganhar algo em troca de coisa nenhuma. Numa economia estática como a ordem feudal, ou mais ainda na sociedade escravista do tempo de Aristóteles, o dinheiro, de fato, não funciona como força produtiva, mas apenas como um atestado de direito a uma certa quantidade genérica de bens que, se vão para o bolso de um, saem do bolso de outro. Aí a concentração de dinheiro nas mãos do usurário só serve mesmo para lhe dar meios cada vez mais eficazes de sacanear o próximo.

Mas pelo menos do século XVIII em diante, e sobretudo no XIX, o mundo europeu já vivia numa economia em desenvolvimento acelerado, onde a função do dinheiro tinha mudado radicalmente sem que algum papa desse o menor sinal de percebê-lo. No novo quadro, ninguém podia acumular dinheiro embaixo da cama para acariciá-lo de madrugada entre delíquios de perversão fetichista, mas tinha de apostá-lo rapidamente no crescimento geral da economia antes que a inflação o transformasse em pó. Se cometesse a asneira de investi-lo no empobrecimento de quem quer que fosse, estaria investindo na sua própria falência.

Sto. Tomás, sempre maravilhosamente sensato, havia distinguido entre o investimento e o empréstimo, dizendo que o lucro só era lícito no primeiro caso, porque implicava participação no negócio, com risco de perda, enquanto o emprestador, que se limitava sentar-se e esperar com segurança, só deveria ter o direito à restituição da quantia emprestada, nem um tostão a mais. Na economia do século XIII, isso era o óbvio — aquele tipo de coisa que todo mundo enxerga depois que um sábio mostrou que ela existe. Mas, no quadro da economia capitalista, mesmo o puro empréstimo sem risco aparente já não funcionava como antes — só que nem mesmo os banqueiros, que viviam essa mudança no seu dia a dia e aliás viviam dela, foram capazes de explicar ao mundo em que é que ela consistia. Eles notavam, na prática, que os empréstimos a juros eram úteis e imprescindíveis ao desenvolvimento da economia, que portanto deviam ser alguma coisa de bom. Mas, não sabendo formular teoricamente a diferença entre essa prática e a do usurário medieval, só podiam enxergar-se a si próprios como usurários, condenados portanto pela moral católica. A incapacidade de conciliar o bem moral e a utilidade prática tornou-se aí o vício profissional do capitalista, contaminando de dualismo toda a ideologia liberal (até hoje todo argumento em favor do capitalismo soa como a admoestação do adulto realista e frio contra o idealismo quixotesco da juventude). Karl Marx procurou explicar o dualismo liberal pelo fato de que o capitalista ficava no escritório, entre números e abstrações, longe das máquinas e da matéria — como se fazer força física ajudasse a solucionar uma contradição lógica, e aliás como se o próprio Karl Marx houvesse um dia carregado algum instrumento de trabalho mais pesado que uma caneta ou um charuto. Mais recentemente, o nosso Roberto Mangabeira Unger, o esquerdista mais inteligente do planeta, e que só não é plenamente inteligente porque continua esquerdista, fez uma crítica arrasadora da ideologia liberal com base na análise do dualismo ético (e cognitivo, como se vê em Kant) que é a raiz da esquizofrenia contemporânea.

Mas esse dualismo não era nada de inerente ao capitalismo enquanto tal, e sim o resultado do conflito entre as exigências da nova economia e uma regra moral cristã criada para uma economia que já não existia mais. O único sujeito que entendeu e teorizou o que estava acontecendo foi um cidadão sem qualquer autoridade religiosa ou prestígio na Igreja: o economista austríaco Eugen Böhm-Bawerk. Este gênio mal reconhecido notou que, no quadro do capitalismo em crescimento, a remuneração dos empréstimos não era apenas uma conveniência prática amoral, mas uma exigência moral legítima. Ao emprestar, o banqueiro simplesmente trocava dinheiro efetivo, equivalente a uma quota calculável de bens na data do empréstimo, por um dinheiro futuro que, numa economia em mudança, podia valer mais ou valer menos na data da restituição. Do ponto de vista funcional, já não existia mais, portanto, diferença positiva entre o empréstimo e o investimento de risco. Daí que a remuneração fosse tão justa no primeiro caso como o era no segundo. Tanto mais justa na medida mesma em que o liberalismo político, banindo a velha penalidade da prisão por dívidas, deixava o banqueiro sem a máxima ferramenta de extorsão dos antigos usurários.

