Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro concede Medalha Tiradentes a Olavo de Carvalho. Aqui.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

EFEITO CIRO GOMES

Fonte: NIVALDO CORDEIRO


EFEITO CIRO GOMES

04 de fevereiro de 2010



Até o final do ano a “cirose” presidencial aumentará exponencialmente

A entrada de Ciro Gomes na disputa da eleição presidencial se reveste da maior importância porque ele, de fato, prejudica diretamente o PT e o seu projeto político de longo prazo, mais até do que uma eventual vitória de José Serra. Tudo que o PT desejava era a polarização com o candidato tucano, é tudo que não terá. O governador de São Paulo talvez viesse a mudar muito pouco os projetos em curso do PT dentro do Estado. Talvez algo mais forte na condução da política econômica, pois aqui suas crenças esquerdistas são mais desenvolvidas e radicais. Certamente a política cambial e de juros sofreria uma inflexão.

Ciro Gomes é uma incógnita nesse tema. Seu programa efetivo é um enigma, embora de público faça o discurso alinhado com o PT. Bem sabemos que uma coisa é o discurso, bem outra a ação. Dificilmente Ciro manteria a maluca política externa que Lula tem praticado, de apoio a Hugo Chávez, de abandonar o mercado norte-americano, de sacrificar os legítimos interesses nacionais em favor de duvidosas convicções ideológicas, como vimos no caso da Bolívia e do Paraguai. Na política internacional, se Ciro Gomes vier a ser presidente haverá um grau de realismo maior e o PT, enquanto partido revolucionário que lidera o Foro de São Paulo, perderia um dos seus maiores trunfos, o comando do Itamaraty.


O magnífico artigo de Demétrio Magnoli publicado hoje no Estadão (“O terceiro Chávez) prognosticou que, se a Dilma não for eleita, o presidente da Venezuela não sobreviverá politicamente. Com a presença de Ciro Gomes isso será um fato imediato. Vemos aqui porque Lula adoeceu ao receber a negativa do político cearense ao pedido seu para que se afastasse da disputa. Teve uma crise aguda de “cirose”.


Também não consigo imaginar Ciro Gomes patrocinando alucinações coletivas bolcheviques como aConfecom e a Conferência Nacional de Direitos Humanos. Fui informado que poderosos meios de comunicação já estão alinhados com sua candidatura, como Fernando Collor de Mello foi adotado no passado. A perda dessas alucinadas conferências representará para o PT enorme perda de prestígio e de capacidade de mobilização.


O paradoxal é que não sobrará alternativa ao PT que não apoiá-lo, se vier a passar ao segundo turno contra José Serra. Ato contínuo, o partido desinflaria rapidamente e mesmo o apoio em meio ao funcionalismo público poderia ser perdido. A simples colocação da candidatura Ciro Gomes tenderá a dividir o palanque da candidata Dilma em muitos Estados. Isso trará uma grande fragilização para os candidatos a governador e a senador da legenda, bem como retirará força para a formação de uma bancada maior na Câmara de Deputados.


A candidatura Ciro Gomes está para o PT como o terremoto para o Haiti. Será um desastre completo. No mínimo, favorecerá a candidatura de José Serra, dividirá os votos de Dilma e fulminará qualquer pretensão hegemônica do PT pela via eleitoral. Bem disse Ciro Gomes que o “Santo” Lula não tem muito a falar sobre o assunto. Até o final do ano a “cirose” presidencial aumentará exponencialmente.


É divertido assistir à turma do poder na iminência de naufragar sem ter nada a fazer para escapar ao desastre político. Seus líderes não podem pressionar o candidato rebelde de nenhum modo, sequer podem atacá-lo, pois vá que ele passe ao segundo turno, precisarão ter um nome a apoiar. Uma sinuca de bico. Sem dúvida, a campanha eleitoral ganhou novo colorido. E os hospitais uma nova doença para tratar, a “cirose” do Lula.

Reconheço, a culpa é toda minha

Fonte: DIÁRIO DO COMÉRCIO
Olavo de Carvalho - 1/2/2010 - 21h38



Se eu escrevesse de maneira complicada e obscura, se me abstivesse de usar certos truques pedagógicos para despertar a intuição no leitor, nem o mais presunçoso dos imbecis julgaria me compreender.

Recebi outro dia mais um rosário de queixas contra a minha pessoa e os meus escritos, onde o remetente acreditara encontrar provas inequívocas da minha maldade, prepotência e demoníaca soberba, além de uma infinidade de erros lógicos, factuais, morais e gramaticais que, se comprovados, bastariam para fazer de mim um forte candidato a ministro da Cultura do governo Dilma Roussef.


Como em geral acontece nesse gênero de mensagens, porém, os erros que o sujeito me imputava eram apenas aparências de erro nascidas de uma leitura mal feita, se não de uma percepção estruturalmente deformada, o efeito mais geral e permanente daquilo que no Brasil se chama, por motivos insondáveis, "educação".


Só para dar um exemplo, o cidadão se dera o trabalho de revirar o Google para saber quantas vezes eu repetira tal ou qual termo técnico, expressão latina ou alusão literária e daí concluir, por um salto lógico imensurável, que eu não tinha o direito de acusar os esquerdistas de escreverem todos da mesma maneira, com cacoetes de linguagem que os identificam à distância. Em suma, ele confundia aquele conjunto de cacoetes personalizados, que assinala a presença de um estilo, com a perfeita falta de estilo que se observa na repetição coletiva de cacoetes uniformes.


Felizmente, o signatário estava tão brabo comigo que prometia não ler nenhuma resposta que eu lhe enviasse, o que me eximia de tentar destrinchar uma por uma– como se isto fosse possível! –as suas prodigiosas confusões mentais. Gratíssimo por essa gentileza, contentei-me em enviar-lhe o breve conselho de que parasse de se masturbar diante da minha imagem, e dei o caso por encerrado.


No entanto, depois, refletindo mais longamente, descobri por baixo dos erros aparentes denunciados pela criatura alguns vícios reais da minha escrita, que dão margem a equívocos sem fim quando caem ante os olhos de leitores ineptos ou maliciosos, sem contar os ineptos e maliciosos.


O mais letal desses vícios é cortejar os leitores em geral, e os mais burros em especial, mediante uma falsa impressão de simplicidade e clareza, buscada com as mais lindas intenções didáticas mas que, no fim das contas, induz o primeiro recém-chegado a crer que tudo compreendeu à primeira vista – senão a imaginar que apreendeu o conjunto inteiro do meu pensamento pela leitura de algumas amostras casuais –, e a reagir de pronto mediante alguma opinião fácil, já imunizada no berço contra aquela exigente confrontação de hipóteses que é a única via para se chegar à verdade, tanto na interpretação dos fatos quanto das palavras.


A clareza, dizia Ortega y Gasset, é a cortesia do filósofo. Iludido por essa promessa barata de fazer de mim um tipinho simpático aos olhos do mundo, acabei por esquecer que "cortesia" vem da mesma raiz de "cortejar" e "cortesão", e que o conselho do grande prosador espanhol ameaçava jogar-me, das alturas espirituais em que eu acreditava mover-me, ao fundo do mais abjeto e imperdoável puxa-saquismo literário: a prática de um estilo tão sedutoramente claro e límpido que faz o leitor imbecil sentir-se inteligente ao ponto de querer puxar discussão comigo antes de ter tido sequer o fugaz impulso de discutir consigo mesmo.


Esse efeito é inevitável desde o momento em que se adote aquele estilo, pois a coisa mais impossível para o imbecil é discutir consigo mesmo, em voz baixa, sem o apoio de um interlocutor de carne e osso: defrontado com alguma afirmação que lhe soe estranha ou desconfortável, esse tipo de leitor não resistirá à comichão de impor à força as funções de interlocutor real, e não simplesmente mental, ao infeliz autor daquilo que acaba de ler.


É assim que acabo me tornando para uma categoria de leitores – mais numerosa no Brasil do que em qualquer parte do mundo –, naquilo que em psicoterapia se chama ego auxiliar, uma boa alma encarregada de completar no mundo físico, para maior clareza, os pensamentos que o paciente, por si, não tem energia para pensar por inteiro nem coragem bastante para admitir que os pensou. Contando comigo para o desempenho desse trabalhoso ofício no seu teatrinho mental, o cidadão me envia os mais toscos pensamentos semipensados, forçando-me a acabar de pensá-los e a compreendê-lo melhor do que ele próprio se compreendeu.


Ao contrário, porém, do que acontece nas psicoterapias propriamente ditas, onde o sujeito sabe que foi lá para que o ajudem a pensar em voz alta, os remetentes dessas deformidades não têm a menor idéia de que estão me pedindo socorro terapêutico. Em vez disso, enviam-me aqueles rabiscos de pensamentos possíveis como se não fossem apenas materiais brutos para uma possível elaboração interior e sim idéias já maduras e firmes, claras e bem definidas, prontas a ser discutidas, provadas ou refutadas.

