Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

ONDE MORA O PERIGO

NIVALDO CORDEIRO
18/10/2008

Em 1953, já no fim de sua vida, Ortega y Gasset escreveu sobre o Estado:

Em la evolución del Estado, la legislación se ha hecho cada vez más fecunda, y en los últimos tiempos se ha convertido en una ametralladora que dispara leyes sin cesar. Esto trae consigo que el individuo no pueda proyectar su vida, y como la función más sustantiva del individuo es precisamente eso: proyectar su propria vida, la legislación incontinente le desencaja de sí mismo, le impede de ser”.

Esta é outra bela maneira – profunda – de dizer que há uma contradição abissal entre o anelo pela liberdade do homem e a forma como o Estado está constituído nos tempos atuais. Ortega completa afirmando o caráter surdo e inexorável das leis. Quero aqui meditar sobre essa constatação do filósofo. Ele acrescenta: “Por su propria forma la ley es inexorabelmente inhumana y anti-natural – buen ejemplo de cómo todo lo social es humanidad deshumanizada, mineralizada”.

Antes, convém lembrar para que o Estado foi criado. Na origem o Estado resultou da visão de homens excepcionais que, diante do perigo, organizaram o Estado para defender a comunidade. Portanto, é o Estado um instrumento da luta dos homens contra os perigos externos à comunidade, sejam estes naturais, sejam (o que é mais freqüente), os perigos oriundos de populações humanas inimigas

O Estado, desde o início, é um projeto de violência latente para a guerra.

No livro A REBELIÃO DAS MASSAS Ortega levanta a tese de que agora o grande perigo contra a humanidade é o Estado. No texto de 1953, a que me refiro (EN EL FONDO, QUERRÍA LO MEJOR), ele não apenas reitera o que escreveu em 1930, depois dos cataclismos do nazismo e da horrenda II Guerra Mundial, sem falar na fatídica Guerra Civil Espanhola, sua querida pátria. Atente-se para a ironia no título do artigo. Então Ortega pôde constatar, incentivando os seus leitores a perceberem o grande perigo que constitui o Estado contemporâneo:

La lucha no será fácil, porque precisamente ahora el Estado rebasa por encima de todo lo que hasta el presente pretendía ser, y aun quiere llegar a ser lo que menos puede ser: se ha convertido en un Estado-beneficencia. Es conmovedora esta ternura que el Estado manifesta hoy como Estado-beneficencia. En el fundo quería el Estado defender desde el principio, de la menor manera, al individuo contra los mayores peligros e querría hacer bien las cosas. Pero el resultado es que amenaza con asfixiar al indivíduo”.

Voltemos ao ponto anterior. Esse caráter inexorável das leis, nos tempos modernos, se converte nas barras da prisão em que o sistema jurídico transformou-se, para a nossa suposta proteção. A gênese desse equívoco tem três vetores. 

Em primeiro lugar, desde o Renascimento que o conceito de lei natural foi abandonado. Caiu-se progressivamente no positivismo jurídico, de sorte que os legisladores e os juristas passaram a acreditar piamente que poderiam criar tantas leis quanto quisessem de sua própria mente, ao arrepio das tradições e do caráter transcendente da fonte da Justiça. O homem é visto pela ótica de Maquiavel e Rousseau: pode-se maquinar qualquer coisa no corpo jurídico e legitimá-la a partir de uma suposta Vontade Geral. Leis assim geradas transformaram-se no terror, no horror como jamais a humanidade experimentou.

Em segundo lugar, a criação da segunda realidade proposta pelo Idealismo. Esses homens sem passado, que miram um futuro perfeito, independentemente do real, foram os autores intelectuais da criação do monstro estatal.

Em terceiro, a visão fantasmagórica do ente estatal, que de instrumento criado pelo homem transformou-se no demiurgo da sociedade perfeita. A grande ilusão da modernidade, a fonte de todos os sofrimentos.