Um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, explicou mais detalhadamente essa diferença pela intervenção do fator tempo na relação econômica: o emprestador troca dinheiro atual por dinheiro potencial, e pode fazê-lo justamente porque, tendo concentrado capital, está capacitado a adiar o gasto desse dinheiro, que o prestamista por seu lado necessita gastar imediatamente para tocar em frente o seu negócio ou sua vida pessoal. Von Mises foi talvez o economista mais filosófico que já existiu, mas, ainda um pouco embromado por uns resíduos kantianos, nem por um instante pareceu se dar conta de que estava raciocinando em termos rigorosamente aristotélico-escolásticos: o direito à remuneração provém de que o banqueiro não troca simplesmente uma riqueza por outra, mas troca riqueza em ato por riqueza em potência, o que seria rematada loucura se o sistema bancário, no seu conjunto, não estivesse apostando no crescimento geral da economia e sim apenas no enriquecimento da classe dos banqueiros. A concentração do capital para financiar operações bancárias não é portanto um malefício que só pode produzir algo de bom se for submetido a "finalidades sociais" externas (e em nome delas policiado), mas é, em si e por si, finalidade socialmente útil e moralmente legítima. Sto. Tomás, se lesse esse argumento, não teria o que objetar e certamente veria nele um bom motivo para a reintegração plena e sem reservas do capitalismo moderno na moral católica. Mas Sto. Tomás já estava no céu e, no Vaticano terrestre, ninguém deu sinal de ter lido Böhm-Bawerk ou Von Mises até hoje. Daí a contradição grosseira das doutrinas sociais da Igreja, que, celebrando da boca para fora a livre iniciativa em matéria econômica, continuam a condenar o capitalismo liberal como um regime baseado no individualismo egoísta, e terminam por favorecer o socialismo, que agradece essa colaboração instituindo, tão logo chega ao poder, a perseguição e a matança sistemática de cristãos, isto é, aquilo que o Dr. Leonardo Boff, referido-se particularmente a Cuba, denominou "o Reino de Deus na Terra". Daí, também, que o capitalista financeiro (e mesmo, por contaminação, o industrial), se ainda tinha algo de cristão, continuasse a padecer de uma falsa consciência culpada da qual só podia encontrar alívio mediante a adesão à artificiosa ideologia protestante da "ascese mundana" (juntar dinheiro para ir para o céu), que ninguém pode levar a sério literalmente, ou mediante o expediente ainda mais postiço de fazer majestosas doações em dinheiro aos demagogos socialistas, que, embora sejam ateus ou no máximo deístas, sabem se utilizar eficazmente da moral católica como instrumento de chantagem psicológica, e ainda são ajudados nisto — porca miséria! — pela letra e pelo espírito de várias encíclicas papais.