Pior ainda, quanto mais intenso o seu desconforto interior, quanto mais agitada a sua confusão de imagens e sensações, quanto mais aguda a sua impossibilidade de pensar, tanto mais o desgraçado interpreta esses sentimentos como se fossem expressões formais de uma discordância intelectual, e tanto mais ousado e desafiador é o tom em que me escreve. O sentimento que essas mensagens me infundem é de uma comicidade triste, em que o deslocamento radical entre as palavras ditas e a situação psicológica de onde emergem, ou, dito de outro modo, entre consciência e realidade, raia a loucura pura e simples, sem chegar a ser loucura em sentido clínico, detendo-se naquele perigoso meio-termo que é a loucura socialmente legitimada como normalidade.

A culpa, reconheço, é minha. Se eu escrevesse de maneira complicada e obscura, se pelo menos me abstivesse de usar certos truques pedagógicos para despertar a intuição no leitor, nem o mais presunçoso dos imbecis julgaria me compreender: todos se recolheriam àquele silêncio humilde que, a longo prazo, pode ser propício a um esforço de meditação. Mas também não posso me acusar além da medida justa. Se infundo nos imbecis uma confusão de sentimentos, provocando situações que acabam por ser incômodas para mim mesmo, o fato é que não fui eu quem povoou dessas criaturas esta parte do mundo, nem lhes ordenei que crescessem e se multiplicassem. Isto é mérito exclusivo do establishment educacional, ou dele em cumplicidade com a mídia, os políticos e os "formadores de opinião" em geral.


Olavo de Carvalho é ensaista, jornalista e professor de Filosofia

O Imbecil Coletivo - Olavo de Carvalho

Fonte: EDUCAÇÃO LIBERAL


O sucesso de Richard Rorty no Brasil parece estranho, já que a intelectualidade local é de formação predominantemente marxista e teria tudo para rejeitar o pragmatismo como ideologia capitalista. Mas o terreno para o ingresso de Rorty já estava preparado por três décadas de hegemonia gramsciana. Gramsci, o teórico marxista mais influente no Brasil, não foi um marxista de raça pura, mas um mestiço de pragmatista, pela linhagem de seu mestre Antonio Labriola. Labriola não apenas está de acordo com o pragmatismo nas linhas gerais, mas, por uma coincidência significativa, sua “filosofia da História” é idêntica à de Richard Rorty em particular, num ponto onde ambos estão em desacordo flagrante com Karl Marx: na negação de que a História tenha um “sentido”. Esta negação é obviamente incompatível com a ideologia do “progresso”, consubstancial ao marxismo. O repentino interesse dos intelectuais progressistas por filosofias que neguem o sentido da História deriva manifestamente de um sentimento depressivo conseqüente ao fracasso do comunismo internacional. Não conseguindo ater-se à visão otimista do comunismo, buscaram refúgio numa ideologia próxima, capaz de dar conta do curso aparentemente absurdo do devir histórico sem obrigá-los a uma ruptura com o fundo ateu e materialista do marxismo. Alguns empenharam-se, com esse fim, em vasculhar e resgatar antigos materialismos, que o marxismo acreditara ter absorvido e superado. Outros buscaram uma reaproximação com as correntes materialistas “burguesas”, como a filosofia analítica de Russel e Wittgenstein ( muito lidos no Brasil durante a década que passou ) e, naturalmente, o pragmatismo. Houve primeiro a moda de Charles Sanders Peirce, um filósofo de quinta categoria que em certos meios universitários brasileiros foi erigido em totem. Mas o melhor mesmo veio com Rorty, cujos pontos de semelhança com Gramsci lhe dão atrativos irresistíveis aos olhos da intelectualidade local.


Uma dessas semelhanças, a mais significativa, é a negação do conhecimento objetivo e a conseqüente redução da atividade intelectual à propaganda e à manipulação das consciências.


Tanto Gramsci quanto Rorty negam que o conhecimento humano possa descrever o real, e declaram que a única finalidade dos nossos esforços culturais e científicos é expressar desejos coletivos. Para um e para outro, não há conceitos universais, nem juízos universais válidos, mas pode-se “criar” universais pela propaganda, fazendo todas as pessoas compartilharem das mesmas crenças, ou melhor, das mesmas ilusões. A função da intelectualidade é portanto gerar essas ilusões e, como diz Rorty, “inculcá-las gradualmente” na cabeça do povo. Eles divergem somente quanto à identidade do intelectual: para Rorty, ele se constitui da comunidade acadêmica; para Gramsci, é o Partido ou “intelectual coletivo”.


Essas duas entidades fantasmagóricas, incumbidas de dirigir as consciências de seres desprovidos de consciência, e formadas elas mesmas de indivíduos que por si não têm consciência nenhuma, têm em comum o maior desprezo pelos argumentos e provas e um gosto pronunciado pela ação psicológica que vai moldando os sentimentos da massa sem dar margem a discussões nem prestar satisfações à exigência de uma “verdade”. Em ambas, a astúcia de manipular o real substitui a inteligência de conhecê-lo. Manipular o real? Não. Manipular a sua imagem na mente do público.


Tanto quanto a comunidade acadêmica de Peirce e Rorty, o “intelectual coletivo” de Gramsci não tem a unidade real de um organismo, mas a unidade funcional e mais ou menos convencional de um clube ou de um Exército. Por esta mesma razão ele não pode ser inteligente, não pode ter percepções intuitivas. Que é inteligir? É captar, num relance, a unidade objetiva de um conjunto de dados, dispondo-os num quadro que é posto imediatamente à disposição de todas as faculdades psíquicas, da vontade, do sentimento, da imaginação, etc. Esta simultaneidade da informação é que permite ao indivíduo reagir como um todo às situações, sem a mediação de um longo e complexo processo decisório. É a “presença de espírito”, a consciência alerta que permite a plena e eficaz adaptação às mudanças, sem perda da continuidade biográfica nem do sentido da vida. Como uma entidade coletiva poderia elevarse a esse nível de consciência? Para inteligir e decidir com a rapidez de um indivíduo, ela tem de colocar um indivíduo no topo e seguir as decisões dele sem discutir; mas, para preservar a democracia interna, tem de submeter as decisões à aprovação de todos os membros e aguardar o termo final das discussões, no curso das quais interferem milhares de fatores desviantes, como a intromissão de outros temas, a concorrência entre as vaidades nas assembléias, etc. — e enfim a decisão final será um arranjo mecânico de pressões e transigências, e não a resposta imediata de uma consciência a uma percepção da realidade. O “intelectual coletivo” tem de optar entre a unidade de uma tirania e a multiplicação das línguas; entre a submissão explícita ou implícita a uma consciência individual qualquer e a dissolução numa inconsciência coletiva que, em última análise, acabará sendo manipulada discretamente por algum indivíduo esperto; enfim: entre a tirania declarada e a tirania dissimulada.

Enquanto o princípio do “intelectual coletivo” vigorou apenas dentro do Partido Comunista, o seu culto da inconsciência não afetou senão as pessoas diretamente engajadas nos movimentos de esquerda, impedindo-as de enxergar os fatos mais óbvios e gritantes, como os Processos de Moscou, o fracasso econômico da URSS, o Gulag, etc.


Com a queda da hierarquia comunista, porém, o espírito do “intelectual coletivo” vazou do corpo moribundo do comunismo para a intelectualidade em geral. Hoje em dia, particularmente no Brasil, a vida intelectual como um todo imita, pela uniformidade dos temas e dos valores, a discussão interna no velho Partido Comunista, o processamento coletivo das idéias por uma massa de militantes para obter pela soma dos votos a definição infalível da “linha justa”. Com isto, as inteligências individuais perdem toda capacidade de operar sozinhas, nada mais inteligem por si mesmas e, confirmando o que um zunzum generalizado alardeia sobre a inanidade da consciência autônoma, só se mostram capazes de atuar numa atmosfera de concordância unanimista, de “participação” no sentimento coletivo. Como todos estão imersos nesse coletivo, ninguém o enxerga desde fora, como os peixes não enxergam a água. A vida intelectual reduz-se assim à mútua interconfirmação de crenças, preconceitos, sentimentos e hábitos dos membros do grupo letrado. Tribaliza-se.


Erraria por excesso de otimismo quem visse essa involução como um fenômeno passageiro que arranha apenas a superfície da História. Ela tem uma dimensão antropológica, ele afeta o destino da espécie humana no cosmos: basta uma geração de “intelectuais coletivos” dominar o mundo para que se perca a individualização da consciência, prêmio de um esforço evolutivo milenar.