As sociedades contemporâneas tornaram-se o cárcere das multidões, mais das vezes literalmente. Nunca tantos homens foram feitos prisioneiros nas masmorras estatais, sob os pretextos legais os mais banais. Em substituição a essa estúpida rebelião das massas que escravizou a humanidade pelo Estado, é chegado o tempo da rebelião dos homens enquanto pessoas livres, para restaurar a liberdade. Essa rebelião é a revolução liberal, que propõe o Estado Mínimo, o único compatível com a liberdade e a dignidade do homem.

Na verdade, os descendentes de Maquiavel e Rousseau, os socialistas e comunistas e os advogados do Estado Grande em geral, fizeram das leis uma espécie de matemática social. Como sabemos, desde Galileu e sua nova ciência houve uma profunda mudança nos métodos de investigação das ciências da natureza, de sorte que a razão pura, o método matemático, deu aos homens um imenso poder de compreender e colocar a natureza a seus serviços, pela técnica derivada dos novos conhecimentos. Os engenheiros da alma humana, analogamente, quiseram fazer das leis o instrumento, a matemática instrumental para uma nova ciência social, de modo a criar um homem novo.

Não haveria, na visão desses novos homens, mais nenhuma necessidade de se buscar a lei natural e muito menos levar em conta a Revelação. Agora a humanidade teria supostamente os meios para instituir a sociedade perfeita, a utopia tão ansiosamente buscada, rebelando-se contra restrições naturais, como a lei da escassez. Nesse afã o Estado, criado originalmente para eliminar as ameaças e os perigos, tornou-se ele mesmo a única ameaça e o único perigo contra as pessoas. Rouba-as, mata-as, prende-as, suprime sua liberdade, sua criatividade, sua espontaneidade. E, ao incorporar as técnicas modernas à arte da guerra, tornou-se um instrumento industrial de matança. Pior, os governantes descobriram que praticar guerras periódicas, de preferência contra inimigos mais fracos, é um ótimo instrumento de controle social e de legitimação política.

O perigo estatal alcançou proporções apocalípticas. Assim, só tolos de almas herméticas não se apercebem do engodo que é o Mommy State. Ortega, a propósito, encerra seu artigo com uma fábula bastante ilustrativa:

Por esa razón conviene contar la fábula del oso, amigo del hombre: El hombre, tendido, dormía; el oso, amigo del hombre, vigiaba su sueño. Una mosca se posa en la frente del hombre. El oso no puede consentir esta perturbación en el sueño del hombre, sua amigo. Com su garra espanta la mosca, pero con ello aplasta la cabeça del hombre”.

Urso ou ogro? Chamemos o Estado como quisermos, tanto faz. Temos, todavia, que ter em conta que estamos diante de uma Besta e não apenas metafórica. Ela é gigantesca, estúpida, primitiva e devoradora de homens, a última predadora dos filhos de Eva que sobrou, além dos micro-organismos. Na verdade, estamos diante da Besta que é nominada na Bíblia. O Estado é também a imanentização do Mal por antonomásia. Nunca deveremos esquecer-nos desse importantíssimo detalhe.

Escrevo tudo isso para lhe falar, meu caro leitor, da crise financeira mundial. Homens estúpidos, até mesmo ganhadores do Prêmio Nobel de Economia, estão administrando a crise da maneira a mais estúpida. Puseram o urso para velar o sono dos inocentes. A cada ronco dos adormecidos virá a patada fatal daquele que, no fundo, só quer o melhor para todos nós. Temos que pôr esses estúpidos laureados em fuga, longe do poder de Estado, sob pena de perecermos todos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

ORTEGA E O CRISTIANISMO

NIVALDO CORDEIRO
11/10/2008

Em 1933, Ortega y Gasset apresentou um curso em doze lições, depois publicado em 1942 sob o título EM TORNO A GALILEO, trazendo o sugestivo subtítulo: “Esquema de las crisis”. Se houve crise no mundo, ela estava a ocorrer naquele ano da graça de 1933. E crise maior viria, pois naquele fatídico ano consumou-se a ascensão de Hitler e do nazismo ao poder. A tragédia varreria a Europa e Ortega não tinha como saber o quanto ele se tornou profeta daqueles tempos. A palavra crise descrevia adequadamente o que se passava diante dos seus olhos, a crise da rebelião das massas.