Uma das causas que produziram o trágico erro católico na avaliação do capitalismo do século XIX foi o trauma da Revolução Francesa, que, roubando e vendendo a preço vil os bens da Igreja, enriqueceu do dia para a noite milhares de arrivistas infames e vorazes, que instauraram o império da amoralidade cínica, o capitalismo selvagem tão bem descrito na obra de Honoré de Balzac. Que isso tenha se passado logo na França, "filha dileta da Igreja", marcou profundamente a visão católica do capitalismo moderno como sinônimo de egoísmo anticristão. Mas seria o saque revolucionário o procedimento capitalista por excelência? Se o fosse, a França teria evoluído para o liberal-capitalismo e não para o regime de intervencionismo estatal paralisante que a deixou para sempre atrás da Inglaterra e dos Estados Unidos na corrida para a modernidade. Um governo autoritário que mete a pata sobre as propriedades de seus adversários para distribuí-las a seus apaniguados, é tudo, menos liberal-capitalista: é, já, o progressismo intervencionista, no qual, por suprema ironia, a Igreja busca ainda hoje enxergar um remédio contra os supostos males do liberal-capitalismo, que por seu lado, onde veio a existir — Inglaterra e Estados Unidos —, nunca fez mal algum a ela e somente a ajudou, inclusive na hora negra da perseguição e do martírio que ela sofreu nas mãos dos comunistas e de outros progressistas estatizantes, como os revolucionários do México que inauguraram nas Américas a temporada de caça aos padres. O caso francês, se algo prova, é que o "capitalismo selvagem" floresce à sombra do intervencionismo estatal, e não do regime liberal (coisa aliás arquiprovada, de novo, pelo cartorialismo brasileiro). Insistindo em dizer o contrário, movida pela aplicação extemporânea de um princípio tomista e vendo no estatismo francês o liberal-capitalismo que era o seu inverso, a Igreja fez como essas mocinhas de filmes de suspense, que, fugindo do bandido, pedem carona a um caminhão... dirigido pelo próprio. A incapacidade de discernir amigos e inimigos, o desespero que leva o pecador a buscar o auxílio espiritual de Satanás, são marcas inconfundíveis de burrice moral, intolerável na instituição que o próprio Cristo designou Mãe e Mestra da humanidade. Errare humanum est, perseverare diabolicum: a obstinação da Igreja em suas reservas contra o liberal-capitalismo e em sua conseqüente cumplicidade com o socialismo é talvez o caso mais prolongado de cegueira coletiva já notado ao longo de toda a História humana. E quando em pleno século XIX o papa já assediado de contestações dentro da Igreja mesma proclama sua própria infalibilidade em matéria de moral e doutrina, isto não deixa de ser talvez uma compensação psicológica inconsciente para a sua renitente falibilidade em matéria econômica e política. Daí até o "Pacto de Metz", em que a Igreja se ajoelhou aos pés do comunismo sem nada lhe exigir em troca, foi apenas um passo. Ao confessar que, com o último Concílio, "a fumaça de Satanás entrara pelas janelas do Vaticano", o papa Paulo VI esqueceu de observar que isso só podia ter acontecido porque alguém, de dentro, deixara as janelas abertas.

Que uma falsa dúvida moral paralise e escandalize as consciências, introduzindo nelas a contradição aparentemente insolúvel entre a utilidade prática e o bem moral, e, no meio da desorientação resultante, acabe por levar enfim a própria Igreja a tornar-se cúmplice do mais assassino e anticristão dos regimes já inventados —eis aí uma prestidigitação tão inconfundivelmente diabólica, que é de espantar que ninguém, na Igreja, tenha percebido a urgência de resolver essa contradição no interior mesmo da sua equação lógica, como o fizeram Böhm-Bawerk e von Mises (cientistas alheios a toda preocupação religiosa). Mais espantoso ainda é que em vez disso todos os intelectuais católicos, papas inclusive, tenham se contentado com arranjos exteriores meramente verbais, que acabaram por deixar no ar uma sugestão satânica de que o socialismo (aqui e depois, na sequência, aqui), mesmo construído à custa do massacre de dezenas de milhões de cristãos, é no fundo mais cristão que o capitalismo.

Não há alma cristã que possa resistir a um paradoxo desse tamanho sem ter sua fé abalada. Ele foi e é a maior causa de apostasias, o maior escândalo e pedra de tropeço já colocado no caminho da salvação ao longo de toda a história da Igreja.

Arrancar da nossa alma essa sugestão hipnótica, restaurar a consciência de que o capitalismo, com todos os seus inconvenientes e fora de toda intervenção estatal pretensamente corretiva, é em si e por essência mais cristão que o mais lindinho dos socialismos, eis o dever número um dos intelectuais liberais que não queiram colaborar com o farsesco monopólio esquerdista da moralidade, trocando sua alma pelo prato de lentilhas da eficiência amoral.

domingo, 28 de setembro de 2008

Algumas razões cristianíssimas

Do blog CAVALEIRO CONDE (Conde Loppeux de la Villanueva)
DOMINGO, SETEMBRO 21, 2008