A idéia do “intelectual coletivo” tem uma origem das mais comprometedoras. Nasceu nos clubes, assembléias e salões literários onde se gerou a Revolução Francesa — na “República das Letras”. Foi ali que pela primeira vez a intelectualidade moderna sentiu a força da sua união e se sagrou rainha sob o título de “opinião pública”. De fato este termo não designava a opinião das massas, mas o sentimento comum das elites letradas. O característico desses clubes, que os diferenciava, por um lado, das sociedades científicas como hoje as conhecemos e, por outro, dos centros de debates da universidade medieval, era a completa ausência de critérios racionais para a validação dos argumentos: era o império da “opinião” — no sentido grego da dóxa ou pura crença. Questões teóricas de gnoseologia, de metafísica, de economia e mesmo de ciências naturais eram ali decididas no grito, segundo as preferências da maioria. A doutrina verdadeira não era a que coincidisse com a realidade, mas a que melhor expressasse as aspirações do coletivo, na linguagem mais lisonjeira às paixões do momento. Passado o vendaval da Revolução, as instituições científicas e universitárias da burguesia vencedora trataram, obviamente, de não se organizar segundo o exemplo das sociedades revolucionárias, mas segundo os moldes consagrados da universidade medieval e dos círculos científicos do Renascimento. A “República das Letras”, todos sabiam, servira para agitar as massas, mas não poderia servir para produzir conhecimento. Não é de estranhar, portanto, que o modelo da sociedade de debates revolucionários tenha sido encampado, em seguida, pelos excluídos da nova ordem: pela intelectualidade socialista.


Mas não ficaria confinado aí para sempre. Se, ao longo do século XX, uma atmosfera de clube jacobino vai sorrateiramente se apossando da totalidade da vida cultural, isto se deve, em grande parte, à proletarização das universidades, que, de núcleos geradores de uma elite científica e governante, se transformaram em centros de formação profissional para as massas (transferindo, é claro, o encargo de formar a elite para instituições mais discretas, quando não secretas).


A democratização do ensino abriu a milhões de pessoas o acesso às profissões intelectuais e científicas. O que era uma elite, um punhado de gênios que trocavam idéias através da correspondência privada e de meia dúzia de publicações acadêmicas, tornou-se uma multidão inumerável. O inchaço quantitativo, acompanhado da redução das exigências, resultou numa formidável queda de nível: o proletariado intelectual, espalhado em milhares de instituições e ocupado de suas tarefas profissionais cotidianas, já não tenta sequer manter-se a par da marcha das idéias no mundo; e cada profissional já se conformou em não poder acompanhar a sucessão das descobertas nem mesmo na sua própria especialidade; cada qual segue por um túnel, sem saber aonde vão dar os outros. Para compensar o desequilíbrio causado pela especialização, enxerta-se então no especialista uma prótese denominada “cultura geral”, e logo as universidades têm de despejar no mercado uma leva de “especialistas em cultura geral”. Constituída sobretudo daqueles que não conseguiram especializar-se em mais nada, a nova profissão ocupa-se, ora de adornar com uma cereja de cultura o bolo dos conhecimentos profissionais, a título de lazer e perfeitamente desligada de toda referência à vida prática, ora de esboçar uma síntese entre cultura e prática sob a forma de doutrinação ideológica.


Com isso, a natureza mesma das profissões universitárias acabou sendo pervertida: o profissional universitário já não tem de ser um intelectual capaz de formar uma opinião pessoal razoável; é um trabalhador, um empregado, que segue o figurino da coletividade, como outrora os funcionários de classe média e os operários braçais. Assim, à medida que a informação científica se avoluma, decrescem, de outro lado, a capacidade, a necessidade e a simples vontade de absorvê-la.


Com o advento, então, do capitalismo terciário, onde a indústria predominante é a de “bens culturais”, o proletariado intelectual ampliou-se até abranger a maior parte da população dos países ricos e a quase inteira classe média dos países pobres. Em decorrência, a produção cultural superior teve de atender a uma demanda prodigiosa de emoções baratas, agora enobrecidas de um prestígio “intelectual”. A bisbilhotice das velhas revistas de show business, por exemplo, invadiu a pesquisa histórica, tomando ares de atividade acadêmica respeitável. Movida pela necessidade de lisonjear as paixões mais vulgares, a cultura superior acaba se modelando pelos critérios do puro marketing, com o que o imbecil coletivo confirma, circularmente, que não há verdade acima do gosto da maioria. Nessa atmosfera, a discussão racional torna-se impossível: o consenso forma-se por ondas de sentimentos que confusamente se agitam no ar e produzem breves calafrios na epiderme. As crenças moldam-se e dissolvem-se numa atmosfera impressionista, como manchas móveis de tinta num papel molhado. É o tempo da retórica, da persuasão psicológica, da vaga chantagem camuflada que toma o lugar da argumentação. E enfim o estado de fato reclama sua elevação ao status de norma e lei: surgem os Böhm, os Feyerabend, os Kuhn, os Rorty, que advogam a legitimidade do argumento retórico, do apelo emotivo e até mesmo da influência subliminar como meios de prova científica. A noção de “veracidade” — que a primeira geração de proletários intelectuais já reduzira a um formalismo convencional, esvaziando-a de sua substância ontológica — esfuma-se por completo e enfim é negada ostensivamente. As idéias conquistam adeptos por contágio afetivo; e, uma vez dominantes, já não precisam sequer ostentar a pretensão de veracidade. Possuem argumento melhor: a força do número, que espalha nas almas dos recalcitrantes o temor do isolamento, vagamente identificado com a miséria e a loucura. Por baixo da adesão festiva às novas modas intelectuais, range soturnamente a máquina persuasiva do terror psicológico.


Eis, em resumo, as tendências dominantes no debate científico e filosófico no mundo de hoje. Em países mais velhos, que conservam valores herdados da Idade Média e do Renascimento, essas tendências podem ser compensadas, às vezes, por alguma reação crítica e ordenadora. Mas os países novos, que entraram para a História depois da Revolução Francesa e pouco absorveram do legado dos séculos anteriores, não têm a mais mínima defesa contra o espírito do “intelectual coletivo”, que neles tende a ser identificado, num dogmatismo inconsciente, como a única encarnação possível da idéia de cultura superior. Tornar-se um “intelectual”, aí, não é adquirir certos conhecimentos e demonstrar capacidade em certos gêneros de investigação ou criação, mas ser aceito em determinados meios, falar num determinado tom, adquirir determinados trejeitos em que se reconheça a identidade da casta. Daí que um grande filósofo que viva isolado acabe sendo excluído da história cultural do país, como ocorreu com Mário Ferreira dos Santos, ao passo que o homem de mundo, popular em certos grupos, se tornará um intelectual célebre mesmo que não deixe obra que valha a pena ler e mesmo que nada descubra que valha a pena saber.


O Brasil é a terra prometida do “intelectual coletivo”.



Fonte: Olavo de Carvalho,
O Imbecil Coletivo, Faculdade da Cidade Editora, 1996

COLETIVISMO CONTRA PRINCÍPIOS

Fonte: ViVerdeNovo
SEXTA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 2010


Por Arlindo Montenegro


Os indefensáveis ministros da defesa e dos direitos humanos utilizam amplamente os meios para atingir seus fins. Enquanto isso o presidente dos Estados Unidos, o escolhido Nobel da Paz, contribui para a “paz mundial”, jogando pesado no tabuleiro da guerra, vendendo armas para outros países e promovendo a morte de jovens americanos e o luto de suas famílias.

O povo americano acredita que tudo é feito em defesa de princípios e valores de sua tradição libertária. Para defender as liberdades que permitiram a construção da nação mais rica do planeta. Os estudiosos não coletivistas afirmam que os “meios” utilizados pelo governo Obama, têm como objetivo fortalecer a nova ordem mundial e que, para impor este “fim” das agendas secretas, o planeta vai conhecer em pouco tempo outra “crise financeira”.

Os nossos ministros indefensáveis, que andam na mesma estrada, como acessórios das políticas coletivistas do estado, vão ser chamados ao Congresso, para “explicar” os detalhes do “Programa Nacional dos Direitos Humanos”, um programa de agenda secreta, cujo fim é legitimar e aprofundar o poder do estado totalitário travestido de democracia.

Os congressistas que têm demonstrado o desprezo por qualquer princípio, certamente vão negociar o enterro dos princípios e valores inscritos na Constituição e tidos como direitos consuetudinários, culturalmente aceitos e integrados à consciência nacional.

Há quase meio século, Mario Ferreira dos Santos, (in Filosofia e História da Cultura, Editora Logos Ltda., 1962) enunciava: “Cada um de nós perdeu muito em dignidade. Que valemos ante o acúmulo imenso de coisas, (...) ante as ciclópicas cidades que nos reduzem a vermes que somente se arrastam?” O mestre Mario Ferreira, um ilustre desconhecido ou desprezado pelos acadêmicos sabe-tudo de hoje também disse que: “Não pode haver meios nem fins, sem o princípio”.