E Ortega tomou o tema a partir de um aniversario bem significativo. Em 1633 Galileu, diante do Santo Ofício, em Roma, teve, nas palavras mordazes do filósofo, que “abjurar da física”. Aquele julgamento terá sido o último grande e desesperado esforço da Igreja Católica para contornar o incontornável, a ascensão destrutiva da modernidade, vale dizer, do Mal. A retratação de Galileu não fez a roda do tempo voltar atrás, mas serviu como divisor de águas. Desde então fé e razão puseram entre si um abismo, que ainda não foi transposto. Não obstante os esforços de santos homens como João Paulo II e Bento XVI, autores de maravilhosas e esclarecedoras encíclicas sobre o tema. (Sim, a Igreja Católica, como sempre, e tirando esses episódios lamentáveis como o de Galileu, sempre ensinou que fé e razão andam juntas e seus clérigos mais das vezes foram grandes cientistas, como Copérnico e Kepler). Os cientistas seculares de hoje é que se fecharam na sua redoma hermética, impenetrável às coisas sagradas. Senhoritos satisfeitos.

Ortega ponderou, numa nota de rodapé: “Ello me hubiera permitido celebrar con algún decoro ese tricentenario de la deplorable escena que sería un error interpretar simplemente como una lucha entre la fe y la razón, y menos aún entre la Iglesia y el Siglo”.


Em artigo anterior eu mostrei que a obra do Ortega é agnóstica, embora seus grandes insights tenham raiz cristã. Por exemplo, quando ele enfaticamente defende o “direito à continuidade” está, nada mais nada menos, que defendendo o direito à Tradição cristã. Seu erro maior foi, contraditoriamente, desprezar a raiz judaico-cristã do Ocidente, por isso não logrou ir além do diagnóstico da rebelião das massas e da ausência dos egrégios orientando as gentes. Não é possível fazer o chamamento dos homens à responsabilidade e à Tradição sem restaurar as virtudes cristãs e seus princípios. Os egrégios sempre foram os homens de fé e seu sumiço coincidiu com a epidemia do ateísmo.

Ortega era também um filho do Iluminismo e do kantismo. Arguto observador da história e da filosofia, ele precisava explicar para si mesmo as catástrofes que previa e que testemunhava, desde que se tornou escritor, no início da década de 10. Viu o despedaçamento da Espanha e da Europa, do mundo, em desespero atroz, sem nada poder fazer. Viu a emergência das massas estúpidas, que passaram a mandar no mundo, exatamente como neste instante agora mandam no mundo. A humanidade estava sem rumo, como está sem rumo neste momento. As manchetes dos jornais do dia não permitem nenhuma margem a dúvida de que estamos em uma esquina muito perigosa da história, tal e qual há um século.

A crise econômica, que surpreendeu a todos e atordoou toda a gente Urbe et Orbi, é a face mais branda e inicial de suas manifestações, apenas o prolegômeno do que virá, como Ortega bem o viu em 1933. A bem da verdade, a crise econômica nem saiu do ovo de serpente onde foi aninhada. Só mirou seu gélido olhar para a luz do dia. Quando emergir inteira poderemos ter uma catástrofe de proporções desconhecidas na história da humanidade, uma crise como nunca houve, uma crise que até agora só havia existido na mente doentia de Nietzsche.

Por isso ler Ortega é ter um mapa do caminho, um roteiro dos acontecimentos que assomam (e assombram) no horizonte. Dediquei os últimos anos da minha vida a estudar a obra do filósofo, bem como a de Strauss e a de Voegelin, outros profetas do século XX. Fui invadido pelo sentimento de déjà vu, que me angustiou e tirou o sono muitas vezes. Bem se diga que a repetição é apenas aparente: desde os anos trinta a humanidade ficou mais hermética, mais poderosa, mais insensata, mais atéia. Mais arrogante. Temos agora todos os meios para dizimar a civilização, meios que Ortega nem desconfiava à época. Quem tem o gatilho do apocalipse é gente moralmente inferior, que aprendeu da vida o desvalor, que não tem o sentido da existência, que ignora a transcendência.