Uma das razões de eu ter buscado o cristianismo, e, em particular, o catolicismo, foi a minha profunda aversão ao materialismo moderno. Durante uma boa parte da minha adolescência, eu me embebi do veneno do ateísmo e do relativismo, e não percebia o quanto isso tinha um potencial destrutivo. Minhas idéias passavam de uma estranha mistura de liberalismo anticlerical, com aquela pitada de pseudo-cientificismo pedante, tão comum a muitas estrelas do circulo acadêmico (embora eu não pertencesse a nenhum).Lembrava os velhos ódios maçônicos da Revolução Francesa contra a igreja católica e contra o cristianismo em geral. Claro, com sacadas de Nietszche na cabeça. Na verdade, meus sentimentos eram até sinceros, embora obtusos. Observava alguns absurdos sendo atribuídos a religião e acabava crendo nisso como se fosse uma totalidade. A minha crença era a de que a religião visava um mal, os clérigos foram feitos para dominar a sociedade em causa própria e a fé era um emaranhado de superstições. E eu infernizava a vida dos pobres religiosos: os protestantes eram minhas maiores vítimas. Paradoxalmente, hoje, eles são todos amicíssimos meus. E, confesso, tenho um carinho profundo por eles.

É curioso que, a despeito desse aparente conflito com a religião, nunca me isentei dos valores com que ela me ensinou. Felizmente, percebi, com o tempo, que meu relativismo era postiço; que minha visão anti-religiosa era falsa. E tais manifestações não condiziam com a realidade dos meus sentimentos. Percebia que me identificava com o passado, com a história e com a Idade Média cristã. Algo estranho para um suposto ateu militante. . .

O materialismo promete a liberdade insuflando a revolta contra Deus e mesmo contra os homens. É pior: 
ele insufla uma revolta sem precedentes contra a realidade e contra a escala das premissas morais, éticas e epistemológicas elementares, deformando a própria compreensão do mundo. Analisando parcamente as teses iluministas atéias, marxistas, positivistas e outros tipos ideológicos “cientificistas”, deparo-me com algo que me foi particularmente incômodo: elas conspiram contra a consciência e contra a liberdade humana. Porque os aspectos filosóficos que dimensionam a liberdade, a consciência, a moral, a ética, entre outros, só podem ser visíveis e substanciais, dentro de uma profunda crença na transcendência. Até então, eu, que acreditava lutar pela liberdade, na prática, estava ajudando a destruí-la.

Se há algo que existe nos materialismos é um profundo fatalismo da realidade humana. Não existem atributos inatos que nos caracterizam como seres humanos livres, independentes ou espirituais. Os marxistas, os positivistas, os evolucionistas e outros tipos de 
“ismos” nos reduzem a um rebanho determinado por forças históricas, biológicas e materiais arbitrárias e impessoais. Às vezes pensava comigo: como conciliar a razão humana e seus valores dentro de uma perspectiva filosófica que transforma a humanidade num nada? O matemático Blaise Pascal falava do terrível silêncio do universo na falta de Deus. Este universo sem voz, sem razão de ser, sem nexo causal, anulava e esmagava o significado e a importância do homem no mundo. O que percebi, cada vez mais nos materialismos, é que eles supõem piamente que o acaso é algo superior a racionalidade. Mas desde quando o acaso cria alguma coisa? Se os homens não conseguem criar quase nada ocasionalmente, como isso pode ser uma realidade do surgimento do mundo, com suas complexidades, suas harmonias e suas maravilhas? Qual seria o sentido de discutir sobre a liberdade, sobre os direitos, sobre a consciência, sobre a sacralidade da vida humana, se todo o resto do universo silencia quanto a isso? Um amigo ateu me perguntou por que comecei a crer em Deus. E aí respondi: - Por uma razão muito simples. Se Deus não existir, todas as hierarquias valorativas da ética, da moral e mesmo da existência humana, com os quais cremos com tanta preciosidade, simplesmente não terão sentido.

Apesar disso, nunca ignorei a existência da religião. Pelo contrário, comecei a ficar impressionado com suas metáforas, quando li algumas questões a respeito do judaísmo. Havia uma singeleza simbólica nas tradições ancestrais daquele povo errante do deserto da Palestina. Isso também me aproximou do cristianismo, em particular, o catolicismo romano, com suas complexidades teológicas e filosóficas e sua gloriosa história civilizacional. Assim, conhecer a figura de Jesus Cristo é algo que me apaixonou.