É o desprezo a todos os princípios que fundamenta decisões de governo que afetam a educação, a segurança e a saúde. É este desprezo que reduz a nossa dignidade na observação de Mario Ferreira dos Santos. É este desprezo que gera as Conferências sobre o Clima, a criação de novas reservas em Roraima.

É este desprezo que prestigia o MST, as Farc, ONGs que nem a WWF, Conselho Indigenista Missionário e abre espaço para o banditismo e negação das leis, com apoio de um Judiciário “companheiro”, comprometido com a corrupção tanto quanto os “nossos representantes”.

Eles desprezam os valores familiares. Eles estão moucos aos princípios de liberdade, propriedade, opinião e já ensaiam até reduzir a locomoção. Nestes guetos e catacumbas blogueiras, subsistem os últimos grupos resistentes. Até quando?

A radicalização dos coletivistas que querem a qualquer custo atingir seus fins, penaliza as liberdades. Os oligarcas e empresários apoiadores nunca entenderam como funciona um estado democrático de direito, nem mesmo lembram a história de ontem. Os fins totalitários que defendem com unhas e dentes são agressivamente contrários às idéias e ideais individualistas, que destacam o homem do coletivo amorfo. O que eles não entendem, nem querem ver é que o "indivíduo" bananeira não dá laranja, nem o coqueiro dá cajú.

É por desprezar os princípios e valores democráticos, a garantia dos direitos individuais e a crença em Deus que perseguem o controle estatal da livre expressão. Os pensamentos e a iniciativa individual, com todas as variedades e imperfeições que possam carregar, têm sido o suporte da ciência que reduz o sufoco da condição humana. Os pensamentos e a iniciativa individual garantem a liberdade contra o estado totalitário, garantem o respeito entre as pessoas. Mas eles perseguem o plantio de uma floresta mental de espécie única.

O que estamos vivendo tem um exemplo explicito, arreganhado e pouco divulgado pela nossa mídia que despreza a exposição do significado dos fatos. Para amordaçar os dissidentes, a violência do “companheiro” Chávez fere, mata e prende estudantes que se manifestam nas ruas. Para amordaçar os dissidentes dos EUA, o CFR declara que controla as informações, controlando assim a opinião pública.

Aqui a pauta da mídia informa de modo a consolidar o cerco dos coletivistas. E os poucos que se atrevem a comentar o significado das decisões do estado, são processados, perseguidos, caluniados, isolados. É a poderosa Nova Ordem Mundial apresentando sua face grotesca.

A matéria deificada, esmagando o espírito. Por isso, os princípios que nascem do espírito são sufocados pelos violentos meios, que justificam os fins totalitários, há séculos elaborados e executados em sucessivas tentativas de violência genocida e terrorismo financiado por lobos em pele de cordeiros. O pior cego é aquele que se recusa a ver.

Socialismo (por Ludwig von Mises)

Fonte: MOVIMENTO ENDIREITAR


Escrito por Ludwig von Mises
Sábado, 30 de Janeiro de 2010 12:00

O texto a seguir é o primeiro capítulo do livro "As seis lições" de Ludwig Von Mises. O livro foi publicado originalmente pelo Instituto Liberal e a versão eletrônica completa está disponível para download em nossa Biblioteca Online ou clicando aqui!.


Socialismo


Estou em Buenos Aires a convite do Centro de Difusión de la Economia Libre. Que vem a sereconomia livre? Que significa esse sistema de liberdade econômica? A resposta é simples: é a economia de mercado, é o sistema em que a cooperação dos indivíduos na divisão social do trabalho se realiza pelo mercado. E esse mercado não é um lugar: é um processo, é a forma pela qual, ao vender e comprar, ao produzir e consumir, as pessoas estão contribuindo para o funcionamento global da sociedade.


Quando falamos desse sistema de organização econômica - a economia de mercado - empregamos a expressão "liberdade econômica". Freqüentemente as pessoas se equivocam quanto ao seu significado, supondo que liberdade econômica seja algo inteiramente dissociado de outras liberdades, e que estas outras liberdades - que reputam mais importantes .- possam ser preservadas mesmo na ausência de liberdade econômica. Mas liberdade econômica significa, na verdade, que é dado às pessoas que a possuem o poder de escolher o próprio modo de se integrar ao conjunto da sociedade. A pessoa tem o direito de escolher sua carreira, tem liberdade para fazer o que quer.


É óbvio que não compreendemos liberdade no sentido que hoje tantos atribuem à palavra. O que queremos dizer é antes que, através da liberdade econômica, o homem é libertado das condições naturais. Nada há, na natureza, que possa ser chamado de liberdade; há apenas a regularidade das leis naturais, a que o homem é obrigado a obedecer para alcançar qualquer coisa.


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Quando se trata de seres humanos, atribuímos à palavra liberdade o significado exclusivo de liberdade na sociedade. Não obstante, muitos consideram que as liberdades sociais são independentes umas das outras. Os que hoje se intitulam "liberais" têm reivindicado programas que são exatamente o oposto das políticas que os liberais do século XIX defendiam em seus programas liberais. Os pretensos liberais de nossos dias sustentam a idéia muito difundida de que as liberdades de expressão, de pensamento, de imprensa, de culto, de encarceramento sem julgamento podem, todas elas, ser preservadas mesmo na ausência do que se conhece como liberdade econômica. Não se dão conta de que, num sistema desprovido de mercado, em que o governo determina tudo, todas essas outras liberdades são ilusórias, ainda que postas em forma de lei e inscritas na constituição.


Tomemos como exemplo a liberdade de imprensa. Se for dono de todas as máquinas impressoras, o governo determinará o que deve e o que não deve ser impresso. Nesse caso, a possibilidade de se publicar qualquer tipo de critica às idéias oficiais torna-se praticamente nula. A liberdade de imprensa desaparece. E o mesmo se aplica a todas as demais liberdades.


Quando há economia de mercado, o indivíduo tem a liberdade de escolher qualquer carreira que deseje seguir, de escolher seu próprio modo de inserção na sociedade. num sistema socialista é diferente: as carreiras são decididas por decreto do governo. Este pode ordenar às pessoas que não lhe sejam gratas, àquelas cuja presença não lhe pareça conveniente em determinadas regiões, que se mudem para outras regiões e outros lugares. E sempre há como justificar e explicar semelhante procedimento: declara-se que o plano governamental exige a presença desse eminente cidadão a cinco mil milhas de distância do local onde ele estava sendo ou poderia ser incômodo aos detentores do poder.


É verdade que a liberdade possível numa economia de mercado não é uma liberdade perfeita no sentido metafísico. Mas a liberdade perfeita não existe. É só no âmbito da sociedade que a liberdade tem algum significado. Os pensadores que desenvolveram, no século XVIII, a idéia da "lei natural" - sobretudo Jean-Jacques Rousseau - acreditavam que um dia, num passado remoto, os homens haviam desfrutado de algo chamado liberdade "natural". Mas nesses tempos remotos os homens não eram livres - estavam à mercê de todos os que fossem mais fortes que eles mesmos. As famosas palavras de Rousseau: "O homem nasceu livre e se encontra acorrentado em toda parte", talvez soem bem, mas na verdade o homem não nasceu livre. Nasceu como uma frágil criança de peito. Sem a proteção dos pais, sem a proteção proporcionada a esses pais pela sociedade, não teria podido sobreviver.


Liberdade na sociedade significa que um homem depende tanto dos demais como estes dependem dele. A sociedade, quando regida pela economia de mercado, pelas condições daeconomia livre, apresenta uma situação em que todos prestam serviços aos seus concidadãos e são, em contrapartida, por eles servidos. Acredita-se, que existem na economia de mercado chefões que não dependem da boa vontade e do apoio dos demais cidadãos. Os capitães de indústria, os homens de negócios, os empresários seriam os verdadeiros chefões do sistema econômico. Mas isso é uma Ilusão. Quem manda no sistema econômico são os consumidores. Se estes deixam de prestigiar um ramo de atividades, os empresários deste ramo são compelidos ou a abandonar sua eminente posição no sistema econômico, ou a ajustar suas ações aos desejos e às ordens dos consumidores.


Uma das mais notórias divulgadoras do comunismo foi Beatrice Potter, nome de solteira de LadyPassfield (também muito conhecida pelo nome do marido, Sidney Webb). Essa senhora, filha de um rico empresário, trabalhou quando jovem como secretária do pai. Em suas memórias, ela escreve: 'Nos negócios de meu pai, todos tinham de obedecer às ordens dadas por ele, o chefe. Só a ele competia dar ordens, e a ele ninguém dava ordem alguma." Esta é uma visão muito acanhada. Seu pai recebia ordens: dos consumidores, dos compradores. Lamentavelmente, ela não foi capaz de perceber essas ordens; não foi capaz de perceber o que ocorre numa economia de mercado, exclusivamente voltada que estava para as ordens expedidas dentro dos escritórios ou da fábrica do pai.