Importa aqui tentar mostrar como Ortega via o cristianismo, pois daí deriva seu erro capital. O ponto é relativamente simples: o filósofo espanhol via no cristianismo uma mera manifestação cultural, histórica, igual às demais que apareceram. Ortega não conseguiu entender que Cristo era a confirmação dos profetas e que São Paulo e Moisés não eram radicais alucinados enquanto homens porque o quiseram. Gente igual àqueles radicais em política que pululam nos tempos de crise. Não cabe o paralelo. Homens como Moisés e São Paulo radicalizaram porque tiveram a experiência mais radical de todas, de *ver* Deus. Radicalíssima experiência, da qual não se pode sair sem ter de cumprir a missão dada. No fundo insubornável de seu ser esses homens descobriram a verdade e foram pregá-la ao mundo.

Ao equiparar essa experiência com outras, Ortega se enganou. Cabe perguntar: qual é o Deus de Ortega? Em alguns momentos fica claro que é o mesmo Deus de Aristóteles, aquele que cria as circunstâncias. (Veja-se a seguinte passagem: “En todas sus dimensiones, pues, es nuestra existencia un enfronte perenne de dos elementos heterogéneos -el hombre y su antagonista, ese «otro» que no es el hombre y lo rodea, lo envuelve y aprisiona, llámesele circunstancia o mundo o Dios o como se quiera”.) Deus identificado erroneamente como natureza, e não como realidade transcendental, o próprio Bem que se deu a conhecer e se preocupa com a sua criatura.

Ao fazer isso, vemos como Ortega é um apogeu do Iluminismo, pois o homem, em sua obra, se equipara a Deus, age por si e cria a sua própria realidade a despeito do Criador. O agnosticismo aqui se metamorfoseia em gnose: o homem salvando-se a si mesmo. Vai além Ortega, ao dizer que o homem precisa salvar as circunstâncias para salvar-se. Salvar o Criador! É a mais alta manifestação de arrogância espiritual que um filósofo poderia imaginar. E, quando fala do social, dessa segunda natureza que não vem de Deus e nem do homem enquanto tal, Ortega identifica uma terceira dimensão que não tem criador. Se autor há do fato social é o próprio homem. A criatura aqui fica maior que o Criador. Deus nada é no universo de Ortega, exceto a circunstância biofísica. Um perfeito absurdo.

Por isso ele não pôde compreender nem Moisés e nem São Paulo, aqueles radicais que outra coisa não poderiam ser, pois que contemplaram a realidade mais radical, a raiz de todas as coisas.

Então o filósofo persegue uma miragem falsamente explicadora das crises, a sua teoria das gerações. Perde-se em infinitas contas para dar um nexo aos câmbios históricos. E não consegue ver a única constante explicativa, a de que periodicamente a humanidade rebela-se contra Deus, desde o Antigo Testamento. Moisés sobe à montanha e seu povo passa a fazer bezerros de ouro, a adorar Baal, o deus desse mundo, o Estado. Ele, Moisés, que teve a missão específica de libertar seu povo do Egito, outra maneira metafórica de dizer: libertar seu povo do Estado. Canaã é a utopia da sociedade perfeita, sem Estado. A cada geração é preciso um Moisés para libertar novamente o povo de Baal.

A encantadora prosa de Ortega, revelando seu poderoso intelecto, por vezes ofusca a compreensão de suas deficiências filosóficas. E esta aqui, sobre as manifestações de Deus na história, é a mais notável. Por isso Ortega pôde ver a crise em sua inteireza, pôde fazer o diagnóstico correto, mas não pôde dar a receita para a sua superação. Debalde maldisse a ausência dos egrégios. Para fazê-lo teria que ter-se feito cristão. Só beijou a cruz ao morrer. Era tarde demais.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

ORTEGA E AS CIRCUNSTÂNCIAS

Do portal do NIVALDO CORDEIRO
Por Nivaldo Cordeiro em 22 de julho de 2008


A mais famosa frase cunhada por Ortega y Gasset, ele que era um escritor que construía frases memoráveis a cada página escrita, é: Eu sou eu e a minha circunstância e se não a salvo, não salvo a mim mesmo, posta no intróito ao livro Meditaciones del Quixote”. Depois da expressão “Penso, logo existo”, cunhada por Descartes, é a mais sensacional síntese filosófica que um pensador tenha conseguido. Ela diz muita coisa em filosofia, é a própria representação da razão vital orteguiana, que veio para superar o unilateralismo idealista e sepultar de vez um eventual resgate do realismo filosófico.