A idéia mitológica de uma modernidade utópica foi outro caso com que perdi a fé. É um senso comum a muitos intelectuais, ativistas e políticos, essa perspectiva idolátrica do progresso da humanidade, como se o presente e o futuro por si mesmos fossem uma época superior aos tempos históricos do passado. Essa crença fantasmagórica evolutiva da humanidade parece ser uma ilusão da era dourada, uma laicização do juízo final e do reino de Deus na Terra. O positivismo prega um futuro onde o mundo será regido pela cosmovisão racionalista e científica e a religião e a metafísica serão trituradas pela perspectiva positiva. O marxismo pretende essa mesma finalidade, através de um paraíso da sociedade materialista e sem classes. No geral, percebi que são falsas religiões, são falsas concepções de mundo. Não é por acaso que Auguste Comte acabou criando uma lunática e esotérica 
“religião da humanidade” e um“catecismo" ou uma "igreja positivista”. E os marxistas criaram o Partido-seita-oráculo-da-deusa-história, implantando a pior tirania jamais registrada na história humana.


Sinceramente, eu não acredito na 
"evolução" histórica da humanidade, tal como se supõe esse culto idolátrico ao tempo. Acho até uma tolice. Não existe nada criterioso que possa nos levar a crer que, cronologicamente, há um aperfeiçoamento da humanidade. Esta não se aperfeiçoa por um mecanismo evolutivo. Pelo contrário, a civilização pode ser perdida em uma década. Basta esquecermos os legados do passado e tudo será jogado na lata de lixo. Se há algo que acredito é que a civilização não é evolução, mas permanência. A história da civilização é um esforço pela continuidade e tradição. Algumas tradições se preservam através dos tempos, precisamente porque são autênticas, atemporais e universais. O cristianismo me ensinou uma coisa preciosa: que por trás das aparentes mudanças históricas, sociais e políticas, o que vale mesmo é o que pode ser preservado na eternidade, na transcendência. É ela, de fato, que dá uma continuidade histórica ao homem e a sua existência. Dá, inclusive, um referencial ético, moral e filosófico à sua existência. O que é de fato imutável, atemporal e eterno é o que deve ser compreendido como um legado autêntico da historicidade. Os homens podem viver em várias culturas e épocas. E, no entanto, continuam os mesmos nas suas essências. Sob determinados aspectos, a história nos liga ao passado, precisamente porque os homens de outrora possuem os mesmos dilemas, aptidões e dramas visíveis à nossa atualidade. A natureza humana continua a mesma. O culto do progresso é uma ideologia de glorificação insana do tempo, uma vangloria insensata de quem é contemporâneo a tal época. Em suma, uma notória besteira renascentista e iluminista. Quando me deparo com o culto do progresso na boca dos ativistas, eis que me recordo do nazismo e do bolchevismo, as duas doenças espirituais do século XX. Raramente a humanidade registrou tamanha perversidade moral. É tudo isso que até então o século XVIII, com o seu desprezo pelo passado religioso e pela sua idolatria ao progresso nos esperava?

Santo Agostinho, em suas Confissões, fala de algo que me causou profunda impressão: 
“Observado as outras coisas que estão abaixo de Ti, compreendi que absolutamente não existem, nem totalmente deixam de existir. Por um lado existem, pois provém de Ti; por outro lado não existem, pois não são aquilo que És. Só existe aquilo que permanece imutável. ‘Bom para mim é apegar-me com Deus’, porque, se eu não permanecer Nele, tampouco poderei permanecer em mim mesmo. ‘Ele, imutável em si mesmo, renova todas as coisas. Tu és o Meu Senhor, porque não tens necessidade dos meus bens”. Para os homens, os números são infinitos. E para Deus, o tempo simplesmente não existe, é insignificante.

Daí minha atávica rejeição e desprezo por todas as ideologias revolucionárias. Porque elas são essencialmente anti-históricas e destrutivas. Ou melhor, são doenças. Uma coisa que aprendi com elas é que as desordens espirituais do gênero humano acabam se refletindo na realidade e na ação humana. A deformidade política e social da ideologia nazista precisou, primeiramente, de uma deformidade moral sem precedentes no intelecto humano, na figura dos pensadores acadêmicos e universitários. O bolchevismo é algo bem pior. Aumentou exponencialmente o número de cadáveres do nazismo. E a loucura continua solta, sob os auspícios de uma classe de pessoas levianas, irresponsáveis, que apregoam novas justificativas para o genocídio. O embelezamento intelectual da feiúra estética, do rebaixamento moral e da violência e do crime em todas as suas formas é uma das coisas mais assustadoras da nossa época. Quem vê beleza num campo de concentração nazista e comunista e crê que isso é o belo futuro redentor da humanidade, deveria estar internado num manicômio judiciário. Porém, estes são os nossos formadores atuais de opinião, seja na mídia ou nas faculdades. O sonho deles é uma bota esmagando um rosto humano. São os sacerdotes da modernidade, que ao rejeitarem os compromissos da realidade e da transcendência em Deus, querem ser como deuses. Acabam virando monstros, tão demoníacos como aqueles encontrados no romance de Dostoievski.