Diante de todos os problemas econômicos, devemos ter em mente as palavras que o grande economista francês Frédéric Bastiat usou como titulo de um de seus brilhantes ensaios: "Ce qu'on volt et ce qu'on ne voít pas" ("O que se vê e o que não se vê"). Para compreender como funciona um sistema econômico, temos de levar em conta não só o que pode ser visto, mas também o que não pode ser diretamente percebido. Por exemplo, uma ordem dada por um chefe a um contínuo pode ser ouvida por aqueles que estejam na mesma sala. O que não se pode ouvir são as ordens dadas ao chefe por seus clientes.


O fato é que, no sistema capitalista, os chefes, em última instância, são os consumidores. Não é o Estado, é o povo que é soberano. Prova disto é o fato de que lhe assiste o direito de ser tolo. Este é o privilégio do soberano. Assiste-lhe o direito de cometer erros: ninguém o pode impedir de cometê-los, embora, obviamente, deva pagar por eles. Quando afirmamos que o consumidor é supremo ou soberano, não estamos afirmando que está livre de erros, que sempre sabe o que melhor lhe conviria. Muitas vezes os consumidores compram ou consomem artigos que não deviam comprar ou consumir.


Mas a idéia de que uma forma capitalista de governo pode impedir, através de um controle sobre o que as pessoas consomem, que elas se prejudiquem, é falsa. A visão do governo como uma autoridade paternal, um guardião de todos, é própria dos adeptos do socialismo. Nos Estados Unidos, o governo empreendeu certa feita, há alguns anos, uma experiência que foi qualificada de "nobre". Essa "nobre experiência" consistiu numa lei que declarava ilegal o consumo de bebidas tóxicas. Não há dúvida de que muita gente se prejudica ao beber conhaque e uísque em excesso. Algumas autoridades nos Estados Unidos são contrárias até mesmo ao fumo. Certamente há muitas pessoas que fumam demais, não obstante o fato de que não fumar seria melhor para elas. Isso suscita um problema que transcende em muito a discussão econômica: põe a nu o verdadeiro significado da liberdade.


Se admitirmos que é bom impedir que as pessoas se prejudiquem bebendo ou fumando em excesso, haverá quem pergunte: "Será que o corpo é tudo? não seria a mente do homem muito mais importante? Não seria a mente do homem o verdadeiro dom, o verdadeiro predicado humano?" Se dermos ao governo o direito de determinar o que o corpo humano deve consumir, de determinar se alguém deve ou não fumar, deve ou não beber, nada poderemos replicar a quem afirme: "Mais importante ainda que o corpo é a mente, é a alma, e o homem se prejudica muito mais ao ler maus livros, ouvir música ruim e assistir a maus filmes. É pois dever do governo impedir que se cometam esses erros."


E, como todos sabem, por centenas de anos os governos e as autoridades acreditaram que esse era de fato o seu dever. Nem isso aconteceu apenas em épocas remotas. Não faz muito tempo, houve na Alemanha um governo que considerava seu dever discriminar as boas e as más pinturas - boas e más, é claro, do ponto de vista de um homem que, na juventude, fora reprovado no exame de admissão à Academia de Arte, em Viena: era o bom e o mau segundo a ótica de um pintor de cartão-postal. E tornou-se ilegal expressar concepções sobre arte e pintura que divergissem daquelas do Führer supremo.


A partir do momento em que começamos a admitir que é dever do governo controlar o consumo de álcool do cidadão, que podemos responder a quem afirme ser o controle dos livros e das idéias muito mais importante?


Liberdade significa realmente liberdade para errar. Isso precisa ser bem compreendido. Podemos ser extremamente críticos com relação ao modo como nossos concidadãos gastam seu dinheiro e vivem sua vida. Podemos considerar o que fazem absolutamente insensato e mau. Numa sociedade livre, todos têm, no entanto, as mais diversas maneiras de manifestar suas opiniões sobre como seus concidadãos deveriam mudar seu modo de vida: eles podem escrever livros; escrever artigos; fazer conferências. Podem até fazer pregações nas esquinas, se quiserem - e faz-se isso, em muitos países. Mas ninguém deve tentar policiar os outros no intuito de impedi-los de fazer determinadas coisas simplesmente porque não se quer que as pessoas tenham a liberdade de fazê-las.


É essa a diferença entre escravidão e liberdade. O escravo é obrigado a fazer o que seu superior lhe ordena que faça, enquanto o cidadão livre - e é isso que significa liberdade - tem a possibilidade de escolher seu próprio modo de vida. Sem dúvida esse sistema capitalista pode ser - e é de fato - mal usado por alguns. É certamente possível fazer coisas que não deveriam ser feitas. Mas se tais coisas contam com a aprovação da maioria do povo, uma voz discordante terá sempre algum meio de tentar mudar as idéias de seus concidadãos. Pode tentar persuadi-los, convencê-los, mas não pode tentar constrangê-los pela força, pela força policial do governo.


Na economia de mercado, todos prestam serviços aos seus concidadãos ao prestarem serviços a si mesmos. Era isso o que tinham em mente os pensadores liberais do século XVIII, quando falavam da harmonia dos interesses - corretamente compreendidos - de todos os grupos e indivíduos que constituem a população. E foi a essa doutrina da harmonia de interesses que os socialistas se opuseram. Falaram de um "conflito inconciliável de interesses" entre vários grupos.


Que significa isso? Quando Karl Marx - no primeiro capitulo do Manifesto Comunista, esse pequeno panfleto que inaugurou seu movimento socialista - sustentou a existência de um conflito inconciliável entre as classes, só pôde evocar, como ilustração à sua tese, exemplos tomados das condições da sociedade pré-capitalista. Nos estágios pré-capitalistas, a sociedade se dividia em grupos hereditários de status, na Índia denominados "castas". Numa sociedade de status, um homem não nascia, por exemplo, cidadão francês; nascia na condição de membro da aristocracia francesa, ou da burguesia francesa, ou do campesinato francês. Durante a maior parte da Idade Média, era simplesmente um servo. E a servidão, na França, ainda não havia sido inteiramente extinta mesmo depois da Revolução Americana. Em outras regiões da Europa, a sua extinção ocorreu ainda mais tarde.


Mas a pior forma de servidão - forma que continuou existindo mesmo depois da abolição da escravatura - era a que tinha lugar nas colônias inglesas. O indivíduo herdava seu status dos pais e o conservava por toda a vida. Transferia-o aos filhos. Cada grupo tinha privilégios e desvantagens. Os de status mais elevado tinham apenas privilégios, os de status inferior, só desvantagens. E não restava ao homem nenhum outro meio de escapar às desvantagens legais impostas por seu status senão a luta política contra as outras classes. Nessas condições, pode-se dizer que havia "um conflito inconciliável de interesses entre senhores de escravos e escravos", porque o interesse dos escravos era livrar-se da escravidão, da qualidade de escravos. E sua liberdade significava, para os seus proprietários, uma perda. Assim sendo, não há dúvida de que tinha de haver forçosamente um conflito inconciliável de interesses entre os membros das várias classes.


Não devemos esquecer que nesses períodos - em que as sociedades de status predominaram na Europa, bem como nas colônias que os europeus fundaram posteriormente na América - as pessoas não se consideravam ligadas de nenhuma forma especial às demais classes de sua própria nação; sentiam-se muito mais solidárias com os membros de suas classes nos outros países. Um aristocrata francês não tinha os franceses das classes inferiores na conta de seus concidadãos: a seus olhos, eles não eram mais que a ralé, que não lhes agradava. Seus iguais eram os aristocratas dos demais países - os da Itália, Inglaterra e Alemanha, por exemplo.


O efeito mais visível desse estado de coisas era o fato de os aristocratas de toda a Europa falarem a mesma língua, o francês, idioma não compreendido, fora da França, pelos demais grupos da população. As classes médias - a burguesia - tinham sua própria língua, enquanto as classes baixas - o campesinato - usavam dialetos locais, muitas vezes não compreendidos por outros grupos da população. O mesmo se passava com relação aos trajes. Quem viajasse de um país para outro em 1750 constataria que as classes mais elevadas, os aristocratas, se vestiam em geral de maneira idêntica em toda a Europa; e que as classes baixas usavam roupas diferentes. Vendo alguém na rua, era possível perceber de imediato - pelo modo como se vestia - a sua classe, o seu status.