Não tenho o propósito aqui de expor, nas poucas palavras que escreverei, esse verdadeiro duelo da história do pensamento ocidental, que tem em Ortega y Gasset um apogeu. Teria eu que ser um filósofo também, o que não sou, e ter um espaço para, pelo menos, escrever um ensaio. Eu quero apenas fazer um pequeno comentário à expressão, muito a propósito para pensarmos o momento histórico que estamos vivendo.

O que podemos perceber é que a maior parte dos autores gosta de citar a primeira parte da sentença “Eu sou eu e a minha circunstância”, deixando em segundo plano a segunda parte, “e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”, tão importante. Certo, a primeira parte é, digamos, a mais contemplativa. Ela demonstra que o Eu é tão fundamental quanto as coisas são, aquelas que encontramos, cada um de nós, na longa jornada que é a vida individual. As pequenas e as grandes coisas por igual. A verdade é resultado desse encontro do olhar humano com as coisas em derredor. Pensar é olhar”, ensinou Ortega certa vez. E nessa abordagem perspectivista vemos o filósofo espanhol ombrear-se com os grandes filósofos de todos os tempos, de Sócrates a Kant e Hegel e todos os outros. A ingenuidade realista dos antigos e a soberba autonomizada do Eu na modernidade são deixadas para trás enquanto unilateralidades incapazes que darem conta de explicar o real.

O interessante aqui é a segunda parte da sentença. É um olhar do homem de ação, depois da contemplação. Há uma forte ressonância cristã – o apelo à salvação – embora não pretenda ter um elo teológico. É que “salvar-se” tem sempre uma conotação metafísica e a pressuposição de que a transitoriedade da vida humana é aparente. A jornada continua por toda a Eternidade. A responsabilidade diante de Deus está posta ao vivente, mesmo que eventualmente ele a recuse e nem a reconheça. Mas o que estava à vista do filósofo era a coisa mais terrena, mais imediata, mais histórica. Era o contexto social, sua sociologia. Ortega estava vendo, àquela altura dos idos de 1916, a dramática emergência do homem-massa na Espanha e na Europa em geral, que triste memória deixou para a humanidade. Pensando sociologicamente, a expressão remete ao vivente a responsabilidade de salvar as circunstâncias. E as circunstâncias de um indivíduo são dadas precisamente pelo que ocorre na política. E a política não é alheia à ação individual de cada um.

É preciso, portanto, salvar a política das mãos do homem-massa para que possamos salvar a todos e a cada um. Mais precisamente, é preciso enquadrar o homem-massa, restabelecer a hierarquia. Salvar aqui, em minha opinião, tem o primeiro de seus sentidos dicionarizados: “Tirar ou livrar a si mesmo de perigo, dificuldades, ruína ou morte”. Há um grande perigo em nosso momento, muito semelhante àquele que Ortega viu a seu tempo. O ponto é que não temos escolha que não agir para salvar-nos a nós mesmos. Ninguém fará isso por nós, que somos os agentes históricos. A omissão não salvará ninguém, muito ao contrário, ela apenas entregará os destinos coletivos nas mãos dos que têm a alma moralmente deformada. Daqueles que não se importarão em causar morte e destruição.