Não me vejo como um grande modelo de cristão. Estou muitíssimo longe da perfeição e muito longe de ser um carola. Contudo, não consigo viver sem o cristianismo. Aliás, não consigo ver o mundo sem o cristianismo. São as minhas razões cristianíssimas, meus motivos autênticos de referência. Penso que quando o ocidente abandonar totalmente a fé na Cristandade, ele estará em decadência. Já está. É o que se assiste na civilização européia. Tomará conta do resto?! Aí será o final dos tempos!

Evolução e permanência: outras razões cristianíssimas.

Do blog CAVALEIRO CONDE (Conde Loppeux de la Villanueva)
SÁBADO, SETEMBRO 27, 2008


Estranha é a definição com que muitos fazem da chamada“evolução”. Quando este raciocínio é aplicado cronologicamente, ele se torna particularmente corrosivo. Na verdade, o mito evolutivo da história parte do pressuposto de que o tempo tem algum mecanismo auto-regulatório da espécie humana, destruindo os valores e tradições das épocas passadas que não condizem com as conveniências da realidade futura. De fato, este raciocínio também é aplicado à mutação biológica das espécies. Através de um processo de adaptação contínua, alguns seres se tornam inaptos à vida natural e desaparecem, para dar lugar a outros. Dentro dessas crenças, existe um moto perpétuo de modificações de ordem biológica e histórica, em que o homem não é visto como alguém portador de uma natureza própria imutável e atemporal, porém, como uma vítima amorfa destes processos de transformações. Na prática, a única coisa absoluta é o mecanismo de mutação.


Todavia, há um problema sério nessa perspectiva evolucionista. Ela tem um caráter destrutivo, porque não reconhece a herança cultural e histórica acumulada. Quando algumas ideologias afirmam que uma época histórica 
“substitui” a outra, há uma ruptura do processo histórico, uma descontinuidade daquilo que o homem criou através dos tempos. É, em suma, uma filosofia anti-histórica. Certos conceitos evolucionistas possuem as sementes do ódio revolucionário contra as tradições. Não é por acaso que muitas revoluções quiseram destruir os legados do passado em nome de um futuro hipotético “maravilhoso” da humanidade. Quiseram criar uma espécie de “tabula rasa” milenarista de uma época dourada hipotética, ainda que para isso se apagasse toda a memória intelectual, moral, cultural e histórica do mundo. O “progresso”, no sentido moderno e iluminista tal como é entendido, é justamente uma rebelião contra o passado histórico da civilização, em particular, a civilização cristã. É uma revolta mesma contra a realidade e a natureza humana.


Há outra contradição séria na idéia exaltada e futurista do progresso evolutivo da humanidade: 
é que não há parâmetros morais e éticos sólidos ou absolutos para consagrá-la. Só podemos falar em “evolução” dentro de um universo de valores e de uma realidade preexistentes que possam ser aperfeiçoados. Pois dentro dessa mesma realidade, alguns aspectos da natureza se mantêm imutáveis e alguns valores permanecem absolutos. Por mais que haja mudanças aparentes na forma em como a sociedade aborda seus valores, a perspectiva da realidade, a causalidade e conseqüência dos atos e mesmo a boa tradição que a sustenta tendem a permanecer os mesmos, na sua essência. Só há como aceitar a melhora ou evolução da humanidade dentro de atos humanos sublimes de criação ou o aperfeiçoamento do que já existe de bom. Isto porque a boa tradição é que assegura a validade e a consagração destes parâmetros.