É difícil avaliar o quanto essa situação era diversa da atual. Se venho dos Estados Unidos para a Argentina e vejo um homem na rua, não posso dizer qual é seu status. Concluo apenas que é um cidadão argentino, não pertencente a nenhum grupo sujeito a restrições legais. Isto é algo que o capitalismo nos trouxe. Sem dúvida há também diferenças entre as pessoas no capitalismo. Há diferenças em relação à riqueza; diferenças estas que os marxistas, equivocadamente, consideram equivalentes àquelas antigas que separavam os homens na sociedade de status.


Numa sociedade capitalista, as diferenças entre os cidadãos não são como as que se verificam numa sociedade de status. Na Idade Média - e mesmo bem depois, em muitos países - uma família podia ser aristocrata e possuidora de grande fortuna, podia ser uma família de duques, ao longo de séculos e séculos, fossem quais fossem suas qualidades, talentos, caráter ou moralidade. Já nas modernas condições capitalistas, verifica-se o que foi tecnicamente denominado pelos sociólogos de "mobilidade social". O principio segundo o qual a mobilidade social opera, nas palavras do sociólogo e economista italiano Vilfredo Pareto, é o da "circulation des élites" ("circulação das elites"). Isso significa que haverá sempre no topo da escada social pessoas ricas, politicamente importantes, mas essas pessoas - essas elites - estão em continua mudança.


Isto se aplica perfeitamente a uma sociedade capitalista. Não se aplicaria a uma sociedade pré-capitalista de status. As famílias consideradas as grandes famílias aristocráticas da Europa permanecem as mesmas até hoje, ou melhor, são formadas hoje pelos descendentes de famílias que constituíam o escol na Europa, há oito, dez ou mais séculos. Os Capetos de Bourbon - que por um longo período dominaram a Argentina - já eram uma casa real desde o século X. Reinavam sobre o território hoje chamado Ile-de-France, ampliando seu reino a cada geração. Mas numa sociedade capitalista há uma continua mobilidade - pobres que enriquecem e descendentes de gente rica que perdem a fortuna e se tornam pobres.


Vi hoje, numa livraria de uma rua do centro de Buenos Aires, a biografia de um homem que viveu na Europa do século XIX, e que foi tão eminente, tão Importante, tão representativo dos altos negócios europeus naquela época, que até hoje, aqui neste pais tão distante da Europa, encontram-se à venda exemplares da história de sua vida. Tive a oportunidade de conhecer o neto desse homem. Tem o mesmo nome do avô e conserva o direito de usar o título nobiliário que este - que começou a vida como ferreiro - recebeu oitenta anos atrás. Hoje esse seu neto é um fotógrafo pobre na cidade de Nova Iorque.


Outras pessoas, pobres à época em que o avô desse fotógrafo se tornou um dos maiores industriais da Europa, são hoje capitães de indústria. Todos são livres para mudar seu status, Ê isso que distingue o sistema de status do sistema capitalista de liberdade econômica, em que as pessoas só se podem culpar a si mesmas se não chegam a alcançar a posição que almejam.


O mais famoso industrial do século XX continua sendo Henry Ford. Ele começou com umas poucas centenas de dólares emprestados por amigos e, em muito pouco tempo, implantou um dos mais importantes empreendimentos de grande vulto do mundo. E podemos encontrar centenas de casos semelhantes todos os dias.


Diariamente o New York Times publica longas notas sobre pessoas que faleceram. Lendo essas biografias, podemos deparar, por exemplo, com o nome de um eminente empresário que tenha iniciado a vida como vendedor de jornais nas esquinas de Nova Iorque. Ou com outro que tenha iniciado como continuo e, por ocasião de sua morte, era o presidente da mesma instituição bancária onde começara no mais baixo degrau da hierarquia. Evidentemente, nem todos conseguem alcançar tais posições. Nem todos querem alcançá-las. Há pessoas mais interessadas em outras coisas: para elas, no entanto, há hoje certos caminhos que não estavam abertos nos tempos da sociedade feudal, na época da sociedade de status.


O sistema socialista, contudo, proíbe essa liberdade fundamental que é a escolha da própria carreira. Mas condições socialistas há uma única autoridade econômica, e esta detém o poder de determinar todas as questões atinentes à produção.


Um dos traços característicos de nossos dias é o uso de muitos nomes para designar uma mesma coisa. Um sinônimo de socialismo e comunismo é "planejamento". Quando falam de "planejamento", as pessoas se referem, evidentemente, a um planejamento central, o que significa um plano único, feito pelo governo - um plano que impede todo planejamento feito por outra pessoa.


Uma senhora inglesa - que é também membro da Câmara Alta - escreveu um livro intituladoPlan or no Plan, obra muito bem recebida no mundo inteiro. Que significa o título desse livro? Ao falar de "plano" a autora se refere unicamente ao tipo de planejamento concebido por Lenin, Stalin e seus sucessores, o tipo que determina todas as atividades de todo o povo de uma nação. Por conseguinte, essa senhora só leva em conta o planejamento central, que exclui todos os planos pessoais que os indivíduos possam ter. Assim sendo, seu titulo, Plan or no Plan, revela-se um logro, uma burla: a alternativa não está em plano central versus nenhum plano. Na verdade, a escolha está entre o planejamento total feito por uma autoridade governamental central e a liberdade de cada indivíduo para traçar os próprios planos, fazer o próprio planejamento. 0 indivíduo planeja sua vida todos os dias, alterando seus planos diários sempre que queira.


O homem livre planeja diariamente, segundo suas necessidades. Dizia, ontem, por exemplo: "Planejo trabalhar pelo resto dos meus dias em Córdoba." Agora, informado de que as condições em Buenos Aires estão melhores, muda seus planos e diz: "Em vez de trabalhar em Córdoba, quero ir para Buenos Aires." É isso que significa liberdade. Pode ser que ele esteja enganado, pode ser que essa ida para Buenos Aires se revele um erro. Talvez as condições lhe tivessem sido mais propicias em Córdoba, mas ele foi o autor dos próprios planos.


Submetido ao planejamento governamental, o homem é como um soldado num exército. Não cabe a um soldado o direito de escolher sua guarnição, a praça onde servirá. Cabe-lhe cumprir ordens. E o sistema socialista - como o sabiam e admitiam Karl Marx, Lenin e todos os líderes socialistas - consiste na transposição do regime militar a todo o sistema de produção. Marx falou de "exércitos industriais" e Lenin impôs "a organização de tudo - o correio, as manufaturas e os demais ramos industriais - segundo o modelo do exército".


Portanto, no sistema socialista, tudo depende da sabedoria, dos talentos e dos dons daqueles que constituem a autoridade suprema. O que o ditador supremo - ou seu comitê - não sabe, não é levado em conta. Mas o conhecimento acumulado pela humanidade em sua longa história não é algo que uma só pessoa possa deter. Acumulamos, ao longo dos séculos, um volume tão incomensurável de conhecimentos científicos e tecnológicos, que se torna humanamente impossível a um indivíduo o domínio de todo esse cabedal, por extremamente bem-dotado que ele seja.


Acresce que os homens são diferentes, desiguais. E sempre o serão. Alguns são mais dotados em determinado aspecto, menos em outro. E há os que têm o dom de descobrir novos caminhos, de mudar os rumos do conhecimento. Nas sociedades capitalistas, o progresso tecnológico e econômico é promovido por esses homens. Quando alguém tem uma idéia, procura encontrar algumas outras pessoas argutas o suficiente para perceberem o valor de seu achado. Alguns capitalistas que ousam perscrutar o futuro, que se dão conta das possíveis conseqüências dessa idéia, começarão a pô-la em prática. Outros, a principio, poderão dizer: "São uns loucos", mas deixarão de dizê-lo quando constatarem que o empreendimento que qualificavam de absurdo ou loucura está florescendo, e que toda gente está feliz por comprar seus produtos.


No sistema marxista, por outro lado, o corpo governamental supremo deve primeiro ser convencido do valor de uma idéia antes que ela possa ser levada adiante. Isso pode ser algo muito difícil, uma vez que o grupo detentor do comando - ou o ditador supremo em pessoa - tem o poder de decidir. E se essas pessoas - por razões de indolência, senilidade, falta de inteligência ou de instrução - forem incapazes de compreender o significado da nova idéia, o novo projeto não será executado.


Podemos evocar exemplos da história militar. Napoleão era indubitavelmente um gênio em questões militares; não obstante, viu-se certa feita diante de um grave problema. Sua incapacidade para resolvê-lo culminou na sua derrota e no subseqüente exílio na solidão de Santa Helena. O problema de Napoleão podia-se resumir a uma pergunta: "Como conquistar a Inglaterra?" Para fazê-lo, precisava de uma esquadra capaz de cruzar o canal da Mancha. Houve, então, pessoas que lhe garantiram conhecer um meio seguro de levar a cabo aquela travessia; estas pessoas, numa época de embarcações a vela, traziam a nova idéia de barcos movidos a vapor. Mas Napoleão não compreendeu sua proposta.