Agir para salvar as nossas circunstâncias é, antes de tudo, tornar-se um líder. É ter o sentido da civilização, é conhecer o legado espiritual do Ocidente. É assumir a responsabilidade. A horda dos decadentes só toma o comando do Estado quando os homens egrégios se apequenam. O momento é de se fazer o movimento inverso, de pôr o homem-massa no seu lugar. A vida convida todos nós à responsabilidade existencial. Salvar-se requer, antes de tudo, ter uma atitude moral consigo mesmo, que fatalmente influenciará o meio. As massas, deixadas por si mesmas, serão enganadas pelos demagogos malignos, no rumo do desastre.

A questão é: como fazer isso? Ora, mudando cada um de nós mesmos e formando o caráter daqueles que nos são próximos. Sem esse pequeno tijolo inicial não se fará construção alguma. A ordem social depende da ordem na alma individual. Tornar-se alguém maduro, recusar as falsas facilidades do populismo, resgatar os valores da tradição, santificar a vida cotidiana... Parece fácil enumerar, mas se tivéssemos feito isso a tempo não teríamos de chegar, ainda uma vez, ao mesmo estágio em que Ortega y Gasset encontrou a Espanha para cunhar a sua frase imorredoura.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Intenção estratégica e o homem-massa

Do portal MÍDIA SEM MÁSCARA
por Jeffrey Nyquist em 15 de abril de 2008


Resumo: O homem-massa é uma criatura facilmente manipulável. Ele é presa fácil dos adversários, dos vendedores de óleo de cobra e de charlatães de todo naipe.

© 2008 MidiaSemMascara.org

"Eu olhei nos olhos de Putin e vi três coisas:

um ‘K’, um ‘G’ e um ‘B’.

– John McCain


Recentemente foi publicado na The New Criterion um ensaio de Anthony Daniels, no qual ele resume o conceito de “homem-massa”, do filósofo espanhol José Ortega y Gasset, como sendo aquele homem “que vai de uma distração a outra distração, que é presa de modismos absurdos, que nunca pensa em profundidade...”. Na primeira década do século XXI isso soa até familiar demais. Em 2008, vivemos numa sociedade dominada por “homens-massa”, engolida pela psicologia de massa, pela mídia de massa, pela escola de massa e pela ignorância em massa que atualmente nos circunda e avulta.

O grande público de hoje não é capaz de distinguir o importante do trivial. O que precisa ser reconhecido, e um dia será, é a distinção bastante real entre princípios elevados e aquilo que é vulgar, entre coragem moral e conformismo apenas desculpável, entre pensadores e embusteiros. E é a isto que tudo se resume. As massas cresceram fracas e indolentes. Elas não querem admitir a realidade porque nisso poderia haver uma cláusula de responsabilidade. Sendo esta a consideração principal, a negação de eventos-chave completa-se melhor através de uma maré enchente de trivialidades – a cápsula de escape da realidade do homem comum. Uma vez que você está perdido no Grande Oceano do Lixo Intelectual, serve qualquer meia-verdade, à qual você se agarra, mesmo que essa seja um bote furado e cheio de ratos.

Se tivéssemos sido treinados para pensar em termos hierárquicos em vez de em termos igualitários, se entendêssemos a base de nossa própria existência, nossa atenção crítica estaria instintivamente voltada para determinados assuntos, para aqueles que tocassem em nosso futuro político e econômico. Então, saberíamos que certas escolhas de estilos de vida são perniciosas à sociedade como um todo, que moedas fiduciárias (papéis-moeda) não duram para sempre, que ser brando na punição estraga a “criança”[1], que se você deseja a paz deve estar preparado para a guerra. Todavia, fica mais e mais evidente que o homem-massa de hoje perdeu seus instintos, perdeu de vista o que é importante e que julga tudo a partir de suposições falsas, feitas a partir de um ponto de vista igualmente falso.

Houve um tempo em que tínhamos uma civilização. Tínhamos padrões. Tínhamos noções de objetividade. Nós tínhamos uma cultura que não era vulgar. Nós olhávamos para os grandes homens do passado tal como olhávamos para a nossa posteridade. A arte era bela e tinha sentido. A política evoluía para longe da tirania. A economia dizia respeito à liberdade e responsabilidade. O que temos hoje? Temos Britney Spears e Jerry Springer. Nossos padrões erodiram-se seriamente. A subjetividade declarou, cinicamente, que a objetividade não existe. Tudo aquilo que continha princípios elevados, aquilo que não é vulgar, foi negligenciado.