Neste caso, existe outro mito tão alardeado pela cantilena revolucionária idólatra do futuro: 
a de que a tradição é refratária ao progresso ou contra a melhora da humanidade. A palavra tradição já está implícita no seu sentido: ou seja, o repasse de experiências, conhecimentos, valores, de gerações a gerações, no objetivo de se preservar uma bagagem cultural, histórica e de conhecimento da civilização. Uma sociedade sem tradições é uma cabeça com amnésia existencial, uma planta sem raízes, uma prataria sem valor real. Porque a tradição, através da solidez da experiência e do conhecimento, aperfeiçoa continuamente a humanidade. Jamais a cultura pode se renovar sem os parâmetros comparativos do passado e do futuro e sem sua interligação histórica no tempo e no espaço. Na verdade, a tradição é uma tensão permanente entre o que foi construído, cultivado e descoberto e o que há para descobrir. A tradição não é válida porque pertence ao passado; não é uma época que a valida. O tradicionalista que eleva o passado pelo passado, peca pela mesma idolatria cronológica revolucionária do progressista. Ela é válida porque seu legado vale para todas as épocas vindouras. Quando se fala de uma tradição ocidental respaldada na cultura judaico-cristã e greco-romana, se está falando de um acúmulo histórico e existencial de experiências que criam nortes para as criações futuras. Da boa árvore, conhecereis os frutos. A negação completa da tradição não somente nega a historicidade dos atos humanos, como destrói a memória cultural da humanidade, já que esta se torna alijada de suas criações através da história. Sem a tradição, a humanidade perderia sua memória e seria incapaz de compreender a si mesma.


Isto porque toda grande tradição histórica que permanece, um dia representou a renovação, a novidade que se firmou no tempo e no espaço. Quando Deus revelou os Dez Mandamentos no Sinai para os judeus e quando Jesus Cristo chegou à Terra para pregar as boas novas, tudo isso era novidade aos homens. E depois se tornou costume, tanto pela prática, como pelo valor. Alguém poderia objetar, afirmando que há costumes ruins que são preservados no tempo. Isso também é verdadeiro. Entretanto, a reflexão histórica da tradição é que faz resguardar valores autênticos e, ao mesmo tempo, abandonar costumes e práticas odiosas em nome dela. O cristianismo aboliu muitas práticas terríveis do mundo antigo, consideradas
“tradicionais”, e, nem por isso, revogou a grandeza da filosofia antiga grega e do direito romano. Mesmo na história cristã, muitas coisas ruins surgiram em nome da Cristandade. Porém, os princípios essenciais do cristianismo foram educativos, no sentido de corrigir ou combater essas distorções muitas vezes imprevistas.


Há outro aspecto que a tradição revela, ainda que não se confunda com ela: 
a transcendência. A busca filosófica, como a busca religiosa, revela, através dos tempos, que a história implica uma continuidade, um estado de permanência, ainda que algumas coisas da natureza pareçam mutáveis. Quando se lê Aristóteles, Platão ou Santo Tomás de Aquino; ou quando se degusta a leitura da bíblia ou de Dom Quixote, existe um componente de identificação de certas questões que permanecem dentro de nosso meio, mesmo que isso tenha sido escrito num passado longínquo e distante. Há nestes pensadores, escritores e obras, uma busca do absoluto, do universal e do eterno. A identificação ou mesmo a rejeição pessoal do que podemos ter pelo passado nos liga a uma continuidade histórica com ele. O acúmulo das tradições, como a valoração do que elas preservam, implica um permanente estado de coisas existentes na realidade e que ganham universalidade, na medida em que são imutáveis no tempo e no espaço. Quem lê Aristóteles ou Santo Tomás de Aquino, em parte, sente os mesmos dramas filosóficos e existenciais que estes. Quem ama a figura do Dom Quixote vê um personagem que se eterniza na existência humana, a do homem iludido e sonhador. E a bíblia, com suas tramas familiares, seus personagens enigmáticos, suas guerras e mesmo os conflitos do povo eleito de Israel sujeito a uma obrigação moral com Deus, implica um reflexo da relação do homem temporal com a eternidade determinada pelos céus. Por mais que a humanidade modifique suas instituições e a expressão formal da cultura, na prática, os dilemas políticos, morais, éticos, filosóficos, continuam parecidos, senão os mesmos. A unidade, harmonia, coerência, revelados na tradição através da historia, acabam nos levando a crer que existe uma ordem superior que coordena toda a natureza das coisas. Os valores do sagrado, por assim dizer, permanecem eternizados, precisamente porque comprovam uma continuidade, uma permanência, uma imutabilidade, uma fé no absoluto. E a tradição é mero canal disso. Há certas características ontológicas do homem e da natureza que são imutáveis. E essa imutabilidade só é possível dentro de um pré-ordenamento do universo vindo de uma inteligência superior, que é Deus.