Depois, houve o famoso Generalstab da Alemanha. Antes da Primeira Guerra Mundial, o estado-maior alemão era universalmente considerado insuperável em ciência militar. Reputação análoga tinha o estado-maior do general Foch, na França. Mas nem os alemães nem os franceses - que, sob o comando do general Foch, derrotaram posteriormente os alemães - perceberam a importância da aviação para fins militares. O estado-maior alemão declarava: "A aviação é um mero divertimento; voar é bom para os desocupados. Do ponto de vista militar, só zepelins têm importância." E os franceses eram da mesma opinião.


Mais tarde, no intervalo entre as duas Guerras Mundiais, nos Estados Unidos, um general se convenceu de que a aviação seria de extrema importância na guerra que se aproximava. Mas todos os peritos do pais pensavam o contrário. Ele não conseguiu convencê-los. Sempre que tentamos convencer um grupo de pessoas que não depende diretamente da solução de um problema, o fracasso é certo. Isso se aplica também aos problemas não econômicos.


Muitos pintores, poetas, escritores e compositores já se queixaram de que o público não reconhecia sua obra, o que os obrigava a permanecerem na pobreza. Não há dúvida de que o público pode ter Julgado mal; mas, quando promulgam que "o governo deve subsidiar os grandes artistas, pintores e escritores", esses artistas estão completamente errados. A quem deveria o governo confiar a tarefa de decidir se determinado estreante é ou não, de fato, um grande pintor? Teria de se valer da apreciação dos críticos e dos professores de história da arte, que, sempre voltados para o passado, até hoje deram raras mostras de talento no que tange à descoberta de novos gênios. Essa é a grande diferença entre um sistema de "planejamento" e um sistema em que é dado a cada um planejar e agir por conta própria.


É verdade, obviamente, que grandes pintores e grandes escritores suportaram, muitas vezes, situações de extrema penúria. Podem ter tido êxito em sua arte, mas nem sempre em ganhar dinheiro. Van Gogh foi por certo um grande pintor. Teve de sofrer agruras insuportáveis e acabou por se suicidar, aos 37 anos de idade. Em toda a sua existência, vendeu apenas uma tela, comprada por um primo. Afora essa única venda, viveu do dinheiro do irmão, que, apesar de não ser artista nem pintor, compreendia as necessidades de um pintor. Hoje, não se compra um Van Gogh por menos de cem ou duzentos mil dólares.


No sistema socialista, o destino de Van Gogh poderia ter sido diverso. Algum funcionário do governo teria perguntado a alguns pintores famosos (a quem Van Gogh seguramente nem sequer teria considerado artistas) se aquele jovem, um tanto louco, ou completamente louco, era de fato um pintor que valesse a pena subsidiar. E com toda certeza eles teriam respondido: "Não, não é um pintor; não é um artista; não passa de uma criatura que desperdiça tinta", e o teriam enviado a trabalhar numa indústria de laticínios, ou para um hospício. Todo esse entusiasmo pelo socialismo manifestado pelas novas gerações de pintores, poetas, músicos, jornalistas, atores, baseia-se, portanto, numa ilusão. Refiro-me a isso porque esses grupos estão entre os mais fanáticos defensores da concepção socialista.


Quando se trata de escolher entre o socialismo e o capitalismo como sistema econômico, o problema é um tanto diferente. Os teóricos do socialismo jamais suspeitaram que a indústria moderna - juntamente com todos os processos do moderno mundo dos negócios - se basearia no cálculo. Os engenheiros não são, de maneira alguma, os únicos a planejarem com base em cálculos; também os empresários são obrigados a fazê-lo. E os cálculos do homem de negócios se baseiam todos no fato de que, na economia de mercado, os preços em dinheiro dos bens não só informam o consumidor, como fornecem ao negociante informações de importância vital sobre os fatores de produção, porquanto o mercado tem por função primordial determinar não só o custo da última parte do processo de produção, mas também o dos passos intermediários. O sistema de mercado é indissociável do fato de que há uma divisão mentalmente calculada do trabalho entre os vários empresários que disputam entre si os fatores de produção - as matérias-primas, as máquinas, os instrumentos - e o fator humano de produção, ou seja, os salários pagos à mãode- obra. Esse tipo de cálculo que o empresário realiza não pode ser feito se ele não tem os preços fornecidos pelo mercado.


No instante mesmo em que se abolir o mercado - e é o que os socialistas gostariam de fazer - ficariam inutilizados todos os cômputos e cálculos feitos pelos engenheiros e tecnólogos. Os tecnólogos podem continuar fornecendo grande número de projetos que, do ponto de vista das ciências naturais, podem ser todos igualmente exeqüíveis, mas são os cálculos baseados no mercado - realizados pelo homem de negócios - que são indispensáveis para se determinar qual desses projetos é o mais vantajoso do ponto de vista econômico.


O problema de que estou tratando é a questão fundamental do cálculo econômico capitalista em contraposição ao que se passa no socialismo. O fato é que o cálculo econômico - e por conseguinte todo planejamento tecnológico - só é possível quando existem preços em dinheiro, não só para bens de consumo, como para os fatores de produção. Isso significa que é preciso haver um mercado para todas as matérias-primas, todos os artigos semi-acabados, todos os instrumentos e máquinas, e todos os tipos de trabalho e de serviço humanos.


Quando se descobriu esse fato, os socialistas não souberam reagir adequadamente. Por 150 anos tinham afirmado: "Todos os males do mundo advêm da existência de mercados e de preços de mercado. Queremos abolir o mercado e, com ele, é claro, a economia de mercado, substituindo-a por um sistema sem preços e sem mercados." Queriam abolir o que Marx chamou de "caráter de mercadoria" das mercadorias e do trabalho. Confrontados com esse novo problema, os teóricos do socialismo, sem resposta, acabaram por concluir: "não aboliremos o mercado por completo; faremos de conta que existe um mercado, como as crianças, quando brincam de escolinha." A questão é que, todos sabem, as crianças quando brincam de escolinha não aprendem coisa alguma. Ê só uma brincadeira, uma simulação, e se pode "simular" muitas coisas.


Este é um problema muito difícil e complexo, e para analisá-lo em toda a sua amplitude seria necessário um pouco mais de tempo do que o que tenho aqui. Explanei-o em detalhes em meus escritos. Em seis palestras, não posso empreender uma análise de todos os seus aspectos. Assim sendo, quero sugerirlhes, caso estejam interessados no problema básico de impossibilidade do cálculo e do planejamento no socialismo, a leitura de meu livro Human Action, encontrável em espanhol em excelente tradução.


[NOTA: versão eletrônica completa do livro Ação Humana (Human Action) está disponível para download em nossa Biblioteca Online ou clicando aqui!. ]


Mas leiam também outros livros, como o do economista norueguês Trygue Hoff, que escreveu sobre o cálculo econômico. E, se não quiserem ser unilaterais, recomendo a leitura do livro socialista mais respeitado sobre o assunto, da autoria do eminente economista polonês Oscar Lange, que foi por algum tempo professor numa universidade americana, tornou-se depois embaixador da Polônia, voltando, posteriormente, para o seu país.


Provavelmente me perguntarão: "E a Rússia? Como enfrentam os russos esse problema?" Nesse caso, a questão muda de figura. Os russos gerem seu sistema socialista no âmbito de um mundo em que existem preços para todos os fatores de produção, para todas as matérias-primas, para tudo. Por conseguinte, podem utilizar, em seu planejamento, os preços do mercado mundial. E, visto que há certas diferenças entre as condições reinantes na Rússia e as reinantes nos Estados Unidos, freqüentemente o resultado é que, para os russos, parece justificável e aconselhável - de seu ponto de vista econômico - algo que, para os americanos, absolutamente não se justificaria economicamente.


A "experiência soviética" - ou "experimento", como foi chamada - não prova coisa alguma. Nada revela sobre o problema fundamental do socialismo, o problema do cálculo. Mas teríamos razões para caracterizá-la como "experiência"? Não creio que, no campo da ação humana e da economia, possamos ter algo que se assemelhe a um experimento cientifico. Não se pode fazer experimentos de laboratório no campo da ação humana, porque um experimento científico requer a réplica de um mesmo procedimento sob diversas condições, ou a manutenção das mesmas condições acompanhada da variação de talvez um único fator. Por exemplo, se injetarmos num animal canceroso um medicamento experimental, o resultado pode ser o desaparecimento do câncer. Poderemos testar isso com vários animais da mesma raça, portadores da mesma doença. Se tratarmos parte deles com o novo método e não tratarmos outros, poderemos comparar os resultados. Ora, nada disso é viável no campo da ação humana. Não há experimentos de laboratório nesse plano.