Mas mais importante, e ainda mais desastroso, é que a emergência do “homem-massa” tem algo a ver com a emergência do totalitarismo (que ceifou as vidas de aproximadamente 100 milhões de pessoas no século XX). E é seguro afirmar que o totalitarismo ceifará ainda mais vidas no futuro. Mas as pessoas não querem acordar. Elas não querem reconhecer que o totalitarismo é real e avança. Ele cresce no solo da cultura de massa; leva à destruição e ao assassínio em massa, pois todo o conceito totalitário baseia-se em mentiras sustentadas pelo crime e dirigidas pela politização das frustrações e invejas pessoais. Alguma atrocidade faz parte da história quando um país invade outro, ou quando um comandante de cavalaria ou um chefe indígena cometem uma atrocidade. Os homens têm feito coisas terríveis uns aos outros ao longo dos tempos. Mas transformar o terror e o assassinato num sistema significa um novo tipo de regime.

O homem-massa não consegue ver os males do totalitarismo; ele não vê a inclinação de Hitler; ele não vê as letras”K-G-B” por detrás de Putin; ele nega o Holocausto; ele não se importa se o Irã construirá armas nucleares; ele acha que Rússia e China nunca começarão uma guerra global. O espírito filistino do homem-massa é encontrado em sua prontidão para acreditar na propaganda totalitária. É uma propaganda que inculpa a futura vítima.

O totalitarismo se ergue porque o homem-massa é suscetível e é fundamentalmente um ignorante, apesar de notavelmente “bem-informado”. A inércia do homem-massa aceita o que é ditado pela burocracia. Ele não tem nenhuma “grande idéia” ou “fé” para resguardá-lo da acomodação e transigência convenientes, ou da participação no genocídio. O oportunismo sem questionamentos do homem-massa permite-lhe exemplificar aquela mesma “banalidade do mal” à qual se referiu Hannah Arendt, em seu livro Eichmann em Jerusalém. Afinal de contas, o homem-massa sob Hitler[2], sob Stalin, se defenderia dizendo que estava apenas fazendo o seu trabalho. Ele estava apenas obedecendo a ordens.

O homem-massa é inócuo ou sinistro? Ele faz o que faz de propósito ou precisa de um planejador maligno, tal como Hitler? O que significaria dizer que o extermínio em massa de judeus na época de Hitler foi um fenômeno sociológico que nada teve a ver com a intencionalidade? Dito de outro modo, o que significa dizer que o Holocausto foi alguma coisa outra que não uma conspiração contra vítimas específicas? O que significa dizer que o aviltamento sistemático de um povo foi em virtude de “um processo histórico”?

Eu não acredito que o resultado, de um lado, seja possível sem a intenção do outro lado. Não há nada diabólico a menos que seja intencional. E tudo que é intencional é individual. Hitler era um indivíduo. Seus companheiros de crime eram indivíduos. Cada um foi responsável por suas ações individuais. Não serve como desculpa declarar-se apenas um dente da engrenagem maior. Cada um obteve alguma satisfação particular na perseguição, pilhagem e matança de judeus. Imaginar que pessoas assim não podem existir, apenas porque a sua imaginação é muito limitada, é esquecer aquilo que a história já provou.

Se irromper outra guerra genocida, quais nações serão vitimadas? Quais nações estão sendo vilipendiadas atualmente? Duas nações, especificamente: (1) a dos judeus e (2) a dos americanos. A falha em não compreender a significância desse aviltamento e a falha em não reconhecer suas origens, é, de fato, uma falha triste e sombria.

Como Bernard Chazelle chamou a atenção recentemente em seu ensaio intitulado Anti-Americanism: a Clinical Study [Antiamericanismo: um estudo clínico], não há um antifrancesismo, um antipolonismo ou um antiespanholismo. E por que não há? Porque “o antiamericanismo está isolado: é um testamento vivo...”. Bem, não tão sozinho assim. É preciso lembrar o anti-semitismo, sendo ainda necessário juntá-lo ao Holocausto.