Interessante observar que uma boa parte da perspectiva política e moral do mundo ocidental foi influenciada pela idéia da imutabilidade de certos valores e atributos da natureza, produto tanto da tradição cristã, como da filosofia greco-romana. A idéia moderna dos “direitos humanos”, indevidamente possuída pelos politicamente corretos cheios de relativismos, só tem substância, de fato, na premissa de que existem princípios invioláveis e imutáveis do direito, no âmbito da natureza e da realidade humana e divina. A vida, a liberdade e a propriedade são sagradas porque existe uma ordem natural inata na realidade que valida a consagração destes direitos. Mesmo a ordem política, pautada nos valores do bem comum e da verdade objetiva, só tivera respaldo autêntico e completo dentro dos valores cristãos da Idade Média. Que a filosofia grega e o direito romano tenham contribuído para esse fim, isso é inegável. Mas foi a associação com a transcendência cristã que deu os critérios teológicos necessários para a legitimação de valores essenciais a uma sociedade política virtuosa. Em outras palavras, o cristianismo medieval colocou o direito romano e a filosofia grega nas alturas. Quando o homem ocidental médio repudia a escravidão, a violência, a barbárie e enaltece a idéia da compaixão, da piedade e do amor pelos fracos; ou quando ele se recusa a aderir à divinização das tiranias, pela idéia dos direitos individuais elementares e irrevogáveis, ele pensa como cristão, ainda que não o seja por confissão. Repudia-se o totalitarismo nazista e comunista e demais aberrações da modernidade, pela visão judeu-cristã tradicional de que somos portadores naturais de direitos e de que a sociedade política visa o bem comum da verdade, da justiça e da concórdia. Essa sorte de direitos é imutável porque é condição necessária a nossa felicidade e existência e reflete a própria realidade mesma, seja no âmbito da natureza como da conduta humana. Por mais que certas sociedades violem a consagração de tais direitos, postergam o princípio básico da justiça elementar vinda dos céus. Direitos são“justos” ou “injustos”, precisamente por há algo além das leis jurídicas que o pré-ordena, um propósito da realidade e da transcendência que assim o determina.

As ideologias totalitárias, como negadoras completas de absolutos na natureza, projetaram criar um homem e uma realidade artificiais, negando a natureza humana e mesmo a realidade tais como elas são. Não é por acaso que elas negam as tradições mais genuínas e as crenças mais absolutas da Cristandade, já que o único absoluto que reconhecem é a gnose da engenharia social, a gnose destrutiva de revogar o que é imutável no homem e no universo. Como o homem do passado e do presente é apenas um 
“atraso”, dentro da concepção evolucionista do futuro, os regimes totalitários acabam devastando o homem real, imutável nas suas qualidades, em nome de um homem fictício, irreal e mutável. O “homem novo” do nazismo e do comunismo é a destruição da humanidade tal como ela é. Os relativismos e os materialismos representam o homem rebaixado à cova e ao desespero do nada. E o totalitarismo que os inspira é uma bota esmagando um rosto humano, na feliz expressão de George Orwell.


Civilização, tradição, transcendência, Cristandade. Legados que permanecem no tempo, a despeito de algumas mudanças, boas ou ruins. No entanto, mudam-se as aparências, e as essências continuam imutáveis. Não se pode falar em 
“evolução”, aperfeiçoamento, sem referências absolutas. Não se pode falar em melhora dos valores e da sociedade, sem sustentáculos morais e éticos autênticos. Não se pode falar em causalidades e efeitos fora da realidade. As concepções evolucionistas do tipo materialista não visam reformular ou melhorar o ser humano. Visam sim, destruir a natureza humana, a sociedade, os valores absolutos e mesmo a memória histórica milenar. Esse é o preço a se pagar pelas revoluções do século XX.

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".