A chamada "experiência" soviética mostra tão somente que o padrão de vida na Rússia Soviética é incomparavelmente inferior ao padrão alcançado pelo país mundialmente reputado o paradigma do capitalismo: os Estados Unidos.


Se dissermos isto a um socialista, ele certamente contestará: "As coisas na Rússia estão correndo maravilhosamente bem." E nós responderemos: "Podem estar maravilhosas, mas o padrão de vida é, em média, muito baixo." Então ele retrucará: "Sim, mas lembre o quanto os russos sofreram com os czares, e a terrível guerra que tivemos de enfrentar."


Não quero discutir se esta é ou não uma explicação correta, mas quando se nega que as condições tenham sido as mesmas, nega-se ao mesmo tempo que tenha havido uma experiência. O que se deveria afirmar - e seria muito mais correto - é: "O socialismo na Rússia não ocasionou, em média, uma melhoria das condições do homem comparável à melhoria de condições verificada, no mesmo período, nos Estados Unidos."


Nos Estados Unidos, quase toda semana tem-se noticia de um novo invento, de um aperfeiçoamento. Muitos aperfeiçoamentos foram gerados no mundo empresarial, porque milhares e milhares de industriais estão empenhados, noite e dia, em descobrir algum novo produto que satisfaça o consumidor, ou seja de produção menos dispendiosa, ou seja melhor e menos oneroso que os produtos já existentes. Não é o altruísmo que os move; é seu desejo de ganhar dinheiro. E o efeito foi que o padrão de vida se elevou, nos Estados Unidos, a níveis quase miraculosos quando confrontados às condições reinantes há cinqüenta ou cem anos atrás. Mas na Rússia Soviética, onde esse sistema não vigora, não se verifica um desenvolvimento comparável. Assim, os que nos recomendam a adoção do sistema soviético estão inteiramente equivocados.


Há mais uma coisa a ser mencionada. O consumidor americano, o indivíduo, é tanto um comprador como um patrão. Ao sair de uma loja nos Estados Unidos, é comum vermos um cartaz com os seguintes dizeres: "Gratos pela preferência. Volte sempre." Mas ao entrarmos numa loja de um país totalitário - seja a Rússia de hoje, seja a Alemanha de Hitler -, o gerente nos dirá: "Agradeça ao grande líder, que lhe está proporcionando isso."


Nos países socialistas, ao invés de ser o vendedor, é o comprador que deve ficar agradecido. Não é o cidadão quem manda; quem manda é o Comitê Central, o Gabinete Central. Estes comitês, os líderes, os ditadores, são supremos; ao povo cabe simplesmente obedecer-lhes.

CO2, o sopro da vida

Fonte: MÍDIA A MAIS
por Redação Mídia@Mais em 28 de dezembro de 2009




Dr. Sherwood Idso, injetando seu próprio CO2 na biosfera experimental. 'CO2 não é poluente, é o gás da vida', afirma

N
ESTE vídeo, o Dr. Sherwood Idso, uma das maiores autoridades mundiais em Botânica Ambiental e Experimental, apresenta seu estudo sobre a resposta das plantas ao CO2, demonstrando como funciona a verdadeira ciência, com experiências no mundo real, e não em modelos computacionais falseados, nas quais o CO2 se mostra como o que de fato é, o gás da vida, e não um vilão ambiental. É imperdível.

Leia aqui a transcrição em língua portuguesa:


"Há anos, desenvolvi o que chamo de técnica da “Biosfera do homem pobre”, um experimento para determinar os efeitos de uma atmosfera enriquecida com CO2 sobre o desenvolvimento e crescimento de plantas.

Trabalhando com cinco pares de aquários, cada um com volume aproximado de 100 litros, cada par invertido um sobre o outro, com os de baixo preenchidos com ¾ de areia umedecida, utilizei sementes de uma única espécie de laranjas, e observei-as crescendo sob a luz de três lâmpadas fluorescentes para cada par de biosferas [os aquários adaptados].


Em seguida, às 8 da manhã de cada segunda, quarta e sexta-feira, usando cinco pequenas seringas, extraia amostras do ar das cinco biosferas e as levava ao laboratório para medir suas respectivas concentrações de CO2 . Então, a cada noite, durante longos dezenove meses, eu enchia meus pulmões de ar e o soprava de volta numa seringa maior e injetava seu conteúdo (uma seringa de ar dos meus pulmões de cada vez; ar exalado rico em CO2) em cada uma das cinco biosferas. Eu repetia esse procedimento várias vezes a cada noite, com uma das biosferas recebendo apenas duas injeções de CO2, enquanto as outras quatro recebiam um número de injeções progressivamente maior.


Deste modo, durante a experiência, as concentrações de CO2 variaram de 336 ppm [partes por milhão] até 1.257 ppm. Ao fim dos 19 meses, colhi as plantas de cada biosfera experimental, sequei-as num forno e as pesei separadamente. Os resultados foram verdadeiramente espantosos.


Comparada com a biosfera de mais baixa concentração de CO2 , a biosfera que continha 70% a mais de CO2 produziu 105% mais biomassa; enquanto a biosfera que continha uma concentração de CO2 160% maior, produziu uma biomassa 140% maior. E assim eu continuei, e a biosfera com uma concentração de CO2 225% maior produziu uma biomassa 205% maior. Finalmente, a biosfera com a concentração de CO2 275% maior, produziu uma biomassa 265% maior.


Claramente: o dióxido de carbono (CO2) não é um poluente. Baseado numa enorme quantidade de experimentos que conduzi ao longo dos últimos 25 anos, com dúzias de plantas diferentes, tanto terrestres como marinhas, em minha própria casa, usando o ar exalado dos meus pulmões, bem como em experiências de campo e em laboratórios com os melhores equipamentos disponíveis, em colaboração com os melhores cientistas que já estudaram o assunto, cheguei à conclusão insofismável de que o dióxido de carbono é, verdadeiramente, o sopro da vida, para praticamente todas as plantas na face da Terra, bem como para aquelas em lagos, rios e oceanos. O que implica ser o CO2 o sopro da vida para todos os animais, incluindo o homem, uma vez que, em primeira e última análise, somos totalmente dependentes dessas plantas para alimentar a todos esses animais.


E qualquer pessoa, grupo ou governo que afirme o contrário, afronta toda a lógica, numa completa negação da realidade."


Dr. Sherwood Idso


Página original: http://www.co2science.org/video/cop/cop15/science.php#breath


Transcrição e adaptação: Henrique Dmyterko

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A teoria marxista da “ideologia de classe” não tem pé nem cabeça. Ou a ideologia do sujeito traduz necessariamente os interesses da classe a que ele pertence, ou ele está livre para tornar-se advogado de alguma outra classe. Na primeira hipótese, jamais surgiria um comunista entre os burgueses e Karl Marx jamais teria sido Karl Marx. Na segunda, não há vínculo entre a ideologia e a condição social do indivíduo e não há portanto ideologia de classe: há apenas a ideologia pessoal que cada um atribui à classe com que simpatiza, construindo depois, por mera inversão dessa fantasia, a suposta ideologia da classe adversária. Uma teoria que pode ser demolida em sete linhas não vale cinco, mas com base nela já se matou tanta gente, já se destruiu tanto patrimônio da humanidade e sobretudo já se gastou tanto dinheiro em subsídios universitários, que é preciso continuar a fingir que se acredita nela, para não admitir o vexame. Olavo de Carvalho, íntegra aqui.
"Para conseguir sua maturidade o homem necessita de um certo equilíbrio entre estas três coisas: talento, educação e experiência." (De civ Dei 11,25)
Cuidado com seus pensamentos: eles se transformam em palavras. Cuidado com suas palavras: elas se transformam em ação. Cuidado com suas ações: elas se transformam em hábitos. Cuidado com seus atos: eles moldam seu caráter.
Cuidado com seu caráter: ele controla seu destino.
A perversão da retórica, que falseia a lógica e os fatos para vencer o adversário em luta desleal, denomina-se erística. Se a retórica apenas simplifica e embeleza os argumentos para torná-los atraentes, a erística vai além: embeleza com falsos atrativos a falta de argumentos.
‎"O que me leva ao conservadorismo é a pesquisa e a investigação da realidade. Como eu não gosto de futebol, não gosto de pagode, não gosto de axé music, não gosto de carnaval, não fumo maconha e considero o PT ilegal, posso dizer que não me considero brasileiro - ao contrário da maioria desses estúpidos que conheço, que afirma ter orgulho disso". (José Octavio Dettmann)
" Platão já observava que a degradação moral da sociedade não chega ao seu ponto mais abjeto quando as virtudes desapareceram do cenário público, mas quando a própria capacidade de concebê-las se extinguiu nas almas da geração mais nova. " Citação de Olavo de Carvalho em "Virtudes nacionais".