O aviltamento de um povo inteiro é algo similar a amaciar uma carne. A tarefa do aviltamento a deixa pronta para o forno.

Foi Paul Johnson, o historiador inglês, quem escreveu: “O antiamericanismo é a doença predominante entre os intelectuais de hoje”. O que ele deveria ter dito, mas falhou em esclarecer, é que os “intelectuais” de hoje são fraudes; eles são homens-massa, exatamente como aqueles a quem Ortega y Gasset se referia em seu livro A Rebelião das Massas. O fingimento de erudição e o fingimento de pensar apenas encobrem a baixeza e torpeza de alguém que, nas palavras de Anthony Daniels, “não reconhecerá aqueles que lhe são superiores”.

O homem-massa adquire idéias do mesmo modo que os ratos adquirem pulgas infestadas de peste bubônica. Ele é infectado por elas. E é perfeitamente possível que alguém dissemine a infecção intencionalmente. Pondere a seguinte sutileza: quando um estrategista americano pensa a respeito de mísseis nucleares, ele pensa em termos de dissuasão. Quando um estrategista russo pensa a respeito de mísseis nucleares, pensa em aniquilar os inimigos. Estrategistas nucleares americanos, de Herman Kahn a Vincent Pry, estavam especialmente preocupados com a dissuasão. Já os estrategistas russos, de Sokolovskiy a Sidorenko, estavam principalmente preocupados com a aniquilação do inimigo. A diferença de conceitos é importante – apesar de ser facilmente negligenciada ou nem sequer percebida.

O ódio é o ingrediente, e fazer com que os americanos odeiem-se entre si têm sido um truque especial. Talvez o homem-massa, ao odiar aquilo que tem grandeza, incline-se a odiar o seu próprio país, se a grandeza deste for suficiente. Nesse caso, um inimigo ardiloso não precisaria levantar nem um dedo sequer – ainda que a União Soviética tenha movidos céus e terras para espalhar, de 1950 a 1991, o ódio antiamericano. Uma das técnicas de propaganda mais eficazes envolvia plantar histórias falsas nos jornais ocidentais. Tais eram as “medidas ativas” de Moscou. No que diz respeito a essa técnica, o recente desertor da SVR [KGB], Sergei Tretyakov, confidenciou ao autor Pete Earley: “Nós dizíamos [após o colapso da União Soviética]: ‘Ok, agora nós somos amigos. Vamos parar de fazer isso’. E a SVR [KGB] fechou o Diretório A [Medidas Ativas]. Mas o Diretório A submeteu-se apenas a uma mudança de nome. E isso foi tudo. Ele tornou-se o Departamento MA [Medidas de Apoio], e as mesmíssimas pessoas que o dirigiam sob a KGB, continuaram a fazê-lo para a SVR”.

O homem-massa é uma criatura facilmente manipulável. Ele é presa fácil dos adversários, dos vendedores de óleo de cobra e de charlatães de todo naipe. Por favor, permitam-me dizer-lhes, caras massas: vocês têm sido o alvo especial de uma variedade superior de propaganda. Vocês foram alvejados. Vocês foram tapeados. Os fornos estão sendo aquecidos neste exato momento.


[1] NT: “Sparing the rod spoils the child”. É evidente que o autor não advoga a punição física de crianças, muito menos com varas. No contexto apresentado, a expressão idiomática, já antiga, aplica-se aos adultos à rédea solta, “crianças” sem punição, quer na área criminal ou quanto às transgressões morais cada vez mais toleradas; em suma, é ao crescente laxismo da sociedade americana que o autor se refere.

[2] NT: Hitler e Stalin foram, eles mesmos, exemplos de homens-massa no poder: vulgares, incultos, mas implacáveis e capazes de provocar fascínio e infundir terror na mente de outros homens massa. Ver Hitler e os Alemães, Eric Voegelin, São Paulo: É Realizações, 2008.

© 2008 Jeffrey R. Nyquist

Publicado por Financialsense.com

Tradução: MSM

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".